O ano de
1954 foi muito tenso no Brasil! A crise política ligada ao Presidente Getúlio
Vargas teve seu desfecho com o suicídio do Presidente no mês de agosto. No
cenário internacional a Guerra Fria e o desenvolvimento de armas nucleares são
uma tônica permanente. Em Rio Grande, a crise econômica e o desemprego devido
ao fechamento/redução de trabalhadores nas indústrias marcaram as notícias e os
editoriais do jornal Rio Grande. Os debates políticos são acirrados e
sistemáticos. Aqueles que viveram o período poderão recordar de alguns
anúncios/personagens que marcaram a cidade na década de 1950 e seguintes. As
imagens foram reproduzidas do jornal Rio Grande do primeiro semestre de 1954. Quem
se lembra delas?
A proposta deste blog é instigar a leitura, o conhecimento e a investigação dos processos históricos. Livros com temas ligados a História do RS e Hist. do Município do Rio Grande estão disponíveis para leitura ou download. Também serão abordados temas de "História e Terror", "Literatura Fantástica", "Graphic Novel-HQ" etc. Administradora: Rejane Martins Torres. Facebook: Professor Torres
Porto do Rio Grande em 1908
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
A ESTAÇÃO MARÍTIMA
A Estrada de
Ferro Rio Grande-Bagé foi inaugurada em 1884. A última estação desta Estrada de
Ferro foi inaugurada em 12 de julho de 1888: a Estação Marítima. Conforme
informações reproduzidas do site http://www.estacoesferroviarias.com.br era Marítima que saíam os trens que levavam
ao ramal de Cassino, para
o balneário na Vila Siqueira.
Na estação de Junção, a
linha se bifurcava, seguindo para Pelotas na
principal e para o ramal, na outra. No início dos anos 2000 já estava em ruínas
e atualmente nas restaram vestígios da edificação localizada no final da Rua
Riachuelo (atual local em que os veículos aguardam para pegarem a balsa para
São José do Norte).
A Marítima era um último destino da
Linha Cacequi-Marítima (1.117km). A linha foi construída em
partes: pela Southern Brazilian Rio Grande do Sul Railway Company Limited,
sucessora de uma série de concessões anteriores, a Bagé-Marítima, em 1884. De
Cacequi a São Gabriel, em meados de 1896 e de São Sebastião a Bagé, no final do
mesmo ano, ambos pela E. F. Porto Alegre-Uruguaiana. Em 1900, a união São
Sebastião-São Gabriel completaria o trecho Bagé-Rio Grande. Era uma linha de
grande utilidade, pois transportava gado e charque para o porto do Rio Grande,
apesar de, no final do século 19, ter baixo movimento por causa dos altos
preços do frete, dos maus serviços e da interrupção do serviço dos trens pela
Revolução Federalista. Os trens de passageiros partiam de Livramento, em outra
linha, chegavam a Cacequi e dali até Bagé. Em Bagé, havia que se trocar de trem
para chegar a Rio Grande. Uma série de variantes foi entregue entre 1968 e os
anos 1980 - Pedras Altas, Três Estradas, Pedro Osório, Pelotas - que encurtaram
e melhoraram seu traçado, eliminando diversas das estações originais. Até 1982
as linhas ainda transportavam passageiros, quando o serviço foi interrompido
devido ao desabamento de uma ponte em Pedro Osório; uma nova linha foi
construída logo depois. O transporte de passageiros retornou algum tempo depois,
mas com trens mistos, que duraram até meados dos anos 1990.
![]() |
| Cartão-postal por volta de 1920. |
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| Linha Cacequi-Marítima (1940). |
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| Cartão-postal da Marítima por volta de 1912. R. Strauch/Livraria Rio-Grandense. |
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| Marítima em primeiro plano à esquerda. Revista Tudo, 1935. |
CLUB DE REGATAS RIO GRANDE
O Club de
Regatas completou 120 anos de fundação! Era o dia 22 de agosto de 1897 quando
se formaliza a criação do clube (esportivo, lazer...) com maior longevidade na
história local.
Rio Grande,
no final do século 19, apresentava uma economia dinâmica voltada à movimentação
portuária. Os segmentos ligados ao comércio de exportação e importação e a
indústria estiveram em sintonia com práticas internacionais nos campos do
esporte, lazer e cultura. Esta contemporaneidade e até pioneirismo em relação
aos maiores centros brasileiros em diferentes épocas, evidencia que modalidades
diversas foram pensadas e implementadas na cidade.
Um destes casos é o Club de Regatas Rio Grande
que tem propiciado por gerações a saudável prática dos esportes e aquilo que é
essencial nesta cidade marítima: voltar-se as águas que cercam a cidade e
definem a sua identidade.
No ano
seguinte a fundação do Regatas, talvez por inspiração nesta nova agremiação,
foi fundado em Pelotas um Club de Regatas (que não é o atual Clube fundado em
1914...). O jornal Correio Mercantil
(Pelotas) do dia 25 de junho de 1898, traz a seguinte notícia: “O Echo do Sul
do Rio Grande reclama da direção da Southern que faça correr um trem de
excursão para esta cidade (Pelotas) no próximo domingo 3 de julho quando o club
de regatas daqui realiza a sua festa marítima inaugural”.
O espírito
esportista organizado e voltado às águas remonta ao século 19 e pelo Estuário
da Lagoa dos Patos circulou (circula), além de mercadorias e sociabilidades, a
cultura esportista.
Ilustrações: fotografias retiradas de https://regatasriogrande.wordpress.com/; Estatuto do Clube (Biblioteca Rio-Grandense).
domingo, 17 de dezembro de 2017
ARSÉNE ISABELLE E OS GAÚCHOS
O comerciante francês Arséne Isabelle (Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul.
Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde S.A., 1949), percorreu o Rio Grande
do Sul e o Prata entre 1833-1834. De ideologia liberal, deixou inúmeras
impressões desta viagem. O período em que ele percorreu o extremo sul do Brasil
e o Prata é imediato a eclosão da Revolução Farroupilha que convulsionou por 10
anos a Província do Rio Grande do Sul. O termo gaúcho é pejorativo entre os
farroupilhas e Isabelle também reproduz uma visão negativa do comportamento
social destes grupos que foram uma forte base da construção da identidade
platina e rio-grandense.
Os escritos deste viajante trazem informações
sobre comportamento social, vestuário e cotidiano das populações platinas. Arséne
Isabelle disfarçou-se de “gaúcho” para não chamar a atenção ao chegar a Paysandu
(Uruguai) em 1834. A roupa consistia em “jaqueta marrom, colete branco chiripá
azul-celeste, bombacha branca, com franjas, sob as calças de casimira azul, e
um poncho inglês colocado negligentemente sobre o ombro esquerdo. Levava, além
disso, o cigarrito de papel na boca, o facão passando na cintura do
chiripá, atrás das costas, e o chapéu a médio lao... Juro que tinha o
aspecto de um honesto bandido. Haviam me aconselhado a desembarcar assim, a fim
de não provocar suspeitas da parte dos gaúchos, que não veriam com bons olhos o
aparelhamento bélico que levávamos para caçar”.
O viajante francês descreve os gaúchos como
foras da lei e afirma que os índios guaranis “antes dóceis se uniram aos
arrogantes charruas e a alguns gaúchos criminosos, para pilhar, devastar em
comum todas as estâncias, assim como as povoações do interior, a fim de
venderem os animais e os couros roubados aos portugueses e brasileiros, que
achavam muito cômoda essa maneira de enriquecer, ao mesmo tempo iam alimentando
com ela o ódio que ainda sentem pelos chamados espanhóis”.
Considerou a hospitalidade concedida aos estrangeiros
satisfatória e “quase toda a gente de certa cultura, na América do Sul, acolhe
bem os estrangeiros e lhes oferece a mais generosa hospitalidade. Mas não
acontece assim fora das cidades, onde a educação dos homens se limita, a saber,
laçar ou bolear os animais com destreza, a domar um cavalo e a montá-lo com
garbo. Esses homens, meio selvagens vêem com desagrado os estrangeiros”.
Deixando o Uruguai e se deslocando pelo Rio
Grande do Sul “nada tínhamos a temer na terra brasileira, nem dos animais, nem
dos homens, ao contrário do que acontecia no país [Uruguai] que tínhamos
percorrido. Citaram-nos muitas pilhagens, cometidas havia pouco tempo, e nos
garantiram que tínhamos tido sorte em escapar do ataque dos índios errantes,
que rondam as margens do Uruguai para assaltar os viajantes”.
Um dos espaços cotidianos mais tradicionais
destas sociedades é a pulperia um local lúdico, etílico, mas também de
acaloradas discussão políticas. Isabelle traz a seguinte definição de pulperia:
“espécie de botequim e cabaré ao mesmo tempo, onde se vêem cavalos de gaúchos
amarrados a um poste, enquanto os donos jogam cartas, a escondidas, [...]
ao qual são tão afeiçoados, que chegam a jogar a própria camisa. Ainda é bom
quando o jogo termina sem briga, pois, do contrário, a disputa será resolvida
no meio da praça com as longas facas de que estão sempre armados”.
Ilustrações: pulperia platina e gaúchos no Prata. Juan Leon Pallière, década de 1850. (Biblioteca Nacional do Rio
de Janeiro).
O TRATADO DE SANTO ILDEFONSO
Este tratado foi assinado entre Portugal e
Espanha em 01 de outubro de 1777 na cidade espanhola de San Ildefonso. O
objetivo era buscar uma solução pacífica para uma série de conflitos envolvendo
as duas potências ibéricas no Brasil e no Prata.
O tratado evidenciou uma situação de
fragilidade militar de Portugal que acabou cedendo os Sete Povos das Missões
(no RS) e também a Colônia do Sacramento do Rio Prata (fundada pelos
portugueses em 1680) para os espanhóis. Portugal recebeu em troca a devolução
da Ilha de Santa Catarina (ocupada pelos espanhóis) e a legitimação da metade
leste do Rio Grande do Sul. Ocorreram outras determinações para algumas áreas
de fronteira/fricção luso-espanhola, mas vamos nos restringir ao Rio Grande do
Sul e a Colônia do Sacramento.
Este Tratado criou um espaço cultural que foi
muito repetido nas incursões literárias e historiográficas no Rio Grande do
Sul: os Campos Neutrais. Entre o Taim e a fronteira do Chuí não poderia ocorrer
povoamento português ou espanhol para evitar conflitos e reacender o espírito
belicoso. Cerca de 150 km de extensão do bioma pampa e duas grandes lagoas de
água doce compunham a paisagem. Índios, gauchos e ocupantes clandestinos
mantiveram uma dinâmica cultural (pampeana) e econômica (contrabando) que foi
modificada na década de 1820 com uma distribuição/regularização das terras já
no Brasil independente.
A seguir é feita reprodução de três artigos do
Tratado no que diz respeito ao sul do Rio Grande do Sul.
TRATADO
PRELIMINAR DE LIMITES - Sto. ILDEFONSO Dona Maria I (Portugal) / Carlos III
(Espanha) - 1.Outubro.1777
ART. IV
Para evitar outro motivo de discórdias entre as duas Monarquias, qual
tem sido à entrada da Lagoa dos Patos ou Rio Grande de S. Pedro, seguindo
depois por suas vertentes até o rio Jacuí, cujas duas margens e navegação teem
pretendido pertencer-lhes ambas a Corôas, convieram agora em que a dita navegação
e entrada fiquem privativamente para a de Portugal, estendendo-se seu
domínio pela margem meridional até o arroio Taim, seguindo pelas
margens da Lagoa da Mangueira em linha reta até o mar; e pela parte
do continente, irá a linha desde as margens dita Lagoa de Merim, tomando a
direção pelo primeiro arroio meridional, que entra no sangradouro ou
desaguadouro dela, e que corre pelo mais imediato ao forte português de S.
Gonçalo; desde o qual, sem exceder o limite do dito arroio, continuará o
domínio de Portugal pelas cabeceiras dos rios, que correm até o
mencionado Rio Grande e o Jacuí, até que passando por cima das do
rio Ararica e Coiacuí, que ficarão da parte de Portugal e as dos
rios Piratiní e Abiminí, que ficarão da parte da Espanha, se tirará
uma linha, que cubra os estabelecimentos portugueses até o desembocadouro do
rio Peperiguassú no Uruguai; e assim mesmo salve e cubra os estabelecimentos e
missões espanholas do próprio Uruguai, que hão de ficar no atual estado em que pertencem
à Corôa de Espanha; . . .
ART. V
Conforme ao estipulado nos artigos antecedentes, ficarão reservadas
entre os domínios de uma e outra Corôa as Lagoas de Merim e da Mangueira, e as
línguas de terra que medeiam entre elas e a costa do mar, sem que nenhuma das
duas nações as ocupe, servindo só de separação; de sorte que nem os
portugueses passem o arroio de Taim, linha reta ao mar até a parte meridional,
nem os espanhóis os arroios de Chuí e de S. Miguel até a parte setentrional:
. . .
ART. VI
A semelhança do estabelecido no artigo antecedente, ficará também
reservado no restante da linha divisória, tanto até a entrada no Uruguai do rio
Peperiguassú, quanto no progresso que se especificará nos seguintes artigos, em
espaço suficiente entre os limites de ambas as nações, ainda que não seja de
igual largura a das referidas lagoas, no qual não possam edificar-se povoações,
por nenhuma das duas Partes, nem construir fortalezas, guardas ou postos de
tropas, de modo que os tais espaços sejam neutros, pondo-se marcos
e sinais seguros, que façam constar aos vassalos de cada nação o sítio, de que
não deverão passar . . .
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
O PROJETO ECLIPSE
Hoje, 13 de novembro, palestrei sobre o Projeto Eclipse no evento de inauguração da Exposição "O Pioneirismo da Cidade do Rio Grande na Aviação Comercial". A Exposição está aberta a visitação no Prédio da Justiça Federal do Rio Grande.
Com grande satisfação pude conversar com Ernesto Albrecht e familiares e pude rememorar a memória do meu amigo Walter Albrecht que muitos caminhos me abriu para pesquisar novas fontes sobre o passado da cidade do Rio Grande.
Na palestra, os presentes puderam fazer uma viagem amparada nas fotografias até o ano de 1966 e pudemos conversar sobre a grandiosidade do Projeto Eclipse e do lançamento dos foguetes no Cassino.
Convido os leitores para conhecerem a publicação clicando na capa do livro "O Dia em que o Cassino Parou".
quarta-feira, 8 de novembro de 2017
O DIA EM QUE O CASSINO PAROU: O PROJETO ECLIPSE
O livro O Dia em que o Cassino Parou: o Projeto Eclipse, já está disponível para leitura e download. A publicação propicia uma visão ampla da cobertura fotográfica e feita pela imprensa sobre o eclipse total do Sol ocorrido em 12 de novembro de 1966. Como o Balneário Cassino estava numa posição privilegiada para as observações, o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e a NASA fizeram um convênio para a construção de um campo de lançamento de foguetes nas proximidades da Querência. O livro conta um pouco sobre como O Cassino e Rio Grande fizeram parte da corrida espacial e do maior projeto de observação solar já realizado no Brasil.
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| LUIZ HENRIQUE TORRES |
terça-feira, 7 de novembro de 2017
O BRASIL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL
Apesar da
grande distância do cenário europeu e da carnificina que representou os
confrontos bélicos na Primeira Guerra Mundial (iniciada em julho de 1914), o
Brasil não ficou ileso ao conflito. Num período de defesas imperialistas, por
vezes intransigentes, a presença de população de países beligerantes e as
discussões políticas européias se fizeram ressoar em território
brasileiro.
Inicialmente,
o Brasil declarou a sua neutralidade em 4 de agosto
de 1914. Mas um primeiro incidente ocorreu em 1916: o navio brasileiro Rio
Branco, foi afundado quando estava em águas restritas, operando a serviço
inglês e com tripulação de noruegueses. Porém, isto não configurou um ataque ilegal dos alemães. No ano
seguinte, 1917, as relações se deterioram quando os alemães autorizam os seus
submarinos a afundar qualquer navio que entrasse nas zonas de bloqueio. Foi no
dia 5 de abril que o vapor brasileiro Paraná, um dos maiores
navios da marinha mercante e estava carregado de café, foi atacado por um
submarino alemão próximo ao Cabo Barfleur, na França. Três brasileiros morreram
no torpedeamento e a reação popular no Brasil foi intensa.
No dia 11 de abril
o Brasil rompeu relações diplomáticas
com o Bloco Germânico. A resposta alemã veio no dia 20 de maio quando o
navio Tijuca foi torpedeado perto da costa francesa por um submarino
alemão. Nos meses seguintes, o governo brasileiro confiscou 42 navios alemães
que estavam em portos brasileiros, como uma indenização de guerra. No dia
26 de maio de 1917, um submarino alemão atingiu com três tiros de canhão o
vapor brasileiro Lapa. No
dia 18 de outubro o navio mercante Macau foi torpedeado por submarino U-93. Manifestações
com milhares de pessoas ocorreram em várias cidades, ocorrendo o ataque a
estabelecimentos comerciais de alemães ou descendentes. Invasão, saque,
pilhagem e incêndios foram registrados, muitas vezes, com o olhar complacente
das forças policiais. As manifestações
levaram o governo do presidente Wenceslau Brás a declarar guerra no dia 26 de
outubro. No início de novembro os navios Acari e Guaiba (imediações de
Portugal) foram torpedeados pelo submarino U-151.
O
Brasil cria a Divisão Naval de Operações de Guerra (DNOG) e envia oito navios
para operar com a Marinha Britânica no patrulhamento e na guerra anti-submarina.
Esta Divisão Naval não teve uma participação de combate mas encontrou no
caminho um poderoso inimigo: a gripe espanhola ceifou a vida de 156 integrantes
da Divisão. O país também enviou cerca de cem médicos, dezenas de enfermeiras,
outros profissionais e pessoas de apoio, que atuaram em um hospital de campanha
na França (até fevereiro de 1919). Aviadores foram enviados a Inglaterra e
oficiais se voluntariaram ao Exército Francês. Os conhecimentos militares que
foram adquiridos na guerra foram relevantes para que nos anos seguintes o
modelo militar prussiano fosse trocado pelo modelo francês (na Segunda Guerra
haveria nova troca para o modelo norte-americano...).
O
Brasil teve nove navios afundados e cerca de 200 mortos no conflito. A frota
naval brasileira estava relativamente sucateada para uma situação de guerra mas
o apoio brasileiro dado a França e a Inglaterra (e a Tríplice Entente), abriram
caminho para ser convidado a participar da Conferência de Paz de Paris, em
1919: o Tratado de Versalhes. Como indenização, a Alemanha teve de ceder ao
Brasil os navios que haviam sido confiscados no início do conflito e indenizar
pelo café perdido.
O
cenário da guerra poderia ter sido outros caso o plano elaborado por João
Pandiá Calógeras e encomendado por Rodrigues Alves (candidato presidencial
eleito) tivesse sido implementado. O Plano Calógeras previa uma força
expedicionária brasileira com grande efetivo que deveria desembarcar em solo
francês e que seria financiada com empréstimos bancários americanos.Os
empréstimos seriam pagos pelo Império alemão com sua derrota ao final da
guerra. O autor, sabedor da débil infraestrutura industrial-militar brasileira
do período, acreditava que o pacto de sangue com a França e seus aliados
poderia fazer o país dar um salto no seu desenvolvimento tecnológico. O Plano
nunca foi implementado...
No
dia 11 de novembro de 1918, o devastador conflito que deixou cerca de 10
milhões de mortos, chegou ao seu final com a assinatura do armísticio. Na
Conferência de Paz de Paris coube ao Brasil receber da Alemanha o pagamento com
juros do café que se perdeu com os navios naufragados além da propriedade sobre
todos os navios apreendidos em águas territoriais brasileiras.
Em termos econômicos, o Brasil
teve restrições para a alocação de seu principal produto de exportação que é o
café mas o aumento internacional do mercado de genêros alimentícios e
matérias-primas desencadeou um intenso processo industrial para suprir a
necessidade destes mercados. Durante a Guerra as fábricas foram multiplicadas
por quatro, o número de operários dobrou e o mercado interno se ampliou com o
suprimento de produtos que eram antes da Guerra importados.
O Brasil estava entrando em
guerra há cem anos atrás! A distante Europa estava se tornando cada vez mais próxima
e mesmo que a onda de milhões de mortes não afligia o território brasileiro, o
mal epidêmico que nasceu durante a Guerra, desembarcou em dois navios no mês de
setembro de 1918: a Gripe Espanhola, que devastou populações com uma fúria
ainda maior que a Grande Guerra, estava chegando ao Brasil e ceifaria a vida,
de norte ao sul, de pelo menos trezentas mil pessoas (no planeta foram 40
milhões). O sabor amargo da guerra desembarcou na forma de um mortal vírus
influenza...
Ilustrações: Gazeta de Notícias (RJ) e A
Época (RJ). Acervo: Biblioteca Nacional.
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
CARTÕES E MEMÓRIAS
Acabo
de finalizar o meu último livro e convido a todos os leitores interessados a
acessarem o meu blog “historiaehistoriografiadors.blogspot.com.br”. O título do
livro é: “Ricardo Strauch: um pioneiro dos cartões-postais no Brasil”. A
pesquisa foi exaustiva, mas, os resultados foram promissores! Nos últimos anos
tenho feito o levantamento de cartões-postais para deixar registrada
cientificamente a importância que Rio Grande teve no pioneirismo da cartofilia
no Brasil. A qualidade dos cartões produzidos na cidade deve ser divulgada assim
como as amplas possibilidades de leituras do passado urbano e rural que os
cartões propiciam investigar.
Um
editor que me chamou a atenção foi Ricardo Strauch que se estabeleceu no ramo
de editoração no ano de 1887. A Livraria Rio-Grandense/R. Strauch teve uma
longa vida até seu fechamento em 1942. No final do século 19 e primeiras duas
décadas do século 20, foram produzidos um grande número de cartões nesta
Livraria. Após longa pesquisa, mas que não esgotou as coleções lançadas,
consegui ter acesso a imagem de cinqüenta e sete cartões-postais. Estes cartões
estão sendo reproduzidos no livro como uma forma de preservação de uma memória
iconográfica que está sendo perdida ou que é desconhecida de grande parte da
população local.
O
filósofo Walter Benjamin relacionava os cartões com princípios de globalização
cultural e suas imagens multifacetadas permitiam viajar pelos mais diferentes
pontos do planeta sem sair do lugar. Obvio que toda produção imagética está
permeada por representações, inserções e exclusões de cenários e personagens,
mas está repleta de lugares do cotidiano e até de lugares de memória (no olhar
do tempo presente). Benjamin era um colecionador de cartões-postais, sem
abandonar ele transcendeu o olhar crítico para apenas entronizar o prazer da
viagem mental pelo patrimônio e culturas dos continentes.
O
livro que está sendo lançado é uma coleta de cacos da história (fragmentos de
imagens) e buscou evidenciar o cartão-postal como fonte para o estudo da
história e de outras ciências. Mas também procurou preservar e fazer conhecer
as experiências avançadas que nasceram em nossa urbe e que circularam pelo
planeta: através das imagens clicadas por fotógrafos e coloridas/retocadas
artisticamente, Rio Grande se fez conhecer nas mais diferentes cidades e
nacionalidades. E diria que no presente, olhar para estas imagens é ver a
dialética do tempo que preserva/desconstrói espaços públicos; é olhar para
personagens anônimos das ruas e saber que várias gerações já os sucederam e
pensar na contribuição que deixaram; é difícil ficar indiferente ao pensar nas
trajetórias de vida/patrimônio e nas expectativas da cidade que queremos no
presente.
Portanto,
está feito o convite para conhecer a obra que está disponível gratuitamente neste
blog.
AVIAÇÃO COMERCIAL NO BRASIL: 90 ANOS
Visitei (no dia 03-10-2017) a Exposição organizada pelo Centro Philatélico do Rio Grande (fundado em 1931).
O Centro está lançando uma Folha Comemorativa aos 90 anos da Aviação Comercial
no Brasil e uma coleção de selos (Correios) para demarcar o pioneirismo da
aviação com participação decisiva de comerciantes da cidade do Rio Grande.
Documentos e objetos relativos aos primórdios da aviação comercial fazem parte deste
rememorar que deverá ficar exposto para visitação no prédio da Justiça Federal.
Na
Exposição que ocorreu junto aos Correios conversei com o Sr. Alfredo Perez e em
nome dele estendo os parabéns a todos os que contribuíram para demarcar esta
data magna da aviação brasileira.
Há
dez anos, tratei deste tema em três matérias do Memória & História. As
informações eram passadas pelo amigo Walter Albrecht. Ele foi um protagonista
dos fatos que colocaram a cidade que ele tanto se dedicou em sua vida pública
no centro do processo de criação da aviação comercial. Este tema sempre será
motivo de lembrar este cidadão exemplar e dedicado a qualificar e valorizar a sua
terra natal.
Foi
no ano de 1927 que estes eventos transcorreram, mas, tiveram início no ano
anterior. Em 19 de novembro de 1926, Rio
Grande foi à primeira cidade do Brasil a receber um avião comercial que vinha
do Uruguai. Hans Luther, ex-chanceler da Alemanha, tinha a missão de divulgar na
América Latina avião comercial enquanto meio de transporte. Ele foi recebido
pela colônia alemã no Clube Germânia e cumpriu seu papel de difundir a aviação
alemã como confiável e plantou a semente em buscar estabelecer parcerias para
capitalização. A visita teve desdobramentos, pois, dias após a visita de
Luther, uma assembléia foi realizada na empresa Fraeb & Cia com a presença
de vários comerciantes locais e de um representante do Condor Syndikat
(subsidiária da Lufthansa e representante da Alemanha). Este núcleo inicial
acabou se tornando acionistas quando da criação da Varig.
No
dia 3 de fevereiro de 1927, o Condor Syndikat (que era representada em Rio
Grande pela C. Albrecht & Cia) inaugurou o vôo entre Rio Grande e Porto
Alegre com escala em Pelotas: a primeira linha comercial do Brasil! Também no
dia 3 de fevereiro foi inaugurada a primeira estação de embarque e desembarque
e oficina para aviões comerciais no Brasil. Localizava-se na rua Presidente
Vargas 673 (em prédio já demolido) e que tinha por fundos o Saco da Mangueira
onde ocorria os pousos e as decolagens.
A
inauguração oficial da Linha da Lagoa (primeira linha comercial, regular e
diária no Brasil) se deu em 22 de fevereiro de 1927. O hidroavião Atlântico
saiu da cidade do Rio Grande, decolando do Saco da Mangueira, às 6:45. Fez uma
escala em Pelotas e o destino era Porto Alegre, sobrevoando a Lagoa dos Patos
entre 20 e 30 metros de altura. Para a época, uma velocidade de cruzeiro de 160
km/h deveria dar a sensação para os passageiros de estar num “supersônico”.
No
dia 28 de março é inaugurado o primeiro Serviço Postal Aéreo administrado pelo
Condor Syndikat com selos editados em Berlim. A segunda linha comercial área
brasileira remete ao dia 27 de abril ligando Rio Grande com Santa Vitória do
Palmar.
Constatamos que antes da criação da Varig, que
ocorreu em Porto Alegre em 7 de maio de 1927, desde o dia 3 de fevereiro já
ocorriam vôos comerciais. A Condor Syndikat foi o trampolim para a criação da
Varig que teve como primeira administração oito pessoas de Porto Alegre, oito
de Rio Grande, duas de Pelotas, três do Rio de Janeiro e uma da Alemanha.
Acionistas de Rio Grande eram os segundo maiores investidores. O Diretor
Gerente eleito foi Otto Ernest Meyer e o seu suplente Carlos Albrecht Júnior. O
mesmo hidroavião Atlântico que foi utilizado nos vôos em Rio Grande foi
adquirido pela Varig para atividades em Porto Alegre (é a primeira aeronave no
Registro Aeronáutico Brasileiro).
Carlos
Albrecht Júnior foi um articulador e viabilizador dos primeiros passos da
Condor Syndikat e da Varig. Faleceu, prematuramente, em 1930. Seu filho, Walter
Albrecht, me relatou que ele foi socorrer um hidroavião acidentado no Saco da
Mangueira num dia chuvoso e frio. Nos dias seguintes teve uma forte gripe que
nas semanas seguintes confluiu para o mal do século: a tuberculose. O Relatório
de 1930 da Diretoria da Varig fez referência ao seu falecimento: “Quase todos
vós conhecestes esse nosso representante em Rio Grande, Sr. Carlos Albrecht
Júnior, e sabeis com que forte interesse e incansável aplicação o mesmo
participou da fundação e desenvolvimento da Varig. (...) Vários dirigentes de
empresas atestam o respeito e a admiração que os mesmos lhe devotam, por tudo
que fizera nos primórdios da aviação comercial no Brasil”.
Reproduzo
os cinco selos e a capa da Folha Comemorativa editada pelo Centro Philatélico
do Rio Grande. A “Folha” traz um histórico do Pioneirismo da Cidade do Rio
Grande na Aviação Comercial no Brasil e tem uma tiragem de mil unidades
numeradas. O material além de demarcar os eventos também se torna um documento
histórico de uma época em que Rio Grande antecipou o futuro e acreditou no
sonho do homem voar num veículo mais pesado que o ar.
JACOB RHEINGANTZ
“A
agricultura será a salvação da Província do Rio Grande; e os seus filhos que
isso reconhece, muito terão feito na Assembléia Provincial para animar o seu
desenvolvimento. O lado norte da Província tendo abraçado com fervor esse ramo
de vida, acha-se hoje florescente, enquanto que o sul definha por cuidar
meramente do gado vacum. Verdade é que se fizeram algumas experiências com as
projetadas colônias do Monte Bonito e do Fragata, mas, ou por falta de vontade
ou por esterilidade do terreno, nenhuma das duas chegou a vingar! Hoje as coisas
têm tomado outro rumo e, ao que parece, o município de Pelotas passará em breve
a ter um estabelecimento colonial graças aos esforços de um estrangeiro ativo e
laborioso, o sr. Jacob Rheingantz que, compenetrando-se dessa necessidade,
tomou a deliberação de ir à Europa engajar braços”. Diário do Rio Grande, 9 de
janeiro de 1858.
No dia 10 de agosto de
1817 nascia Jacob Rheingantz em Sponheim (Prússia Renana) atual Alemanha. Seu
nome está ligado ao empreendimento de fundação da Colônia de São Lourenço (1858),
mas seus filhos, especialmente, Carlos Guilherme Rheingantz deixou um legado na
cidade do Rio Grande em termos de empreendedorismo industrial com a primeira
fábrica de tecidos do Brasil.
Jacob residiu em Rio Grande e Pelotas, atuando
no ramo comercial e divulgando a necessidade em trazer imigrantes alemães e
pomeranos para o Rio Grande do Sul. Eram colônias agrícolas em minifúndios onde
toda a família trabalhava a terra. A mentalidade da época era o escravismo e o latifúndio
pecuarista/a atividade charqueadora, bases do Rio Grande do Sul tradicional.
Neste sentido, Jacob Rheingantz buscou trazer para a Serra dos Tapes e para a
Metade Sul a experiência que havia sido iniciada pelos colonos alemães em São
Leopoldo e posteriormente, em diversas localidades do vale dos rios.
Jacob conheceu Maria Carolina Von Fella, que
nasceu a bordo de uma fragata dinamarquesa que adentrara a Barra do Rio Grande
em novembro de 1829. Ela era filha única do irlandês Barão Carlos Adams Von
Fella. No ano de 1848, Jacob e Maria Carolina casaram e nos anos seguintes tiveram
dez filhos. O primeiro, nascido em abril de 1849, teve o nome projetado
nacionalmente: o comendador Carlos Guilherme Rheingantz, proprietário da
primeira grande indústria gaúcha. Apenas para lembrar de outro filho de Jacob
que teve participação destacada em Rio Grande foi Oscar Felipe Rheingantz
(advogado, promotor público e administrador na Rheingantz/União Fabril).
Jacob Rheingantz morreu do coração aos 60
anos de idade na cidade de Hamburgo.
Ilustrações: Jacob e Maria Carolina em 1848; Jacob Rheingantz. Acervo:
http://familiarheingantz.blogspot.com.br
![]() |
| Carlos Guilherme Rheingantz, 1889. |
VERSOS ANTI-FARROUPILHAS NOS PRIMÓRDIOS DA REVOLUÇÃO
Na
semana passada apresentei um trabalho no XII Seminário Internacional de
História da Literatura (PUCRS). O assunto tratou de um poema publicado no
jornal da cidade do Rio Grande “O Mercantil” n° 19 de abril de 1836. O jornal
“O Mercantil” foi criado no ano de 1836 e sua linha editorial era voltada a
defesa do Império Brasileiro. Foi um periódico que combateu o ideário
liberal-radical dos farroupilhas através de suas matérias noticiosas e nos
relatos dos movimentos militares na própria cidade e em outras áreas do Rio
Grande do Sul. Um fator de atração para as pesquisas neste periódico é o espaço
destinado à expressão poética. Na edição do dia 25 de abril de 1836 foi
publicado “Profecias de um Velho Cacique” cujo autor anônimo se denomina “um
curioso”. O poema faz um agressivo e
ácido ataque a nomes célebres no panteão farroupilha, promovendo uma definição
dos “inimigos do Império Brasileiro” já nos primeiros meses do conflito que se
estendeu por dez anos.
O
autor, anônimo, afirma que o poema tem uma história. São as “profecias de um
velho Cacique recitadas por um de seus descendentes a um Jesuíta no distrito de
Missões (que as traduziu) as quais foram achadas entre os papéis do reverendo
Padre, na ocasião da dissolução daquela sociedade e agora dadas a luz por um
curioso”.
Criatividade
não faltou ao autor que relacionou a derrocada do projeto jesuítico-missioneiro
após a Guerra Guaranítica (pós-1756) com a Revolução Farroupilha que estava
apenas tendo início. O autor faz referência à grande parte do panteão de nomes
que foram notabilizados pela historiografia regional como agentes de construção
da identidade rio-grandense. No início do conflito que se estenderia até 1845,
é feito um feroz ataque aos “rebeldes” que “ultrajavam o Império Brasileiro”.
O
tema é exemplar para repormos o processo histórico e o separarmos da construção
de representações. Com a edificação do monumento-túmulo a Bento Gonçalves da
Silva (1900-1909), se construiu uma visão de que Rio Grande era uma cidade
farroupilha no período Imperial. De fato, muitos seguidores do liberalismo
radical estavam atuantes na cidade (como exemplo, Francisco Xavier Ferreira e o
jornal O Noticiador). Mas também havia jornais que defendiam o Império, como é
o caso de O Mercantil entre outros. A localização estratégica da Barra do Rio
Grande com o único porto marítimo da Província do Rio Grande de São Pedro
fizeram de Rio Grande um controle militar essencial para o Império Brasileiro.
A perseguição aos seguidores do liberalismo se fez desde o desencadear da Revolução
em setembro de 1835 e a tensão por uma possível invasão farroupilha terá o seu
epílogo quando da frustrada tentativa de ocupação de São José do Norte em 16 de
julho de 1840. Portanto, Rio Grande nunca foi controlada pelos farroupilhas,
mas que fez parte da organização intelectual de liberais radicais que aqui
moravam ou que dependiam do Porto Velho para viabilização de seus negócios
(pecuarista ou charqueadores insatisfeitos com as políticas imperiais). De
outro lado, a presença de comerciantes não farroupilhas dependentes do modal
marítimo ajuda a entender o apoio ao Império: o movimento farroupilha levou ao
rompimento com o governo central brasileiro que era o maior destino das
exportações brasileiras.
O
teor depreciativo e de afronta aos farroupilhas pauta o poema que foi escrito
no calor de um conflito sanguinário que estava apenas começando a tomar forma.
Um pequeno trecho é reproduzido a seguir.
“Vós, oh gentes futuras,
Escutai as minhas trovas;
Se vos parecerem duras
Consultai, tirai as provas,
Achareis verdades puras.
Passada a era de mil,
Depois de mil maravilhas,
Lá nos confins do Brasil,
Um bando de farroupilhas
Dará pasto ao gênio vil.
Há de tantas desgraças
Famílias espavoridas!
Deixando suas moradas,
Por fugir aos patricidas
De seus lares desterradas!
De meus olhos corre o
pranto,
Turva-se a vista serena;
Cheio d’assombro e
d’espanto,
Mal posso reger a pena
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Exposição Rio Grande: 280 anos de Fundação
RIO GRANDE: 280 ANOS DE FUNDAÇÃO
Uma longa trajetória histórica resulta em
inumeráveis experiências nos mais diferentes campos da atuação humana. Fundado
em 19 de fevereiro de 1737 pelo Brigadeiro José da Silva Paes, o atual
município do Rio Grande avança em direção a três séculos de formação histórica
com a necessidade premente de conhecer cada vez mais a caminhada de gerações
que aqui aportaram desde o século 18.
As imagens permitem um diálogo inicial
com um passado multifacetado de experiências civilizatórias. Buscou-se nesta
Exposição, através de dez banners com imagens entre 1900-1950, trazer alguns
temas fundamentais para entender Rio Grande: o papel do Porto Velho e do Porto
Novo; o comércio de exportação e importação; a industrialização; a cultura
operária; os espaços da fé no centro histórico; as praças e a arte em ferro
francesa; o balneário Cassino; o patrimônio edificado dos prédios
administrativos do centro histórico; as antigas ruas da cidade; os cenários
rurais das ilhas; a cidade enquanto cartão-postal.
A Exposição é parte de uma pesquisa sobre as imagens
enquanto documentos para escrever a História em Rio Grande. As fotografias são
do acervo da Biblioteca Rio-Grandense e os cartões-postais foram cedidos para
reprodução por Leonardo Barbosa Lopes.
Curador:
Prof. Dr. Luiz Henrique Torres (FURG)
terça-feira, 12 de setembro de 2017
ESPIÕES NAZISTAS EM RIO GRANDE
A adesão ao
nazismo pela população teuto-brasileira no Rio Grande do Sul foi baixa! Esta
população era de 600 mil pessoas frente a um total de 3 milhões de habitantes. Portanto,
a adesão as orientações emanadas do NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos
Trabalhadores Alemães) foi restrita a uma minoria de militantes. A Campanha de
Nacionalização promovida pelo Estado Novo já em 1938 conseguirá reprimir as
manifestações públicas nazistas ou de simpatizantes. A partir de 1939 o caminho
será o da espionagem com objetivos de informações sobre a economia e o
movimento de navios frente à Guerra no Atlântico e o bloqueio marítimo
declarado pela Inglaterra contra a Alemanha. As cidades portuárias são as mais
essenciais para o controle da informação. O Partido Nazista alemão recrutou informantes
nas cidades do Rio de Janeiro, Santos, Recife, São Paulo, Salvador, Vitória,
Porto Alegre e Rio Grande. A presença do frigorífico Swift que vendia produtos
para os ingleses e aliados, foi um dos fatores para manter sob observação o
Porto do Rio Grande e para alimentar com informações os submarinos que cruzavam
ao largo da Barra do Rio Grande.
Alguns
episódios sobre a atuação da espionagem nazista foram analisados na tese de
Doutorado de Taís Campelo Lucas cujo título é “Nazismo d’além mar: conflitos e
esquecimento, RS-Brasil” (Porto Alegre: PPGHistória UFRGS, 2011).
O alemão
Friedrich Wilhelm Wilkens era agente da Companhia Hamburguesa de Navegação e
foi instruído a camuflar mensagens em cartas comuns repassando informações
sobre o movimento portuário em Rio Grande. Carlos Muegge, agente nazista,
enviou em 1941 uma carta cautelosa à caixa postal 30 em Rio Grande mas as
condições para espionagem eram péssimas e Wilkens queimou a carta. Num
posterior encontro com Muegge no Rio de Janeiro, Wilkens frisou que “Rio Grande
era uma cidade pequena onde ele era bem conhecido, o que tornava a comunicação
clandestina difícil ao máximo”.
Wilkens, em
novembro de 1939, já havia se envolvido num caso de espionagem ocorrido no
Porto do Rio Grande. Foi encontrado no
navio alemão “Rio Grande” retido no Porto um aparelho completo de rádio-transmissão
e recepção que se destinava ao repasse de mensagens sobre movimentação
comercial e portuária aos submarinos da Marinha de Guerra Alemã que circulavam
próximo a costa do Rio Grande do Sul. O cônsul alemão em Porto Alegre,
Friedrich Ried, estava envolvido nas atividades além de agentes do Sindicato
Condor e da VARIG. O rádio-técnico da Condor Werner Mucks foi recebido em Rio
Grande por Wilkens e levado a bordo do navio alemão para montagem do
equipamento. Por motivos técnicos, não foi possível fazer o rádio-transmissor
funcionar. O equipamento já estava no navio e fora levado pelo vice-cônsul da
Alemanha em Rio Grande Kurt Louis Emil Fraeb. O momento era dos mais tensos na
Guerra do Rio da Prata (alemães e ingleses) com o posterior afundamento do
encouraçado de bolso alemão Graf Spee. A
investigação do caso trouxe graves conseqüências para a VARIG que teve
integrantes de seus quadros envolvidos em favorecimento a ação de espiões
nazistas. O cônsul Ried, o principal articulador da ação, demonstrou tanta
dedicação para as atividades que em 1940 foi promovido a Cônsul Geral da
Alemanha em New York. O jornal New York Post o descreveu como o “pequeno Hitler
do Estado do Rio Grande do Sul”.
Posteriormente,
no final de outubro de 1940, o vapor “Rio Grande” partiu do Porto e conseguiu
romper o bloqueio marítimo inglês retornando à Alemanha. Os preparativos foram
feitos por Riet, Wilkens e Fraeb, que foram orientados a mandar abastecer com
alimentos e combustíveis o referido vapor, inclusive estando apto a abastecer
algum vaso de guerra ou corsário alemão. Desta vez, um rádio-transmissor foi
instalado com sucesso no “Rio Grande” e o dinheiro para tantas compras que
lotaram o vapor vieram da Embaixada da Alemanha em Buenos Aires.
A Delegacia
de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul investigou as atividades de
espionagem prendendo suspeitos em Porto Alegre e em Rio Grande. Em todo o
Brasil foram noventa e quatro réus envolvidos nesta rede de espionagem nazista.
Devido a um imbróglio jurídico relacionado à legislação, os réus do Rio Grande
do Sul foram absolvidos (apenas uma condenação ocorreu no estado). Desta forma,
Wilkens e Fraeb escaparam de uma pena de prisão de 25 anos por espionagem. O
jornal A Noite (Rio de Janeiro, 18 de abril de 1843 fez a seguinte referência a
prisão de Kurt Fraeb que serviu no Exército Alemão na condição de voluntário na
I Guerra Mundial: “é nazista... chegando a arremedar Hitler com o uso de um
bigode característico”.
Um relatório confidencial (dezembro
de 1943) do Ministério da Guerra, registrou que após meses de perseguição
policial estava extinta a ação nazista no Estado! (Ilustração: Museu do Nazismo
da Polícia do Rio Grande do Sul em Porto Alegre In: A 5ª Coluna no Brasil. Aurélio
da Silva Py. Porto Alegre: Globo, 1942).
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