Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

terça-feira, 29 de maio de 2018

A VILA OPERÁRIA DA RHEINGANTZ

         Faremos uma incursão no livro de Vivian Paulitsch Rheingantz: uma vila operária em Rio Grande (Editora da FURG, 2008). O trabalho da autora desvelou a construção e funcionalidade da Vila Operária, constituindo num livro de suma importância e de consulta obrigatória num momento histórico em que precisamos nos voltar para as raízes que constituíram a trajetória histórico-cultural da cidade.
          Fundada em novembro de 1873, a Rheingantz foi uma empresa pioneira na produção de tecidos e panos de lã. A fábrica original funcionava nas proximidades da praça Marcílio Dias nas esquinas da Silva Paes com Barroso. Em 1885 inaugura suas novas instalações na Cidade Nova, começando a edificação do complexo arquitetônico hoje conhecido. Além dos prédios de produção e administração, foi construída a Vila Operária para que os trabalhadores morassem junto à fábrica.
O ato de inauguração foi registrado pelo jornal Echo do Sul do dia 7 de março de 1885: “O crescente desenvolvimento que tomou este estabelecimento aconselhou os Srs. Rheingantz e C. a mudarem sua fábrica de tecidos de lã para o grande terreno onde se acha a tinturaria e onde foi construído o vasto edifício, cujas obras foram inauguradas no dia primeiro do corrente com a assistência de Suas Altezas Imperiais. É a prova de fogo. A coberta de ferro. Ocupa o principal edifício uma área de 3.300 metros quadrados, não incluindo a grande casa do novo motor, inaugurada no dia primeiro do corrente e a que se deu o nome de Grão Pará. Este morto é de força de 150 cavalos. O edifício tem 35 janelas de frente, outras tantas de fundo e 8 de lado. (...) Os maquinismos são dos conhecidos fabricantes Platt e Brothers, de Oldham (Inglaterra). Em junho próximo devem as duas fábricas funcionar com regularidade, empregando cerca de 400 operários”. Posteriormente, a fábrica empregava em média 1.200 operários chegando a picos de produção intensa com 2.000.
Conforme Vivian Paulitsch, após a construção das casas da fábrica a partir de 1884, as demais construções de semelhante tipologia foram edificadas entre 1903 e 1922, constituindo a denominada Vila Operária. A localização desse conjunto de habitações dá-se pela avenida Presidente Vargas (ex-Avenida Rheingantz), rua América, rua 1° de Maio e rua Raul Barlém (ex-Rua Brasil). A ampliação das moradias operárias deu-se na virada do século, quando foram construídos outros prédios, como o Cassino dos Mestres, o Grupo Escolar, o Jardim de Infância, seis casas para mestres e mais seis para operários.
         Conforme a autora, a importância da manutenção deste acervo edificado também está em que os construtores estabeleceram uma dialética com uma cultura arquitetônica daquele momento que se reflete na conformação das residências. A propriedade é única em termos de conjunto edificado, pois foram demolidas as vilas que existiram nos bairros mais antigos da cidade de São Paulo, como Bom Retiro, Brás, Mooca, Belém, Belenzinho, Lapa e Ipiranga, que eram repletos de vilas construídas junto às fábricas.

         No livro ainda é enfatizado que a Vila Operária está direta e materialmente ligada à história da industrialização do Rio Grande do Sul e a da tradição de criação de animais que caracteriza o Estado. O complexo Rheingantz é um patrimônio cultural, compreendendo obras de arquitetos, criações anônimas de construtores surgidas da alma popular e um conjunto de valores histórico-culturais que dão sentido à vida dessa vila naquele período histórico. Portanto, faz parte de uma cultura arquitetônica daquele tempo e pode-se claramente observar que os construtores – dos quais não há informações atualmente – conheciam certos modelos internacionais, pois existe um ambicioso desenho dentro do contexto desse conjunto de habitações. Vivian também enfatiza que a identidade e o caráter da Vila Operária Rheingantz tem suma importância não só por sua estrutura física, mas também por suas características sociológicas – considerando sua integração ao processo vivo do local em relação ao que denominam Vila Alemã ou Casas da Rheingantz.





Quadro com parte do complexo Rheingantz/União Fabril (em primeiro plano o prédio da administração) no ano de 1923. Centralizando a imagem dos administradores está Carlos Guilherme Rheingantz. 

Cartão-postal de parte do complexo Rheingantz por volta de 1920. Em destaque o prédio da administração e a circulação do bonde urbano.


segunda-feira, 21 de maio de 2018

A HISTORICIDADE INDÍGENA

Os conceitos de Pré-História e História definem modos-de-ser e agir, exclusão e inclusão dos participantes de um processo a partir de motivações sociais, políticas e econômicas, situando-se - em e além - de querelas acadêmicas entre antropólogos, arqueólogos e historiadores.
A natureza do “histórico”, a transição, exclusão e complementaridade das populações do “Pré” frente à inserção no “histórico” é um campo complexo que permite diferenciadas leituras.
         A caracterização dos agentes históricos e pré-históricos e seu papel na formação do Rio Grande do Sul tem sido objeto de investigação desde os primeiros estudos historiográficos na primeira metade do século XIX. A delimitação entre História e Pré-História é preocupação implícita e explícita. A tentativa em demarcar o “início da história” não evidencia apenas um marco cronológico, mas também uma preocupação historicizante. Ou seja, destituir de historicidade os agentes anteriores ao marco delimitador do desencadear do processo civilizatório, - seja de orientação jesuítico-missioneira ou luso-brasileira-, é no mínimo artificioso.
         As populações indígenas que ocupavam a metade sul do atual estado do Rio Grande do Sul antes do contato com as frentes de expansão luso-brasileira ou hispano-americana constituíram outras leituras históricas que não se resumem as versões européias.  A história européia como marco da historicidade é redutora de um raciocínio de longa duração, pois os povoamentos pré-históricos recuam aos últimos doze milênios e não aos últimos quatro séculos.
Portanto, os cortes cronológicos e culturais entre o Pré-Histórico e Histórico não convergem para referenciais intocáveis, e sim para historicidades complexas dinamizadas no contato entre indígenas e europeus. O estatuto de selvagem e civilizado, de cidadão e de pária, além de ser etnocêntrico, não é de simples definição.
A ocupação da atual unidade administrativa denominada Rio Grande do Sul processou-se numa longa duração temporal e na diversidade de adaptações aos diferentes ambientes. Os grupos de caçadores, coletores, pescadores e horticultores que povoaram a Bacia Platina Oriental desde o final do pleistoceno deixaram evidências materiais de sua cultura nos artefatos líticos, cerâmicos, representações artísticas, nos padrões de ocupação etc.
Após a chegada dos europeus, a etnografia registrou a presença de populações Charruas e Minuanos nos espaços pampianos. Desses contatos entre ibéricos e índios resultou uma série de influências, desejadas ou indesejadas aos colonizadores, que inviabiliza as noções de mera substituição da cultura indígena pela européia. As sociedades ibero-americanas incorporaram parte da herança cultural, social e biológica dos indígenas. Concomitante ao etnocídio e genocídio, ao cruzamento racial e disseminação de “gauchos”, o universo colonial indígena não desapareceu com o simples desejo de esvaziar os espaços “não-civilizados”. A “terra de ninguém”, como referência a territórios ocupados por indígenas, foi o cenário onde se desenrolaram relações complexas com o colonizador, e não um súbito desaparecimento étnico-cultural frente à chegada dos “portadores de historicidade”.
A etnografia registra a presença de charruas e minuanos no corredor fisiográfico que liga a latitude da Barra do Rio Grande até a Colônia do Sacramento no Rio da Prata. As tropelias oriundas das lutas entre Portugal e Espanha pela posse da região Platina Oriental, estabeleceu a estas populações contatos civilizatórios que levaram a mudança dos padrões culturais de sobrevivência e ao cruzamento biológico que produziu o gaúcho ou “gaucho”, um produto fenotípico do pampa adaptado a um modo-de-vida que antecede o estabelecimento da civilidade e dos cercamentos dos campos até meados do século XIX.

Este gaúcho histórico, um centauro índio/europeu percorreu as coxilhas, a planície costeira e as terras platinas num período de aventureiros, caudilhos, changadores e vaqueanos e que constituíram grande parte da peonada das estâncias da fronteira sul. Foi à adaptação parcial de um modo-de-ser nômade típico das populações Charruas e Minuanos. Estes indígenas conheciam a geografia da sobrevivência pampiana antes da civilidade européia fechar os espaços de deslocamento e as frentes de fricção luso-espanholas, promoverem as lutas platinas que dizimaram milhares de indígenas, mas, que não apagaram sua presença na história rio-grandense e do Rio da Prata. 

Índios Pampeanos. Carlos Morel cerca de 1830. MNBA de Buenos Aires. 

Minuanos no Uruguai. Segunda metade do século XIX. 



Cacique Vaimaca por volta de 1830.



sexta-feira, 18 de maio de 2018

SUPERMAN – 80 ANOS / HQ & GRAPHIC NOVEL

Superman começou a ser concebido em 1933 e a não aceitação da publicação desta História em Quadrinho por editoras americanas levaram um de seus criadores, Joe Shuster a atear fogo ao material. Restou apenas a capa já com o nome The Superman. Passaram-se cinco anos e o personagem foi remodelado por Shuster e Jerry Siegel surgindo sua primeira história na revista Action Comics #1 em junho de 1938 (como as revistas nos EUA colocavam na capa a data de dois meses após o lançamento, possivelmente a revista circulou em abril de 1938). Um personagem fadado ao esquecimento acabou revolucionando as HQs e a revista em que surgiu o Superman chegou a ser vendida por US$2,16 milhões cujo dono era o ator Nicolas Cage. Em 2014 um novo recorde foi batido: um exemplar foi vendido num leilão do e-bay por US$ 3,2 milhões se tornando a HQ mais cara já vendida.  Dos 200 mil exemplares lançados em 1938 cerca de apenas 100 exemplares são conhecidos e tidos como preciosidades.
O imenso sucesso alcançado fez com que a revista, em 1939, alcançasse uma tiragem de 500 mil exemplares fazendo surgir uma nova revista com o título de Superman. Nascia a Era de Ouro dos Quadrinhos que remete a criação de vários personagens de super-heróis que popularizaram a arte seqüencial: Batman, Capitão América, Capitão Marvel e Mulher Maravilha (entre tantos outros personagens que chegaram aos tempos atuais).      
Superman inaugurou o super-herói moderno e modificou a perspectiva da abordagem dos quadrinhos: integrou num personagem os estereótipos de superpoderes, origens pseudocientíficas, identidade secreta, rotina do dia-a-dia dos mortais inclusive sendo um trabalhador etc.
O personagem foi o responsável pela projeção da DC Comics, empresa surgida em 1934 que é a pioneira nos quadrinhos estadunidenses: não fazia apenas a reimpressão das tiras de jornal, como outros grupos. Em 1939 foi lançado Batman e a DC Comics, entre altos e baixos, chegou ao presente como uma das maiores empresas do mundo (atualmente subsidiária da Warner Bros.).    
Ao longo das décadas o personagem foi sendo modificado e passou por construções éticas que o afastaram da agressividade original - onde matava os vilões sem a necessidade da atuação do poder judiciário.   
         Para recordar o enredo: o Extra-Terrestre Kal-El originário do planeta Krypton e filho de Jor-El e Lara Lor-Van, foi lançado num foguete ao espaço enquanto Krypton estava explodindo. Ainda bebe, foi recebido afetuosamente no Planeta Terra por seus dois novos pais (adotivos) e foi desenvolvendo os superpoderes que propiciaram milhares de histórias em quadrinhos, roteiros para TV, filmes e uma gama de produtos. Superman tornou-se o mais conhecido personagem criado pelos criados e que neste ano de 2018 completa 80 anos.

HQ & GRAPHIC NOVEL 


Capa do esboço de Superman de 1933. Rejeitada pelos editores.

Primeira aparição do Superman em 1938 na revista Action Comics.  

Revista Superman que foi encontrada na parede de uma casa que seria demolida. Foto: AP.


Action Comics #1. 



Primeiro número da revista Superman em 1939.
Superman n.1 no Brasil, novembro de 1947.





GARIBALDI E DUMAS NA BATALHA DE SÃO JOSÉ DO NORTE

“Na mão de um homem de coragem, qualquer arma serve – uma foice, um mosquete, um machado, ou até um prego na ponta de um pau”. Giuseppe Garibaldi (1807-1882)

GIUSEPPE GARIBALDI

Segundo Hermann Viola, apesar da precariedade dos conhecimentos de Garibaldi sobre estratégia militar, este tinha uma capacidade instintiva de avaliar corretamente uma situação de confronto com o inimigo e de reagir a ela da melhor forma possível. A aura de humildade que o cercava e sua falta de ambições pessoais também contribuiu para seu sucesso. Teria direito a honrarias e recompensas, mas elas não lhe interessavam. Morreu tão pobre e humilde como sempre viveu. Apoiando-se apenas na coragem dos seus homens, sem sequer tentar descobrir as fraquezas do inimigo, Garibaldi recorria com freqüência a ataques frontais e suicidas de pequenos destacamentos pouco armados contra batalhões de soldados de carreira, mais numerosos, bem treinados e portadores de armas modernas e farta munição. Como resultado, perdeu alguns dos seus melhores oficiais e ele próprio poderia ter morrido em combate, caso a providência e a sorte não fossem suas companheiras constantes.
Quaisquer que tenham sido seus erros, porém, não há dúvida de que Garibaldi foi um brilhante guerreiro e um patriota sincero. Seu infatigável e revolucionário espírito de justiça explicam sua preocupação pelas questões sociais até o fim da vida. Opôs-se ativamente contra a pena de morte e apoiou o socialismo. “O futuro da Itália pertence às classes operárias”, declarou pouco antes de morrer.

A BATALHA DE SÃO JOSÉ DO NORTE

       Esta Batalha foi um dos confrontos decisivos da Revolução Farroupilha e representou uma derrota para os revolucionários. A tentativa de tomada de São José do Norte no dia 16 de julho de 1840, um confronto entre 600 imperiais contra 1200 farroupilhas resultou em 72 mortos, 87 feridos e 84 prisioneiros do lado do Império e em 181 mortos, 150 feridos e 18 prisioneiros do lado Farroupilha. Que o combate foi tenaz e encarniçado o mostram as perdas recíprocas, sendo este um dos mais sanguinolentos confrontos desta guerra. Na visão do monarquista Tristão Alencar Araripe o “tempo era frio e tempestuoso, e os assaltantes encobertos pelos cômoros de areia que cercam a vila, puderam aproximar-se sem serem pressentidos pelas sentinelas da guarnição legal. Pela uma hora da madrugada começa o assalto: os rebeldes penetram nas trincheiras e dominam a praça. A guarnição dela, sob o comando do Coronel de legião Antonio Soares de Paiva, pôde ser socorrida por gente da vizinha cidade do Rio Grande, e conseguiu expulsar os rebeldes. O conflito durou nove horas. O socorro foi escasso em conseqüência do temporal, que então agitava às águas, que separam os dois lugares; bastou, porém para animar a guarnição agredida. A resistência das forças legalistas valeu a São José do Norte o título outorgado por D. Pedro II de mui heróica Vila.

 O DIÁRIO 

         Conforme Garibaldi em seu diário redigido por Alexandre Dumas (1802-1870), as forças do Império, a fim de realizarem incursões na campanha, foram forçadas a desguarnecer de infantaria as cidades fortificadas, como é o caso de São José do Norte que se apresentava vulnerável frente a um ataque fulminante. Segundo ele, esta cidade situada na margem setentrional da embocadura da Lagoa dos Patos era uma das chaves da Província, tanto no aspecto político quanto no comercial. Seu controle significaria a conquista de uma saída para o mar num momento difícil para as forças farroupilhas. “Sua tomada, mais do que útil, tornava-se imprescindível”. Na cidade encontravam-se produtos de todo o gênero, necessários à indumentária de combate que era de “qualidade lastimável do lado farroupilha”, além disso, seria o controle do único porto marítimo da Província.
         Porém, a desventura perseguiu a ação militar, a qual foi “conduzida com uma admirável sabedoria e em absoluto segredo, os seus frutos foram inteiramente perdidos por ter-se hesitado a desfechar o golpe final. Uma marcha obstinada de oito dias e de vinte e cinco milhas diárias conduzira-nos até os muros da praça-forte”.
         Conforme Garibaldi tudo aconteceu numa “daquelas noites de inverno, no curso das quais abrigo e fogo são como favores da Providência. Nossos pobres soldados da liberdade, famintos e esfarrapados, com os membros entorpecidos pelo frio, o corpo regélido sob a cordoada de uma terrível tempestade – nossa companheira durante a maior parte do percurso – avançavam silenciosos contra fortes e trincheiras ocupadas por sentinelas. Os cavalos dos chefes foram deixados sob a guarda de um esquadrão de cavalaria comandado pelo coronel Amaral a uma pequena distância das muralhas, e cada homem, reunindo o resto das suas forças, preparou-se para o combate.
O alerta dado por um sentinela serviu como toque de atacar. A resistência das muralhas foi fraca e fugaz, malgrado o fogo arrojado pelos canhões do forte. À uma e meia da madrugada começáramos o assalto e, às duas horas, apossávamo-nos dos redutos imperiais e de três ou quatro fortificações que as guarneciam, todas tomadas pelo assédio das baionetas.
Senhores de todo o baluarte, senhores dos bastiões, consumada a incursão na cidade, parecia impossível que ela nos escapasse. Pois bem! Ainda uma vez, o aparentemente irrealizável cumpria a sua sina. Tendo ganho as ruas no intramuros de São José, nossos soldados presumiram que tudo estava liquidado: a maior parte deles dispersou-se, atraído pelo engodo da pilhagem.
Enquanto isso, refeitos da surpresa, os homens do Império reuniram-se numa zona protegida da cidade. Nós a atacamos. Eles nos rechaçaram. Os chefes procuraram por toda parte os soldados que multiplicariam os ataques, mas a procura foi inútil: quando alguns eram encontrados, via-se que estavam entretidos com os seus espólios, ou bêbados, ou então com os seus fuzis quebrados ou avariados de tanto que haviam violado e rompido as portas daquelas casas.
Quanto ao inimigo, ele não perdia o seu tempo. Vários navios de guerra que se achavam atracados no porto tomaram posição atravessando as suas baterias de tiro pelas ruas onde nos encontrávamos. Enviamos chamados de auxílio a Rio Grande, cidade localizada na margem oposta da embocadura dos Patos. Um único forte, cuja ocupação havíamos negligenciado, servia de refúgio ao inimigo, e o maior de todos, o Forte do Imperador – que tomáramos durante o morticínio de um glorioso assalto -, acabou sendo devastado por uma terrível explosão do paiol, que dizimou um bom número de homens. Em suma, o mais retumbante dos triunfos havia-se transformado, por volta do meio-dia, na mais humilhante das retiradas.
Os bons choravam, irados e desesperados. Diante da nossa situação e face aos esforços que empenháramos o nosso fracasso fora colossal. A partir daquele momento, a nossa infantaria não seria mais que um esqueleto. Quanto à diminuta cavalaria que fizera a expedição, ela empregou-se a proteger a retirada. A divisão retornou a seus aboletamentos de Bela Vista. Eu fiz estação, com a marinha, em São Simão. Toda a minha tropa resumia-se a cerca de quarenta homens entre oficiais e soldados”. 

Garibaldi em Nápoles (1861), Library of Congress.



quinta-feira, 17 de maio de 2018

CAFÉ BRASILEIRO

No livro publicado em 1905, O Brasil de Hoje, o Barão Francisco Homem de Melo discute assuntos de cultura e política de seu tempo. Um tema que ele tratou foi sobre o “preconceito” que o café brasileiro sofria na Europa. Isto parece ficção, pois, desde 1840, o café era o principal produto da balança comercial brasileira e foi responsável pela formação de uma sólida aristocracia cafeeira que defendeu a Monarquia, mas abandonou o navio à deriva quando da Proclamação da República (1889). Na República Velha o café continuou a mandar na economia brasileira e propiciar, através dos capitais oriundos da cafeicultura, a supremacia paulista na industrialização brasileira.  
A desvalorização ou até desconhecimento do café brasileiro foi narrado por Homem de Melo: “O certo é que o nosso café continua, em Paris, Londres, Berlim, Roma, Nápoles, a ser exposto à venda, com letreiros bem visíveis que o dão como originário de Moka, Java, Guadalupe, México e até Mont Pellé! Em diversas localidades, constatando a falsa designação dada ao nosso café, a pretexto de comprar, pedíamos nos servissem gênero de procedência brasileira. Ninguém o conhecia, e algum negociante que dele tinha notícia não o vendia no seu estabelecimento, porque não era... bon marché. No mostrador de uma loja de Genebra, vi anunciado à venda Café Santos. Entrei e pedi - café brasileiro. O proprietário da casa respondeu-me que não tinha, nem conhecia essa marca. - Mas, este Café Santos de onde procede? - Ora, da República da Argentina”.
Atualmente, um dos orgulhos dos brasileiros é a qualidade do seu café! Terão fundamento estas afirmações do descrédito do nosso café?
Conforme Eduardo César no artigo “Do Café Rio aos Microlotes Especiais - Uma breve história da qualidade dos grãos brasileiros” (https://coffeeinsight.com.br) a reputação do Brasil como produtor de cafés de baixa qualidade remonta ao século XIX. Para César, “diversos fatores contribuíram para que essa imagem se formasse, e alguns ainda estão presentes na cafeicultura moderna. A fama dos concorrentes como produtores de qualidade também teve origem naquela época. Por volta de 1840, o Brasil já era o maior exportador de café do mundo. Até o final do século sua participação nas exportações globais chegou a 80%. O domínio do mercado cafeeiro pelo nosso país foi, sem dúvidas, um grande feito, mas isso ocorreu por meio da venda de grãos inferiores”. Os cafés eram classificados em Brazils (café amargo ou Café Rio) e milds (suaves). No Brasil não havia colheita seletiva e os grãos eram colhidos e misturados com diferentes tipos de café. “A secagem e o beneficiamento eram muito rudimentares. O clima e a altitude das lavouras brasileiras também contribuíram para a imagem negativa. Logo se percebeu que o café nacional tinha menos corpo e acidez que os de outras regiões”. A produção de café era volumosa, mas não se buscou a produção da cafés superiores visando um mercado mais refinado de paladar.
Não devemos confundir a busca de qualidade diferenciada no mercado internacional com o ato do consumo de café no Brasil e a satisfação em degustar marcas consagradas industrializadas ou torrefações e moagens artesanais que se espalhavam pelas cidades (formando um mercado local): gerações foram marcadas pelo odor emanado de uma xícara de café saboreado em casa ou numa cafeteria lotada de consumidores. Sociabilidades familiares e públicas se constituíram em torno do café...
A busca foi outra: somente nos anos 1990 é que a pesquisa brasileira voltada a cafés de qualidade superior foram sendo implementadas de forma positiva. “Novas práticas e tecnologias foram criadas e disseminadas nas regiões produtoras”. As exportações de cafés diferenciados crescem continuamente e os grãos brasileiros são “sinônimo de qualidade. O país é o principal fornecedor de grandes torrefadoras internacionais, conhecidas por exigirem padrões específicos”.

Mais de um século após as afirmações de Homem de Melo sobre o desconhecimento e preconceito ao café brasileiro (o mesmo café que era consumido acreditando ser de outras procedências...), o nome “Brazil” estampa não apenas sacas (60 kg) mas também as embalagens de edições especiais que são vendidas no planeta. 



Pé-de-café, Marc Ferrez, final do século XIX. 

Pintura de Portinari, café, 1934.

Propaganda de café brasileiro em Portugal.



quarta-feira, 16 de maio de 2018

SINISTRO MARÍTIMO

“Dentro da noite na calma habitual de nossa pacata cidade um navio desusado, iniciou-se de momento prezo de um dinamismo invulgar que tinha qualquer coisa de angustioso. Depois, alarmados e consternados os raros que dela tiveram ciência, a nota célere levou a notícia trágica de que um vapor na barra, prestes a assobrar ingentemente clamava socorro. Do Porto Velho, o apito demorado e alarmante dos rebocadores era um apelo decisivo a marujada da terra conclamando-a para o cumprimento do dever. Fogos acesos, máquinas que se movimentam, fumo nas chaminés tudo indica a atividade infatigável dos homens do mar. Eles sabem melhor do que ninguém antever o espetáculo dantesco do mar em fúria arrastando no pináculo aguçado o espumante das ondas, as últimas esperanças do náufrago aflito. Por isso trabalham. As caldeiras fervem, as fornalhas atiram o clarão rubro para o dorso suorento do carvoeiro que tem um movimento rítmico e apressado, lançando carvão... Quando a manhã brevemente bordou de ouro as franças das árvores e as beiras dos telhados umedecidos, a notícia corria já brandando a plenos pulmões na boca dos madrugadores, dizendo do sinistro que enchera a noite de pavor. Assim, infatigáveis, na faina de melhor servir a nosso público, o dia nos encontrou na lida, prosseguindo na tarefa árdua”. (Eco do Sul, 06 de fevereiro de 1933).

O FATO
Aproximadamente à 01h30min da madrugada de domingo, dia 05 de fevereiro de 1933, a Capitania dos Portos recebeu mensagem da Estação de Rádio da Junção, comunicando que o Paquete Araçatuba da frota do Lloyd Nacional, chocou-se com o molhe leste encontrando-se em perigo de afundamento. Falhas no sistema de sinalização e o mau tempo devido ao vento sul, provocaram o acidente. A participação de rebocadores no resgate foi crítica por passageiros que exaltaram o comportamento da tripulação que buscava controlar o pânico a bordo. Conforme o jornal O Tempo, o navio trazia 46 passageiros e 72 tripulantes. O drama vivido nas horas que se seguiram ao acidente, fez reviver a memória da população sobre a tragédia do naufrágio do navio Rio Apa em julho de 1887. No teatro dos acontecimentos, os molhes da barra, e num dia dedicado ao culto de Nossa Senhora dos Navegantes, a sobrevivência acabou superando a tragédia.

O ARROJADO MARINHEIRO
         O Araçatuba, vindo do norte do país com destino a Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, devido à inexistência de bóia de luz que deveria orientar a navegação junto à entrada dos molhes chocou-se com as pedras. O vento e a forte correnteza alarmaram a tripulação sobre a rápida possibilidade de afundamento. Esta a preocupação fez com tentativas de prender um cabo de vai-e-vem fossem realizadas por tripulantes do navio. O êxito na ligação entre o navio e a terra coube ao marinheiro João Alves, “o gaúcho”, o qual, lançando-se ao mar, conduziu um cabo para uma possível passagem dos passageiros. Apesar das contusões e escoriações disseminadas nos pés, mãos e rosto, provocadas pelo choque com as pedras do molhe leste, o marinheiro conseguiu dirigir-se para a praticagem informando do acidente. Conforme o jornal O Tempo “por esse meio e usando-se uma cadeirinha, procedeu-se ao salvamento, primeiramente das crianças e senhoras e mais tarde, quando os elementos amainaram, lançou-se mão de baleeiras do Araçatuba para o transporte dos demais passageiros que desembarcaram na 5ª secção da Barra, indo dali para a Vila Siqueira, com destino a cidade” (O Tempo, 07/02/1933).
         O acidente ocorreu no dia comemorativo de Nossa Senhora dos Navegantes, com grande movimentação de embarcações que deslocam-se anualmente para São José do Norte. Com a difusão da notícia, a apreensão tomou conta dos participantes. No domingo à tarde, informados do salvamento dos passageiros e tripulantes, a procissão passou a ser de ação de graças. “A esta cerimônia solidarizaram-se todos quantos se encontravam na vila”, quando a multidão seguiu a banda musical Rossini pelas ruas centrais de São José do Norte comemorando o final feliz do incidente.

AS CAUSAS E OS PREJUÍZOS
         Os passageiros, a maioria dos quais rumava para Porto Alegre, ao deixarem a cidade, redigiram uma declaração com o seguinte teor: “Nós, abaixo assinados, passageiros do vapor nacional Araçatuba, salvos depois do triste sinistro, queremos, antes de retirarmo-nos desta cidade, patentear todos os nossos agradecimentos e admiração pela atuação calma e eficiente, e peça grande perícia do sr. Comandante (Alberto Martinho de Almeida) e de todos os demais componentes da tripulação, oficiais e marinheiros, no momento de grande perigo originado ao que podemos constatar, na falta de uma bóia luminosa indicativa do canal de acesso da barra”. A falta de sinalização foi apontada, nos jornais, como o fator que motivou o choque com o molhe”.
         Dez dias após o acidente o navio continuava a afundar lentamente, não deixando dúvida que “em breve desaparecerá no seio das águas, descendo à profundidade de doze metros existentes no local em que naufragou”. O navio ficou em atrito com as pedras, acompanhando o movimento das ondas, “com o embate de encontro às pedras, além do grande rombo de cinco metros, que recebeu ao montar no molhe, o navio está agora abrindo fendas em vários outros pontos. A submersão do navio pela proa vai se dando gradualmente”. Entretanto, os serviços de resgate da carga continuavam. “Estes trabalhos, dirigidos pelo comandante Julio Bahia, com segurança e presteza, tem conseguido salvar carga que montam já a algumas centenas de contos de réis. Só as partidas de lança-perfume que o navio perdido trazia para o carnaval próximo, em Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas, já montam a cerca de 180:000$000. Ao mesmo tempo arrebatados pelas águas, à parte do navio já submersa, continuam a dar à praia objetos, móveis e cargas do Araçatuba as quais alcançam já a altura dos faróis do Sarita e do Albardão. A autoridade fiscal teve denúncia de que pessoas residentes nas proximidades destes faróis estão se apoderando dos salvados...” (O Tempo, 15 de fevereiro de 1933).
No mês de março, o navio prosseguiu em seu lento desaparecimento nas profundezas da barra do Rio Grande...

Ilustrações: Acidente do navio Araçatuba nos Molhes da Barra. Fonte: Acervo Histórico do Porto do Rio Grande.








terça-feira, 8 de maio de 2018

UMA HISTÓRIA DA LITERATURA

       Mais um trabalho de referência para a Historiografia Literária Sul-Rio-Grandense foi publicado. O autor é Mauro Nicola Póvoas, professor do Instituto de Letras e Artes da FURG, e o título da publicação é “Uma História da Literatura: periódicos, memória e sistema literário no Rio Grande do Sul do século XIX”.
O livro é, com algumas modificações, o resultado da tese de Doutorado (2005) apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras, área de concentração em Teoria da Literatura, da PUCRS. Mauro Póvoas buscou a partir da discussão de tópicos teóricos vinculados à Teoria da História da Literatura – fontes primárias, rastros, cânone, memória cultural e sistema literário -, realizar um trabalho que tem por intenção descortinar a produção poética de escritores do século XIX, pouco ou nada estudados pelas historiografias literária brasileira e sul-rio-grandense, como Maria Clemência da Silveira Sampaio, Carlos Jansen, Bernardo Taveira Júnior, Damasceno Vieira, Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro.
O autor analisa três revistas literárias do Rio Grande do Sul que circularam ao longo do século XIX: O Guaíba (Porto Alegre, 1856-1858), Revista Mensal da Sociedade Partenon Literário (Porto Alegre, 1869-1879) e Corimbo (Rio Grande, 1883-1943). Cada periódico tem sua trajetória contextualizada, com dados sobre circulação, formato e principais escritores, muitas vezes dirimindo dúvidas e corrigindo erros que se perpetuavam no âmbito da historiografia literária sul-rio-grandense. O estudo delimita, a partir da Teoria da História da Literatura, a importância das três revistas para a implementação e a consolidação do sistema literário no Rio Grande do Sul, em especial por meio da análise da poesia publicada nas páginas periódicas.
Na apresentação do livro a profa. Maria Eunice Moreira (orientadora) ressalta que o estudo encontra-se ancorado em sólida fundamentação teórica, proveniente da história da literatura, história da cultura, história da imprensa, abordando questões fundamentais para o entendimento da formação dos sistemas literários, especialmente os regionais.
Conforme Póvoas, “ao longo deste trabalho, seguiram-se rastros, procuraram-se resíduos, buscaram-se resquícios em periódicos do Rio Grande do Sul do século XIX. O intento foi o de retirar do esquecimento uma vasta produção literária que, se não fosse por isso, estaria escondida nas prateleiras das bibliotecas responsáveis pela manutenção de acervos, arquivos, manuscritos e documentos”.
O autor enfatiza que o estudo com fontes documentais (no caso, os periódicos) abre espaço para questionamentos que “se interseccionam em torno da história, da literatura e do cânone. A história da literatura desde o seu princípio revelou uma tendência à monumentalidade, numa tentativa vã e improvável de alcançar a completude e de abraçar tudo e todos de um determinado período ou local. Isso levou a um rompimento das relações entre história e literatura, que somente foram reatadas com a substituição da visão positivista de progressão, totalidade e objetividade, pela consciência da incompletude e pela subjetividade. Dessa maneira, a nova história da literatura advogada não se caracteriza pela amplidão, mas pode ser abertamente fragmentária e se compor de várias micro-histórias que preservam a memória do que também está à margem, e não apenas no centro”.
Mauro Póvoas tem muito a dialogar salutarmente com os historiadores! Seu espírito de investigação e de ampliação crítica do objeto até o desvelamento em pequena escala das narrativas e sua transposição numa escala ampliada que são os sistemas literários, apresenta muitos pontos em comum com as investigações dos novos paradigmas do conhecimento histórico. Leitura obrigatória e que contribuiu para evidenciar, num recorte, a importância da cidade do Rio Grande oitocentista para a formação literária Rio-grandense.  




Corymbo. Acervo: Biblioteca Rio-Grandense. 



Acervo: Biblioteca Digital Luso-Brasileira.

MICHAEL GEORGE MULHALL


          A presença de comerciantes ingleses em Rio Grande remonta ao século XVIII e nas duas primeiras décadas do século XX foi registrada nos escritos de John Luccock e Auguste Saint-Hilaire. O Porto do Rio Grande será o fator de atração para o desenvolvimento do comércio de exportação e importação que mobilizou o interesse inglês. Em 1801 foi criado o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, ampliando os laços entre os comerciantes destes países. Entre os irlandeses que estiveram em Rio Grande, Michel George Mulhall deixou registros de sua viagem.


Mulhall  nasceu em Dublin em 1836 e faleceu na mesma cidade em 1900. Em 1858, com apenas 22 anos, buscou o comércio na América do Sul fundando, em 1861, o jornal Buenos Ayres Standard. Este foi o primeiro periódico diário em inglês da América do Sul, num empreendimento jornalístico que obteve sucesso com a direção de Mulhall até 1894. Ele acompanhou o avanço urbano e econômico de Buenos Aires, defendendo vários projetos que alavancassem o capitalismo portenho. Em 1878, casou-se nesta cidade, com Marion McMurrough Mulhall, a revisora de seus livros. 
 Mulhall investiu em publicação de livros e dados estatísticos, especialmente, dirigidos para a economia. Em 1869 Mulhall publicou o primeiro livro em inglês impresso na Argentina, Handbook of the River Plate e em 1878 publicou The English in South America (Buenos Ayres, 8 vols). O campo da estatística atraiu o irlandês que publicou, em 1880, Progress of the World in Arts, Agriculture, Commerce, Manufactures, Instruction, Railways, and Public Wealth, since the beginning of the Nineteenth Century. No ano seguinte lançou The Balance Sheet of the World, 1870-80, e em 1883 Dictionary of Statistics, obra que se tornou referência para os estudos de Estatística.
Em sua passagem pela cidade do Rio Grande, no ano de 1871, o irlandês Michael Mulhall deixou várias observações que retratam a condição urbana da localidade, os arredores, o cemitério protestante, a viagem pela Lagoa dos Patos até Porto Alegre etc. Ele sistematizou alguns dados sobre a importância do Porto do Rio Grande (atual Porto Velho) para o escoamento da produção da Província, ressaltando que Rio Grande e Porto Alegre eram os maiores centros econômicos da época. Acompanhou as obras de gás que estavam sendo realizadas pela São Pedro Brazilian Gás Company uma empresa inglesa que instalou canalização de gás no centro da cidade do Rio Grande. Estas obras eram fundamentais para a melhoria dos serviços urbanos e para construir uma visão de desenvolvimento tecnológico característico da expansão imperialista dos anos 1800.  
O conjunto de informações de sua estadia em Rio Grande e na Província do Rio Grande do Sul foi publicado em Londres com o título Rio Grande do Sul and its German Colonies (1873).  Uma edição que em português foi publicada em 1974: O Rio Grande do Sul e suas Colônias Alemãs. Porto Alegre: Editora Bels e Instituto Estadual do Livro.
A seguir, foi feita a transcrição de alguns trechos dos apontamentos de Michel Mulhall que trazem um panorama da economia e da urbanidade da cidade do Rio Grande no pós-Guerra do Paraguai.
“A receita e a despesa da província são pequenas, isto é, um dólar por pessoa ou um quarto do orçamento da província de Buenos Aires com igual população. A receita atinge cerca de 110.000 libras anualmente. A receita do Império derivada das Alfândegas de Rio Grande e Porto Alegre atinge, em média, 350.000 libras por ano, das quais 2/3 provêm de importação, 1/6 da exportação e o resto de outros impostos. O comércio com a Inglaterra, Hamburgo e os Estados Unidos é considerável: o valor da mercadoria importada é cerca de 600.000 libras, das quais 1/3 vem da Inglaterra, uma quantia quase igual de Hamburgo e o resto da França, Estados Unidos e Rio da Prata. O valor das exportações pode ser avaliado em 750.000 libras, das quais metade é para Inglaterra, 1/5 para os Estados Unidos e o resto para a França, Portugal e La Plata. Isto não inclui o tráfico costeiro com o Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e outros portos do Império, que é igual a todo o conjunto do comércio com o exterior. As exportações para os países estrangeiros consistem quase exclusivamente em couros. As exportações para outras partes do Brasil constituem, na sua maior parte, cereais das colônias alemãs. O porto de Rio Grande representa 2/3 de todo o comércio da província e o de Porto Alegre, 1/5; além desses, somente Uruguaiana é mercado de alguma magnitude. Porto Alegre e Rio Grande despacham anualmente um milhão de couros e de 30.000 a 40.000 toneladas de carne seca. Os relatórios da Província mostram que 1/3 desta quantidade vai para a Inglaterra, 1/10 para outras regiões do Brasil e 1/10 para cada um dos três países, Alemanha, Holanda e Portugal.
(...) O comércio principal (na cidade do Rio Grande) está nas mãos dos ingleses ou dos alemães, mas os comerciantes nativos também são inteligentes, ativos e bem educados, alguns falando inglês tão fluentemente como nós próprios, embora a maioria jamais tenha atravessado a barra de Rio Grande. (...) Há dois bancos na cidade, o da firma Mauá & Co., que tem filiais por todo o Brasil e no Rio da Prata, e o Londrino e Brasileiro, estabelecido há quatro anos. Há muitos capitalistas ricos e o dinheiro é considerado tão barato como no Rio da Prata; a moeda corrente é quase exclusivamente o papel-moeda, com um desconto de 10%, o que pode ser considerado como taxa fixa. O juro é de cerca de 12% ao ano, mas muitos preferem as construções como investimento.
A cidade melhorará muito, quando possuir suprimentos de água e gás. Os empreiteiros Upward e Illingworth, que chegaram aqui há quatro meses representando a São Pedro Brazilian Gás Company, tomaram as providências preliminares com a costumeira presteza de nossos conterrâneos e, hoje ao meio-dia, as ruas na frente da Alfândega foram abertas para serem colocados os primeiros canos. As autoridades municipais e de outras áreas estiveram presentes, além de um grande número de cidadãos, os editores dos jornais locais e os principais ingleses e alemães aqui residentes. O general Salustiano, o coronel Rangel e os oficiais do Estado-Maior da Guarnição vestiam o uniforme de gala, o 7º Batalhão da Linha formava a guarda de honra e a banda militar tocava árias nacionais.
Um subempreiteiro irlandês, com uma turma de trabalhadores, depositou os canos e o sr Upward, adiantando-se um pouco, apresentou um martelo de prata ao sr. Francisco José Cunha, prefeito da cidade, que após ter dado duas pancadas nos canos, declarou as obras devidamente iniciadas. O sr. Upward dirigiu-se ao prefeito, em inglês, nos seguintes termos: ‘Muito respeitável prefeito e conselheiros da cidade de Rio Grande, dignos representantes desta próspera população, venho em nome da São Pedro Brazilian Company congratular-me convosco nesta feliz ocasião em que são lançados a terra os primeiros canos destinados à iluminação a gás de vossa cidade. Confio que muito em breve vossas ruas, praças e edifícios estarão iluminados e que este grande melhoramento será, como tem sido em toda parte, o precursor de outros meios de conforto e progresso que assegurarão a prosperidade e o adiantamento de Rio Grande. Os diretores não pouparão esforços neste particular, e contam com a decidida assistência do Governo Brasileiro”. O prefeito respondeu: ‘Ilustre senhor Upward,  saúdo-vos como o mais distinguido engenheiro da São Pedro Gás Company. O Conselho da cidade aceita com prazer vossa solicitação de auxílio na inauguração destas obras, que serão realizadas sob sua hábil direção, e todos os meus concidadãos alegram-se comigo ante a perspectiva de tão grande melhoramento com a iluminação a gás de nossa cidade. Que a Providência Divina proteja a Companhia e derrame suas melhores bênçãos sobre esta cidade!’.  Aclamações de ‘Viva D. Pedro!’, ‘Viva o Brasil’, ‘Viva a Companhia Inglesa’ etc, cortaram o ar, junto com foguetes e acordes de música marcial, enquanto a reunião se dissolvia. Alguns ingleses observaram que era extremamente cômico ver tantos guarda-chuvas num dia de sol tão bonito; mas o calor já é suficiente para justificar o uso de tais abrigos.
À tarde o sr. Upward embarcou para o Rio de Janeiro no Camões, a caminho da Europa e foi levado a bordo pelos cidadãos mais importantes da cidade, o cônsul Callendar e outros. Tive a ocasião de conhecer o cônsul, que é muito estimado pelos nativos e pela maioria dos residentes estrangeiros. A cidade de Rio Grande tem poucas atrações para um visitante despreocupado, mas é o principal empório comercial da região. Disseram-me que Porto Alegre, há 20 horas ou 180 milhas pela lagoa, é um paraíso terrestre no centro do mais aprazível cenário; tem mais população que esta cidade e é a residência das principais autoridades, bem como de inúmeros comerciantes alemães. Antes de encerrar as minhas notas sobre Rio Grande, gostaria de observar que o lugar é de saúde proverbial. Domingo passado visitei o cemitério dos ingleses e dos nativos e, por acaso, encontrei o escrivão da cidade, o sr. Sá, um cavalheiro polido que fala com perfeição o inglês e me garantiu que muitas vezes se passam um ou dois dias sem nenhum enterro, embora a média de mortalidade para uma população de 17.000 habitantes devesse ser de cerca de 12 por semana. Os únicos nomes ingleses que encontrei foram o do sr. Messiter, que faleceu em 1860 com a idade de 68 anos, e o do sr. Wm. M’Crae, falecido em 1862 com 39 anos. Ambos os cemitérios são muito bem cuidados.
O lado da cidade que dá para o interior é protegido por uma forte muralha com bastiões e meia-luas cortadas por dois portões, mas em alguns lugares a areia subiu até o nível do parapeito. Guaraxains cavaram tocas na areia e ali vivem. Voltando do cemitério, passa-se por um quartel de 300 cavalarianos e pelo Hospital da Beneficência Portuguesa. O Hospital de Caridade ou hospital da cidade é uma estrutura maciça à beira d’água, sobre que já falei. Há três escolas públicas e três particulares, mas muitos mandam seus filhos para serem educados no Rio de Janeiro ou em outros lugares.”

Explorers in the New World, Longmans Green and C.O. 






Centro de Rio Grande em 1870. Acervo: Biblioteca Rio-Grandense. 


ÂNGELO DOURADO E AS CRÔNICAS NO ECO DO SUL

Recentemente participei de uma banca de defesa de Doutoramento em Letras da Universidade Federal do Rio Grande (área de concentração em História da Literatura). Marcelo França de Oliveira defendeu a tese “O Cronista Maragato: literatura e história nas crônicas de Ângelo Dourado publicadas no Eco do Sul (1896-1902)”. A tese está voltada ao campo da história política do Rio Grande do Sul, o pensamento liberal maragato e a atuação de Dourado enquanto militar e cronista na imprensa rio-grandina.
Ângelo Dourado (Salvador, 1857; Jaguarão, 1905) foi coronel-médico na coluna de Gumercindo Saraiva e um dos fundadores do Partido Federalista (1892). Projetou-se politicamente nos municípios de Bagé, Jaguarão, Santa Vitória do Palmar e Rio Grande (onde residiu), estabeleceu-se profissionalmente e participou da elite política e intelectual dessas localidades. Com a eclosão da Revolução Federalista (1893-1895) participou como médico ao lado dos federalistas e combateu os castilhistas até o final do conflito.  Ele efetuou o registro de suas observações e visões da guerra sob forma de cartas dirigidas à sua esposa. Este precioso material foi organizado por Dourado e publicado enquanto diário-epistolar no livro “Voluntários do Martírio – fatos e episódios da guerra civil” (publicado em Pelotas pela Livraria Americana em 1896), tornando-se uma das mais importantes fontes para conhecer a “revolução da degola”.
O médico baiano (que realizava operações e era oftalmologista) escreveu mais do que cartas sobre o conflito: uma vasta produção de crônicas foi publicada em jornais.  Inclusive no jornal da cidade do Rio Grande Eco do Sul (fundado em 1858). Dourado era um típico intelectual de fins do século XIX: erudito, costuma citar, em seus escritos, passagens célebres de autores clássicos da Literatura universal como Dante Alighieri, Camões, Miguel de Cervantes, Shakespeare, Lord Byron, Milton, Rousseau, Victor Hugo, além dos brasileiros José de Alencar e Visconde de Taunay. Ele manteve a sua inclinação à atividade da escrita, campo em que atuava nos mais variados segmentos, desde os trabalhos específicos concernentes à sua atividade profissional, os diversos artigos publicados na imprensa, e até mesmo obras literárias. Em decorrência do modelo estabelecido de medicina social, a figura do médico e do cientista social, nas faculdades de Medicina do século XIX, se confundem, dando origem a um tipo de intelectual com intervenção política e social. Dourado defendia princípios liberais (iluminismo-liberalismo) contra o positivismo que caracterizou os republicanos de orientação fundada em Júlio de Castilhos. Na perspectiva liberal, o Estado existe para garantir a segurança, a propriedade e a liberdade dos cidadãos, neste caso, a resistência contra a opressão era legítima para Dourado, que acusava o governo castilhista de tirânico, opressor e cerceador das liberdades. Fiel às suas convicções, afirmava não seguir homens, mas ideias, ao passo que sempre destacava, ao longo de seus escritos, valores como honra, dignidade, honestidade, que serviam de contraponto aquilo que criticava.   
A tese de Marcelo França de Oliveira desenvolve uma análise histórico-literária das crônicas do médico maragato publicadas no jornal Eco do Sul. As crônicas escritas por Dourado após os reveses sofridos na Revolução Federalista revelam certo desencanto, em decorrência da derrota, armistício e anistia. Com o tempo, o desencanto foi transformando-se em solidez discursiva, outros objetos colocaram-se à sua frente, prontos para serem analisados. O modo mais formal, sisudo, erudito, aos poucos foi ganhando novas cores e o estilo foi abrandando, adquirindo até mesmo um tom coloquial, mais ameno, no decorrer das crônicas publicadas no diário rio-grandino, mas sem perder o modo extenso, detalhistas e com críticas ao projeto de poder de Júlio de Castilhos.
A tese permite revisitar e descobrir outras facetas, a partir de escritos inéditos, de um dos personagens mais destacados nos primórdios da República no Rio Grande do Sul. 

Ilustrações: Ângelo Dourado (de barba). Acervo: Museu Benjamin Nogueira.