Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

terça-feira, 3 de novembro de 2026

LA CÔTE d'AZUR (1910)

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Cartão colecionável da empresa Chicorée Arlatte e editada por Raphael Tucks & Fils (fundada em Londres em 1866). O cartão com o tema "La Côte d'Azur" foi lançado em 1910. 

A Chicorée Arlatte & Cie foi uma tradicional empresa francesa fundada em Cambrai (norte da França) no ano de 1888. Produzia e comercializava chicória que era um substituto ou complemento do café. Seus cartões comerciais colecionáveis traziam temáticas de paisagens geográficas, cenas históricas e trajes típicos de inúmeras sociedades. 

A gravura retrata a Costa Azul (Côte d'Azur) ou Riviera Francesa, uma parte da costa do Mar Mediterrâneo no sudeste da França.

O Mar Mediterrâneo ocupa o primeiro plano, pintado com reflexos coloridos que misturam os tons das embarcações com o azul do mar. Dois barcos de pesca tradicionais se destacam na paisagem e duas boias sinalizam a rota de navegação.

A técnica artística é a estética impressionista e pictórica que lembra uma pintura a óleo ou aquarela: a cena costeira utiliza pinceladas visíveis, suaves e texturizadas; há um foco marcante na captura da luz e nos reflexos coloridos distorcidos na água.

A frase "Partant pour la pêche" ("Partindo para a pesca") sintetiza a proposta de enfatizar a relevância da atividade pesqueira no Mediterrâneo. A atividade econômica apropriada pela expressão artística se voltou a uma paleta de cores nostálgica: predominam tons pastéis e terrosos, com contrastes suaves entre os laranjas/marrons quentes das velas dos barcos e os tons frios de azul e verde do mar e do céu, transmitindo uma atmosfera serena, bucólica e marítima. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

SELOS ANTIGOS DA GRÉCIA

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Card alemão do extrato de carne Liebig com uma série sobre "Selos Postais" editados em 1900.

Como filatelista amador, esta é uma das séries mais atraentes entre as centenas lançadas pela Liebig. Instiga a pesquisar a história dos selos em vários países do mundo. 

Observamos na gravura uma menina com trajes típicos da Grécia do final do século XIX. No centro, uma visão da Acrópole e do Partenon e outras estruturas, na cidade de Atenas.

Os três selos foram editados na Grécia em 1862 e 1886.

Os primeiros selos gregos foram emitidos a partir de 1861 e foram chamados de "Grandes Cabeças de Hermes". Foram gravados na França por Albert Barre e impressos por Ernest Meyer em 1 de outubro de 1861. Tinham sete valores diferentes em lépton. Em novembro de 1861 as chapas de impressão foram levadas para Atenas que assumiu as novas impressões.

Observem com mais detalhes o exemplar de 1861:

https://www.ebay.com/itm/388098096312

Em 1886, foi lançado um novo conjunto: "Pequenas Cabeças de Hermes", que inicialmente foi impresso na Bélgica e na sequência em Atenas.

Detalhes do selos impresso na Bélgica em 1886:

https://www.ebay.com/itm/265149365175

Percebemos que neste card Liebig foram reproduzidas às tiragens de "cabeça grande (1862) e pequena (1886)". Hermes é o deus mensageiro, ligado ao comércio, proteção, viagens e eloquência. 

Abaixo uma folha de selos que contempla exemplares de 1861 e 1886. 

https://www.ebay.com/itm/167697537149

domingo, 1 de novembro de 2026

NOVEMBRO (1900)

 

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Cartão colecionável publicado em 1900 pela empresa de torrefação de café Georges Dero, Antuérpia, Bélgica. 

O cartão Novembro (Novembre) faz parte de uma série sobre "Os Meses do Ano". 

A gravura em estética Art Nouveau reflete o clima do outono europeu. 

Vejamos alguns elementos que compõem a gravura: 

A mulher é retratada com elegância idealizada, típica da Belle Époque, e sua expressão é serena e contemplativa; ela segura crisântemos coloridos que, na Europa, é a flor tradicional do outono; a Art Nouveau valorizava as linhas sinuosas, assimétricas e inspiradas na natureza, integrando perfeitamente a moldura ao tema floral; ao fundo, as pinceladas e cores sugerem uma paisagem natural crepuscular ou um jardim com cores quentes de outono, criando uma atmosfera nostálgica e suave.

DOM QUIXOTE (1899)

 

https://www.flickr.com/photos/44841559@N03/55439966199/

Cartão publicitário belga da empresa Cibils editado em 1899. 

A gravura mostra Dom Quixote caído ao chão, vestido com sua armadura metálica, após o confronto frustrado contra o moinho. Sua lança está quebrada ao meio e seu escudo repousa ao lado. A expressão e a postura corporal transmitem a derrota física do personagem. O cavalo, aparece magro e estático, reforçando a atmosfera de exaustão e o aspecto tragicômico da cena original do livro. No centro e ao fundo, erguem-se grandes moinhos de vento. As pás em movimento simbolizam os "gigantes" que a mente de Quixote criou. A composição utiliza uma perspectiva que faz os moinhos parecerem imponentes diante da fragilidade do cavaleiro no chão.

A obra "Dom Quixote de la Mancha", escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes, é considerada o primeiro romance moderno do mundo e uma das maiores obras-primas da literatura universal. Publicada em duas partes (a primeira em 1605 e a segunda em 1615), o livro funciona como uma brilhante sátira aos romances de cavalaria que eram extremamente populares na época.

E qual é o enredo de Dom Quixote? 

A história acompanha Alonso Quijano, um fidalgo pobre do interior da Espanha que, de tanto ler histórias de cavaleiros andantes, acaba perdendo o juízo. Ele passa a acreditar que essas histórias são reais e decide se tornar ele mesmo um cavaleiro para defender os fracos e oprimidos. Ele adota o nome de Dom Quixote, veste uma armadura velha de seus antepassados, monta um cavalo magro e cansado chamado Rocinante, e escolhe uma camponesa analfabeta para ser sua dama idealizada, rebatizando-a de Dulcinea del Toboso.


Dom Quixote representa o Idealismo e a loucura romântica, a imaginação sem limites e a busca por valores nobres e utópicos em um mundo que já se modernizou e esqueceu a cavalaria.

Sancho Pança representa o Realismo, um camponês simples, prático e focado nas necessidades imediatas (como comer e dormir). Ele aceita acompanhar Quixote sob a promessa de se tornar governador de uma ilha. É a voz da razão e do bom senso que tenta, em vão, trazer o patrão de volta à realidade.

Os Moinhos de Vento é a cena mais famosa da literatura mundial, pois, Quixote enxerga moinhos de vento como "gigantes monstruosos" e os ataca com sua lança, terminando derrubado e machucado.

O obra deu origem a palavra "Quixotesco" que significa pessoas idealistas, ingênuas ou que lutam de maneira obstinada por causas impossíveis ou imaginárias.

sábado, 31 de outubro de 2026

O VAMPIRO DE HIGHGATE

Túmulos no Cemitério de Highgate por Ian Yarham, 2009. CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=14420103

O cemitério de Highgate, ao norte de Londres, foi inaugurado por anglicanos em 1839. Sua fama de mal-assombrado já era conhecida por Bram Stoker quando ele pesquisou para a escrita de “Drácula” e fez referência a Highgate como sendo o último lugar de descanso de um dos discípulos do Conde. A morte de Elizabeth Siddal, seu enterramento em Highgate e posterior exumação do corpo, influenciou a escrita da obra literária máxima do vampirismo. 

Em 1969, vários relatos contam da aparição de um espectro entre os túmulos do cemitério. A aparição era de um homem alto e assustador, com olhos vermelhos que petrificava as vítimas. Dezenas de relatos se seguiram e o clima de curiosidade foi crescendo numa sociedade londrina com grupos satanistas e ocultistas em profusão. 

Ocorre, no ano de 1970, a invasão do cemitério por caçadores de vampiros: túmulos profanados, corpos estaqueados e queimados, além de ampla divulgação na mídia com debates sobre a possível veracidade das aparições. 

A lenda urbana de que o vampiro de Highgate criara raízes e se difundia cada vez mais, apesar dos ocultistas e autoridades não chegarem a nenhuma conclusão sobre os eventos. O vampiro seria um visitante externo ou era um dos milhares de moradores enterrados no cemitério, sendo muitos deles famosos?

 *Em tempo! O túmulo de Karl Marx, Erik Hobsbawn e inúmeros personagens de destaque na História Contemporânea, estão enterrados neste cemitério privado. 

CARMILLA DE SHERIDAN LE FANU (1872)

 

Carmilla. Ilustração publicada no The Dark Blue e autoria de David Henry Friston (1872).


Joseph Thomas Sheridan Le Fanu (1814-1873) nasceu e faleceu em Dublin sendo conhecido pela publicação de contos góticos, história de fantasmas e romances de mistério. 

O conto “Carmilla” foi publicado em forma de folhetim em quatro capítulos na revista “Dark Blue” entre dezembro de 1871 e março de 1872 e integrado na coleção de Le Fanu “In a Glass Darkly” (1872). 

“Carmilla” é um dos casos misteriosos que foram investigados pelo personagem Dr. Martin Hesselius um especialista alemão em ciências ocultas. Hesselius é o primeiro investigador ocultista, o qual, antecede Van Helsing (de Bram Stoker) e o detetive Sherlock Holmes (de Conan Doyle). 

Stoker elaborou o romance “Drácula” entre 1890-1897 fazendo a leitura de várias fontes para construir sua narrativa, porém, a leitura de “Carmilla” foi decisiva: os primeiros manuscritos de Stoker remetem ao cenário geográfico de “Drácula” à Estíria na Áustria (onde se passa o conto de Le Fanu) e no “Hóspede de Drácula” é feita referência a uma tumba escrita em alemão sobre a Condessa Dolingen de Graz na Estíria com semelhanças de espaço e narração com Le Fanu; o uso da estaca para eliminar “definitivamente” o vampiro rompeu com a abordagem de Lord Ruthven e Varney cuja luz do luar os trazia de volta ao mundo dos vivos.

 Le Fanu e a estaca será marcante em Bram Stoker para eliminar Drácula; outra influência, é a transformação do vampiro em animais como é o caso da personagem Carmilla tomar a forma de gato enquanto Stoker, transforma Drácula em morcego e lobo; Carmilla e Lucy se apresentam como arquétipos de vampiras que atraem suas vítimas, atacam crianças para beber o sangue, são atraentes e bonitas, além de sonâmbulas; outro aspecto é a narrativa em primeira pessoa comum aos dois escritos.

Le Fanu. Por Desconhecido - Pinterest, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=42799496

A MORTE AMOROSA - GAUTIER (1836)

By Eugène Decisy / After Paul Albert Laurens, 1904. This file comes from Gallica Digital Library and is available under the digital ID bpt6k1525903t/f108, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=117975058

“Ao cortar uma fruta, dei por acaso um corte bastante profundo no dedo. O sangue imediatamente jorrou em filetes purpúreos e algumas gotas respingaram em Clarimonde. Seus olhos se iluminaram, sua fisionomia assumiu uma expressão de alegria feroz e selvagem que eu nunca havia visto nela. Pulou da cama com uma agilidade animal (...) e precipitou-se sobre meu ferimento, que começou a chupar com um ar de indescritível volúpia” (GAUTIER).

 O conto fantástico de Théophile Gautier “A Morte Amorosa” é considerado por Ítalo Calvino como o mais famoso e perfeito do escritor francês. Neste conto está presente de forma magistral a contraposição entre realidade e extraordinário - dualidade cara a literatura fantástica. 

O conto aborda os mortos-vivos e o narrador é o sacerdote Romuald que é tentado desde criança por uma mulher extremamente bela e elegante que o hipnotizou. Seu nome era Clarimonde que ressurgiu e passou a atormentar e enlouquecer Romuald. Na verdade, a linda mulher era uma vampira que colocou em cheque os votos religiosos do narrador. O conto foi apreciado por muitos literatos se tornando uma referência de conto gótico vampírico. 

Uma breve passagem é reproduzida a seguir: 

"É aqui mesmo!", disse Sérapion e, pondo a sua lanterna no chão, introduziu a alavanca no interstício da pedra, começando a erguê-la. A pedra cedeu e ele continuou o trabalho com a picareta. Eu o via trabalhar, mais sombrio e silencioso do que a própria noite; ele, curvado, continuava a sua obra fúnebre encharcado de suor, ofegante como se agonizasse. Era um espetáculo estranho, e quem nos tivesse visto, certamente teria nos tomado por profanadores ou ladrões de túmulos, nunca por padres. 
O zelo de Sérapion tinha algo de duro e selvagem, aproximando-o mais de um  demônio do que de um apóstolo ou anjo; seu rosto de traços austeros e profundamente marcados pela luz da lanterna não era nada tranquilizador. Eu sentia escorrer sobre os membros um suor glacial e meus cabelos levantavam-se dolorosamente na cabeça. Intimamente, considerava a ação do severo Sérapion um abominável sacrilégio, e gostaria que, do lado das nuvens sombrias que passavam sobre nossas cabeças, saísse um triângulo de fogo que o reduzisse a pó. 
Os mochos, empoleirados nos ciprestes, assustados pela luz da lanterna, vinham chicotear o vidro com toda a força com suas asas empoeiradas, soltando gemidos queixosos; as raposas uivavam ao longe e mil ruídos sinistros emanavam do silêncio. 
Finalmente, a picareta de Sérapion encontrou o caixão e a madeira estalou com um ruído surdo e sonoro, com esse ruído terrível que emite o nada quando tocamos nele; ele levantou a tampa e vi Clarimonde pálida como um mármore, com as mãos juntas; o seu sudário branco não tinha uma única ruga da cabeça aos pés. Uma pequena gota vermelha brilhava como uma rosa no canto da sua boca descolorida. 
Sérapion, ao vê-la, enfureceu-se: "Ah! Ei-la, demônio, cortesã impudica, devoradora de sangue e de Ouro!" E aspergiu então, com água benta, o corpo e o caixão sobre o qual traçou a forma de uma cruz com o seu hissope. A pobre Clarimonde mal tinha sido tocada pelo santo orvalho e o seu belo corpo já se desfazia em pó; dele só restou uma mistura horrivelmente informe de cinzas e ossos semi-calcinados. 
"Eis a sua amante, senhor Romuald", disse o inexorável padre, mostrando-me os tristes restos mortais; "sente-se ainda tentado a ir passear no Lido ou na Fusine com a sua beldade?" 
Baixei a cabeça; acabava de se fazer uma grande destruição dentro de mim. Regressei ao meu presbitério, e o senhor Romuald, amante de Clarimonde, separou-se do pobre padre ao qual fizera, durante tanto tempo, uma companhia tão estranha. 
Na noite seguinte, no entanto, vi Clarimonde; ela me disse, como na primeira vez sob o portal da igreja: "Infeliz! Infeliz! O que você fez? Por que escutou esse padre imbecil? Não era feliz? O que eu lhe fiz para que violasse a minha sepultura e expusesse a miséria do meu nada? A comunicação entre nossas almas e nossos corpos rompeu-se para sempre. Adeus, você sentirá saudades minhas."
 Dissipou-se no ar como fumaça e não a vi mais. ........Ai de mim! Ela falara a verdade! Senti saudades e ainda sinto. A paz da minha alma foi comprada por um preço muito alto; o amor de Deus não foi suficiente para substituir o de Clarimonde. Eis, irmão, a história da minha juventude. Nunca levante os olhos para uma mulher, caminhe sempre com eles fixos na terra porque, por mais casto e calmo que você seja, basta um minuto para perder a eternidade”.

By Eugène Decisy / After Paul Albert Laurens, 1904. This file comes from Gallica Digital Library and is available under the digital ID bpt6k1525903t/f68, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=117947872.

O PRIMEIRO POEMA VAMPÍRICO (1748)

 

Der Vampir. In: Der Naturforscher, 25/05/1748. Acervo: https://www.deutsche-digitale-bibliothek.de/item/ZCPCSEDC7A7UL5JN7WPOMABC3ZAJYD3D

Considerado o primeiro poema moderno sobre vampiros, “Der Vampir” foi escrito por Heinrich August Ossenfelder (1725-1801). Publicado em 25 de maio de 1748, o poema foi solicitado a Ossenfelder pelo editor (Christlob Mylius) do jornal alemão “Der Naturforscher”.

 A partir das lendas húngaras foi elaborado o poema fundado na tensão entre desejo e morte. A história é narrada pelo vampiro que conta como invade o quarto de uma jovem cristã e a seduz. Em contraponto, a jovem foi educada pela mãe nos preceitos do cristianismo. O vampiro é colocado como o antagonista corruptor da inocência e dos princípios religiosos cristãos personificados na jovem seduzida. Além disto, é incluído no poema a sensualidade que se tornará um tema inerente ao vampiro literário. 

Der Vampir:

“Minha amada jovem crê
 Constante, segura e firme 
Nos ensinamentos herdados 
Da sempre piedosa mãe. 
Como as gentes do Tisza
 Que em vampiros mortais 
Creem firmes com heiduques (antigos nobres húngaros).
 Aguarda então Cristina,
 Pois que amar-me não desejas; 
Anseio de ti vingar-me, 
E hoje brindo um tocai 
Beber a saúde de um vampiro.

 E quando tranquila dormires 
De tuas formosas faces 
Sorver o fresco purpúreo. 
E enquanto te amedrontares 
Conforme eu te for beijando 
Tal qual um vampiro beija; 
E quando enfim tu tremeres 
E enfraquecida em meus braços 
Caíres qual foras morta;
 Então te perguntarei: 
Não são minhas lições melhores 
Que as de tua bondosa mãe?”

VLAD TAPES III - DRACUL (1500)

 

Vlad III jantando em meio a uma floresta de empalados, 1500, xilogravura de panfleto, impressa por Matthias Hupnuff em Estrasburgo. Acervo: Germanisches Nationalmuseum , Nuremberg. https://dlib.gnm.de/item/8Inc16936/5.

Raymond MACNALLY e Radu FLORESCU em seu livro “Em busca de Drácula e outros vampiros” (Editora Mercuryo, 1995), deixaram o seguinte registro sobre Vlad Tapes III (1431-1476):

“Em uma galeria de bandidos, Drácula certamente competiria pelo primeiro lugar com César, Bórgia, Catarina de Médicis e Jack, o Estripador, ganhando não apenas pela quantidade de suas vítimas, mas pelo refinamento de sua crueldade. 

Para seus contemporâneos a história de sua maldade foi amplamente divulgada – em certos casos por algumas de suas futuras vítimas. A história de Drácula, de fato, foi um best-seller que correu a Europa quatrocentos anos antes de Stoker escrever a sua versão. 

Muitos dos registros de origem alemã do século XV da lenda de Drácula foram encontrados em arquivos empoeirados de mosteiros e bibliotecas. Drácula era de fato um autêntico príncipe da Valáquia do século XV, que foi frequentemente descrito em documentos alemães, bizantinos, eslavos e turcos do seu tempo, e em histórias de horror populares como um governante cruel, egoísta e possivelmente louco. Ele se tornou mais conhecido pela quantidade de sangue que indiscriminadamente derramou, não apenas o sangue dos turcos infiéis – os quais pelos padrões de seu tempo fariam dele um herói – mas pelo de alemães, romenos, húngaros e outros cristãos. Sua mente engenhosa concebeu todas as espécies de torturas físicas e mentais, e sua maneira favorita de matar fez com que se tornasse conhecido pelo nome de “o Empalador”. 

REVISTA SPEKTRO

 



A revista de história em quadrinhos Spektro foi publicada pela Editora Vecchi entre janeiro de 1977 a agosto de 1983, num total de 28 edições. 

Em outubro de 1979 tive contato com o número 12 e, nos anos seguintes, adquiri as edições de número 1 a 5. O Especial dos Vampiros (nº 5), despertou o interesse por leituras literárias ao reproduzir o texto de Bram Stoker "O Hóspede de Drácula". 

A revista de terror tinha em média 160 páginas em preto e branco. A capa colorida era um destaque que atraia os leitores. 

Neste dia de Halloween, reproduzo algumas capas com alguns momentos da magnífica arte da revista Spektro.  
 







sexta-feira, 30 de outubro de 2026

FRANCIS BURTON E O BAITAL (1870)

 

Richard Francis Burton. Vikram e o Vampiro. Londres: Longmans, Green, and Co. (1870). 
Ilustrações de Ernest Griset.


Sir Richard Francis Burton (1821 - 1890) foi um britânico que atuou como geógrafo, explorador, tradutor, escritor, soldado, orientalista, cartógrafo, etnólogo, espião, linguista, poeta, esgrimista e diplomata. 

Ele era famoso por suas viagens e explorações na Ásia, África e Américas, bem como seu extraordinário conhecimento de idiomas e culturas. Como capitão do exército britânico atuou na Índia e sempre buscava investigar a cultura popular e as crenças locais. Depois disso, ele foi contratado pela Royal Geographical Society para explorar a costa leste da África e liderou uma expedição guiada por locais e foi o primeiro europeu a visitar o Lago Tanganica. 

Entre os seus mais de 40 livros publicados está “Vikram e o Vampiro”. São narrativas indianas constituintes do seu riquíssimo folclore em que Bourton fez uma adaptação livre e não fidedigna do “Baital Pachisi” (“Vinte e Cinco Contos de Baital”). A primeira compilação escrita destes contos e lendas indianas foi escrito no século XI a partir de relatos muito mais antigos. O enredo se centra no Rajá Vikram que leva um baital ou vetala até um mago que deseja matá-lo. O mago está num cemitério e deseja a cabeça de Vikram para oferecer a Kali (deusa do Hinduísmo). O baital é um dos personagens principais e o livro publicado em Londres acaba por tornar conhecido no Ocidente o espírito que se apossa de cadáveres. 

O baital vive numa árvore pendurado de cabeça para baixo como um morcego e é uma crença milenar que constitui o amplo panteão indiano. Não é um monstro físico com carne e osso próprios. Ele é um espírito, um ser espectral e desencarnado que existe em uma dimensão entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Para interagir com o mundo físico, ele entra e habita corpos de pessoas mortas. Eles residem tipicamente em smashanas (campos de cremação indianos) e cemitérios, locais considerados ritualisticamente impuros e espiritualmente carregados.

Diferente dos vampiros ocidentais modernos (que são predadores sedentos de sangue), o baital/vetala não é intrinsecamente malévolo. Ele gosta de testar a inteligência, o ego e a moralidade dos humanos. Se for tratado com o devido respeito, subjugado por alguém de pura força de vontade (como o Rei Vikram) ou agradado com oferendas corretas, deixa de ser uma ameaça e se torna um poderoso aliado, oferecendo proteção e revelando conspirações.

BISCOITOS FRANCESES LU (1912)

 

https://www.flickr.com/photos/44841559@N03/9126082812/in/photostream/


Cartão da marca de biscoitos francesa Lefèvre-Utile (LU), fundada em 1846, que contratava pintores, ilustradores e cartazistas da Belle Époque para criar suas embalagens, cartazes publicitários e retratos promocionais. 

Destacados artistas desenharam para a LU, entre os quais: Alphonse Mucha, um dos maiores expoentes da Art Nouveau; Firmin Bouisset, criador da famosa ilustração do Petit Écolier que se tornou um dos símbolos mais tradicionais e duradouros dos biscoitos LU; Luigi Loir, conhecido por suas paisagens urbanas e ilustrações que ajudaram a moldar as campanhas estéticas da empresa; Gaston Bussière e Albert-Joseph Chantron, figuram entre os pintores de destaque que produziram obras de arte refinadas para promover os produtos da marca em alta sociedade. 

A história dos cartões publicitários (trade cards) da famosa marca de biscoitos francesa Lefèvre-Utile (LU) está profundamente ligada à evolução do marketing moderno e à era de ouro da ilustração artística no final do século XIX e início do século XX. 

O autor da obra Beauty, de 1899, é Étienne Adolphe Piot (1850-1910) e o cartão comercial da LU, reproduzido acima, foi editado em 1912. 

O PRIMEIRO VAMPIROLOGISTA (1645)

 

De Graecorum..., 1645. Acervo: Universidade de Granada. https://digibug.ugr.es/handle/10481/95403

Leo Allatius, também conhecido como Leone Allacci, foi, provavelmente, ainda no século XVII, o primeiro vampirologista do mundo, e, provavelmente, o primeiro autor moderno de um livro sobre vampiros. 

Nascido em 1586 em Chios, uma ilha grega, foi morar em Roma em 1600 para estudar no Colégio Grego e, após o encerramento dos seus estudos, ele retornou a Chios como assistente do bispo católico Marco Giustiniani. Alguns anos depois, ele voltaria à Itália para estudar medicina e retórica, chegando a trabalhar vários anos na Biblioteca do Vaticano.

 Em 1661 foi nomeado curador, vindo a morrer, em Roma, em 19 de janeiro de 1669. Em 1645, Allatius terminou a obra “De Graecorum Hodie Quirundam Opinationibus“, que discutia as crenças e tradições dos povos da Grécia, fazendo uma cobertura detalhada das tradições vampíricas de seu país. 

Um dos pontos altos da obra é a descrição do vrykolakas, corpo não decomposto tomado por demônio, e os procedimentos da Igreja grega quanto às providências a serem tomadas. Pouco depois, o próprio Allatius confirmou suas crenças na existência de vampiros, narrando casos surgidos em Chios. Apesar de sua crença na existência de vampiros, Allatius não se esforçou em aprofundar mais sobre o tema. Mesmo assim, sua obra popularizou o vampirismo na Europa e o relacionou à Grécia, relação esta que foi alimentada até o final do século XIX, quando o mito do vampirismo foi deslocado mais para o Leste Europeu (muito devido a obra “Drácula“, de Bram Stoker). 

Também podemos notar que a obra de Leo Allatius não faz julgamentos severos quanto aos mitos que descreve, principalmente o vampirismo, e tal não se deve apenas pelo fato dele acreditar em vampiros: um dos esforços de Allatius foi o de unir as Igrejas grega e romana, o que deixou suas apresentações das crenças locais mais delicadas, pois, de acordo com suas convicções, elas precisavam ser aceitas em Roma como uma extensão da cultura local, e não como heresias.

Leo Allatius. Lit. Fili. Doyen, Turim, 1872. https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

SURGIMENTO DA PALAVRA VAMPIRO (1725)


https://serbianvampires.weebly.com/wienerische-diarium.html

Um dos clássicos relatos de vampiros ocorreu na vila de Kisilova, na Sérvia quando ocupada pela Áustria. 

O assunto obteve divulgação, pois o relatório do administrador militar austríaco Ernest Frombald do Distrito de Gradisker (enviado pelo Imperador da Áustria para a região) foi publicado no Wienerische Diarium  (Diário de Viena) de 21 de julho de 1725 e reproduzido em outros jornais europeus. 

O personagem central é agricultor Peter Plogojowitz com aproximadamente 60 anos de idade, que faleceu e supostamente retornou do túmulo. Dez semanas após sua morte ele passou a ser visto por familiares e vizinhos. Nove pessoas afirmaram terem visto o falecido que tentara inclusive estrangulá-los. No prazo de uma semana dos contatos estas pessoas morreram. Inclusive a viúva de Plogojowitz foi visitada pelo falecido que lhe pedira seus sapatos para ir até outra vila. 

Foi relatado que ele pediu comida ao filho e que os aldeões que faleceram, se sentiram cansados devido à perda de sangue. Durante o sonho eram visitados por Plogojowitz que sugava sangue dos seus pescoços. Com o clamor dos moradores de que a vila seria destruída pelo vampiro, as sepulturas foram abertas e Peter apresentava aparência normal com pele fresca, tendo seu cabelo e unhas crescido, estando a sua boca suja de sangue fresco. Foi introduzida uma estaca no coração o que fez o sangue jorrar copiosamente da boca e das orelhas. O último passo, acompanhado também de um padre, foi os aldeões queimarem o corpo. 

Frombald conclui seu relatório sobre o ritual antivampiro com o pedido de que, caso essas ações fossem erradas, ele não deveria ser culpado por elas, pois os aldeões estavam "fora de si e com medo". As autoridades aparentemente não consideraram necessário tomar quaisquer medidas em relação ao incidente. 

Os relatórios de autoridades e posteriormente de militares austríacos foram essenciais para a divulgação do vampirismo nos grandes centros intelectuais europeus.

Neste relato surge a palavra que vampyr (vampiro) que se tornou referencia para definir estes fenômenos. Possivelmente, foi uma corruptela da palavra eslava upior e vrykolakas. 

RITUAL ANTIVAMPIRO (1755)


Berlinische Priviligirte Zeitung (Berlim) quinta-feira, 2 de abril de 1755.

O relato de vampirismo a seguir, foi publicado em meados do século XVIII. Está relacionado a uma mulher praticante de curandeirismo e esclarece da prática do ritual antivampiro: o túmulo é profanado e o corpo tem a cabeça cortada, o coração perfurado com uma estaca e o corpo queimado numa fogueira. Um último aspecto do ritual antivampiro é lançar as cinzas em água corrente de um córrego ou rio. 

A fonte é o jornal Berlinische Priviligirte Zeitung de quinta-feira, 2 de abril de 1755, publica a notícia de eventos ocorridos em fevereiro do mesmo ano em Hersmsdorf na Alta-Silésia:

 "Rosina Polakin era uma bruxa que praticava curandeirismo e reapareceu como vampira dois anos e meio depois de sua morte atacando muito aldeões que se transformaram em vampiros. Trinta túmulos foram escavados e foram identificados vinte vampiros que apresentavam sangue depois de um ano de sua morte. Suas cabeças foram cortadas, os corações perfurados e os corpos queimados até virarem cinzas". 

A rainha da Áustria Maria Teresa, mandou publicar um “decreto vampiro” (em 1 de março de 1755) para proibir a profanação de cadáveres e combater a superstição ligada aos mortos-vivos que resultava em inúmeras profanações em cemitérios.

 Retomando o tema, o jornal Berlinische Priviligiren Zeitung do dia 8 de maio de 1755 declara apoiar a rainha Maria Teresa no combate aos violadores de túmulos para que estes fossem punidos com rigor pois nova profanação ocorreu em Hersmsdorf.