Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

domingo, 10 de junho de 2018

ANÚNCIOS


Jornais da cidade do Rio Grande são fonte inesgotável de pesquisa para quem investiga os cotidianos de tempos passados. Através dos anúncios é possível identificar comportamentos sociais, penais, nível técnico, disponibilidade de produtos e tecnologias, saber médico e os fármacos disponíveis, padrões de estética recomendados, organização social e questões raciais etc.
A leitura dos jornais estão repletas de discussões políticas e de visões de mundo, informações que não são neutras e sim construções discursivas que devem ser interrogadas e reconstruídas a partir do arsenal intelectual do presente.
Para quem pesquisa jornais é como visitar o passado e sentir o sabor de descobrir aquilo que foi esquecido ao longo do tempo. O que pode ter sido tão importante no passado e virou notícia (como um assassinato) vai sendo esquecido com o falecimento das pessoas e com as estruturas materiais onde a trama se desenrolou. Mas o que ficou registrado nos jornais será sempre o tempo presente que inspirou os escritos. A perenidade das palavras acaba transcendendo o tempo de vida dos atores!
A seguir são reproduzidas alguns anúncios de jornais da cidade do Rio Grande (especialmente do Diário do Rio Grande e do Echo do Sul) com temas polêmicos, com picaretagens e denúncias ligadas ao comportamento cotidiano desta antiga urbe. Pelas matérias, dá para sentir um pouco deste sabor de voltar no tempo.

ANÚNCIOS
 “Na olaria de João José de Oliveira Guimarães se vendem garrafas de Tintura de Turbit composta; remédio infalível contra todas as qualidades de moléstias curáveis, receita dos Jesuítas, achada na livraria do Povo dos Guaranis, denominado Santos Mártires do Japão, pelo abaixo assinado, em 1816. Cada garrafa contém mais de 16 purgantes ordinários e custa 500 réis, com o método curativo que a acompanha. É ótimo remédio contra areias e pedras e mais moléstias urinárias; tem sido utilíssimo nos ataques de erisipela e de asma; tem curado o reumatismo, sarampão e inflamação em qualquer parte, e de todas as qualidades; assim como febres, hidropesias, diarréias e câmaras de sangue; cura, o escorbuto e não há moléstia venérea, por antiga, que resista; cura com mais rapidez e segurança que a composição de M. Le Roy, como experimentação as pessoas que usarem deste remédio, seguindo à risca o método que acompanha. Luiz Guedes Ferreira de Moraes Sarmento”. 27/05/1829
“O Dentista Universal chegou ontem de Montevidéu  oferece seu préstimo artístico ao ilustrado público desta cidade; sua residência é no hotel Moraes. O mesmo dentista previne à população que hoje, ao meio dia, tira dentes de graça, na praça em frente à Alfândega”. 25/06/1858
“Não há mais cabelos brancos, com a tinta de E. Salliés de Paris, à venda na casa de A Faveret Filho”. 02/06/1875
“Limas químicas, remédio infalível e pronto para tirar sem pôr em perigo os calos dos pés. Vendem-se a patacão o par, no escritório do finado José de Souza Gomes, rua da Praia nº 74”. 06/06/1858
“Tísica – Contra este mal que até hoje foi reputado incurável, inflamações e úlceras dos brônquios, encontrou, ultimamente, o Dr. em medicina Landsberg um remédio radical, fazendo uso da receita. Bromureto de cálcio, dracma e meia. Água destilada, seis onças. Açúcar branco, três dracmas. Dissolva e misture”. 27/05/1881
“Vende-se muitas boas bichas (sanguessugas) na botica de Joaquim Vieira Mendes, a 240 réis, cada uma, e aos centos por menos”. 11/02/1853
“No beco do Carmo nº 13, pegando ao relojoeiro Braz, loja de barbeiro de Antonio José Gonçalves, tem um grande sortimento de bichas de Hamburgo que aplica por cômodo preço, sangra, tira dentes e bota ventosa sem fogo”. 29/03/1857
“Elisa Maria da Conceição, rapariga de 20 anos mais ou menos, vestiu-se de homem e foi à noite, na casa de pasto ‘Aliança’ à rua Paisandu e enciumada travou-se de razões com um dos convivas freqüentadores daquela casa e de outras que gozam de mesma reputação e que estão por isso debaixo das vistas da polícia. Foi, porém, presa e conduzida ao xadrez do quartel, onde pernoitou, para não continuar a disfarçar-se”. 08/04/1878
“Previne-se aos srs. Ourives, que na noite de 26 para 27 do corrente roubaram um urinol de prata; quem apreender e levar na casa da rua das Praças esquina da rua da Alfândega será gratificado”. 30/03/1858
Confusões da caserna: “Depois da meia-noite, cinco soldados de linha do contingente que faz a guarnição da cidade, armados de cacete, espancaram no largo da Geribanda, a um soldado de polícia  e tiraram-lhe a espada. O ajudante de ordens da guarnição que saíra do teatro e recolhia-se para casa, sabendo do ocorrido, dirigiu-se ao quartel e mandou-os prender”. 29/05/1860
“Em Peth, faleceu um advogado, que deixou duzentos mil florins a quem descobrir um meio prático de correspondência com a lua. Esse patusco que, provavelmente em vida, muitas vezes pôs a arder o juízo do próximo, ainda depois de morto quis deixar uma fortuna de maluquices para o futuro!” 06/06/1883
O jornal O Artista noticiava: “As casas de bailões públicos, as bodegas mal freqüentadas e os Marcôs de ínfima classe estão fazendo da rua dos Príncipes (General Bacelar) o seu bairro predileto. O nosso estabelecimento acha-se cercado por todos os lados de casas desse gênero nas quais, diariamente, se estão dando cenas pouco edificantes e espetaculares, atentórias a moral pública... As famílias da vizinhança escrupulizam em chegar à janela para não depararem com alguma reprodução dos quadros realistas dos romances de Zola. Há tantas ruas no Rio Grande, onde semelhantes casas podiam ser estabelecidas sem grande prejuízo da moralidade pública! Não poderia a autoridade policial livrar a rua dos Príncipes das casas de bailes, das bodegas e dos Marcôs?”.  31/05/1884
“Na noite de ontem roubaram do circo de Espinosa, no Largo do Poço (Praça de Setembro), as cordas e moirões com que trabalhava sua companhia”. 10/04/1859
A viúva e os pé-na-cova: “Faleceu ontem, o padeiro francês Martin, casado com Mme. Latruff que acaba de ficar viúva pela segunda vez em menos de 22 meses. Ignoramos qual a enfermidade que, tão cedo, roubara-lhe a existência, mas o grande caso é que o delegado de polícia negou sepultura ao corpo e este, que em vida nunca tivera ‘ordenança’ acha-se com duas à vista, desde ontem, e hoje sofrerá anatomia pelos drs. Operadores Pio e Penna”. 12/04/1857
“Pela patrulha da polícia, na noite de ontem, foi multado Manoel Tavares Leite, com venda á rua general Osório nº 5, por consentir reuniões ilícitas dentro da taverna e terem sido apanhados de jogatinas sendo apreendido o baralho”. 16/04/1878
“Foi recolhida a cadeia pública, à ordem do delegado de Política, Ana Maria Joaquina, por ter açoitado a um filho de família, que tinha fugido de seus pais”. 21/04/1857
“Os gatunos favorecidos pela estação começaram a aparecer. Hoje, assaltaram a taberna de Francisco Gomes Vasquez, no Largo das Trincheiras e arrombaram-na pela porta da frente e introduzindo-se no interior trataram de desapossar seu dono de alguns objetos, quando foram pressentidos por este, que logo chamando em altas vozes pelos vizinhos, afugentou os gatunos, que mesmo assim sempre levaram uma capa do pano, deixando em troca uma baioneta velha. A polícia não se fez esperar muito, descoberto o roubo, e prendeu um dos autores que é o soldado de nome Joaquim José Leite”. 02/06/1860
“Foi recolhido ao quartel policial Manoel Gomes, por espancar uma escrava na rua. Foram multados em 18$ Victorino Ferreira da Silva Sobroza por ter chiqueiro de porcos dentro da cidade e Manoel José de Faria em 10$ por ter sido encontrado botando água no leite que tinha de expor à venda, a Francisco Antonio da Silva Braga em 4$ por correr com carroça na cidade”. 05/05/1859
“Um caso singular e quiçá, virgem, teve lugar hoje nesta cidade na rua do Pito. Um jovem de 17 anos de idade, de combinação com uma meretriz, de vida menos regular em sua ordem, envenenaram-se bebendo ácido sulfúrico. Acudidos imediatamente pelo dr. Menezes, que ainda os encontrou abraçados, aplicou os socorros que manda a arte, e a ainda assim ficaram em perigo de vida”. 11/05/1857
“Pelo delegado de Polícia foi condenado Joasephilo M. de Souza Prandão em 13 dias de prisão e 200$ de multa por ter reincidido em exercer a medicina nesta cidade, contra os quesitos da lei. Oxalá o sr. delegado de Polícia continue a empregar toda a energia contra os charlatões que tantas vítimas tem feito nesta cidade”. 11/05/1859
“Consciência. Roga-se à pessoa que por engano levou 18 lajes da rua da Boa Vista, de fronte à casa de Hugentebler & Cia, se acusar à mesma rua nº 24”. 12/06/1856
“Foram removidos de bordo do ‘Presiganga’ todos os presos que nele se achavam, por ameaçar aquele navio ir a pique, em razão de muita água que faz”. 18/06/1853
“Foi repreendido e mandado retirar do teatro, por ter atirado estalos, o indivíduo João Mendisco”. 18/06/1860
Diário do Rio Grande e os Caloteiros: “Como seja-nos muito penoso a cobrança de anúncios, declaramos positivamente, que os não publicamos de hoje em diante sem que sejam pagos adiantados, salvo os que forem de casas com quem temos por costume recebermos de três em três meses e de atrás com quem temos conta”. 01/01/1855
Movimento na cadeia era intenso: “Durante o ano findo de 1860 foram recolhidos à cadeia civil desta cidade 797 pessoas sendo homens livres 302, escravos 353, mulheres livres 68 e escravas 74. Saíram 788, sendo 299 homens livres, 347 escravos, 68 mulheres livres e 74 escravas”. 04/01/1861
A vingança dos lobos marinhos...: “Foi devorado ontem por um incêndio o palhabote inglês ‘Enterprise’ que se achava fundeado na Bóia. A tripulação foi salva nos escaleres de bordo e a carga que constava de 545 peles de lobo marinho, ficou inteiramente destruída”. 26/01/1906

Diário do Rio Grande. 28-06-1850. Anúncios marítimos e em geral. 
Recorte do jornal do dia 28-06-1850.

REGIMENTO INTERNO DA SANTA CASA


A Santa Casa atua em Rio Grande desde 1835, tendo lançado a pedra fundamental do atual prédio no ano de 1850. O Regimento Interno do Hospital da Santa Casa de Misericórdia da cidade do Rio Grande do Sul foi editado em 1860, pela Tipografia Comercial-Rua da Praia 111, e traz interessantes informações sobre como ocorria o atendimento dos pacientes.  Um personagem se destacava na administração do hospital era o Mordomo Interno. A seguir, foram reproduzidos alguns artigos deste Regimento referentes às atribuições deste Mordomo suscitando um exercício de imaginação de como funcionava este estabelecimento hospitalar em 1860.
       
O MORDOMO
“O mordomo do interno é o chefe do serviço econômico e administrativo do hospital, debaixo, da superintendência suprema do provedor e mesa, com as atribuições e limites designados neste regimento. (...) O mordomo do interno é obrigado a residir no hospital desde o amanhecer até as nove horas da noite. (...) Compete-lhe fazer manter a maior ordem nas enfermarias e em todo o estabelecimento, não consentindo rixas ou alterações, nem mesmo conversas em tom tão alto que incomodem a qualquer enfermo que seja. Os infratores serão punidos com repreensão, ou com pena de prisão por vinte e quatro horas, se nesta convier o médico assistente, em cujo caso será notada na papeleta. Os ofendidos haverá recurso para o mordomo do mês, que ouvirá os funcionários que as referidas penas tiverem inflingido; fazer observar nas enfermarias e demais partes do estabelecimento a maior limpeza e bom arranjo, fazendo lavar as enfermarias e pátios todos os oito dias, purificando o ar por meio de substâncias prescritas pelo facultativo, e ventilando diariamente as enfermarias em caso de necessidade; designar um lugar onde os enfermos possam fumar, sem prejuízo dos que o não puderem, e a tal distância que se não altere o ar das enfermarias; não consentir que por pretexto algum os doentes vão à cozinha nem conservem outras luzes além das enfermarias; bem como proibir o uso de fósforos e fumigações dentro das enfermarias e mesmo do estabelecimento; não permitir que  enfermo algum saia a passeio sem prévio consentimento do facultativo, que lhe dará uma nota assinada, em que designe à hora da saída e da entrada; com tanto que à hora das dietas estejam no hospital, e uma vez de volta não tornarão a sair, ainda que não se tenha esgotado o tempo marcado; examinar com todo o cuidado que os gêneros comprados sejam da melhor qualidade possível, fazendo-os recambiar, caso encontre alguma diferença que prejudique a Santa Casa; acompanhar os médicos nas visitas que fizerem aos doentes, a fim de poder tornar efetivas as obrigações que tem os enfermeiros e a enfermaria, de cumprir exatamente as prescrições que aqueles marcarem; assistir à distribuição das dietas de maneira que não haja alteração alguma no que for ordenado pelos respectivos médicos; examinar se as referidas dietas, depois de distribuídas, são trocadas com outros enfermos ou com gente de fora, ou se ajuntam outras substâncias como sejam condimentos, vinhos, espíritos, frutas, etc, não marcadas na papeleta; combinar com os médicos o meio mais adequado, que se levará a efeito imediatamente, de separar os enfermos, já segundo a natureza das moléstias, já segundo a sua condição, de sorte que o escravo não fique na mesma enfermaria do homem livre; proibir que entre para as enfermarias qualquer substância comestível, sólida ou líquida, que não tenha sido prescrita pelos médicos, e não venham pessoas disso encarregadas; não consentir visitas aos doentes, senão às quintas-feiras e domingos, da 1 a 5 horas da tarde; examinar os enfermos que entrarem para o hospital, a fim de arrecadar o dinheiro ou jóias que trouxerem consigo, as quais passarão às mãos do mordomo do mês, sendo do valor de dez mil réis para cima e este as do irmão tesoureiro; entregar ao enfermo um vale com a sua assinatura, para, a todo o tempo que sair da Santa Casa, ou antes, disso por ordem do irmãos provedor, ser-lhe restituída a soma a que tiver direito. Se, porém, trouxerem em moeda ou em jóias importância menor de dez mil réis, guardar-se-á, com número que corresponder ao enfermo, em cofre de duas chaves, das quais terá uma o mordomo do mês e outra o do interno; os comandantes de barcos, os senhores de escravos, os maridos e mulheres, que tiverem no hospital marinheiros, escravos, mulheres e maridos, serão acompanhados nas vistas que poderão fazer extraordinariamente, pelo mordomo interno ou pessoa que este designar, tendo previamente consentido os médicos, a quem cumpre marcar à hora dessas visitas, que nunca deverá ser na ocasião da distribuição das dietas ou na visita médica; haverá no hospital um quarto, sala ou corredor, seco e arejado, para nele serem recolhidos os objetos que os enfermos trouxerem, sem exceção de pessoa; os referidos objetos serão reunidos sob os números que correspondem aos doentes, a quem serão entregues quando saiam com alta do hospital; ou a quem direito tiver, no caso de falecimento; todas as pessoas livres que pagarem o seu tratamento, não são obrigadas a vestir as roupas do hospital, sujeitando-se, porém em tudo mais ao regime da Santa Casa; no princípio de todos os semestres dará balanço às roupas do hospital, verificando a sua existência à vista das que se acharem no depósito geral e em serviço das enfermarias; igual balanço dará nos móveis de todo o hospital e nos utensílios, louça e vasilhame das enfermarias, despensa e cozinha, procedendo-se em tudo na forma do artigo antecedente, e bem assim para se lavrar auto de consumo dos objetos que se acharem inutilizados ou inservíveis; não consentirá que algum objeto do hospital seja dele destraído, ou empregado em serviço alheio, ainda que seja dentro do mesmo hospital; cuidará em que se faça com regularidade e pela forma mais conveniente, o serviço da condução e arrumação dos cadáveres dos que falecerem no hospital, dando as providências necessárias para que os falecidos nas enfermarias sejam, ao sair destas, colocados nos próprios caixões em que tem de ir para o cemitério, etc.”

        Fica evidenciado, que este personagem do hospital da Santa Casa do Rio Grande no século XIX o Mordomo do Interno, estava repleto de atribuições fiscalizadoras e de possível conflito com os pacientes ou familiares. Se a pessoa entrava para tratamento e saía curada, ou entrava para tratamento e saía num caixão vendido pela Santa Casa, o Mordomo deveria acompanhar cada passo e prestar contas ao provedor. O Regimento ainda previa que o seu ordenado não poderia ser aumentado “nem mesmo a titulo de gratificação, senão de quatro em quatro anos ou mais”.

Cartão-postal da Santa Casa de Misericórdia (1900-1910). Acervo: papareia. 


sexta-feira, 8 de junho de 2018

O PRIMEIRO MUNICÍPIO DO RIO GRANDE DO SUL


Ocorreram dois processos iniciais de vilamento (de criação de municípios no Rio Grande do Sul), tendo o município mais antigo, chamado então de “Vila”, sido estabelecido em Rio Grande em dezembro de 1751. Em 1809 são criados quatro municípios: Rio Grande, Porto Alegre, Rio Pardo e Santo Antonio da Patrulha, cujo primeiro município instalado foi Porto Alegre em novembro de 1810. Em Rio Grande a instalação ocorreu três meses depois no dia 12 de fevereiro de 2011. Oficialmente, por quase sessenta anos (desde 1751) somente um município foi criado no Rio Grande do Sul.
Entre 1751 e 1810, existiu apenas uma Câmara, a da Vila do Rio Grande, com jurisdição sobre todo o território da Capitania do Rio Grande de São Pedro. Com a invasão espanhola a esta vila em 1763, a Câmara foi instalada em Viamão em 1766 e, posteriormente, 1773, transferida para Vila de Porto Alegre. A determinação da criação desta primeira câmara foi expressa na mesma provisão que criou a primeira Vila na Capitania. Conforme Márcia Miranda (Continente do Rio Grande: administração pública no período colonial. Porto Alegre: Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, 2000), ainda que as câmaras só pudessem existir em localidade com estatuto de vila, a invasão espanhola à Vila do Rio Grande e as transferências da Câmara para Viamão e Porto Alegre demonstram que a existência desse órgão era desvinculada àquela vila específica. O que é corroborado pelo fato da Provisão de 27 de abril de 1809 determinar a criação das vilas de Porto Alegre e de Rio Grande e de suas respectivas câmaras; à qual se seguiu o reconhecimento dos membros e oficias da câmara que funcionava na capital, ainda que com a diminuição da sua alçada que ficou limitada à Vila de Porto Alegre e seu termo. Logo, a primeira câmara, instalada em 1751, vinculava-se à administração da Capitania do Rio Grande, estabelecendo-se onde fosse a sede do governo da capitania e não à Vila do Rio Grande, apesar de ser esta sua origem.
Portanto, a Vila do Rio Grande que já havia sido criada em 1747, foi novamente criada pela Provisão Régia de 1809, a qual ordenava que se estabelecesse novamente uma câmara e que seu termo seria formado pela Freguesia do Rio Grande de São Pedro e suas capelas filiais, pela Capela da Conceição do Estreito e pela Capela de São Luiz de Mostardas. A instalação da vila, com a eleição dos membros da nova câmara e a demarcação dos seus limites, ou seja, o Auto de Criação e o Auto de Demarcação dos limites da Vila do Rio Grande datam de 12 de fevereiro de 1811.

Ao contrário da Ata de instalação e da documentação da Câmara do Rio Grande que funcionou de 1751 até 1763 (que desapareceram com a invasão espanhola), a instalação do segundo vilamento em Rio Grande, está registrada em Ata e deu-se da seguinte forma segundo Antenor Monteiro (Os homens do segundo vilamento do Rio Grande In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: IHGRS, 1947): “No dia 12 de fevereiro de 1811, ‘nesta nova Vila do Rio Grande de São Pedro do Sul, onde foi vindo o doutor Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca, Antonio Monteiro da Rocha, em conseqüência da Provisão Retro e sendo ai, por ele farão convocadas as pessoas da Nobreza e Povo e estando todos presentes e se levantou o Pelourinho, em que estavam todas as insígnias competentes que denotam a Jurisdição Real a cujo ato se alternarão por três vezes a palavra – Viva o Príncipe Regente Nosso Senhor e levantando-se assim com esta solenidade do dito, houve o Ministro por formada esta Vila e mandou fazer este Auto em que assinou com a Nobreza e Povo que a este ato assiste; eu Guilherme Ferreira de Abreu, Escrivão da Ouvidoria, que escrevi e assinei – Rocha’. Assinaram a Ata, militares, padres, nobres e povo, num total de 46 pessoas. No mesmo dia, na Casa da Câmara, procede-se a eleição e nomeação dos cidadãos que iriam servir aos cargos públicos. ‘E sendo ai, depois de feitos os pelouros e presentes todos, estando os pelouros num saco fechado, por um menino de menos de sete anos, foi tirado um pelouro que abriu e se achou estarem nele nomeados os seguintes: para juizes, onde servir neste presente ano de mil oitocentos e onze: Afonso Pereira Chaves e Nicolau Ignácio da Silveira; vereadores: Tenente Antonio Rodrigues Fernandes Braga, José Batista de Carvalho e Tenente José Vieira Lima; Procurador da Câmara: Manoel Gomes Guimarães; Juiz de Órfãos, trienal: capitão Nicolau Cosme dos Reis; Tesoureiro da Câmara: Antonio José Medeiros; Tesoureiro dos Órfãos: José de Barros Coelho’; Ocorreram as seguintes nomeações: Para escrivão da Câmara José Pedro Fernandes; Tabeliães Joaquim José de Oliveira Braga e José Raymundo de Andrade e Almada; escrivão de órfãos Serafim dos Anjos França; Contador e Distribuidor do Juízo João Luiz Lamas; Almotáceis eleitos Manoel Albino Rodrigues de Carvalho e Antonio Caetano Machado Pinto.”

Fotografia do Estúdio Fontana mostrando em primeiro plano o prédio da Câmara Municipal inaugurado em 1850 no local da atual Biblioteca Rio-Grandense (à esquerda, árvores da Praça Xavier Ferreira. Acervo: Biblioteca Rio-Grandense

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O NAUFRÁGIO DO NAVIO EITEA

A presença de pastores protestantes no Brasil recua ao ano de 1824, quando Friedrich Osvald Sauerbronn chegou ao Rio de Janeiro junto com 300 colonos alemães. A sua missão foi promover o povoamento de Nova Friburgo. No Rio Grande do Sul, o primeiro pastor, Johann Georg Ehlers, chegou no mês de novembro de 1824, na recém fundada Colônia de São Leopoldo. O primeiro culto foi celebrado no natal de 1824 dando início a presença dos pastores nas comunidades evangélicas alemãs criadas no Rio Grande do Sul ao longo do século XIX. Quando da vinda do segundo pastor Carl Leopoldo Voges à Província, evidenciando os perigos da navegação naquela época, ocorreu um naufrágio quando da viagem entre o Porto do Rio Grande e Porto Alegre. Era o mês de janeiro de 1825 quando o bergantim Flor de Porto Alegre naufragou nos bancos de areia na altura de Mostardas. Dois colonos alemães não conseguiram nadar até à praia vindo a falecer.
        Entre os inúmeros naufrágios ocorridos nas proximidades da Barra do Rio Grande, vamos recordar de um sinistro que envolveu colonos alemães no mês de janeiro de 1868. O que se evidencia no relato é a total falta de ética náutica por parte do comandante da embarcação. O navio chamava-se Eitea e trazia imigrantes alemães do Porto de Hamburgo para o Porto do Rio Grande. 
     Dentre os passageiros estava o pastor Heinrich Wilhelm Hunsche que atuou no Vale do Caí até 1908. Quando do naufrágio, estava em Rio Grande Jacob Rheingantz que desejava que o pastor fosse atuar na Colônia de São Lourenço. Hunsche não aceitou o convite e foi morar em Linha Nova, entre Nova Petrópolis e São José do Hortêncio onde residiu na casa de Georg Heinrich Ritter comerciante e o criador da primeira cervejaria no Rio Grande do Sul. As técnicas de produção de cerveja que foram aprendidas por este imigrante na Alsácia-Lorena faziam nascer à produção da cerveja na Província do Rio Grande do Sul no mesmo ano em que ocorreu o naufrágio que será relatado.
O pastor Hunsche é o autor da descrição dos acontecimentos (In: HUNSCHE, Carlos H. Pastor Heinrich Wilhelm Hunsche e os começos da Igreja Evangélica no Sul do Brasil. São Leopoldo: Rotermund, 1981) ocorridos quando a embarcação adentrou na Barra do Rio Grande após uma longa viagem de 90 dias. Irresponsabilidade e o stress da longa jornada poderiam ter levado a morte de centenas de pessoas que estavam a bordo. Como o calado da Barra Diabólica normalmente estava comprometido pela pequena profundidade, o exercício de paciência era fundamental aos navegadores. Os navios poderiam ficar vários dias ou até semanas esperando pela entrada no canal de acesso ao Porto do Rio Grande. O que exigia um controle emocional rigoroso, pois, as dificuldades de acesso a Barra mexia com o psíquico de todos. A longa viagem, associada ao consumo de álcool pela tripulação, construíram mais um episódio de naufrágio. 
        “Finalmente, no dia 19 de janeiro, à tarde, enxergamos a tão esperada costa do Brasil, após 90 dias de viagem. Era domingo, o mar calmo e tranqüilo. Já havíamos celebrado o culto. Não foi possível entrar, neste mesmo dia, no porto, altamente perigoso, de Rio Grande; mas, no outro dia, entraríamos com toda certeza. Este dia, 20 de janeiro, aniversário do meu colega Brutschin, tornou-se desastroso para nós; naufragou o navio há três horas e meia ao sul de Rio Grande. A manhã rompeu calma, tranqüila e risonha, enchendo os nossos corações de júbilo e alegria. O vento, o tempo, a proximidade da terra - tudo prometia uma feliz entrada ao porto. Às nove horas avistamos o farol. A primeira saudação fez-se por meio de sinais. Que alegria: enxergávamos clara e nitidamente, as casas de Rio Grande! (*de fato não era Rio Grande mas a localidade da Barra onde ficava o farol). Mas, ai de nós! O capitão queria livrar-se do seu navio obsoleto. Bêbado, como toda a sua tripulação, sinalizava, propositadamente mal, que teríamos 11 pés de calado, quando, na verdade eram só 8 a 7. O farol, mesmo assim, respondeu que não haveria água suficiente na barra e que não poderíamos entrar. Visivelmente irritado, o capitão voltou para o mar. Algumas horas depois, aproximou-se novamente. Como deixara o sinal em 11 pés de calado, avisaram, outra vez, do farol: Pouca água! Voltaram a beber e, em aparente indignação pela negativa da barra, o capitão dirigiu o navio para o sul, a toda vela. Pouco depois, nos encontrávamos entre os bancos de areia. Passamos arrastando sobre os primeiros bancos. O próprio capitão havia pegado o leme e, cambaleando para lá e para cá de embriagues, comandava, com voz de causar pavor: Colham as velas! e fez com que o veleiro encalhasse diante da arrebentação, apesar do vento e do tempo bom...
Do farol tinham observado as manobras do capitão e haviam previsto que o navio iria naufragar. Foi a nossa sorte! Depois de muito temer e ansiar, notaram, perscrutando apreensivamente a redondeza, a aproximação de um bote salva-vidas tripulado por seis homens corpulentos. Provinha de uma embarcação fundeada a cerca de uma hora e meia do nosso local, o paquete Proteção. Fincaram uma estaca na duna perto do nosso veleiro e, depois de atar na estaca um cabo, vieram de bote para o navio e firmaram nele a outra ponta do cabo. Ao longo deste cabo iniciaram a operação de resgate: Às costas de um mulato forte cheguei a terra sem sequer molhar os pés. Em honra aos brasileiros, seja dito, estes tripulantes prestaram um serviço de auxílio bom e inesquecível para nós. O desembarque em solo brasileiro efetuou-se apenas com as roupas que vestíamos na ocasião. O restante, como bagagem, lembranças, presentes etc, permaneceu a bordo da escuna que a todo instante afundava mais”.
Tendo sobrevivido e começando a superar as horas de pânico, os dois pastores Hunsche e Brutschin, passaram a primeira noite a bordo do paquete Proteção, onde foram tratados com a maior cordialidade e pela primeira vez provaram um prato tradicional no Brasil: o feijão e o arroz.


 
Carta de  J. B. Johnson (1866) identificando a profundidade do acesso ao Porto Velho do Rio Grande. Os bancos de areia tornavam o acesso a Barra do Rio Grande difícil. A construção dos Molhes da Barra (1915) buscou garantir a segurança da navegação.  



segunda-feira, 4 de junho de 2018

A NÁUSEA

"para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. É isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver sua vida como se a narrasse." (Sartre, A Náusea. Editora Nova Fronteira, 1983).


O primeiro romance de Jean-Paul-Sartre (1905-1980) está completando 80 anos! “A Náusea” foi publicado em 1938 e  permite observar a trajetória de homens reais destituídos de relevância social tendo como pano de fundo o mundo real.  
A estória é narrada em terceira pessoa e se baseia nos diários de Antoine Roquetin, um fictício historiador que viajou pela Europa e se estabeleceu em uma pequena e também fictícia cidade portuária da França: Bouville. Nesta localidade ele começa a escrever a biografia de um marquês do século XVIII e também um diário intimista que o leva a uma reflexão radical de sua existência e quanto ela é vazia e sem sentido. Esta realidade do vazio existencial se traduz enquanto uma náusea visceral. A existência humana e a noção de liberdade e concretude são arrastados para uma viagem interior sem garantias de um porto seguro. Sartre escreveu o livro o “Ser e o Nada” em 1943, mas neste romance já estão colocados várias discussões do Existencialismo sartreano. Martin Heidegger é uma influencia fundamental para Sartre pois aquele filósofo alemão pensava que o ser humano vem do nada e se dirige para o nada. Vindo do nada ele somente  passa a existir, quando começa a fazer-se, a construir-se. Repetindo Heidegger, a existência humana é sempre um projeto e existir é projetar-se para o futuro.
A concepção de historicidade e de ciência histórica também foge dos enfoques tradicionais:
“Não se trata de pensar mais a História com H maiúsculo, como história de datas e heróis, de grandes feitos. A história não contém certezas e uma ordem rigorosamente lógica, e isso porque é feita por nós, seres humanos comuns, Para-sis que necessariamente buscam em vão ser o que nunca serão, a completude. Com o passar dos meses, Roquentin começa a identificar suas sensações, o estranhamento que passa a ter diante de uma folha de papel, uma maçaneta, uma raiz de uma árvore. A contingência é descoberta como uma náusea, como um desvelamento vertiginoso do qual não pode se livrar porque descobre que ele se identifica com a própria Náusea. (...)Dizer que a história está ausente de A Náusea é ainda pensar a história com H maiúsculo, é ainda pensar que históricos são somente os grandes acontecimentos feitos por grandes homens, é ainda conceber a História como encadeamento necessário entre os fatos, é ainda acreditar na História que Sartre começa a destruir nesse romance. E a história que começa a surgir em seu lugar é a história contingente realizada por “apenas indivíduos”, é a mesma que aparecerá como estrutura necessária ao Para-si em O Ser e o Nada, e é a mesma que ganhará concretude e peso extremo em Crítica da razão dialética. Se talvez seja uma  “História” que provoque o afogamento de Sartre na história real, se talvez ele precisou de uma guerra mundial para dar importância mais concreta aos problemas históricos, esse ato revela que tudo é história, até mesmo a vida pacata e tediosa de um historiador em Bouville. Muitos dos personagens de Sartre tentam sair da história, mas, ao se afogarem nela, aprendem que, mesmo que saiam desse rio, terão para sempre as marcas e cicatrizes dessa luta contra (e portanto também com) a história”.[1]
Em Sartre a existência prece a essência, ou seja, os homens nascem vazios e sem razões metafísicas para existirem: a Ideia de Deus e de Natureza Humana não teriam fundamento. Como primeiro existimos para depois construirmos nossa essência em sociedade, a essência é liberdade, o homem está condenado a liberdade.    
“Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea. Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta. Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca… E subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu”.
         Gerd Bornheim interpreta a experiência da náusea em três níveis: a necessidade de converter a revelação do absurdo em um sentido que justifique a existência humana: o existencialismo deve ser um Humanismo; revela a consciência que é o “núcleo instantâneo” de minha existência; a consciência não pode ser sem o outro que não ela mesma, ela só existe por aquilo do qual ela tem consciência.[2] O esforço de Sartre foi de engajar-se a história presente e combater as teleologias de direita e esquerda, que inviabilizassem o indivíduo de exercer sua liberdade e todo o peso de responsabilidades inerentes a esta condição. Bornheim[3] analisou que entre o livro A Náusea (no qual a História é um absurdo destituído de logicidade) e o livro Crítica da Razão Dialética, Sartre já se volta a “estabelecer uma história humana com uma verdade e uma inteligibilidade”, tese que seria escrita no volume 2 da Crítica da Razão Dialética o qual nunca foi publicado: o marxismo escrito na perspectiva humanista do existencialismo sartreano.
No epílogo do livro o personagem Roquentin vê na literatura um caminho para obter a liberdade e construir uma existência com autenticidade:
“Enquanto espera o trem para Paris, começa a pensar na música, na cantora, no compositor e nota na música a existência daquelas pessoas, que a arte os fizeram existir, este pensamento lhe dá uma certa alegria e começa a pensar no que poderia fazer para existir de fato, e começa a ver uma possibilidade de escrever um romance “[...] Um livro. Um romance. [...] Um livro. Naturalmente, no inicio seria um trabalho tedioso e cansativo; não me impediria de existir e de sentir que existo.” 



[1] SOUZA, Thana Mara de. A presença da história no “primeiro” Sartre: Roquentin e a náusea frente à ilusão da aventura heróica In: Princípios.  Natal: v.16, n.26, jul./dez. 2009, p. 87-105.
[2] BORNHEIM, Gerd. O Existencialismo de Sartre. In: Curso de Filosofia. 11ª ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 232-243.
[3] BORNHEIM, Gerd. Sartre. São Paulo: Perspectiva, 1984, p. 226-227. O autor questiona sobre a transição do pensamento do plano meta-histórico (livro O Ser e o Nada) ao histórico.





A Náusea em Quadrinhos. Ilustração de R. Crumb. The Graphic Canon 3. Seven Stories Press, 2013.




domingo, 3 de junho de 2018

FRANCISCO XAVIER FERREIRA: UM HOMEM PÚBLICO


 “Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Nesse exército, o exército de um homem só
Todos sabem
Que tanto faz
Ser culpado
Ou ser capaz
Tanto Faz...”. Engenheiros do Hawaii


Francisco Xavier Ferreira era natural da Colônia do Sacramento onde nasceu em 4 de dezembro de 1771. O pai nasceu em Portugal e a mãe era natural da Colônia do Sacramento sendo que ambos morreram na Vila do Rio Grande. Dos dez filhos do casal, três meninas e um menino estavam vivos quando a família foi obrigada a abandonar Sacramento em 1779, quando esta praça passou para o controle espanhol. Francisco Xavier Ferreira chegou a Rio Grande com apenas sete anos sendo alfabetizado nesta Vila. Em 1789, ano de eclosão da Revolução Francesa, seguindo o conselho de seu pai que era boticário, foi para o Rio de Janeiro onde cursou Química e Farmácia. Retornou dois anos depois com 20 anos de idade, exercendo o comércio como farmacêutico sendo chamado de “Chico da Botica”. Casou-se em 1793 com outra exilada da Colônia do Sacramento, Ana Joaquina, que também rumou com os pais para a Vila do Rio Grande onde se estabeleceram. O único filho do casal faleceu em 1821, com 26 anos de idade.
Francisco Xavier Ferreira destacou-se como escritor, jornalista e grande orador. Foi eleito Deputado à Câmara Constituinte do Império. Iniciado na Maçonaria foi destacado pelo Grande Oriente do Brasil para fundar uma filial maçônica na Vila do Rio Grande, organizando em 1820 a Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional. Tornou-se amigo do também maçon, D. Pedro I, a quem Xavier Ferreira encaminhou a representação de elevação de Porto Alegre à condição de cidade em 1822. O pedido foi aceito pelo Imperador que destacou o autor do pedido em Carta Imperial de 14 de novembro de 1822. D. Pedro I indicou Xavier Ferreira para compor a Quarta Junta Governativa para a Província de São Pedro a qual atuou entre novembro de 1823 e março de 1824.
Foi membro da Câmara Municipal do Rio Grande entre 1826 e 1829. A amizade com o Imperador foi desaparecendo e Xavier Ferreira defendeu a abdicação deste, que ocorreu em 1831. Neste ano, com máquinas compradas em Porto Alegre, ele monta uma tipografia em Rio Grande cuja primeira impressão foi um Hino de aclamação à elevação de D. Pedro II a condição de futuro Imperador do Brasil. Nesta mesma tipografia foi publicado o primeiro jornal da Vila do Rio Grande, O Noticiador que circulou a partir de 3 de janeiro de 1832 perdurando até 17 de novembro de 1835, quando o editor transfere-se para Porto Alegre, onde o jornal prossegue até fevereiro de 1836. O periódico realizava fortes ataques aos conservadores que se mantinham antagônicos às posturas liberais. O posicionamento pró-revolucionário marcou a existência do jornal e de certa forma selou o destino de seu editor quando da repressão anti-liberal.
A dedicação de Xavier Ferreira por assuntos ligados a Rio Grande expressou-se quando da elevação da localidade à condição de cidade em 27 de junho de 1835, um projeto por ele apresentado à Assembléia Legislativa da Província. Com a eclosão da Revolução Farroupilha, a postura liberal assumida por este deputado na crítica à política centralista e autoritária durante o período regencial (1831-1840), torna-o um alvo de destaque frente aos defensores do Império, ainda mais por ter assumido a presidência da Assembléia Provincial sob intervenção farroupilha em novembro de 1835. Em junho de 1836, ele foi preso em Porto Alegre após o fracasso do controle farroupilha na capital e enviado para prisão de Villegagnon no Rio de Janeiro. Durante vinte e dois meses foi mantido prisioneiro em calabouços insalubres sem responder a um processo. Faleceu no cárcere em abril de 1838.
Em relação a sua morte, o jornal farroupilha O Povo publicou em 1º de setembro, a seguinte matéria: “A alegria dos tiranos denuncia a grande perda que tivemos, tal era o temor que a ilustre vítima, se bem que sepultada viva em horrendo cárcere, ainda lhe inspirava... As palavras consoladoras da Religião não suavizaram seus últimos sofrimentos! Uma só lágrima dos amigos não caiu sobre o seu leito de morte... Ninguém houve que lhe ministrasse os extremos ofícios da piedade! Depois de uma vida de virtudes e de zelo patriótico, levaram-no para as masmorras de Villegagnon onde, apesar de suas moléstias, foi desapiedadamente encarcerado (...) levaram-no ao jazigo dos mortos, sem que o povo, que lhe era tão caro, pudesse dar o público testemunho da sua dor! Francisco Xavier Ferreira soube muito bem servir ao Brasil ainda que como simples cidadão, com os seus conhecimentos de Química, com seus talentos políticos e econômicos, como escritor e jornalista de muita erudição...”
Sepultado num dos jazigos da Ordem Terceira de São Francisco no Rio de Janeiro, Francisco Xavier Ferreira, o jornalista que representou o espírito liberal farroupilha e que publicou o primeiro jornal da então Vila do Rio Grande, teve o seu nome perpetuado na atual praça Xavier Ferreira no centro da cidade onde ele exerceu sua militância.


*Ao escrever a matéria sobre este fascinante personagem  - Xavier Ferreira - estava escutando uma música da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii que foi inspiradora e reflexiva. A presença do escritor e filósofo Albert Camus está em várias passagens. Reproduzo a seguir a letra.

O Exército de Um Homem Só.
Engenheiros do Hawaii. Composição: Augusto Licks / Humberto Gessinger
 
Não importa se só tocam
O primeiro acorde da canção
A gente escreve o resto em linhas tortas
Nas portas da percepção
Em paredes de banheiro
Nas folhas que o outono leva ao chão
Em livros de histórias seremos a memória dos dias que virão
Se é que eles virão

Não importa se só tocam
O primeiro verso da canção
A gente escreve o resto sem muita pressa
Com muita precisão
Nos interessa o que não foi impresso
E continua sendo escrito à mão
Escrito à luz de velas quase na escuridão
Longe da multidão

Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Somos um exército, o exército de um homem só
Sem bandeira
Sem fronteiras
Pra defender
Pra defender

Não importa se só tocam
O primeiro acorde da canção
A gente escreve o resto e o resto é resto
É falsificação
Sangue falso, bangue-bangue italiano
Suíngue falso, turista americano
Livres desta estória, a nossa trajetória não precisa explicação
E não tem explicação

Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Somos um exército, o exército de um homem só
Sem bandeira
Sem fronteiras
Pra defender
Pra defender

Não interessa o que o bom senso diz
Não interessa o que diz o rei
Se o jogo não há juiz
Não há jogada fora da lei
Não interessa o que diz o ditado
Não interessa o que o Estado diz
Nós falamos outra língua
Moramos em outro país

Somos um exército, o exército de um homem só
No difícil exercício de viver em paz
Nesse exército, o exército de um homem só
Todos sabem
Que tanto faz
Ser culpado
Ou ser capaz
Tanto Faz...

 


Cartão-postal da Praça Xavier Ferreira datado de 08-11-1904. Na época era chamada de Praça General Telles. Acervo: Leonardo Barbosa. 

Cartão-postal da Praça Xavier Ferreira por volta de 1905-1910. Acervo: Museu da Cidade do Rio Grande. 


Rua Marechal Floriano e Praça Xavier Ferreira em 1937. Espaço para o footing. Acervo: Arquivo Nacional.




NA PRAIA DO RIO GRANDE

        
Padre Ambrósio Schupp no livro Os Muckers, 2. edição, 1912 .

O padre Ambrósio Schupp foi autor de vários livros e artigos a maioria impressos em Paderborn na Alemanha. Nascido em 1840, tendo ingressado para a Companhia de Jesus em 1869, o padre Schupp desenvolveu uma ampla atividade literária e religiosa desde sua chegada ao Brasil em 1874. Escreveu em 1891 Besuch am La Plata (Visita ao Prata), posteriormente elaborou uma coleção de contos de fadas, tornando-se conhecido pela obra romântico-histórica Die Mucker – eine episode aus der geschichte der deutschen kolonien in Rio Grande do Sul (Os Muckers – um episódio da história das colônias alemãs no Rio Grande do Sul).
        Adaptando as necessidades práticas no seminário dos jesuítas em São Leopoldo com a experiência teatral que possuía, Schupp produziu muitas peças dramáticas como Die swilling (Os gêmeos), Treu bis in den tod (Fiel até a morte), Der Sternwirt (O taberneiro das estrelas), etc. Os dramas escolares escritos pelo padre contavam somente com papéis masculinos.
Schupp viveu em Rio Grande, sendo Reitor do Colégio São Luís Gonzaga no ano de 1899. O trabalho publicado em alemão com o título de Am strand von Rio Grande (1906) foi publicado em português no Anuário de Estado do Rio Grande do Sul (1908) com o título de Na praia do Rio Grande, obra de onde foram retirados os trechos a seguir. O educador faleceu em Porto Alegre no ano de 1914.

A PRAIA VISTA DA CIDADE
O artigo trata essencialmente de observações ligados a fauna existente na então denominada praia do Rio Grande ou da Macega (atualmente localizada na área ocupada pela Capitania dos Portos e indústrias pesqueiras da rua Marechal Andréa) e secundariamente são feitos comentários sobre as atividades portuárias no final do século XIX. Nesta descrição de mais de um século no passado, é possível montar um cenário dos elementos componentes da paisagem natural e humana vislumbrada pelos visitantes desta área próxima ao atual centro da cidade.
Segundo o padre Schupp, a cidade está situada sobre uma “língua de terra que é banhada por três lados pelas águas salobras da Lagoa dos Patos e como pelo quarto lado só se comunica com a planície coberta de areias movediças, não oferece naturalmente lugares apropriados a passeios pitorescos”. Como a região da praia é que despertava maior interesse, “para ela me dirigi muitas vezes, quando após os trabalhos da semana, queria procurar distração para o espírito”.
        A vista junto à “praia do Rio Grande” era agradável, pois destacava-se São José do Norte. À direita e a esquerda vislumbravam-se algumas ilhas “aqui está a estrada fluida que liga a Lagoa dos Patos ao alto mar”.  O padre presenciou o deslocamento de uma grande embarcação até o porto do norte, “toda a habilidade de um prático bem experimentado foi preciso para conduzi-lo aquele lugar por entre os bancos de areia da barra. Por ser o porto do Rio Grande muito baixo, não se arrisca o gigante à nele entrar. Por isso se acha ele cercado de barcaças que vão recebendo seus tesouros para recolhê-los a Alfândega”. Constata-se que no final do século XIX o baixo calado do porto e da barra era fator de apreensão. Situação que somente foi superada com a construção do Porto Novo (1915) e dos Molhes da Barra.
        Conforme Schupp, o lugar que ele costumava caminhar era conhecido pelo nome de Macega, denominação dada ao capim de banhado que se disseminava naquela área. “Em geral se encontra o terreno gramado debaixo de uma camada rasa de água; o caminho, porém, é seco, salvo quando uma chuva forte o tem tornado intransitável”.
        Segundo ele, o que primeiramente se destaca ao passear pela Macega são os milhares de caranguejos “que em posições esquisitas ocupam lugares destituídos de grama, ora sob a superfície da água, ora sobre pequenos montinhos de terra, - mas sempre procurando encontrar uma presa. Com quanto seja enorme a concorrência parece que não lhes falta alimentação”. Pequenos peixes são atacados “com a rapidez do relâmpago”. Os caranguejos costumam escalar o capim-macega em busca de alimento, “em tais ocasiões é difícil conter-se o riso ao ver-se as evoluções de ginástica com as quais executam a subida e a descida”. Os caranguejos, para Schupp, estariam realizando uma “perigosa obra de destruição” transformando o solo junto à praia numa “esponja porosa” que vai sendo tragada pelas águas. “Se sobrevem um vento forte ou antes, uma tempestade que atire as ondas com violência sobre a praia, pode acontecer que faixas inteiras de terra se desprendam, as quais serão emborcadas pela fúria da maré”.
        A alguma distância da praia, vêem-se algumas estacas batidas, que afloram da água, sendo raro “vê-las sem que um pássaro qualquer aí não esteja pousado. Geralmente é o biguá, um pássaro pescador, de plumagem preta e aparentado com o cormoran da Alemanha. Imóvel, como se fora talhado em pedra, atira ele de seu pouso arejado olhares cobiçosos sobre a presa”.
        O autor também observou a ação dos siris que exercem “a profissão de ladrão da praia”, devido as suas “más particularidades de caráter é ele um mau companheiro para os pequenos habitantes da água; o peixinho ou o camarão que ele apanha é levado direitinho para a boca, para o que as tenazes lhe servem de mão. Como a carne destes é muito gostosa, são eles muito perseguidos e sempre se encontram no mercado do Rio Grande siris vivos, expostos à venda ao lado de vários peixes”.
        Schupp refere-se à presença de medusas fosforescentes e relata a seguinte história: “Há alguns anos, e isso foi num dia 27 de julho, o ar estava frio, e as ondas no porto bem agitadas, pois havia dias que reinava forte temporal; naquele dia, porém, havia calmaria. Um de nossos alunos me trouxe oito a dez medusas que tinha apanhado na profundidade do prédio da Alfândega”. Também é feito o relato da presença de botos na área da Macega, os quais eram freqüentemente observados de visita na Lagoa. O crânio de um boto identificado pelo autor foi recolhido ao “pequeno museu do Rio Grande”.
        Este relato do padre Schupp, descrevendo a fauna encontrada na então denominada praia do Rio Grande, finaliza com uma pescaria que infelizmente acabou não sendo realizada: “É possível que na Macega se possa pegar muito peixe interessante; mas nós vamos deixar a pesca para outra ocasião”.


Porto Velho do Rio Grande em 1909. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
Área da Estação Marítima com a paisagem do tempo do padre Schupp (à esquerda o estilo neogótico do "Sobrado da Macega" e ao fundo o Moinho Rio-Grandense). O caminho à esquerda (Rua General Andréa) levava a região descrita pelo autor.  Estimativa da imagem: 1910-1920. Acervo: Biblioteca Rio-Grandense.