Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A MEMÓRIA II: O PANTEÃO

Panteão de Tamandaré no 5 Distrito Naval em Rio Grande. Acervo: https://www.marinha.mil.br/sites/default/files/01img_7447_copy.jpg

        O Panteão erguido na sede do 5º Distrito Naval viria a constituir o uma das mais importantes manifestações monumentais ao Almirante Marques Lisboa. Para esse lugar, foram deslocados os restos mortais do Marquês de Tamandaré e sua esposa, em dezembro de 1994, numa cerimônia que se estendeu por vários Estados das regiões sul e sudeste brasileira. Esse traslado constituiu, por si só uma possibilidade de revisitar-se a memória acerca do Almirante. O Panteão viria ainda a ser complementado nos anos seguintes, com a edificação de um espaço cultural no seu entorno e, por ocasião dos primeiros passos das comemorações do Bicentenário de Tamandaré, em março de 2007, seria colocada junto ao conjunto monumental, uma placa contendo o texto da suas vontades testamentais. 
Estava então demarcado definitivamente, após um século e uma década de seu falecimento, um dos monumentos mais significativos erigidos no país em homenagem ao Patrono da Marinha. A alocação dos restos mortais, a estátua emoldurada num cenário de motivos náuticos, lembrando episódios da sua vida, as árvores e o mar por pano de fundo criaram um todo harmônico onde a arte mesclou-se e interagiu com o ambiente natural, num conjunto em que memória e história interagem plenamente.

A MEMÓRIA III: O BICENTENÁRIO

Cédula de um cruzeiro em homenagem ao Almirante Tamandaré.
Verso da nota com o Almirante Tamandaré com imagem da Escola Naval no Rio de Janeiro. 

Do local ao regional e deste ao nacional e até ao internacional, Joaquim Marques Lisboa, através de seus atos e carreira, contribuiria de forma indelével na construção de uma identidade brasileira. O rio-grandino que desde o berço teve no contato direto com as águas e com a navegação um demarcado destino. O sul-rio-grandense que – indo de encontro ao que segmentos historiográficos buscaram plasmar na criação do estereótipo do centauro dos pampas – demonstrou que não só os cavaleiros, mas também os “homens do mar” corroboraram na edificação do Rio Grande do Sul. O brasileiro que participou dos mais importantes momentos da consolidação do Estado Nacional. O personagem do mundo que ombreou em competência com alguns dos almirantes que marearam pelos oceanos. Tamandaré foi o homem, o militar e o cidadão que perseverou e tornou-se protagonista da História Brasileira, fosse como o altivo Almirante, fosse como o dedicado servidor público, fosse o nobre Marquês, ou ainda e principalmente como era de sua inteira preferência, como o “Velho Marinheiro”.

OPERÁRIAS EM 1919


 
Operárias na Leal Santos na década de 1910. Acervo: Museu da Cidade do Rio Grande. 
Para um período tão recuado no tempo em que o espaço da rua no Brasil ainda é majoritário para os homens, em Rio Grande, enquanto cidade em expansão industrial, constata-se uma significativa presença de mulheres na classe operária.
A indústria de tecelagem é o grande fator desta significativa participação. Os dados para o ano de 1919 trazem os seguintes indicadores: na Companhia União Fabril havia 1.024 operários sendo 370 homens e 71 meninos com idade entre 12 a 70 anos e 444 mulheres e 139 meninas com idade entre 12 a 60 anos; Fábrica de Tecelagem Ítalo-Brasileira com 600 operários sendo 150 homens entre 20 a 50 anos e 450 mulheres entre 15 a 40 anos (salários diários em média dos homens 6$500 e das mulheres 5$000); Companhia Swift do Brasil com 944 operários sendo 896 homens  com 27 anos em média e 48 mulheres com 22 anos em média; Leal Santos & C. havia 300 operários sendo 200 homens entre 20 a 40 anos e 100 mulheres entre 18 a 30 anos com salários diários médios para homens de 6$000 e para mulheres 1$400; Companhia de Charutos Poock empregando 200 operários sendo 60 homens e 140 mulheres com salários diários entre 3$000 e 15$000; Llopart & C. empregando 120 operários sendo 65 homens com idade 12 a 50 anos e 55 mulheres entre 12 a 50 anos.
 Os dados esclarecem a representativa presença feminina no operariado local, o salário inferior aos homens por elas recebido e também a presença sistemática de meninos e meninas a partir dos 12 anos de idade nas atividades industriais.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A CAVERNA

Acervo: Biblioteca Rio-Grandense. 

          O jornal caricato e literário Marui, editado na cidade do Rio Grande, publicou em sua edição n. 13 do ano de 1880 um "Apedido" denunciando uma "caverna" de prostituição existente entre a rua Uruguaiana (Silva Paes) com a rua 16 de Julho (Benjamin Constant). 
        Uma ameaça sistemática feita pela imprensa neste período era a publicação do nome dos frequentadores desta "casa assobradada", local que estava provocando perturbação aos moradores das imediações.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

CARTOGRAFIA NO SÉCULO XVIII

Compêndio Noticioso de Francisco João Roscio (1774). Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. 

      O século XVIII foi fundamental para o desenvolvimento da cartografia portuguesa. A formação dos engenheiros militares e a sua atuação dos mesmos na colônia foram fatores decisivos para o conhecimento da natureza brasileira. Para o historiador José Honório Rodrigues, a chamada “cartografia dos limites”, com a assinatura dos Tratados de 1750 e 1777, "delineou com extraordinários resultados o corpo físico do Brasil. São verdadeiros monumentos cartográficos que elucidam complicadas questões de limites".

     Em pleno século das luzes, o racionalismo e o cientificismo imperavam e dominavam não só as Universidades, mas os próprios governos através da doutrina do despotismo esclarecido. Nesta doutrina para a nação alcançar a soberania era necessário dominar a natureza e isto só poderia ocorrer pelo conhecimento. Assim a premissa do período: "a natureza deve se subordinar à razão pelo exato conhecimento: a razão só pode avançar apoiada na realidade".

     Assim o acervo cartográfico elaborado pelos cartógrafos portugueses possibilitou a criação de uma estratégia de defesa, segundo a qual redes de fortificações começaram a se estruturar e  núcleos urbanos começaram a se consolidar, permitindo a definitiva ocupação da colônia, de seus sertões e não apenas do litoral.
BIBLIOGRAFIA:
LEGIBRE, Anna Maria Soares. O papel do estrangeiro na formação e transformação da área central e peri-central do Rio de Janeiro. In:_______. Scripta Nova. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, Barcelona, 2001.

SÁ, Simão Pereira de. História topográfica e bélica da Nova Colônia do Sacramento do Rio da Prata. Porto Alegre: Arcano, 1993.

SALDANHA, José de. Diário resumido. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1938.

TORRES, Luiz Henrique. Forte Jesus-Maria-José: fontes historiográficas. Biblos, v.16, Rio Grande, p.191-200. 2004.

TOLEDO, Benedito Lima de. A ação dos engenheiros militares na ordenação do espaço urbano no Brasil. Lisboa: [s.n], 2000.

TEIXEIRA, Manuel C. A Colônia de Sacramento: expressão do urbanismo português seiscentista. Colônia Del Sacramento: Instituto Camões, 2004.

CARTOGRAFIA NO SÉCULO XVIII – SILVA PAES

"Desenho por idea" (1737) de José da Silva Paes. Mostra a Barra do Rio Grande e adjacências.
Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.  

     Silva Paes nasceu em Lisboa, em 1679, faleceu na mesma cidade em 1760.
     Formou-se na Aula de Arquitetura Militar de Lisboa, ingressou no Exército, servindo na Infantaria e chegando ao posto de coronel-engenheiro agregado, em 1723. Foi destacado pelo Conselho Ultramarino para acompanhar as obras do aqueduto da Carioca.

     Em 1736, foi designado pelo Vice-rei, Gomes Freire de Andrade, para comandar uma expedição à Colônia do Sacramento, cercada pelos espanhóis. Entre os objetivos da expedição estavam: expulsar os espanhóis da região de Montevidéu; levantar o cerco inimigo sobre a Colônia e fundar um presídio em Rio Grande, a meio caminho entre Santa Catarina e Colônia. Entretanto, a expedição, iniciada em 1736, não conseguiu lograr seu primeiro objetivo, pois os espanhóis já se encontravam bem fortificados na região. Quanto ao segundo, seu êxito foi relativo, pois juntamente, com o governador de Colônia conseguiu expulsar e destruir acampamentos espanhóis na região; porém frente à negativa de um dos chefes da esquadra, desisitiu do ataque a Buenos Aires. Retornando de Colônia, tentou ancorar em Maldonado, para ali fundar uma base portuguesa, porém desistiu do intento devido à falta de água e lenha na região e à pouca amplitude da baía para a proteção dos navios. Desse modo, fixou-se em executar o terceiro objetivo, chegando a Barra do Rio Grande e desembarcando em 19 de fevereiro de 1737, para fundar e construir o Forte Jesus-Maria-José, que deu origem à Vila de Rio Grande.

     Como engenheiro militar, Silva Paes já havia realizado inúmeros trabalhos, destacando-se especialmente na construção de projetos militares, como o projeto defensivo da Baía da Guanabara, iniciado em 1735, que constituía-se na planta da Fortaleza do Patriarca São José da Ilha das Cobras, que tornava inacessíveis as escarpas da ilha, dando-lhe um aspecto de um castelo elevado. Neste projeto a defesa ficava integrada por três fortes: o de São José, em cujo terrapleno estavam compreendidas as edificações de serviço, como a Casa do Governador, capela, casa da pólvora e corpo da guarda; o do Pau da Bandeira, aproximadamente ao centro da ilha; e o de Santo Antônio, na ponta alongada e mais baixa, na direcção da Ilha dos Ratos, hoje Ilha Fiscal.

     Foi o primeiro governador da capitania de Santa Catarina, de 7 de março de 1739 a 25 de agosto de 1743, reassumindo o governo de 20 de março de 1746 a 2 de fevereiro de 1749. Ali projetou e construiu as fortalezas que constituiram o sistema de defesa da ilha de Santa Catarina, composto de quatro fortes, ao norte: São José da Ponta Grossa, Anhatomirim e Ratones; e ao sul, Conceição de Araçatuba.

     Entre os seus trabalhos cartográficos estão:
a) Planta das fortificações da Barra de Santos e da Fortaleza de Itapema, em 1735 ou 1736 ;
b) Planta topográfica da Praça da Nova Colônia do Sacramento, em 1736;
c) Levantamento topográfico da costa referente ao trecho da Lagoa Mirim e da Barra de Rio Grande, em 1737.

CARTOGRAFIA NO SÉCULO XVIII – JOSÉ CUSTÓDIO DE SÁ E FARIA

José Custódio de Sá e Faria Planta Topográfica do Rio Grande de São Pedro do Sul. Acervo: Mapoteca do Arquivo Histórico do Exército. 1776. 

     Nascido em Portugal, José Custódio de Sá e Faria foi um engenheiro militar, cartógrafo, arquiteto, geógrafo e administrador colonial do século XVIII. Formou-se na Academia Militar das Fortificações de Portugal, no ano de 1745. Faleceu em 1792, na Argentina.

     Foi designado pelo vice-rei Gomes Freire de Andrade para fazer parte da Comissão Demarcadora, que assentaria os limites entre as possessões ultramarinas dos reinos de Portugal e Espanha, resultado das negociações do Tratado de Madri de 1750, na América do Sul. Devido ao seu preparo técnico e ao seu desenho elaborado, Sá e Faria foi nomeado o primeiro comissário da Terceira Partida Demarcadora, que iria realizar o estudo cartográfico da zona compreendida entre os rios Paraná e Paraguai, o plano da Colônia de Sacramento e o mapeamento do Salto Grande do Paraná, realizadas no período 1753-54.

     Preparou os dois mapas que ornariam a História topográfica e bélica da Nova Colônia do Sacramento, publicada em 1900, por Simão Pereira de Sá. Assim os mapas que constam no Diário de Demarcação são de sua autoria.

     Sá e Faria também realizou projetos de engenharia militar, como o do Forte de Nossa Senhora de Igatimí, na fronteira com o Paraguai, e em várias obras no Rio de Janeiro, para onde havia sido designado pelo novo vice-rei, conde de Azambuja.

     Segundo Toledo1 “a obra cartográfica de José Custódio de Sá e Faria é um acervo de inestimável valor para o estudo da formação territorial do país e suas relações com demais nações.” Analisando seu trabalho, escreve:
“As peças gráficas são acompanhadas de relatos circunstanciados, em excelente apresentação e clareza expositiva.  Nos diários e planos de viagem comparecem informações preciosas sobre as formas de se transitar, seja por caminhos em terra, trilhas de nativos, trilhas de colonizadores, alguma "estrada Real", seja por vias fluviais.  São, ainda, descritas as formas utilizadas na transposição desses cursos d'água.    Há descrição da configuração das vilas, da atividade econômica, das relações entre os diferentes grupos, hábitos sociais e comportamento ou algum tipo de fortificação.
     Entretanto, o estado de beligerância permanente entre as duas coroas ibéricas, pela hegemonia na região rio-grandense, fez com que Sá e Faria passasse a atuar com soldado, deixando de lado os instrumentos científicos. Após a invasão de Rio Grande, em 1763, pelo Vice-Rei do Rio da Prata, D. Pedro de Ceballos, o coronel José Custódio foi nomeado governador interino da Capitania de São Pedro, em 1764. Foi sua a tentativa de reconquistar a vila do Rio Grande, em 1767, porém, fracassou, apesar de recuperar São José do Norte. Foi retirado do governo e preso por desobedecer às ordens de harmonia entre as coroas ibéricas que a metrópole ditara, chegando a colocar-se do lado espanhol, mas foi posteriormente absolvido.

     Em 1777, após ter sido expulso de Rio Grande no ano anterior, D. Pedro de Ceballos invadiu a Ilha de Santa Catarina. O vice-rei designou o Brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, para comandar a defesa da fortificação, entretanto foi derrotado pelas forças espanholas. Confrontado com a possibilidade de ser executado por ordem do Marquês de Pombal, que baixara ordem contra os oficiais portugueses que se rendessem, Sá e Faria desertou, oferecendo seus serviços à Espanha, com a ressalva não lutaria contra Portugal.

     Seus bens foram confiscados e vendidos em hasta pública, assim, o engenheiro militar radicou-se em Buenos Aires e, em pouco tempo, tornou-se o arquiteto mais importante da região. Paralelamente aos trabalhos cartográficos, Sá e Faria realizou uma verdadeira reurbanização da capital, assim como de Montevidéu, da Colônia do Sacramento, de Maldonado, entre outras povoações. Foi nomeado diretor de obras públicas da cidade, realizando a correção de deficiências urbanísticas; editando normas à construção; promovendo a pavimentação de ruas e estudos que tratavam de diferentes assuntos, como reservas minerais, estabelecimento de aldeias na região patagônica, projetos para a construção de portos, docas, igrejas e catedrais.
1 TOLEDO, Benedito Lima de. A ação dos engenheiros militares na ordenação do espaço urbano no Brasil. Lisboa: [s.n], 2000.

CARTOGRAFIA NO SÉCULO XVIII – FRANCISCO JOÃO ROSCIO

Francisco João Roscio. Carta Hidrográfica de 1778. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. 

     João Francisco Roscio nasceu na Ilha da Madeira, em 1733. Era engenheiro militar e geógrafo, chegando ao Brasil em 1767. Atuou como cartógrafo na capital, traçando um mapa do Rio de Janeiro, em 1769, com uma série de muralhas, que nunca chegaram a ser construídas, também foi o responsável pelo projeto da Igreja da Candelária.

     Em 1777, Portugal e Espanha assinaram um novo tratado, que determinava uma revisão na demarcação dos limites entre os dois Impérios. Para isso foram designadas expedições demarcatórias, formadas por engenheiros, cartógrafos e militares de ambos os países. O supervisor geral do lado português foi o Vice-Rei, D. Luís de Vasconcellos, que escolheu como chefe da missão, o Governador da Capitania de São Pedro, o Brig. Sebastião Xavier da Veiga Cabral. A este estava subordinada a primeira divisão, que era chefiada pelo Cel. Francisco João Roscio e da qual faziam parte o engenheiro Dr. José de Saldanha e o ajudante Alexandre Elói Portelli.

     Ao terminar a expedição, Roscio retornou a Portugal, e ali completou a sua obra Compêndio Noticioso do Rio Grande de São Pedro, na qual relata os hábitos da população, os meios de transporte e a economia regional. O trabalho, além do texto, possui três mapas, representando uma descrição corográfica do continente, para ser utilizada com fins militares.

     Roscio ainda deixou os se­guintes trabalhos relacionados com o Rio Grande:
·         Mapas Particulares Extraídos da Carta da Capital do Rio Grande S. Pedro e suas Circunvizinhanças, até o Rio da Prata. Rio de Janeiro, 1783.
·         Plano Corográfico Individual do Rio Grand ede S. Pedro (no qual se mostram as linhas de di­visão estabelecidas nos anos de 1784, 1785 e 1786).
·         Compêndio Noticioso do Continente do Rio Grande de S. Pedro até o Distrito do Governo de Santa Catarina.
     Retornou ao Brasil e entre 1801 e 1803, ocupou o cargo de Governador interino da Capitania de São Pedro. Faleceu em Porto Alegre, em 1805.

CARTOGRAFIA NO SÉCULO XVIII – JOSÉ DE SALDANHA

José de Saldanha, "Mapa Corográfico da capitania de São Pedro". Acervo: IHGRS.  

     Saldanha nasceu em Lisboa, em 1758. Frequentou a Universidade de Coimbra, formando-se em Filosofia, Matemática e especializando-se em Geografia e Astronomia. Após o fim do curso, embarcou na fragata São João Batista, realizando observações astronômicas e matemáticas, determinado várias coordenadas geográficas. A seguir, seguiu para o Rio de Janeiro.

     Graças ao seu conhecimento científico, foi designado como bacharel civil para integrar a Comissão Demarcatória do tratado de Santo Ildefonso, chegando ao Rio Grande do Sul em 1783. Seu itinerário e suas descobertas científicas estão documentadas em duas obras: Diários Gerais e Diário Resumido, escritas nos meses de inverno, nos quais a expedição se limitava a esperar no acampamento por melhores condições climáticas. Este local acabou sendo o núcleo inicial da atual cidade de Santa Maria. Graças aos serviços prestados ao governo português recebeu a patente de coronel.

     Saldanha deixou outros trabalhos escritos. São eles:
·         Diário... do reconhecimento dos campos de novo descobertos sobre a Serra Geral, nas cabeceiras do Rio Pardo.
·         Memória sobre o Sal de Glauber na Capitania do Rio Grande do Sul.
     Em 1789, quando convalescia no Quartel de Rio Pardo, Saldanha dedicou-se a elaborar o Mapa Corográfico da capitania de São Pedro, mais tarde ampliado pelo autor. Apesar dos inúmeros dados coletados durante a expedição de demarcação, faltaram-lhe dados para a conclusão dos trabalhos. O que o levou a empreender longas excursões pelo território rio-grandense na coleta das informações faltantes.

     Este mapa foi o primeiro realizado no Rio Grande do Sul em que constaram levantamentos geodésicos e medições de dezenas de sesmarias localizadas na fronteira. Posteriormente, o mapa foi acrescido com os dados relativos à posse dos novos territórios adquiridos após a conquista das Missões, em 1801. E é está versão que foi publicada em 1819, pelo Visconde de São Leopoldo, na primeira edição de seus Anais.

     Após a conquista das Missões, Saldanha foi designado como comandante das tropas na região recém conquistado, o que lhe foi útil para a coleta de dados com o objetivo de completar o mapa da Capitania. Quando deixou o comando, retirou-se para Porto Alegre, onde concluiu o seu mapa. Faleceu em Porto Alegre no ano de 1808.

CARTOGRAFIA NO SÉCULO XVIII – ANTONIO IGNACIO RODRIGUES CÓRDOVA

Córdova "Mapa Geográfico do Continente do Rio Grande", 1780. Acervo: IHGRS. 

    Córdova nasceu em Portugal, em 1750. Militar, com conhecimentos científicos, foi designado para servir no sul da colônia, primeiramente em Santa Catarina, onde chegou em 1786 e em 1790, foi mandado para o Rio Grande do Sul.

     Como cartógrafo realizou em 1780 o Mapa Geográfico do Continente do Rio Grande, dividido em quatro Províncias ou Distritos: Província do Rio Grande, Província de Viamão, Província do rio Pardo e Província de Vacaria. Esta é uma carta minuciosa, com boa apresentação gráfica e conta com mais de duzentos topônimos.

     Essa carta possui duas versões, sendo que uma delas possui um quadro estatístico com a população das freguesias que faziam parte do continente. Faleceu em Porto Alegre em 1791. 

FONTES PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA RIO-GRANDINA DO SÉCULO XVIII – RIBEIRO

Litoral sul e Lagoa Mirim. Compêndio Noticioso de Franciso João Roscio de 1774-1775.
Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.   

         Enquanto parte do contexto geopolítico platino, a constituição do Presídio e Povoação do Rio Grande de São Pedro em 1737 é um capítulo do enfrentamento entre as Coroas de Portugal e da Espanha pela posse do rio da Prata.
A compreensão destes movimentos militares e colonizatórios estão espalhados na documentação oficial portuguesa e também em fontes de militares, engenheiros, tropeiros e funcionários bragantinos num manancial de informações que constituem as fontes historiográficas para o estudo do século XVIII. Algumas destas fontes, selecionadas de uma amostragem maior, serão referidas a seguir.
         Notícias sobre a Barra do Rio Grande e a possibilidade de ocupação, aparecem em documentos do início do século XVIII, como a Informação do sargento-mor do exército português Francisco Ribeiro datada de 1704, baseado em consulta feita pelo Conselho Ultramarino. Francisco Ribeiro serviu na Colônia do Sacramento, demonstrando conhecer o Continente do Rio Grande e defendendo sua incorporação a Portugal através da construção de fortes: “Para se conservarem e segurarem estas terras é necessário fazer as Povoações apontadas com os seus presídios, fazendo juntamente fácil a comunicação com o Brasil por todas as partes, e principiando pela Costa se deve fazer uma povoação no Rio Grande, 52 léguas da Laguna, povoação nossa que fica em 29 graus; é preciso para esta povoação o presídio de 200 infantes em duas Companhias e 50 cavalos em uma tropa, com uma fortificação ordinária e pouca artilharia, por não haver navegação mais que para lanchas pelo dito Rio Grande”.[1] Essas informações que precedem a ocupação efetiva, demonstram que a posição estratégica ocupada por Rio Grande é amplamente destacada nos documentos.


[1] RIBEIRO, Francisco. Informações sobre a Colônia do Sacramento In: CESAR, Guilhermino. Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul 1605-1801. 2ª ed., Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1981, p. 66.

FONTES PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA RIO-GRANDINA DO SÉCULO XVIII – AGUIAR

Planta da Vila, Barra e Porto do Rio Grande de São Pedro do Sul. Entre 1755-1762.
Acervo: Mapoteca do Arquivo Histórico do Exército.  

          O sargento-mor da Praça de Santos, Manuel Gonçalves de Aguiar em 1721, também defende a construção de uma fortaleza na entrada da barra do Rio Grande: “A entrada do Rio Grande de S. Pedro é ao presente dificultosa, por não ter agora entrado na dita barra sumaca alguma grande; mas será muito fácil a qualquer sumaca ou patacho o entrar nela se levar bom prático, se governar pelo mapa, que agora fiz desta Costa, principalmente navegando na monção de setembro até janeiro, do Norte para o Sul”. As dificuldades para navegação estão presentes desde as primeiras incursões de exploração da barra o que seria mantido até a atualidade. Manuel Gonçalves de Aguiar prossegue sua observação: “A altura que tem entre os bancos fora da barra são de 3 braças, e obra de légua e meia ao mar tem duas braças e meia de fundo, em um banco que tem, mas não quebra nele o mar, de sorte que tenham as embarcações perigo nele”.  E faz referência a uma expedição anterior a sua: “eu falei nesta Vila de Santos com um inglês, e me disse haveria 8 anos, pouco mais ou menos, entrara no dito Rio Grande com uma fragatinha corrido do tempo, vindo do Mar do Sul, e que saíra com bom sucesso. Terá este porto, na barra pouco mais de légua, mas dentro pode estar e andar a maior nau que houver”.[1]
         As informações contidas nestas informações prestadas às autoridades buscando o reconhecimento do terreno, permite observar as grandes dificuldades enfrentadas para navegação no canal e edificação de um forte ou presídio que seria a célula para um povoamento sistemático.


[1] AGUIAR, Manuel Gonçalves de. Notícias práticas da costa e povoações do mar do sul  In: CESAR. 1981, p. 79-80.

FONTES PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA RIO-GRANDINA DO SÉCULO XVIII – ABREU

Passagem pelo rio Mampituba (Torres) na pintura de Jean Debret (década de 1820). Este cenário era comum aos tropeiros e viajantes que cruzavam o litoral do Rio Grande do Sul desde o início da exploração do gado da Vacaria Del Mar após a fundação da Colônia do Sacramento. 

O contratador de couros da Colônia do Sacramento Cristóvão Pereira de Abreu, esteve em janeiro de 1737 preparando o terreno onde seria edificado o forte. Em correspondência ao capitão-general Gomes Freire de Andrade, Abreu demonstra apreensão com a intensificação da luta em torno de Sacramento e com as dificuldades ligadas ao forte: “pela pouca confiança que faço da gente que aqui se acha, tomei por melhor acordo retirar-me outra vez ao passo deste Rio e fortificar-me no porto da parte do Sul com trincheira e 4 peças cavalgadas por segurar o posto que é o único para passar animais e por a cavalhada e gado da parte do Norte, deixando só ficar o que baste para a carga desta sumaca e que hoje se dá princípio para se continuar com brevidade que foi possível e tão bem alguns cavalos para a guarda que sempre conservo e para mandar colher mais gado, depois de despachada a sumaca”.[1]
A desconfiança com deserções de soldados e infiltração de espanhóis tornam ansioso o quadro que antecede a chegada de Silva Paes e suas tropas. A manutenção desta posição pelo distanciamento dos centros de abastecimento como o Rio de Janeiro também trará problemas para a manutenção da posição.


[1] ABREU, Cristóvão Pereira de. In: PORTO, Aurélio. História das Missões Orientais do Uruguai. Rio de Janeiro: Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1943, p. 365.

FONTES PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA RIO-GRANDINA DO SÉCULO XVIII – SÁ

"História Topográfica e Bélica da Nova Colônia do Sacramento do Rio da Prata", Editada pela primeira vez pelo Liceu Literário Português, do Rio de Janeiro, e copiada do original de Simão Pereira de Sá.
 Rio de Janeiro: Leuzinger, 1900. 
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         O primeiro historiador a escrever sobre a fundação do Rio Grande foi Simão Pereira de Sá, que vivenciou o confronto entre as duas Coroas Ibéricas em volta da Colônia do Sacramento. A obra de Sá constitui-se, originalmente, num parecer jurídico encomendado por Gomes Freire de Andrade, Governador do Rio de Janeiro, estando o autor voltado a demonstrar que os interesses lusitanos no rio da Prata são legítimos e correspondem a um projeto civilizatório.
O ideário luso-brasileiro fundamentado no expansionismo em direção ao Prata enquanto um curso natural do desenrolar histórico, o papel civilizador dos bandeirantes, tropeiros e militares na luta contra os índios e espanhóis. Na obra de Simão Pereira de Sá, destacam-se os elementos da lusitanidade traduzidos nas ações de reconhecimento do terreno por Cristóvão Pereira de Abreu e na expedição de Silva Paes.  A narrativa dos acontecimentos ligados ao surgimento do Rio Grande enquanto referencial luso para a incorporação do Rio Grande do Sul está contextualizado no confronto militar e diplomático entre Portugal e Espanha.
         Uma das primeiras referências a Rio Grande é feita por Simão Pereira de Sá, quando este transcreve uma carta de Gomes Freire de Andrade com instruções para a construção de um presídio militar em lugar situado atualmente no centro da cidade. A carta foi escrita no Rio de Janeiro, em junho de 1736, e documenta a fundação do presídio enquanto desdobramento da campanha de 1735-37 dos espanhóis contra Sacramento.[1]



[1] SÁ, Simão Pereira de. Historia Topografica e Belica Danoua Colonia do Sacramento do Rio da Prata, repartida emtres liuros e que se contem as tres uezes que se pouo-ou, e excidio, e as heroicas acçoens, que ali obraraõ os Americanos Portugueses Escrita por Ordem do Illmo. Eexmo. Governador e Capitaõ General do Rio de Janro. Gomes Freire de Andrade Conde de Bobadella pello Doutor Simaõ Pereira de Sá no anno de 1737. Porto Alegre: Arcano 17, 1993, p. 108-109.

FONTES PARA O ESTUDO DA HISTÓRIA RIO-GRANDINA DO SÉCULO XVIII – BETTAMIO

Aquarela portuguesa do ano de 1776 com estrutura urbana que restou da ocupação espanhola.
Acervo: Biblioteca de Évora.


         Sebastião Francisco Bettamio terminou de escrever em 19 de janeiro de 1780 a Notícia particular do Continente do Rio Grande do Sul, segundo o que vi no mesmo Continente, e notícias, que nele alcancei com as Notas, do que me parece necessário para aumento do mesmo Continente, e utilidade da Real Fazenda.[1] Na época do governador Manuel Jorge Gomes Sepúlveda (1773-1780), iniciou a organização da contabilidade do Rio Grande do Sul dirigida por Bettamio, que viera de Portugal para o Brasil em 1767 para introduzir novos métodos de contabilidade fiscal. Em 1775, auxiliava o general João Henrique Böhm, comandante das tropas luso-brasileira na luta contra a ocupação espanhola, organizando as linhas de suprimento. Conforme José Honório Rodrigues foi durante essa guerra que Bettamio preparou uma das mais importantes fontes históricas relativas à vida econômica e social do Rio Grande do Sul.[2] 
Bettamio dedica uma considerável parte  de sua Notícia a Vila de S. Pedro, segundo ele, esta “Vila que tanto tem custado à Coroa Portuguesa, parece de justiça se conserve, e se passe para ela a capital, mudando-se de Porto Alegre as pessoas que formam o Estado Civil, e restituindo-se a antiga posse em que estavam na Vila”.  A proposta de trazer a capital para Rio Grande, está fundada na proximidade da Barra e o acesso para a navegação marítima e os contatos com o interior da Capitania. “Dirão que o terreno é indigno pelas muitas areias que formam com combros formidáveis, e que estes cada vez mais se vão aproximando à Vila, sepultando os edifícios dela, o que não duvido sucede, e sucederá se não houver algum trabalho para o impedir. Se, porém, considerarem as utilidades que se seguem de ser ali a capital do continente, somente pela proximidade da barra, e sem atender às mais que resultam aos povos vizinhos, que são já em grande número, vir-se-á a conhecer que se deve empregar todo o cuidado na conservação e aumento da Vila”. Rio Grande, por sua posição estratégica “é sempre mais defendida, e se pode cobrir com alguma fortificação no sítio chamado o Estreito”. Essas razões evidenciam que é em Rio Grande que se deve trabalhar e “por todos os meios que parecerem conducentes para o seu estabelecimento, povoação, aumento e cultura”.[3]
          Bettamio propõe ao Governador da Capitania, uma série de providências para garantir o crescimento da Vila do Rio Grande, medidas que se tivessem sido implementadas, mudariam radicalmente o desenvolvimento histórico rio-grandino. Escreve, ainda sob efeito dos treze anos de ocupação espanhola, defendendo a fortificação e povoamento da Vila do Rio Grande, insistindo da necessidade em concentrar a população nas imediações deste centro urbano a fim de garantir sua manutenção no caso de novos ataques castelhanos. Os problemas ligados à carência de água e ausência de uma cobertura vegetal, de depósitos para conservação dos produtos da lavoura, do empobrecimento acarretado pela luta contra os espanhóis, da falta de material não perecível para construção e do contínuo movimento da areia, são alguns dos problemas enfrentados pela população na segunda metade do século XVIII e que Sebastião Bettamio projeta soluções, demonstrando um conhecimento do cotidiano do Rio Grande.



[1] BETTAMIO, Sebastião Francisco. Notícia particular do Continente do Rio Grande.  In: FREITAS, Décio. O capitalismo pastoril. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980, p. 141-199.
[2] RODRIGUES, José Honório. História da História do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1979, p. 220.
[3] BETTAMIO. In: FREITAS. 1980, p. 152.