Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

domingo, 6 de agosto de 2017

A OCUPAÇÃO DA MARGEM NORTE DA BARRA

No ano de 1686, Francisco de Brito Peixoto fundou Laguna (Santa Catarina), posição voltada à defesa e apoio a Colônia do Santíssimo Sacramento do Rio da Prata. A viagem marítima da Colônia de Sacramento até o Rio de Janeiro durava cerca de quatro meses, surgindo entrepostos, como Laguna e posteriormente Rio Grande (1737), encurtar esta distância até o centro de suprimento, de tropas e de material bélico.
       No final de outubro de 1725 João de Magalhães, genro de Francisco de Brito Peixoto partiu com mais 30 homens da Vila da Laguna, com o objetivo de edificar uma povoação no canal do Rio Grande de São Pedro. Em um local situado ao norte do canal fundou a povoação que serviria de entreposto para controle do gado extraído do Pampa gaúcho-uruguaio e que ao mesmo tempo, demarcou a primeira ocupação luso-brasileira no Rio Grande do Sul.

A expedição
        Em correspondência datada de 1726, Francisco de Brito Peixoto relata ao tenente general Davi Marques Pereira, que já estava na margem norte, das motivações que o levaram a enviar a frota terrestre que chegou a região em novembro de 1725: “Mandei no serviço de S. Majestade que Deus guarde, para o Rio Grande de São Pedro 31 homens à minha custa e por capitão deles o meu genro João de Magalhães a quem ordenei que chegando à paragem do Rio Grande escolhesse algum lugar que fosse mais conveniente para formarem as suas casas em forma de povoação e logo façam canoas de pau, suficientes para serventia de passagens de gado, encomendando-lhe também aquele zelo e diligência de passarem gado para estas partes da nossa campanha para a multiplicação, pois é um grande serviço que se faz a El-Rei Nosso Senhor, enxotando-o para o meio da campanha para o dito gado tomar posse e hão de encurralar na povoação, e todas as vezes que tiverem necessidade ou carecerem de alguma coisa me mandará o dito capitão avisar por algum homem que tem em sua companhia. Também se me oferece dizer a Vossa Mercê que já desta bando do Rio Grande se acham 800 reses de gado vacum que mandei buscar das campanhas à minha custa, do tempo do governo do Sr. Francisco de Távora a esta parte, por entender que nisso fazia serviço a Sua Majestade que Deus guarde, para a multiplicação na  campanha desta parte, e por não haver nela gado algum e ter capacidade para nela estarem milhões de gado, e na diligência de conduzir mais estou sempre. Também digo a Vossa Mercê que tenho adquirido a boa amizade dos índios Minuanos à custa da minha fazenda por mimos que daqui lhes tenho remetido, e como já não podia com tanto gasto, pelo estado em que me acho, e ser conveniente ao real serviço a amizade destes gentios, por estarem às campanhas francas para delas se tirar quanto gado quiserem, recorri ao Sr. General mandasse alguns mimos por conta da Fazenda real os quais o dito Sr. mandou, e eu lhes remeti; e no que respeita ao que ordenei ao cabo que foi não tenho aviso; e no que respeita ao que diz Vossa Mercê se acham casais ou pessoas que eu possa nomear e queiram ir para o dito Rio Grande, respondo a Vossa Mercê que nesta povoação não há gente nenhuma que possa ir, porque aqui não há a necessária para esta vila, e se daqui se tirar algumas ficará outra vez deserta; mas o que posso assegurar a Vossa Mercê é que as campanhas do Rio Grande de São Pedro estão facilitadas. E como tudo o que digo a Vossa Mercê é verdade, nada mais tenho que informar. Deus guarde a Vossa Mercê por muitos anos (...)”. Carta de Francisco de Brito Peixoto ao tenente-general Davi Marques Pereira em 1726. In: MONTEIRO, Jônatas da Costa Rego. A Colônia do Sacramento. Vol. II, p. 177.

A primeira povoação
      Segundo o historiador Moacyr Domingues, o primeiro desbravador a estabelecer uma ocupação sistemática do canal do Rio Grande, João de Magalhães, era português do reino tendo casado com uma filha do Francisco de Brito Peixoto entrando para a História por ter conseguido estabelecer esta povoação na Barra norte do Rio Grande, ou seja, no atual município de São José do Norte. Nos escritos deixados por Cristóvão Pereira de Abreu, as notícias práticas, é feita referência ao padre Diogo Soares, um jesuíta português, que foi mandado ao Brasil para fazer levantamentos cartográficos. Conforme Domingues, “este padre passou pela Colônia do Sacramento em 1730 e o Cristóvão Pereira estava lá. Então, nesta ocasião, o Cristóvão Pereira deu a primeira notícia prática para o padre. Uma coisa muito bem escrita, descrevendo a Colônia do Sacramento, a parte do Uruguai etc. (...) Bom, o interessante é o seguinte: o Cristóvão Pereira escreveu isto aqui em 1738, e ele diz que em frente à cidade de Rio Grande há uma parte alta a que deram o nome de cidade. Agora eu pergunto aos senhores o seguinte: porque se daria o nome de cidade se ali não existisse nada? Como geralmente se supõe. Eu não tenho dúvida, até prova em contrário, que são remanescentes daquela expedição do João de Magalhães, que ali tiveram que construir curral para o gado, abrigo, porque eles ficaram lá muito tempo e naturalmente ali outras pessoas, que a História não registra, porque eram anônimas, mas que ali viveram e formaram uma meia dúzia de casas, ou seja lá o que for e que, em 1738, o Cristóvão Pereira diz que deram o nome de cidade. Para dar o nome de cidade me parece que não há outro motivo, salvo o de ter pessoas que viveram ali antes da fundação do Rio Grande em 1737. Isto eu acho que é uma novidade e eu lanço aqui, aos meus confrades, uma espécie de um desafio para que nós possamos esclarecer esta questão”.
       Domingues, prosseguindo em suas observações, concluiu: “Corroborando isto, que o Cristóvão Pereira escreveu, há uma carta, um mapa feito pelo Padre Diogo Soares, este um geógrafo, de quem eu falei há pouco, ele fez várias cartas, uma delas eu tenho, eu trouxe de Portugal a fotocópia dela. Pega do Guaíba para cima, vamos dizer do Guaíba para o norte. Mas existe uma outra do trecho anterior que pega do Rio Grande até, mais ou menos, o Tramandaí. Na obra do nosso saudoso confrade Abeillard Barreto, quando ele fala no Padre Diogo Soares, o Abeillard Barreto viu esta carta, esta que eu não tenho, esta da parte do Rio Grande. E o Abeillard Barreto cita a nomenclatura que aparece naquela carta. E la na carta do Padre Diogo Soares aparece um lugar assim: cidade, defronte ao Rio Grande. Exatamente isto que o Cristóvão Pereira escreveu. Então, realmente, quando o Padre Diogo Soares esteve lá em 1738 dava-se o nome de cidade, até talvez a título jocoso, uma brincadeira, chamar aquilo de cidade. Então isto vem confirma que, realmente, antes da fundação do Rio Grande, provavelmente existiu ali, defronte, em São José do Norte, um agrupamento de casas”. (Moacyr Domingues, O Rio Grande do Sul antes do Brigadeiro José da Silva Paes-Revista do IHGRS1988, n.133, p. 169-170).
     Portanto, antes da ocupação oficial do canal do Rio Grande nos quadros geopolíticos do Conselho Ultramarino Português (ocupação militar e povoamento), a partir de 1725, ocorreu à ocupação luso-brasileira na margem norte do canal nos quadros da economia fundada na circulação do gado e cujos atores foram os tropeiros que serão os agentes das estâncias e das delimitações de sesmarias que se definem a partir de 1732.



A BARRA DIABÓLICA

Quando da chegada de Silva Paes, em fevereiro de 1737, com o objetivo  de iniciar a ocupação militar e promover o povoamento da futura cidade do Rio Grande, navegar pela barra representava um momento crítico do filme épico da fundação luso-brasileira no sul do Brasil. No historiador Simão Pereira de Sá, contemporâneo de Silva Paes, o relato desta chegada apresenta contornos dramáticos que persistiram, em outros autores, por quase dois séculos: “Antecipados desta sorte os progressos do Rio Grande chegou o Brigadeiro José da Silva Paes com 420 homens entre oficiais e soldados tirados das tropas auxiliares do Rio de Janeiro, Minas, Bahia e Pernambuco (...) mas, receando o Brigadeiro o naufrágio das embarcações no perigo da Barra, entrou a segurar o ingresso com exame de piloto, cautelas de Capitão (...) Averiguada finalmente a perigosa e desconhecida Barra  que tem três diferentes entradas, uma ao sul e outras ao norte e sudeste”. .
 O próprio Silva Paes, em carta de 12 de abril de 1737, desabafou, após cruzar com sucesso pelo trajeto entre cômoros de areia, que havia tirado à barra do Rio Grande de São Pedro “a máscara que até aqui metia tanto medo”. Errôneo otimismo...


OS ESTRANGEIROS E A BARRA


Aos viajantes estrangeiros que conheceram a cidade e publicaram livros sobre o Rio Grande do Sul no século passado, a travessia da barra constituiu um momento de ansiedade antes do desembarque na cidade. Registros da passagem pela “barra diabólica” e suas dificuldades são um lugar comum nos escritos que edificam um imaginário de proeminência da natureza sobre a civilização.
O comerciante inglês John Luccock, em 1809, assim descreve a passagem: “Muito antes de avistarmos qualquer sinal que servisse para orientar nossa rota, vimo-nos em água rasa e cercados de bancos de areia. O capitão tendo-se postado no topo do mastro, avistou esses baixos e os canais dentre eles, com mais nitidez do que se estivesse sobre o tombadilho, dando-nos instruções sobre a maneira de governar. Afinal surgiu um bote que veio ao nosso encontro, com um piloto a bordo que, por meio de sinais apropriados, nos prestou idêntico serviço. Esses sinais não só indicam a rota que o navio deve seguir, como, às vezes, aconselham a que deite âncora onde está, ou mesmo a que retorne ao mar alto, quando não há água bastante na barra para que ele possa transpor”.
O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, em 1820, relata as dificuldades para a navegação e as providências estabelecidas para evitar naufrágios na barra do Rio Grande, conforme ele, várias precauções foram tomadas: “Um homem continuamente encarregado de sondar a barra por meio de sinais informa as embarcações se a quantidade de água, que varia sem cessar, lhe permite a entrada; estas também fazem sinais indicativos sobre o calado de suas embarcações; enfim, quando saem ou entram, o prático da barra, num pequeno barco denominado de catraia, vai mostrando, por meio de uma bandeira, que ele inclina de um lado ou de outro o caminho a seguir.” Saint-Hilaire constata que a barra “não fica sempre no mesmo lugar”, exigindo um acompanhamento constante desta dinâmica. Segundo o viajante francês “nada se iguala a tristeza desses lugares. De um lado, o bramir do oceano; e do outro, o rio (...) destroços de embarcações semi-enterradas na areia recordam pungentes desgraças e nossa almas se enche, pouco a pouco, de melancolia e terror”.
O médico alemão Robert Avé-Lallemant, esteve na cidade em fevereiro de 1858, e o fluxo de deposição de sedimentos persistia um problema aparentemente insolúvel. Segundo ele, “a barra do Rio Grande é, sem dúvida, uma das mais desagradáveis e mais perigosas que existem e poucos se encontrarão que, em proporção com os navios entrados, tenha havido tantos naufrágios como aqui. Fora, no mar, estendem-se os baixios e, em frente  da barra, um banco de areia; ao norte ou aos sul desta, se acham as passagens variáveis, aliás, de local e de profundidade; por vezes, ambas as passagens estão más, sendo necessárias exploração e observação de áreas para permitir a entrada do navio ou adverti-lo de que não pode entrar. Vêem-se infelizmente restos e destroços de navios naufragados que se elevam sobre os baixios”.
Os viajantes ressaltam as dificuldades que a barra oferecia para a navegação. Inclusive a profundidade tornava-se cada vez menor, inviabilizando a entrada de navios com maior calado. Enquanto no final do século 18 a profundidade chegava a 4,40 metros, ao longo do século 19 foi diminuindo até chegar em 2,75 metros em 1883.

A BARRA E OS MOLHES

         Vários engenheiros analisaram a situação da barra na segunda metade do século passado, esbarrando os projetos propostos em dificuldades técnicas e financeiras. Em 1875, o engenheiro inglês Sir Clarke Hawkshau, emitiu um relatório em que propõe a construção de dois quebra-mares. Apesar de pessimista em sua viabilidade técnica, a idéia de Hawkshau foi utilizada em 1883 pelo engenheiro Honório Bicalho que previu a construção do molhe leste e molhe oeste. O engenheiro holandês Pieter Caland fez algumas alterações no projeto de Bicalho. Em concorrência pública, a companhia francesa Societé Anonyme Franco-Brésilienne de Travaux Publics assumiu a realização da obra (1890), que por problemas financeiros não foi iniciada. A lenta decisão em retomar o projeto pelo governo republicano brasileiro atrasaram o andamento. O engenheiro Corthell fundou uma companhia mantida por capitalistas norte-americanos chamada Port of Rio Grande do Sul que também não dispos dos recursos para a obra. O mesmo engenheiro, em 1908, conseguiu o capital necessário para o início dos trabalhos com investidores franceses criando a Compagnie Française du Port de Rio Grande do Sul. Finalmente, com um projeto de construção de um porto marítimo, de manutenção de uma profundidade de 10 metros ao longo do canal e edificação de dois molhes (com cerca de 4 km de extensão e 800 metros de largura) para garantir a manutenção de um calado seguro para as embarcações, iniciavam às atividades preliminares para a grande obra que custou cerca de 18 mil contos de réis-ouro.
         Os problemas para construção da obra também estavam ligados a falta de matéria-prima em Rio Grande. Cerca de 3,4 milhões de toneladas de rochas foram utilizadas exigindo um grande esforço para exploração de duas pedreiras no interior de Pelotas, e o deslocamento via férrea (linhas férreas foram construídas especialmente para o escoamento) e via marítima/terrestre num espaço viável para que as obras não parassem. Um gigantesco  guindaste, o Titan entrou em funcionamento no molhe leste em julho de 1911. Em novembro do mesmo ano, outro Titan passou a funcionar no molhe oeste. A construção teve início em outubro de 1911 sendo inaugurada em 1º de março de 1915, quando o navio-escola Benjamin Constant, com um calado de 6,35 metros, cruzou a barra e atracou no Porto Novo.
O longo trajeto de reivindicações e desafios para a população local resultou numa das mais importantes obras de engenharia mundial do início do século, onde trabalharam mais de quatro mil homens. A partir de 1915, Rio Grande passou com maior intensidade a dinamizar-se com o comércio marítimo internacional. A barra diabólica cedia frente ao crescente otimismo burguês do início do século, ligado a crença do domínio da tecnologia sobre a natureza.


RUY BARBOSA E A CORRUPÇÃO



“O Brasil não é isso. O Brasil, senhores, sois vós. O Brasil é esta assembleia. O Brasil é este comício imenso de almas livres. Não são os comensais do erário. Não são as ratazanas do Tesouro. Não são os mercadores do Parlamento. Não são as sanguessugas da riqueza pública. Não são os falsificadores de eleições. Não são os compradores de jornais. Não são os corruptores do sistema republicano. Não são os oligarcas estaduais. Não são os ministros de tarraxa. Não são os presidentes de palha. Não são os publicistas de aluguel. Não são os estadistas de impostura. Não são os diplomatas de marca estrangeira. São as células ativas da vida nacional. É a multidão que não adula, não teme, não corre, não recua, não deserta, não se vende. Não é a massa inconsciente, que oscila da servidão à desordem, mas a coesão orgânica das unidades pensantes, o oceano das consciências, a mole das vagas humanas, onde a Providência acumula reservas inesgotáveis de calor, de força e de luz para a renovação de nossas energias. É o povo, num desses movimentos seus, em que se descobre toda a sua majestade”. Ruy Barbosa, discurso pronunciado no Teatro Lírico do Rio de Janeiro em 20 de março de 1919.

         Ruy Barbosa, um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX, deixou um legado de discursos críticos que buscavam analisar o meio político brasileiro de seu tempo. Uma de suas famosas afirmações foi a de que chegaria o dia em que, no Brasil, as pessoas teriam vergonha de serem honestas!
Um dos maiores desafios de uma sociedade é sobreviver eticamente estando atolado na corrupção numa longa duração temporal. Quando Ruy Barbosa refere-se aos ‘comensais do erário, as ratazanas do Tesouro e os corruptores da República’, está se referindo a corrupção que é a moeda corrente da política em seu tempo; quando enaltece a multidão que não adula e nem se vende, ele acredita na utopia de que a honestidade e a decência em sociedade ainda é possível. É claro que o preço a pagar ao falar com toda veracidade foi, de certa forma, o seu suicídio político.
         Desde o sistema colonial e durante o Império uma distorção começou a se exercer quando o país da pessoalidade passou a realizar um exercício de cinco séculos. Os vínculos pessoais imperam sobre os impessoais, o é ‘dando que se recebe’ (subordinação e apoio político/voto em troca de promessa ou ganho pessoal). A tradicional camada dirigente, fundada na aristocracia e nos títulos de nobreza, busca garantir uma perpetuidade hereditária, transmitindo o poder aos filhos e parentela. O patronato político brasileiro tem suas origens ibéricas e o estamento burocrático criado quando da colonização brasileira, conforme análise de Raimundo Faoro em ‘Os Donos do Poder’, atravessou toda a história política brasileira. Seja na Monarquia ou no período republicano (com orientações liberais, populistas ou nacionalistas) os governos tiveram que conviver com este aparelho de Estado que recebeu e reproduziu esta herança secular.
Um dos piores monstros que um país pode conviver é a ausência de fronteiras definidas entre o público e o privado. O erário público visto como o manancial que alimenta hordas de aproveitadores que superfaturam obras; indicam apadrinhados para a distribuição de cargos e se fartam nos recursos públicos até a exaustão. Resultado deste processo normalmente é uma prestação de serviço público criticado pela população ou contratos de concessão questionáveis em sua qualidade.
Infelizmente, a corrupção é um tentáculo que não é restrito aos políticos pois faz parte das práticas cotidianas. A legião de sonegadores e corruptores; os parasitas que cavam aposentadorias no setor público ou privado para viverem do ócio e da vagabundagem; as mulheres (que no fundo são uma aberração para a verdadeira feminilidade que é constituída por mulheres trabalhadoras, seja no espaço da casa ou no espaço público) que fazem filhos para viverem da renda alheia no anseio de capitalização e ócio; o favorecimento nepótico e emocional; o favorecimento por amizades e pessoalidade a fim de ocupar cargos públicos e criar um núcleo de auto-apoio e reprodução de um grupo; os especuladores imobiliários que vivem exaustivamente da opressão e da vilania exercida sobre os trabalhadores e comerciantes; o pseudo estudante, que recorre a todo de tipo de artimanha para obter aprovação sem esforço; centenas de exemplos podem ser dados para caracterizar os vampiros que vivem do alheio e que corrompem o cotidiano.
Esta horda de parasitas se entranha e corrompe o tecido social e as instituições, e especialmente, deixam o exemplo de que somente com o recurso a malandragem é possível viver em sociedade. E a banalização da corrupção, quando o projeto de futuro é tornar-se mais um destes privilegiados, é um dos mais nefandos imaginários que uma sociedade pode produzir. A projeção do futuro será apenas a reprodução de relações corruptas no presente. E o interessante é que este discurso crítico já se faz presente nos iluministas do século XVIII, os construtores da trilogia ‘liberdade, igualdade e fraternidade’, quando repudiavam a sociedade dos privilégios e das cartas marcadas do Antigo Regime na Europa. O Brasil ainda não edificou sequer a modernidade iluminista!
         O Estado brasileiro enquanto um grande guarda chuva que drena da população mais de um trilhão e meio de reais por ano – fruto oriundo de uma das maiores cargas tributárias do mundo-, pode ser lapidado e construído pelo clamor das ruas. Este processo que deve “ser pacífico” e não destruidor do bem público e privado, poderá inverter a lógica de que o eleitor é o prisioneiro e evidenciar, que o voto dos eleitores, é que deixa claro quem são os verdadeiros dependentes do sistema atual: a classe política. Aprimorar o processo democrático e a construção de um Estado brasileiro fundado em demandas racionais e menos pessoais, será um grandioso avanço para superar a lógica de uma estrutura mental de cinco séculos. O cansaço de viver na barbárie impõe a busca desta utopia.  

ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA E O POLO NAVAL

Os primeiros sete anos da implantação do Polo Naval em Rio Grande (iniciado com a construção da P-53 em 2006) já possibilitam realizar algumas análises sobre o efeito deste megaprojeto no cotidiano da cidade. 
         Enfoques ligados à urbanidade, saúde, segurança e inúmeros outros olhares sobre a cidade antes e depois de 2006, permitem análises científicas sobre este processo. O tema ligado à especulação imobiliária foi desenvolvido por professores e acadêmicos do Curso de Economia da FURG (Rogério Piva da Silva, Rodrigo da Rocha Gonçalves, Ana Beatriz Kaffka Carvalho e Camilla de Oliveira) no artigo “O Impacto do Polo Naval no Setor Imobiliário da cidade do Rio Grande-RS” (http://www.fee.tche.br). Dada a importância deste assunto, sintetizo e reproduzo a seguir, algumas interpretações que fiz do referido artigo.

O IMPACTO NO SETOR IMOBILIÁRIO
Localizada no extremo sul do estado do Rio Grande do Sul a cidade do Rio Grande, a mais antiga do estado, conta com uma economia diversificada possuindo um Distrito Industrial composto por empresas que atuam no setor agrícola, alimentício, madeireiro, de energia, químico e metalúrgico. O parque eólico está em construção e com possibilidade de instalações na área de gás natural liquefeito.
Apesar da grande diversidade de indústrias instaladas na cidade são os investimentos em seu Polo Naval, que tem ocasionado na região grandes mudanças em seu dinamismo e economia. Segundo dados da Petrobrás, a companhia deve investir até 2017 cerca de U$ 13 bilhões e até 2024, Rio Grande, através do seu pólo naval, deve gerar 26 bilhões de dólares em bens e serviços e criar mais de 600 mil empregos diretos e indiretos no estado do Rio Grande do Sul. A ascensão do Polo gera a necessidade de investimento de diversas áreas em Rio Grande, que carece de melhorias nas áreas de pavimentação, saneamento básico e habitação.
Os investimentos de mais de 10 bilhões de reais no Polo Naval do Porto do Rio Grande, geraram uma oferta superior a 30.000 empregos diretos e indiretos. Entretanto, a baixa qualificação da mão-de-obra rio-grandina ocasionou a migração de diversos trabalhadores para a cidade a fim de preencher os cargos disponíveis, o que resultou em um aumento da demanda por residências na região. A baixa oferta de imóveis causou um impacto nos preços, tanto para locação como para venda.
A cidade possui fatores geográficos e históricos, que dificultam a sua verticalização, há escassez na oferta de imóveis frente à crescente demanda causada pela chegada de novos trabalhadores vindos das mais diversas regiões do país a procura de emprego. O Plano Diretor e a concentração de imóveis em posse de especuladores também dificultam a construção de novos imóveis tanto quanto o déficit no perímetro central. A cidade, que concentra seu comércio e seus serviços na área central encontra dificuldades em atrair os investidores a construírem em outros bairros.
O crescimento da atividade portuária em Rio Grande não foi um processo contínuo, na fase atual opera com investimentos bilionários que proporcionam à cidade grande visibilidade, proporcionando um aumento em índices como o PIB e o PIB per capita. Traz ainda um grande fluxo de mão-de-obra de outras regiões do país devido à falta de profissionais especializados na região. A crescente demanda por mão-de-obra traz até a cidade novos moradores e essa situação entra em conflito com a escassez de imóveis disponíveis e deficiências na infra-estrutura da cidade.
Da mesma forma que investimentos de bilhões de reais na implantação de um Polo Naval no município do Rio Grande, associados à baixa qualificação da mão-de-obra local, que atraem trabalhadores de diversas regiões do Brasil aumentando consideravelmente a demanda por imóveis em contraste com uma baixa oferta imobiliária, são fatores relevantes para explicar o aumento nos preços dos imóveis na cidade. Atualmente, o município do Rio Grande possui uma população de aproximadamente 205 mil habitantes e um PIB anual de mais de 6 bilhões de reais.
O preço dos imóveis na cidade do Rio Grande, no período compreendido entre os anos de 2000 e 2012, aumentou em mais de 500%. Quando se analisa separadamente, os incrementos de preço nos seis anos anteriores ao Polo Naval (2000 – 2006) e os seis anos a partir da implantação do Polo (2006 – 2012) tem-se a dimensão do impacto no preço dos imóveis causado pelos investimentos neste setor do Polo e dos demais setores atraídos por este. De 2000 a 2006 os preços subiram em média 70%, enquanto que no período de 2006 a 2012 elevaram-se em mais de 330%.
Os maiores aumentos no preço dos imóveis ocorreram no Centro (valorização de 481%) e nos bairros Cidade Nova em direção a av. Portugal. A proximidade do centro onde ocorre a prestação de serviços levou a maior busca nestas áreas. Forte valorização também ocorreu em bairros populares como Santa Teresa, Getúlio Vargas, Trevo e Parque Marinha, devido à aproximação/deslocamento para o Polo. Também a maior facilidade de crédito para aquisição de imóveis representada pelo Programa Minha Casa Minha Vida do Governo Federal, foi relevante nesse contexto. O Produto Interno Bruto do município passa de R$ 1.850.177,00 em 2000 para R$ 6.280.858,00 em 2010, e a população residente cresce menos que proporcionalmente de 2000 a 2010, sendo assim, a renda per capita aumenta consideravelmente. 
A partir de 2006, coincidindo com o início dos investimentos no Polo Naval, os preços dispararam, crescendo de forma muito mais acentuada do que o IGP-M do período, devido ao grande fluxo de pessoas, que visavam preencher um dos postos de trabalho criados pela implantação do Polo Naval, dos diretores das empresas que vem instalar-se em Rio Grande para aproveitar o bom momento econômico e a baixa oferta de imóveis à venda na cidade.

Em linhas gerais, o aumento no nível de investimento, ocasionado pelo inicio das atividades do complexo naval, gerou um aumento do Produto Interno do município, e conseqüentemente, uma elevação na renda per capita. Considerando o mercado imobiliário extremamente dependente do cenário econômico local, percebe-se um aumento considerável no preço dos imóveis a venda na cidade do Rio Grande (matéria publicada em 09-07-2013).

PATRIMONIALISMO

Que abordagens podemos utilizar para explicar a formação histórica brasileira? Centenas de livros já se debruçaram sobre esta questão que até o presente continua essencial. Podemos utilizar teorias econômicas, sociológicas, antropológicas, culturalistas, políticas, estruturalistas fundadas nas mentalidades etc. Uma metodologia explicativa que considero muito pertinente está ligada a uma visão de longa duração temporal e que pode ser visualizada na prática cotidiana: o patrimonialismo.
Na minha visão, a alma brasileira não vive sem isto! Neste sentido sempre digo que o Brasil é um país onde a modernidade ainda não se realizou no plano do imaginário! A tradição ibérica, ainda fortemente se expressa e a racionalização ou a razão instrumental – típica das sociedades capitalistas – aqui encontrou mecanismos para garantir sua incompletude.
Sempre aprendi familiarmente, que a honestidade é um princípio inalienável do comportamento. Não consigo me livrar desta maldição que foi transmitida em alguma ‘noite de lua’ e que acaba custando muito caro no convívio cotidiano. Viver no país do jeitinho, da malandragem, da pessoalidade, das formações de quadrilha, dos conchavos sórdidos para dividir o bem público ou privado entre os apadrinhados, são práticas sociais difundidas que continuam a me repugnar.
A pessoalidade, o nepotismo, o favorecimento partidário ou corporativo, são degenerações, porém, dominam o cenário sócio-político. E esta ‘cultura’ que tem passado por inúmeras gerações de brasileiros desde o descobrimento em 1500 recua ao nosso passado na Península Ibérica. A formação da Sociedade Brasileira remonta à bagagem recebida de Portugal cuja normatividade estava ligada a distribuição de títulos e cargos públicos aos vassalos e apadrinhados mantidos pelo Estado. Uma sociedade de ordens, privilegiada socialmente, que através do voto de fidelidade ao Rei recebia contrapartidas na distribuição da riqueza social. O Absolutismo era comum nos países europeus neste período, porém, em alguns, as mudanças vieram com as reformas religiosas ou com as revoluções burguesas. No caso do Brasil, nem a Revolução Francesa ainda foi realizada se compararmos com os princípios iluministas do século 18 cujo ideário tanto combateu o patrimonialismo...
         No Brasil através da concessão de capitanias hereditárias, sesmarias, títulos de nobreza, distribuição de cargos públicos, formou-se uma elite que construiu a prática administrativa de favorecimento pessoal e do próprio grupo familiar ampliado. O processo desencadeia o olhar do bem público como um prolongamento do bem privado. Muitos estudos já foram realizados sobre o tema. O intelectual alemão Max Weber dedicou parte de sua obra a desvelar as práticas patrimonialistas. Um dos maiores nomes da historiografia brasileira, Sérgio Buarque de Holanda, ao criar o conceito de ‘homem cordial’, estava se referindo a prática patrimonial. Quando Fernando Henrique Cardoso elaborou a clássico da historiografia rio-grandense ‘Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional’, enfatizou longamente a presença do patrimonialismo nas relações políticas e sociais do Rio Grande do Sul dos séculos 18 e 19. 
         Oliveira Vianna na obra ‘Populações Meridionais do Brasil’ assim caracterizou o fenômeno: “O agrupamento local que conseguia ter ao seu lado o Governador dominava o município todo, passando a dispor de todos os meios de aliciamento, que o Centro – pelo seu preposto, o Governador – dispunha: policia civil; policia militar; guarda nacional; títulos de nobreza; nomeação para postos de administração locais (delegados, subdelegados, comandantes, inspetores, fiscais, etc.). Parece que o processo de agremiação e sincretismo dos nossos clãs se iniciou sobre este critério nativista. Eram expressões puramente bairristas e pessoais, não havendo nelas nenhum conteúdo de interesse publico ou ideológico. [...] Os partidos locais, como se vê, surgiam por meros motivos pessoais: – eram sempre as ambições, as vaidades e as preocupações de prestigio de família que decidiam da formação destas agremiações. Todos eles tinham um objetivo único: – procurar para si o apoio do Governador. Este era o centro de força na Província e, conseqüentemente, nas localidades...”.
Desta forma, na formação do Estado Brasileiro, a esfera doméstica dos grandes proprietários e nobres, definiu muito das relações institucionais fazendo com que as vontades particulares predominassem sobre as ordenações impessoais típicas de um Estado burocrático. A tradição de séculos santificou esta vontade pessoal como sendo um senso comum inquestionável. A administração passa a ser um exercício particular, onde os limites do público e do privado supostamente existem apenas formal/legalmente, mas não no campo da ética.
No patrimonialismo, os princípios da honestidade, impessoalidade e da transparência tornam-se motivo do deboche frente aqueles que manipulam o bem público e formam quadrilhas que garantam a reprodução de seus interesses. Até a democracia se torna um pano de fundo onde os interesses egocêntricos ou do grupo já marcaram e definiram todas as cartas. 
Um dos objetivos da análise histórica é explicar os processos ocorridos no passado, mas que são perceptíveis ou que fazem parte das práticas no presente. O patrimonialismo é uma expressão cultural de cinco séculos com fortes raízes que se projetam para o futuro. Neste sentido é deprimente fazer esta constatação, porém, é preciso saber em que terreno amanhã continuaremos a pisar.
Ofereço esta página reflexiva a todos os leitores que compartilham com estas ideias e que sabem como é difícil caminhar em meio a tantos patifes e manipuladores. E o patrimonialismo não se restringe a uma questão de Estado, mas difundiu-se nos espaços sociais. Um exemplo destes seres que pululam a nossa volta, pode estar inclusive em colegas que, sub-repticiamente, estão sempre a conchavar e corromper. Eles formam um epicentro de favorecimentos para os irmanados ou uma rede de intrigas para prejudicar os que não se deixam aliciar. Atualmente, inclusive, existem termos pomposos para definir os líderes mais destacados desta manipulação como sendo sociopatas. Mas o fato é que se estas ‘aberrações da natureza’ existem e se alimentam do social é porque as esferas de definição normativa das relações possibilitam a sua reprodução. O respaldo de impunidade que eles encontram nas instituições políticas ou jurídicas, por exemplo, na esfera do Direito Penal ou do Direito de Família, possibilita a sua atuação. Essa exemplificação é importante para enfatizar que os indivíduos não estão dissociados do todo, mas tem suas ações ligadas ao processo mais amplo. Este processo é que define o que se chama de Sociedade Brasileira é constituída por um conjunto multifacetado de influencias advindas do processo capitalista tupiniquim e mundial.  


   


BARONE E A FEB

No início de 1942 o governo dos Estados Unidos já havia convencido Getúlio Vargas a ceder a Ilha de Fernando de Noronha e a costa do nordeste para a construção de bases militares no esforço de guerra na luta contra o Eixo. Após o afundamento de navios mercantes por submarinos alemães, em agosto de 1942, o Brasil entrou oficialmente na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados.
         O Brasil prepara-se para a guerra organizando com cerca de 100 mil homens a defesa do seu extenso litoral contra uma possível invasão. Também é organizada a Força Expedicionária Brasileira (FEB) composta por mais de 25.000 militares com o objetivo de participação direta no cenário da guerra. Este contingente foi enviado para a Itália a partir de julho de 1944 entrando em combate em setembro deste ano. O objetivo era a retomada de posições militares e de cidades italianas que estavam ocupadas pelo Exército Alemão. A FEB foi integrada ao IV corpo do Exército Americano, recebendo treinamento e material bélico norte-americano. Somente em combate, morreram quase 500 brasileiros. Os brasileiros aprisionaram mais de 20.000 militares alemães. Os combatentes voltaram ao Brasil a partir de julho de 1945, sendo a FEB dissolvida e sua história foi caindo no esquecimento da população não militar (apesar da criação de associações de veteranos desde 1945 – sugiro uma visita ao site http://www.portalfeb.com.br/). Porém, este capítulo da história brasileira continua a despertar o interesse de escritores. É o caso do músico João Barone (baterista dos Paralamas do Sucesso) que vem desenvolvendo um interessante trabalho de divulgação destes eventos dramáticos ligados a Segunda Guerra Mundial. Seu último livro, lançado recentemente, 1942 — O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida (Editora Nova Fronteira), retoma este tema. Barone é filho de João de Lavor Reis e Silva, um dos 25.000 febianos que foram lutar na Itália. Neste sentido, sua curiosidade vem desde a infância e o seu olhar está afetivamente ligado a esta experiência vivida pelos brasileiros que foram para a Itália e também para os que viviam no Brasil naquele período. E a participação da FEB está contextualizada no maior conflito militar da história da humanidade que refletiu no Brasil com racionamentos, blackout, perseguições a imigrantes alemães, italianos e japoneses, cenários já contados ou ainda por contar das histórias cotidianas que marcaram aquele período. Inúmeras experiências ocorridas permitem afirmar que a Segunda Guerra Mundial é um dos períodos mais importantes para entender o século XX, inclusive no Brasil. No caso de Rio Grande, o impacto do conflito levou às perseguições a comunidades alemãs aqui radicadas desde o século a primeira metade do século XIX rompendo um relacionamento que já se mantinha há um século.
         Barone, cujo livro está voltado à participação da FEB e suas ramificações no imaginário do período, consegue evidenciar as amplas dificuldades em organizar o grupo de combatentes que participou vitoriosamente da maior parte das ações. Um exercício de superação e criatividade, de luta por princípios democráticos num país que ainda buscava construir uma identidade nacional. No período atual de falta de identidade e de reprodução de relações patrimonialistas fundadas na acumulação pecuniária, é uma ótima leitura que vislumbra outros horizontes para a construção do “ser brasileiro”.  


PATRIMÔNIO E CARTÕES-POSTAIS NA BELLE ÉPOQUE

Estou divulgando aos leitores o oitavo livro de uma série que tenho dedicado à história da cidade do Rio Grande. O projeto teve início em 2008 e novos volumes já estão sendo elaborados.
O livro que está sendo lançado é “Rio Grande: Patrimônio e Cartões-postais na Belle Époque” o qual contempla a perspectiva de enfatizar a imagem enquanto fonte para o conhecimento do passado.
As imagens escolhidas foram os cartões-postais, os quais são responsáveis pela popularização de visões multifacetadas das mais diferentes localidades do planeta. O colecionismo de cartões-postais associado ao seu período áureo (1900-1930) legaram centenas de milhares de imagens do que hoje chamamos de ‘passado das civilizações humanas’. Em Rio Grande os postais apresentam uma grande riqueza e potencialidade para a compreensão da urbanidade local e possibilitam, através das imagens e outros documentos, construir a narrativa histórica destes lugares. Os cartões-postais editados em Rio Grande estão entre os mais antigos do Brasil.
Foram reproduzidos 28 cartões-postais que retratam espaços públicos que ainda são uma referência na urbanidade da cidade do Rio Grande: o prédio da Prefeitura Municipal; o Mercado Público; o Quartel General e o Prédio da Alfândega. São construções do século XIX que ainda persistem no cenário urbano da mais antiga cidade luso-brasileira do Rio Grande do Sul.
         Os cartões-postais reproduzidos no livro foram editados entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, no período chamado de belle époque, uma referência às inovações tecnológicas, a indústria do divertimento (como o cinema), que surgiram ou se intensificaram no período de 1871 até 1914. O início da I Guerra Mundial assinala o início do fim deste período na Europa. A belle époque foi caracterizada pelo desenvolvimento científico e artístico, um período de paz e prosperidade burguesa que o grande conflito mundial colocou em crise. Tendo Paris como capital cultural deste processo, as cidades de formação ou influência ocidental buscaram reproduzir estes novos referenciais culturais de tecnologia e consumo, expressando a modernidade numa sala de cinema, na aquisição de automóvel ou telefone, nas roupas, na valorização dos prédios públicos ou particulares.
A Exposição Universal de Paris de 1900 buscou sintetizar as múltiplas possibilidades tecnológicas desta crença no ilimitado progresso técnico-científico.  Nestes “belos tempos” o desenvolvimento do capitalismo gerou nas elites brasileiras a disposição em se colocarem em sintonia com as forças da civilização e do progresso das nações da Europa Ocidental: a palavra-chave de um mundo agrário e ruralizado passa a ser ‘modernidade urbana’. Para além de uma imagem idealizada, a belle époque se expressou em Rio Grande num contexto de inúmeros problemas sociais, urbanos, administrativos e de má distribuição da riqueza gerada pelo comércio de exportação-importação e especialmente pela industrialização. O principal tema tratado por estes cartões que retratam Rio Grande a cerca de cem anos atrás foram os cenários que ostentam os avanços para uma vida urbana moderna.
         Que este livro possa instigar nos leitores o interesse pelo olhar atento as imagens e aos recortes arquitetônicos da paisagem urbana que faz parte do dia-a-dia (matéria publicada em 30-07-2013).


O KAISER EM RIO GRANDE

Em Rio Grande está localizado o único porto marítimo do Rio Grande do Sul. Como o comércio marítimo era no século 19 e persiste até a atualidade, como o principal meio de circulação de produtos entre os continentes, Rio Grande caracterizou-se, desde a década de 1830, em ser um espaço crescente da presença de comerciantes ligados à exportação e importação. Eram alemães, ingleses, franceses, portugueses e comerciantes de outras nacionalidades que exerciam atividades na cidade. A partir da industrialização na década de 1870, ampliou-se ainda mais esta presença de estrangeiros ou já naturalizados mas com o referencial familiar ou dos negócios em empresas internacionais.
O Balneário Vila Sequeira ou Cassino, enquanto um espaço de banhos criado em 1890  e voltado a saúde/lazer das elites do Rio Grande do Sul, se converteu em sua primeiro meio século de existência num multifacetado espaço onde as nacionalidades estavam expressas inclusive com hastemento de bandeiras. Em dois momentos críticos na Europa, que foram as duas grandes guerras mundiais, o conflito harmonioso levou as discussões ou confrontos entre veranistas do balneário do extremo sul do Brasil.
         Um destes momentos foi a I Guerra Mundial que foi declarada em 28 de julho de 1914 e teve seu encerramento em 11 de novembro de 1918. O conflito levou a morte de mais de 19 milhões de pessoas. Inicialmente, o Brasil se manteve neutro mas com o afundamento de navios brasileiros e a mobilização popular nacionalista nas ruas, o governo brasileiro declarou guerra contra a Alemanha e seus aliados em 26 de outubro de 1917. Foram apreendidos 44 navios alemães que passam a compor a frota nacional (representando 25% do total), o que evidencia a forte presença comercial alemã no Brasil. Um navio foi confiscado no Porto do Rio Grande: o Monte Penedo da operadora Hamburg Süd que passou a se chamar Sabará e posteriormente, em 1948, Ascânio Coelho. 
Os resultados da guerra foram catastróficos para a Alemanha e inclusive, para o Kaiser Guilherme II que abdicou do trono e foi exilado do país. O Brasil teve pouca participação militar no conflito mas pagou muito caro pelo envio de ajuda médica a área em litígio: importou desta região a Gripe Espanhola que fez dezenas de milhares de mortos no Brasil e infectou, somente no Rio de Janeiro, 600 mil pessoas.
A imprensa é uma fonte de pesquisa que contribui para a preservação documental dos conflitos no cotidiano. Um reflexo da guerra pode ser observado numa matéria escrita pelo colunista da Crônica Cassinense (cujo pseudônimo é Periscópio) do jornal Echo do Sul, publicada no dia 7 de fevereiro de 1918. É feita uma referência aos ‘súditos do kaiser’ que entoavam o hino alemão, num período em que a guerra já estava declarada. Em qual residência será que isto aconteceu?

“Chronica Casinense
         Tivemos uma nota dissonante no Cassino, na última semana. Os súditos do Kaiser ou os apaixonados pelo seu poderio militar ou ainda, os influenciados pelo seu patronato nefasto e incoerente, cantaram em sua casa, em pleno Cassino, o hino alemão!
         É uma audácia sem classificação e, sobretudo, uma injustificável irreflexão, pois não se compreende como dentro de um país em estado de guerra com outro, se possa cantar o hino deste último, sem a intenção imperdoável de ser uma provocação.
         Eles devem estar satisfeitos com o tratamento gentil que têm conseguido por parte do nosso governo e do povo do Brasil e, por isso mesmo, deveriam manter uma conduta mais respeitosa com aqueles que lhes tratam com amenidade e com uma certa bondade, talvez agora imerecidas.
         Os brasileiros que estão no Cassino não têm senão sido gentis para estes que agora lhes afrontam o patriotismo, não têm senão procurado amenizar o seu sofrimento moral de abandono dentro de um país que não é amigo no momento presente, deixando que vivam a vontade e de acordo com o seu temperamento: mas, agora, não foi possível suportar com calma esta indefensável atitude atrevida e, sobretudo, provocadora, dos alemães e seus comparsas aqui domiciliados.
         Mas, os retovados, esses que não são nem alemães nem têm outra nacionalidade definitivamente determinada, esses são os mais audaciosos e inventores desses fatos que tanto aborrecem e contrariam aqueles que cá vieram para o gozo calmo e quieto de uma estação alegre e cheia de prazeres.

         Andou muito bem quem, com a compreensão nítida do cumprimento do dever, comunicou às autoridades locais o que havia sucedido. Essa paixão profunda dos súditos do Kaiser pelo seu ambicioso e atrabiliario soberano, deve ser um termo dentro dos limites do bom senso e da conveniência deles próprios, porque, caso contrário, talvez o arrependimento já venha tarde demais para as más manifestações incontidas. Esta seção não é destinada a apreciações desta natureza; mas, desta vez, o repórter mundano não pode conter a sua contrariedade ante esse fato, que foi uma nota triste no momento em que todos os que aqui vivem se preocupavam, somente, com os prazeres da estação e da elegância”.

RESSUSCITEM OS MEGATÉRIOS!

Heinrich Harder (1858-1935) - The Wonderful Paleo Art of Heinrich Harder.

Tenho que esclarecer que os megatérios (preguiça gigante) não podem ser salvos, pois já estão extintos a pelo menos 6 mil anos. É apenas uma analogia a algo supostamente ultrapassado e de grandes dimensões: refiro-me aos antigos aparelhos de televisão. Ainda possuo aparelhos que mesmo sem usar durante anos, ao serem ligados funcionam perfeitamente. Porém o seu peso e dimensões os tornam aberrações estéticas e agressivas a coluna. Nada como a modernidade da compactação dos lcds e leds. Troque o megatério por um quadro de parede, é a chamada que sensibiliza a maioria dos consumidores além do suposto ganho em qualidade de imagem.
Porém esta fantasia está se esfacelando rapidamente! Não pela tecnologia em si, mas pela péssima qualidade dos produtos oferecidos. Passando o prazo de garantia os produtos começam a dar problemas graves que necessitam Da assistência técnica. Algumas preciosidades ocorrem nestes orçamentos da assistência credenciada: diálogos como a TV já tem três anos e não há peças de reposição para ela – e não pense em abandoná-la em nossa loja que nem para colocar no lixo aceitamos;
Somente televisores digitais, os mais recentes, já existem 50 milhões no Brasil. No ano de 2013 a produção foi de 14 milhões e para o ano da ‘Gloriosa Copa do Mundo’ a projeção é de 16 milhões de unidades vendidas! Um mercado e tanto... Já existe um estudo que avalie quantos milhões destes aparelhos estarão, nos próximos três anos, jogados nos lixões pela irracionalidade dos consumidores ainda mantê-los?
Estou falando em marcas consagradas e não nas mais ‘em conta’. Fique claro que dentro desta indústria do descarte, marcas consagradas ou não, possuem, com rara exceção, uma identidade em comum: o selo no verso de ‘Made in China’.
A estupidez desta indústria não se funda apenas no esvaziamento do bolso dos consumidores: ela transforma estes em escravos anuais da assistência técnica que alimenta a indústria da reposição de peças. A situação é tão grave que as empresas que não aderirem a esta boçalidade (mantendo um aparelho vários anos sem defeito e sem angariarem numerário com as peças de reposição), estão condenadas a falência! Portanto, o suposto barateamento e popularização dos televisores de fato é superficial, pois o preço final poderá ser muito superior a um aparelho que funcione longos anos sem defeito.
Numa escavação arqueológica recente, encontrei três megatérios no soca-soca da casa. São preciosidades da técnica e da decência a que me curvei fanaticamente louvando os bons tempos de uma indústria não descartável. Os aparelhos possuem entre 16 e 9 anos de idade e pasmem: funcionam perfeitamente!
Já os três Lcds e Leds comprados nos três últimos anos tiveram um destino diferente: um foi descartado por falta de peças; o outro custou R$500 reais por uma peça que deve ser anualmente reposta (sacramentando a relação hegeliana da dialética da submissão do escravo ao senhor através da técnica pós-moderna) e o terceiro aguarda a fatídica avaliação técnica (um laudo sempre cruel no olhar frio e distante dos assistentes técnicos...).
Deixando esta linguagem trágico-cômica, de fato quero promover uma reflexão sobre o tema com os leitores. A tecnologia do descarte, que não se prende apenas aos televisores, mas a qualquer aparelho de consumo de massa, evidencia que as peças são feitas para estragarem em determinado prazo. A energia gasta no planeta para esta produção de produtos de ‘vida efêmera’ consome parte dos recursos energéticos do planeta e garante uma poluição acentuada (derivados do petróleo) durante a sua confecção e para o seu descarte. Tanto a emissão de poluentes no ar como as substâncias que vão poluir o lençol freático, demonstra práticas antiecológicas e que vão à contramão das preocupações ambientais e do aquecimento global.
Porém, como no estágio atual do capitalismo a palavra de ordem é o crescimento do público consumidor e do consumo ampliado de bens até a exaustão dos recursos, é difícil visualizar uma alteração nestas práticas nefandas a saúde dos que vivem no planeta e promotora do enriquecimento de uma rede produtiva poderosa.
Neste cenário pós-moderno do descarte e das novidades pífias de uma suposta tecnologia avançada e que de fato é oca de qualidade, quero sensibilizar os leitores e afirmar: ressuscitem os megatérios!  


sábado, 5 de agosto de 2017

OS CHAFARIZES E A ARTE EM FERRO

Conforme José Francisco Alves (Fontes d’Art no Rio Grande do Sul,  editora Artfólio), no Rio Grande do Sul, a presença da indústria francesa em ferro fundido foi muito representativa. A fundição artística chega as maiores cidades da província, Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, num contexto do fornecimento de água potável à população. As peças fazem parte da arte pública, ou seja, eram equipamentos funcionais e colocaram a arte no espaço público que cotidianamente era percorrido pelos moradores. Os chafarizes que poderiam ter longa vida fornecendo água potável, tornaram-se em poucas décadas obsoletos com a distribuição por encanamento residencial. Com a perda da funcionalidade e a precária manutenção o destino de muitos chafarizes foi o desaparecimento. “A maioria deles foi ignorada pela vida das cidades, sem receber a manutenção necessária para a sua atribuição decorativa – a água jorrando -, embora estivessem localizados em sítios importantes. Seus destinos, com raras exceções, são lamentáveis.”
         Além da procedência francesa das peças José Alves também revelou uma característica única, que distingue a coleção rio-grandense das demais: “a procedência dessas obras de arte. Enquanto nas demais localidades da América Latina a origem onipresente de tal acervo é procedente das Fundições Val D’osne, no Rio Grande do Sul, porém, isto não ocorreu. Aqui reinaram soberanas as Fundições Durenne. Em menos de 10 anos, entre as décadas de 1860-1870, nada menos do que doze chafarizes de porte foram instalados em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, todos eles projetos exclusivos da empresa de Antoine Durenne. Entre esses chafarizes, encontrava-se o mais notável modelo que saiu dos seus altos-fornos, o Chafariz das Nereidas (denominação dada pela historiografia de Pelotas), criado pelo escultor Jules Klagmann.”
Em Rio Grande existiram quatro chafarizes franceses, em ferro fundido que foram adquiridos na década de 1870 e confeccionados na Fundição Durenne. O primeiro chafariz instalado em Rio Grande recua ao ano de 1874. A Praça Sete de Setembro foi a escolhida para a experiência. Neste local havia surgido a primeira cacimba de captação de água ainda no ano de 1737. Tanto que o local era chamado de Praça do Poço. Com a instalação realizada pela Companhia Hidráulica Rio-Grandense a praça volta a ter destaque no fornecimento de água. Infelizmente, foi neste local que desapareceu o único chafariz dos quatro instalados na cidade. Seguindo o caminho dos chafarizes de Porto Alegre este também teria virado sucata? Rara imagem dele está na fotografia aqui reproduzida do ano de 1894.
         O segundo chafariz instalado foi na atual Praça Xavier Ferreira, segundo o autor, no mês de maio de 1874. É o maior da cidade e chamado de Chafariz das Três Graças (altura de 6,12m e 3,74m de largura), constituído por três estátuas femininas – as mitológicas Três Graças: “Aglae, Tália e Eufrosina, filhas de Vênus, deusa da beleza e da graça; formosas, davam-se as mãos como se preparassem para dançar, presidiam às boas ações e dispensavam aos homens, amabilidade, jovialidade e outras qualidades que constituem o encanto da vida”. Conforme José Alves “Durenne não mencionava o nome dos escultores. O chafariz foi apresentado pela primeira vez na Exposição Universal de 1867, ano da morte de Jules Klagman. Carrier-Belleuse, tendo fornecido para as fundições Durenne muitos modelos de estátuas e chafarizes, a base deste chafariz pode ser atribuída à Carrier-Beleuse. A parte mais alta reproduz as Três Graças de Germain Pilon”. Na Praça da Harmonia, em Porto Alegre, existiu um chafariz igual mas que desapareceu sem deixar registros... Nas Três Graças à presença francesa no espaço público da cidade apresenta um vínculo ainda maior com a própria história da França: “As Três Graças, cópia industrial (Fundições A. Durenne) da célebre obra homônima que faz parte do Monumento do Coração de Henrique II (1519-1559) [Rei da França], pertencente ao acervo do Museu do Louvre. A obra foi comissionada em 1561 pela esposa do Rei, a Rainha Catarina de Médicis. As estátuas originais, realizadas entre 1561 e 1566, foram esculpidas em mármore por Germain Pilon (ca. 1525-1590). O pedestal de mármore e a urna (em bronze) originais são do italiano Domenico del Barbiere”.   
         Na Praça da Caridade (atual Praça Barão de São José do Norte), no ano de 1878 foi instalado o chafariz que recentemente voltou a funcionar. A alegoria principal é composta de dois anjinhos alados (puttis ailés) carregando no alto um jarro. “O modelo dos puttis do chafariz fazia parte do conjunto de 12 crianças hidráulicas executadas por Carrier-Beleuse para a fundição Durenne por ocasião da Exposição Internacional de 1862”. Este chafariz dos Anjinhos (altura de 4,78m e largura de 2,62m) é muito semelhante ao existente na Praça Tamandaré e que também foi instalado no ano de 1878. Colocado originalmente nas imediações ou no local do Monumento a Bento Gonçalves da Silva (1909), o chafariz existente foi deslocado para o local atual numa ilha próxima a esquina da rua General Vitorino com 24 de Maio. É constituído pelos anjinhos segurando um jarro ou ânfora (altura de 5,05m e largura de 3,0m).       




CALÇAMENTO DAS RUAS

Uma parte da história da cidade do Rio Grande está escrita nas ruas, mais especificamente, no calçamento das ruas. Um dos maiores desafios enfrentados para a constituição de um centro urbano na cidade foi o controle do deslocamento da areia e as inundações, especialmente no inverno. Os aterros e o calçamento tornaram-se vitais para a circulação da população e a manutenção das atividades comerciais deste importante centro de comércio da província do Rio Grande de São Pedro. A ausência de matéria-prima e os poucos recursos financeiros dificultaram a realização de obras essenciais para uma vida urbana. A história dos calçamentos e aterros reflete essencialmente a natureza da experiência civilizatória na cidade do Rio Grande, onde o homem lutou constantemente contra a ação da natureza. 
Desde os primórdios da ocupação militar e civil, a luta contra o vento, as chuvas, o deslocamento da areia, a falta de material de construção estão presentes nos relatos oficiais ou de viajantes. As ruas do centro urbano nascente estavam a descoberto de calçamento como relatou Saint-Hilaire em 1820, situação que seria mantida até a década de 1850.

URBANIZAÇÃO E CALÇAMENTO
Os esforços para promover aterramentos e calçamento de ruas esteve presente nos relatórios da Câmara municipal, onde é possível acompanhar o lento desenrolar das iniciativas e da captação de recursos públicos e privados para as obras. O relatório de 1851 ressaltou que muitas “são as ruas e praças desta cidade que precisam de aterro em razão de se tornar intransitáveis na estação invernosa. Para esta despesa e para as eventuais, orçadas em 2:000$000 pede a Câmara a competente autorização. Outras ruas da cidade precisão ser abertas. A bela rua do Rosário, por exemplo, acaba na rua do Pito, havendo, aliás, toda a facilidade em abri-la até a rua Direita; porque contanto a Câmara, com a cooperação dos moradores dela, pequena será a despesa municipal, para a desapropriação de dois prédios insignificantes que embargam o seguimento da mesma rua. A rua do Carmo, também reclama a mesma providência, e por certo não depende isso de muito maior despesa. É fundada nestas razões que a Câmara incluiu no seu orçamento 3:000$000 para socorrer a estas necessidades”.
No relatório de 1853 a Câmara continuou a pedir autorização para desapropriações de prédios para abertura de ruas. Novamente insistiu que no inverno as ruas tornam-se intransitáveis, pedindo 3 contos de réis para enfrentar parcialmente o problema com aterros. “Na estação invernosa a parte mais freqüentada e importante da cidade, isto é, a praça municipal, desde a casa ocupada pelo comando da guarnição, propriedade hoje do cidadão Porfírio Ferreira Nunes, até o edifício da Alfândega e daí ao primeiro alagado, torna-se por alguns dias, quase intransitável, a pé enxuto, em conseqüência dos pântanos e lagoas que se forma nessa distância; a Câmara querendo curar deste mal, tem em vista mandar fazer um lajedo dessa distância e direção, com o qual, calçados os pontos por onde passam as carroças e carros, ficará a principal rua da cidade com um melhoramento digno dela. Como, porém sinta a falta de autorização para despender com isso a quantia calculada de 1:600$000, vem pedi-la ao corpo legislativo compreendendo-a no seu orçamento.”
Apenas com o orçamento municipal buscou-se reduzir os problemas com aterramentos, porém “a experiência tem, contudo mostrado que os aterros das ruas não é o meio econômico de melhorá-las. O calçamento delas é tudo, e para esse fim a Câmara pede uma consignação de 3:000$00 réis e a autorização de engajar um hábil engenheiro por conta desta verba para fazer o nivelamento preciso”. (Relatório 24 de setembro de 1855).
Em 1856, a falta de material exigia a utilização do existente em outras construções como é o caso do aproveitamento das pedras da cadeia velha para “fazer caminhos nos lugares que eram mais precisos para assim facilitar o trânsito público”. O presidente da Província nomeou uma comissão para organizar o nivelamento das ruas, passo que seria indispensável para iniciar o calçamento, sendo solicitado 6 contos de réis a Assembléia. As atividades de calçamento tiveram início entre 1857 e 1858, pois o relatório de setembro de 1858 afirma que “deu-se já princípio ao calçamento que tem de continuar como convém, para o que a câmara pede aumento na respectiva verba”. Em 1859 para continuidade do calçamento pediu-se 6 contos de réis. O resultado deste esforço inicial redundou até 1860 no calçamento parcial das ruas Francisco Marques, Zallony, d’Afândega, do Poço e do Rosário. “Está se dando princípio ao calçamento da travessa do antigo Arsenal de Marinha. A Câmara tem dado preferência daquelas ruas que mais necessitam de tão importante melhoramento”  9 de outubro de 1860.
Em 1861, o relatório reconhece-se que as obras não marcham com “o progresso que a utilidade pública na realidade reclama, porque os poucos fundos de que a municipalidade pode dispor não permitem que ela dê mais de um passo em cada ano até que uma subvenção dos cofres provinciais possa vir auxiliá-la. Por isso pede-se no orçamento autorização para despender a quantia de 4:500$000 réis”.
O esforço da Câmara para aplicar recursos públicos nestas obras foi reconhecido no relatório de 1862. “Em virtude das ordens repetidamente expedidas, das providências tomadas, nota-se já nas ruas mais limpeza. A rua da Boa Vista, por exemplo, onde se via efetivamente embaraçado o trânsito público com depósito de madeiras, embarque e desembarque de cavalos etc, já se acha em mais livre e satisfatórias condições. Não sendo possível cuidar-se do calçamento de todas as ruas (...) e com a prontidão que convinha pela falta de fundos para melhoramentos tão despendidos é fora de dúvida que nas circunstâncias desta municipalidade, não se tem feito pouco em um ano apenas de exercício. As ruas do extinto Arsenal e do Carmo, desde a da Praça e da Boa Vista, pode-se dizer que estão calçadas; em diversas outras em algumas das quais as água pluviais impediam o trânsito, tem feito largos cordões de pedra e aterros conforme se tem podido com as preferências reguladas pelas mais ou menos urgentes necessidades. Ainda que em uma direção provisória, com a ajuda de alguns interessados, abriu-se a rua do Castro, desde a do Fogo até encontrar, na rua Direita, um beco que da saída para a Praia e praça Municipal. Diversas desapropriações de terrenos acham pendentes para outros melhoramentos idênticos, os quais não é possível levá-los todos a efeito, com a mesma rapidez, razão da falta de meios para as indenizações, eles se irão realizado com a brevidade que for compatível com as circunstâncias e desejos que anima a Câmara. Era sensível a falta de pessoa habilitada para dar o alinhamento da planta adotada, aos prédios que iam edificando; este inconveniente, porém está removido desde que a Câmara, competentemente autorizada, encarregou ao capitão Nabor Delfim Correia não só esse serviço como os mais de engenharia e agrimensura de que ela necessite”. 7 de janeiro de 1862.
Portanto, as primeiras obras de calçamento das ruas da cidade do Rio Grande foram realizadas entre 1857 e 1862. 

CALÇAMENTO DAS RUAS II

A política da Câmara Municipal de combater o movimento da areia e os alagamentos no centro urbano teve continuidade nas décadas de 1860 e 1870. Era necessário promover o nivelamento, aterro e calçamento das ruas da cidade sendo preciso um investimento anual, em 1862, de 6 contos de réis nestes melhoramentos.
No ano seguinte, solicitou-se 7 contos de réis. Conforme o relatório, “tem continuado a Câmara a prestar atenção a este ramo da administração. As ruas ainda não chegaram ao estado que seria para desejar, mas tem-se feito os melhoramentos compatíveis com os meios a nossa disposição. O expediente de fazer calçar as ruas por seções, a custa dos proprietários, em execução das posturas, confeccionadas pela Câmara transacta, encontrou até certo tempo pouca disposição da parte daqueles, mas o exemplo que ultimamente começaram a dar alguns que melhor compreenderam a utilidade da medida, como o sr. tenente coronel Porfirio Ferreira Nunes, que cumpriu esse dever antes de lhe tocar, parece ter influído a muitos que se preparam para imitá-lo. É, porém de lamentar a falta de  operários e de material para estas obras” (Relatório de 10 de janeiro de 1863).
Entre 1864 e 1867 foi mantida a previsão do gasto de 7:000$000 réis por ano para realização do calçamento. Apesar dos avanços ocorridos, o Relatório de 1869 ressalta a necessidade de implementar medidas para acelerar as obras: “o calçamento das ruas é de urgente necessidade para uma cidade como a do Rio Grande que se acha colocada 7 palmos apenas acima do nível do mar, tornando-se difícil se não impossível o esgoto das águas, mormente na estação invernosa. Sendo improfícua em alguns casos a despesa com aterros, a Câmara não vê outro meio para melhoramento das ruas se não o calçamento. Ressente-se a cidade da falta de nivelamento; e se hoje não é possível remediar-se males antigos, é todavia tempo de prevenir erros futuros principalmente nas edificações  dos terrenos da Cidade Nova; assim pois a Câmara solicita pelo bem do município, pede ainda ao corpo legislativo uma consignação para poder ter um engenheiro; o que parece dever ser atendível, para uma praça que se torna cada vez mais importante”.
Os entraves para o calçamento estavam ligados a própria planificação das ruas que em grande parte, não passavam de becos. Como a cidade estava edificada em terrenos baixos, o nivelamento para o escoamento das águas era indispensável. “O aterro feito com areia é pouco estável por ser ela levada pelo vento, torna-se assim caro, e mais ainda pela grande distância de que hoje é conduzida; o meio mais profícuo segundo crê a Câmara a empregar  para evitar aquele mal, seria o calçamento da cidade com pedra, os recursos porém faltam à Câmara para empreender este melhoramento, quando não seja auxiliada por aqueles de quem a província e esta municipalidade esperam toda a solicitude para o engrandecimento da mesma província, de que esta é uma das principais cidades. A Câmara vos apresenta a planta da Cidade Nova, deverá ser edificada em terrenos alagadiços que só poderão ser aproveitados com aterro de 7 a 8 palmos.” (Relatório 9 de março de 1871).
Em 1872, o Relatório aponta que as obras estavam paradas pois a pedra estava sendo comercializada por um preço tão abusivo que não permitia a aquisição pela Câmara. Como o pedido de recursos financeiros para a Assembléia Provincial não foram atendidos, a Câmara pediu autorização para contrair um empréstimo até a quantia de 90:000$000 réis para dar continuidade ao calçamento pagando um juro de dez por cento ao ano como “tem sido concedido a outras Câmaras, para igual fim” (Relatório de 9 de janeiro de 1874).
Constata-se que a necessidade de calçamento era essencial devido aos alagamentos das ruas, especialmente no inverno. O custo do material (pedra) era alto tendo de vir até do Rio de Janeiro, ou mais próximo, de São Lourenço do Sul. O orçamento da Câmara também não possibilitava obras intensas. A Câmara obteve autorização pela lei nº 910 de 20 de abril de 1874 para o empréstimo e as obras tiveram um rápido implemento. “Acha-se muito adiantado o calçamento da cidade, estando já calçadas as ruas mais importantes e principais; a Câmara espera até o fim do atual exercício levar o calçamento a rua Uruguaiana e todas as ruas laterais no que completará a consignação que lhe concedestes...”.
         Após as primeiras obras ocorridas entre 1857 e 1862 o grande impulso do calçamento ocorreu a partir de agosto de 1874 e em 1875 sendo calçadas as principais ruas da cidade: Riachuelo, desde Eubank até 16 de julho; General Osório, desde os Andradas até a Misericórdia; Pedro II desde Barroso até o fim da mesma rua, junto ao Tivoly Velho; Príncipes, desde Imperatriz até a rua da Câmara Velha; Vinte de Fevereiro desde a praça Sete de Setembro a rua Marques de Caxias; Imperatriz até a rua Uruguaiana; Francisco Marques até Paisandú; Andrade Neves, até a praça 7 de setembro; Vileta até Uruguaiana; 16 de julho até Uruguaiana; Zalony até 20 de fevereiro; Andradas até Uruguaiana; Marques de Caxias até a dos Príncipes; Beco do Castro até a rua dos Príncipes; os dois Becos da Matriz até a praça da mesma Matriz; General Netto desde a rua General Osório até a praça da Matriz; Câmara Velha desde a rua General Osório até a dos Príncipes; Eubank desde Riachuelo até a rua Pedro II. Foram feitos 81 cordões de pedra nas esquinas mais transitáveis “de sorte que desde o centro da cidade até a praça Marques do Herval, há trânsito enxuto a pé; carece-se ainda de alguns em lugares de menor trânsito. Monta em 57.500 metros quadrados o que se tem feito até hoje. O calçamento foi contratado em julho de 1874 a 4$800 a mão-de-obra por braça quadrada, inclusive o carreto da pedra. Em novembro de 1875, conseguiu-se contratar a 790 rs. o metro, havendo neste último contrato grande vantagem para os cofres da municipalidade”. Este detalhado relatório de 1876, ressaltou da grande dificuldade por falta de pedra, tendo que se comprar um carregamento do Rio de Janeiro por até 7$000 rs a tonelada e posteriormente de Pelotas a 6$480. Fez ainda um contrato de pedra de São Lourenço a 5$950 e de Porto Alegre a 5$900 e 6$000 rs. “A maior parte da pedra empregada no calçamento foi da vinda de S. Lourenço, por ser de melhor qualidade.”
Os proprietários de imóveis auxiliaram a Câmara com seus donativos para o calçamento, entrando para os cofres da Municipalidade a quantia de Rs 10:498$000. “Dispendeu-se até hoje 105:308$132 sendo: empréstimo concedido pela lei 90:000$000; ágio das apólices 1:120$000; auxílio dos particulares 10:498$000; dos cofres da municipalidade 3:690$132; total de 105:308$123” (Relatório 8 de janeiro de 1876).

          Nos relatórios foi possível constatar que: o deslocamento da areia, as inundações das ruas, a falta de nivelamento eram a realidade do centro urbano da cidade do Rio Grande na segunda metade do século XIX; a falta de material para o calçamento e o alto custo da aquisição, dificultou muito a compra de pedra frente aos escassos recursos municipais; os proprietários de imóveis foram chamados a participar do custeio das obras; as pedras tiveram quatro procedências: São Lourenço do Sul, Rio de Janeiro, Pelotas e Porto Alegre, especialmente da primeira localidade que teria vindo a pedra de melhor qualidade; os esforços da Câmara para promover o calçamento das ruas foi sistemático entre 1855 e 1876; os trabalhos mais antigos de calçamento foram executados no período de 1857 a 1862 restringindo-se a poucas ruas: Rosário (atual Dr. Laureano), do Poço (na atual praça Sete de Setembro), da Alfândega (atual Andradas), Zalony, Francisco Marques, do Arsenal (atual Eubank), do Carmo (atual Benjamin Constant); as grandes obras com mais de 57.000 metros quadrados foram executadas entre 1874 e 1875; a Câmara investiu parte dos escassos recursos da municipalidade o que não permitiu um ritmo acentuado nas obras, não recebendo auxílio financeiro da Província; somente ao recorrer a Assembléia Provincial para autorização de um empréstimo de 90 contos de réis é que as obras apresentaram um ritmo acelerado.