Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

VISÕES DO RIO GRANDE - ARSÈNE ISABELLE


*Capítulo do livro de Francisco das Neves Alves e Luiz Henrique Torres, "Visões do Rio Grande: a cidade sob o prisma europeu no século XIX". Rio Grande: FURG, 1995. 

ISABELLE, ARSÈNE - Voyage a Buenos-Ayres et a Porto-Alègre, par la Banda-Oriental, les Missions d1Uruguay et la Province de Rio-Grande-do-Sul (de 1830 a 1834) Suivi de considerations Sur létat du Commerce Français a lexterieur, et principalement au Brésil et au Rio-de-la-Plata; Dédié au Commerce du Havre, par Arsène Isabelle, Havre, Imprimerie de J. Morlent, 1835.

Arsène Isabelle
          Louis-Fréderic Arsène Isabelle (1807-1888), viajante francês, visitou o Rio Grande do Sul entre os anos de 1833 e 1834, tendo vindo para a América do Sul pelo gosto de viajar e dado seus pendores de naturalista. Chegando a Montevidéu, em 1830, julgou mais propícia às atividades comerciais a praça de Buenos Aires, onde fundou uma indústria têxtil de seda, porém, não prosperou a novel empresa[1], entabulando a partir daí sua viagem pelas terras sul-rio-grandenses.
         Um de seus maiores objetivos era o estabelecimento de uma empresa colonizadora para o extremo sul da América Meridional, chegando a elaborar projetos para esse intento, os quais não se efetivaram basicamente devido às agitações e conflitos políticos – nos quais inclusive o escritor tomou parte – típicos da região naquele período. Após a viagem ao Rio Grande do Sul, ainda permaneceu considerável tempo na América, atuando como jornalista, militar, professor e funcionário do consulado da França. Seus escritos que tratam da viagem à Província datam de 1835 e denominaram-se Excursions dans La Province de Rio-Grande-do-Sul au Brésil (1834) e Voyage a Buenos-Aires et a Porto-Alegre, par La Banda-Oriental, les Missions d’Uruguay et La Province de Rio-Grande-do-Sul (1830-1834), com diversas traduções, parciais ou integrais, em português e espanhol[2]. Seguindo seus pendores de naturalista, descreveu a paisagem, a flora e a fauna dos locais visitados, não deixando porém de abordar as características das populações que encontrava.
         Durante sua permanência no Rio Grande do Sul, Isabelle visitou, entre outras localidades, Uruguaiana, Itaqui, São Borja (permanecendo dois meses nas Missiões), Alegrete, Santiago do Boqueirão, São Francisco de Assis, São Vicente, Santa Maria, Cachoeira, Cruz Alta, Rio Pardo, Porto Alegre, Viamão, São Leopoldo, Pelotas, São José do Norte e Rio Grande (na qual esteve no primeiro semestre de 1834).
         Arsène Isabelle, na primeira referência que faz à cidade do Rio Grande, destacou-a como a principal porta da província, embora tenha considerado que tanto esta, quanto São José do Norte tivessem a mesma denominação, afirmando que havia duas cidades reunidas com esse nome – Rio Grande –, levando a da margem esquerda o nome de São José, ou simplesmente do Norte e a da margem direita, o nome de São Pedro, ou do Sul. Suas primeiras apreciações sobre as duas localidades não foram nada lisonjeiras, considerando a situação de ambas não só como moralmente triste, mas ainda insuportável de todas as maneiras e que somente o atrativo do ganho, uma atividade portuária, ou algum interesse muito grande serviriam como razões para induzi-las a viver. Apontou como principal argumento para essa triste situação o problema das areias que assolavam as duas cidades, afirmando que se via por todos os lados areia, areia... e só areia, não podendo, segundo ele, ser de outra maneira, visto que ambas estavam no meio de dunas e o menor pampero levantava avalanches de areia que enchiam as ruas e enterravam, algumas vezes, as casas baixas[3].
         Ao descrever especificamente Rio Grande, Isabelle deu novo destaque à questão das areias, narrando que na cidade do Sul havia três ruas principais muito compridas, na direção leste-oeste, e, a fim de garanti-las, tanto quanto possível, contra a invasão das areias, tendo essas ruas apenas calçados os passeios e vendo-se com pesar, fora da cidade, grandes dunas ameaçando soterrá-la como outra Herculano. Diante disso, o autor aconselhava que se deveria fazer obras para deter a invasão das dunas, ou que o melhor meio seria ainda plantar árvores, tais como espinilhos, mandubais, carandis, ou outras que se dessem bem em terreno arenoso[4].
         Isabelle, apontando o comércio como principal atividade econômica rio-grandina, observou que, pelo bem-estar dos habitantes, eram bons os negócios naquela parte da Província, havendo no meio deles, alguns imensamente ricos, que construíram casas e armazéns espaçosos. Argumentava que a maior contribuição para a prosperidade de S. Pedro vinha do espírito de associação de seus negociantes que empregavam grande parte das fortunas em empresas de utilidade pública, tentando atrair o comércio estrangeiro, assim como modificar, por obras importantes, os graves inconvenientes  de uma situação tão desagradável quanto pouco cômoda que apresentava a cidade. Desse modo, para o viajante francês, os principais responsáveis pelo progresso rio-grandino eram os comerciantes que, movidos por seus interesses econômicos, dotavam a cidade de uma série de melhoramentos, como os que o próprio autor citava, afirmando que se construíra uma alfândega espaçosa, fora feito um cais, um teatro acabara de ser levantado, o Paço do Conselho estava em construção e tudo isso à custa dos negociantes[5].
         A respeito da Barra do Rio Grande, o escritor francês esclarecia que ela dificultava a entrada de embarcações com mais de dez ou onze pés e informava a respeito dos cuidados e providências tomadas para permitir a passagem dos navios, explicando que existiam novos regulamentos, publicados em língua nacional, inglesa e francesa, tratando da ordem de estacionamento a observar nas duas Barras, estando três navios de guerra encarregados dessa execução. Ainda no que tange ao acesso à vila, descrevia que, durante a noite, um fogo colocado na margem direita e que se avistava a quatro léguas de distância indicava a “entrada do rio”, ao passo que, durante o dia, bandeiras de diversas cores, içadas no cimo do farol, assinalavam a quantidade de água no canal e a direção a seguir. Detalhava também que um outro canal acabara de ser formado ao sul, mas pelo mesmo apenas podiam passar navios de oito pés de água ou menos. A explicação a respeito desta temática era ainda complementada com a informação de que havia sempre pilotos experimentados na desembocadura “do rio” para conduzir os navios além de uma das duas cidades, e se esses navios se destinassem a Porto Alegre, novos pilotos os guiavam através da Lagoa dos Patos[6].
         Isabelle calculou a população rio-grandina na base de quatro mil habitantes, destacando os edifícios públicos e particulares construídos no gosto e na forma dos de Porto Alegre, havendo soberbas casas de três andares, com balcões de ferro e fachadas de pedra lavada. Considerou, também, outra causa da prosperidade crescente do Rio Grande a proximidade e facilidade de transporte para outras cidades como São Francisco de Paula, com a qual as comunicações tornaram-se prontas e fáceis por meio de um barco a vapor que ia e vinha diariamente de um ponto ao outro, transportando mercadorias e passageiros, ou através de muitas lanchas e balandras que faziam constantemente o trajeto, assim como o de Porto Alegre[7].
         No que concerne ao aspecto cultural, o escritor francês destacou razoável desenvolvimento da cidade de S. Pedro, apontando a existência de das tipografias, dois jornais políticos e uma pequena biblioteca, composta em grande parte de livros franceses. Os dois jornais citados por ele eram O Noticiador (1832-1836) e O Observador (1832-1835), com suas respectivas tipografias. Estranhamente, o autor não contou com um outro periódico que circulava na vila à época de sua visita, talvez pelo seu caráter não-político – O Propagador da Industria Rio-Grandense. Já em matéria de línguas estrangeiras, comentava que no sul se aprendia de preferência o francês, como em todo o Brasil e nas províncias do Prata[8].
         A obra de Arsène Isabelle é considerada por determinados autores como limitada por algumas de suas convicções e afirmações contrárias à Província, embora esse fator não seja diretamente identificado no seu relato quanto aos rio-grandinos. Abeillard Barreto afirma que Isabelle tinha certa “má vontade” com respeito aos rio-grandenses, a qual não encontrava apoio talvez em nenhum outro autor estrangeiro[9]. Para Dante de Laytano, o escritor francês não foi honesto com o Rio Grande do Sul, uma vez que seus conceitos são impiedosos e quase nunca correspondem à verdade, não perdendo ocasião de procurar diminuir os brasileiros, ficando isso evidenciado em todo o seu livro. Mesmo assim, Laytano reconhece a importância dos escritos de Isabelle, pois suas observações, quando não são de caráter político ou religioso, representam interessantes depoimentos que reconstituem a paisagem rio-grandense-do-sul do século XIX[10].

[1] BARRETO, Abeillard. Bibliografia sul-rio-grandense: a contribuição portuguesa e estrangeira para o conhecimento e a integração do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973. v. 1. p. 708.
[2] Nesse trabalho sera utilizada a tradução feita por Dante de Laytano: ISABELLE, Arsène. Viagem ao Rio Grande do Sul (1833-1834). 2.ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1983.
[3] ISABELLE. p. 77.
[4] ISABELLE. p. 79.
[5] ISABELLE. p. 77-78.
[6] ISABELLE. p. 79-80. Sobre as afirmações do autor quanto à Barra, observar também: NEVES, Hugo Alberto Pereira. Estudos do Porto e da Barra do Rio Grande. In: ALVES, Francisco das Neves & TORRES, Luiz Henrique (orgs.). A cidade do Rio Grande: estudos históricos. Rio Grande: FURG\SMEC, 1995. p. 103-104.
[7] ISABELLE. p. 78-79.
[8] ISABELLE. p. 80.
[9] BARRETO. v. 1. p. 711.
[10] LAYTANO, Dante de. Biografia e viagens de Arsène Isabelle. In: ISABELLE. P. 107 e 109.

VISÕES DO RIO GRANDE - DREYS I


*Capítulo do livro de Francisco das Neves Alves e Luiz Henrique Torres, "Visões do Rio Grande: a cidade sob o prisma europeu no século XIX". Rio Grande: FURG, 1995. 

 
Nicolau Dreys e a edição de 1990.
Dreys
         O francês Nicolau Dreys (1781-1843) permaneceu dez anos no Rio Grande do Sul, aproximadamente entre 1818 e 1828, estando boa parte desse tempo na Vila do Rio Grande. Emigrado político, serviu no seu país natal como militar e funcionário público, mas, em 1815 a denominada Santa Aliança provocou o exílio dos bonapartistas que procuraram abrigo em outros países[1], caso de Dreys, que veio para o Brasil, com a família, em 1817, ficando pouco tempo no Rio de Janeiro, deslocando-se para o Rio Grande do Sul. A sua formação como militar facilitou o ingresso nas forças rio-grandenses que combatiam as tropas de Artigas na fronteira com o Uruguai[2], entretanto, já nas terras meridionais, se dedicaria mais às lides comerciais. Ao sair da Província, viajou para Santa Catarina e São Paulo, onde residiu, em Iguape, entre 1829 e 1837, ano no qual se estabeleceu no Rio de Janeiro, onde viria a falecer  em janeiro de 1843.
         Foi no Rio de Janeiro que Dreys publicou a sua Notícia Descritiva da Província de São Pedro do Sul, em 1839, considerada pelo próprio autor como um excerto de uma obra bem maior, que descrevia suas observações elaboradas durante a sua longa estada no Brasil Meridional e que ficara inédita devido aos altos custos tipográficos naquela cidade. Também não foram publicados os desenhos das cidades do Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, que acompanhariam a obra, por terem sido extraviados na oficina litográfica responsável pelo trabalho. Mesmo assim, esses escritos são de considerável importância, traçando um quadro descritivo, rico em informações sobre o Rio Grande do Sul à época da formação do Estado Nacional Brasileiro e da fermentação revolucionária que resultaria na Guerra Civil de 1835.
         Nicolau Dreys dividiu sua oba em três capítulos: no primeiro – Topografia Física – abordou as montanhas, a hidrografia, a geografia, a história natural e a meteorologia (agricultura, mineralogia, vegetação, ornitologia, ictiologia e zoologia); no segundo – Topografia Política – descreveu as localidades de Porto Alegre, Rio Pardo, Missões, Piratini, São Pedro, Pelotas, São José do Norte, Estreito, Mostardas, Viamão, Nossa Senhora da Serra, Nossa Senhora dos Anjos da Aldeia, Santo Antonio da Patrulha, São Leopoldo, Triunfo, Santo Amaro, Cachoeira, Encruzilhada, Caçapava, Santa Maria, Alegrete, Bagé, Cerrito, Santa Vitória e Vacaria, também destacando a indústria, o comércio e a navegação; e, no terceiro capítulo – Da população – tratou de diversos elementos constitutivos concernentes à sociedade provincial.
         É o próprio autor quem apresenta obra, destacando sua admiração pela terra rio-grandense e o desejo de ver logo sanados os seus conflitos internos ligados ao contexto da Revolução Farroupilha, negando-se, inclusive, a tratar ou tomar posição diante dos mesmos. Afirmava ele que o autor escrevera como testemunha ocular, uma vez que, dez anos de residência na província lhe teriam facultado bastante proporções para estudar essa bela região que deixa um sentimento de predileção tão vivo, tão perseverante no coração dos homens que a viram. Destacava ainda que, fiel à sua epígrafe, limitar-se-ia a fazer votos para que a possibilidade de persuadir dispensasse a necessidade de combater, manifestando-se como feliz, pela esperança de ver ainda florescerem à sombra da paz esses campos amados do céu, que durante os mais belos anos de sua vida, nunca deixara sem saudade, nem tornaria a ver sem prazer[3].
         Ao abordar a então Vila do Rio Grande, denominando-a de Cidade de São Pedro, o autor destacava a desgraçada posição dessa vila patronímica, geralmente conhecida pelo nome genérico de Rio Grande[4]. Dreys fazia referência às areias como um grande mal que circundava a localidade. Descrevia o francês que as areias tinham um movimento contínuo, o qual modificava o horizonte urbano com mobilidade extraordinária, segundo o vento reinante, de modo que tanto no Rio Grande, como em São José do Norte, uma porção de casas foram soterradas e, naquela “nova Pompéia”, só se reconhecia o lugar das habitações sepultadas pelos galhos secos de algumas árvores de seus antigos quintais, aparecendo ainda na superfície da massa usurpadora[5].
         Dreys relatava os comentários de que a culpa pelo avanço das areias devia-se ao período da invasão espanhola (1763-1776), pois seria a planície em que estava edificada a cidade, a princípio, agradável, rica de vegetação e coberta de árvores, entretanto, a situação mudara com a chegada dos hispânicos, acompanhados de tantos animais, e tanto tempo os conservaram no território para o serviço da tropa, que na retirada dela, a vegetação circunvizinha se achava completamente arruinada. Desse modo, permanecia explicando o francês, depois dessa grande dilapidação, as areias arrebatadas pelos ventos, não achando mais obstáculos, progrediram em suas constantes irrupções até chegarem ao centro da cidade e sepultarem uma parte dela[6].
         Nesse quadro, Nicolau Dreys considerava que apesar da sua desgraçada posição, a povoação do Rio Grande consistia uma vitória do homem sobre o ambiente natural, pois, no meio das areias estéreis que a circundam e invadem continuamente, ela se apresenta como uma criação excepcional da política e do comércio, já que, indiferente e como estrangeira ao território que ocupa, não deve nada senão ao caráter ativo, industrioso e empreendedor dos habitantes. Sobre o tema, arrematava o autor, afirmando que no Rio Grande, o homem pode mais que a natureza, tendo em vista que, onde achou impotência e miséria, ele fez nascer prosperidade, de maneira que a cidade de S. Pedro, com suas casas suntuosas, seus ricos armazéns, seus cais regulares e seu Porto retificado, poderia concorrer com as mais notáveis cidades da América do Sul.


[1] FLORES, Moacyr. Introdução. In: DREYS, Nicolau. Notícia descritiva da Província do Rio Grande do Sul. 4.ed. Porto Alegre: Nova Dimensão/EDIPUCRS, 1990. p. 9.
[2] BARRETO, Abeillard. Bibliografia sul-rio-grandense: a contribuição portuguesa e estrangeira para o conhecimento e a integração do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973. v. 1. p. 453.
[3] DREYS. p. 11 e 13.
[4] DREYS. p. 77.
[5] DREYS. p. 46.
[6] DREYS. p. 47.

VISÕES DO RIO GRANDE - DREYS II


*Capítulo do livro de Francisco das Neves Alves e Luiz Henrique Torres, "Visões do Rio Grande: a cidade sob o prisma europeu no século XIX". Rio Grande: FURG, 1995. 

Edição de 1927 da Biblioteca Rio-Grandense. 

Dreys
         Descrevendo as características geográficas daquela que chamava de cidade de S. Pedro, no que tange a limites e relevo, Nicolas Dreys (Notícia descritiva da Província do Rio Grande do Sul. 4.ed. Porto Alegre: Nova Dimensão/EDIPUCRS, 1990) apontava a importância das ilhas (dos Marinheiros e Torotama) para o abastecimento da localidade, quais, mesmo não estando totalmente isentas de areia, eram ao menos cobertas de matas e de verdura assaz suculenta para dar pastagem ao gado leiteiro. Destacava ainda que os matos da Ilha dos Marinheiros não eram de pouca importância, pois forneciam quase exclusivamente a lenha que se consume na cidade. Segundo sua descrição, havia ainda na ilha uma fonte natural de água límpida, eu a classe abastada preferia à água das cacimbas[1] e que mandava buscar diariamente para seu consumo, apesar da distância; bem como existiam algumas chácaras produzindo com abundância todas as hortaliças e legumes. Lamentava, porém, que as ilhas não tivessem quase população alguma, além dos escravos empregados na manutenção das quintas e de poucos pescadores, cujas famílias se ocupavam ao mesmo tempo da criação de algum gado[2].


         Dreys contradizia muitos dos autores que apontaram como um problema do Rio Grande o abastecimento de alimentos, destacando, no que tange a esse assunto, a abundância da vila. De acordo com ele, não havia quase casa alguma que não tivesse seu quintal, considerando esse fato como um tipo de fertilidade, onde eram produzidas frutas e hortaliças com tão exata periodicidade que praticamente inutilizava os suprimentos diários que recebia a vila da horticultura vizinha. E complementava afirmando que a cidade de S. Pedro nunca deixara, em tempo de paz, de manifestar uma completa fartura de tudo que se referia às precisões do “homem social”[3].
         O autor relatava também que a localidade era privada de passeios, questionando quem poderia passear num terreno que fugia debaixo dos pés e onde se procurava em vão algum abrigo contra os ardores do sol. Somava a isso a própria índole dos habitantes, caracterizada por outros costumes, pois laboriosos e sociáveis, os rápidos instantes que lhes deixavam os cuidados do comércio como o qual estavam geralmente ocupados, eles os consagravam a reuniões domésticas mais profícuas e menos monótonas[4].
         Lançando mão de seus conhecimentos da arte bélica, o escritor francês também teceu considerações sobre a defesa do Rio Grande, composta por algumas peças de artilharia muito próprias para hostilizar o inimigo que se apresentasse da parte do mar, porém, desprovidas do mesmo grau de utilidade contra um ataque intentando do lado oposto, tendo de admitir inovações metódicas melhor calculadas para coadjuvar a coragem experimentada da guarnição e dos habitantes. Também causava estranheza ao autor a presença de ruínas numa povoação tão recente, chegando a estabelecer conjeturas quanto às possíveis causas de uma mudança na localização da vila[5].
         Nicolau Dreys destacou ainda que a Câmara Municipal do Rio Grande tomara providências para corrigir o “ridículo engano” em que incorriam a grande parte das vilas marítimas do Brasil, apresentando ao viajante a parte traseira de seus edifícios, construindo para evitar o citado problema, cais que foram conquistados sobre o mar, por meio de aterros dispendiosos, que dotaram o Porto de uma zona de cais largos e regulares, nos quais poderiam encostar as embarcações para largar ou receber a carga e bordados de armazéns e casas, cuja frente advogava aos olhos do estrangeiro a causa do bom senso e da civilização progressiva dos habitantes. Quanto ao Porto, caracterizo-o como seguro, sendo uma criação recente, inteiramente devida ao ânimo e aos sábios cálculos  dos rio-grandenses, pois os negociantes da praça teriam mandado vir e colocado em atividade nos baixios do Rio Grande, uma máquina especial com a qual conseguira-se desentulhar os canais que circulavam entre os bancos de areia, abrindo às embarcações carregadas um caminho fácil, até então desconhecido e considerado como impraticável[6].
         Sobre a Barra do Rio Grande, informou que a mesma contava com um movimento anual de duzentos e cinqüenta a duzentos e oitenta barcos maiores, sendo aproximadamente duzentos pertencentes a comerciantes da Província (como donos ou interessados) e os restantes de propriedade estrangeira, apontando a presença de embarcações de diferentes nacionalidades como portuguesas, francesas, inglesas, americanas, italianas e das cidades hanseáticas. Ainda sobre o mesmo tema, mais uma vez Dreys destacava o caráter empreendedor dos negociantes do local, os quais teriam mais longe levado a ousadia dos seus esforços a tão benéficos melhoramentos, pois foram ao meio das vagas do oceano arrancar as areias que o mar, com o auxílio dos séculos, tinha amontoado na Barra e proporcionaram assim para todos os navios um caminho mais vasto e mais seguro. E, também sobre esse empreendedorismo, concluía que o que estava em projetos em outras posições não menos importantes, talvez ali estivesse em execução[7].
         Desse modo, os escritos de Dreys contribuíram para a reconstrução histórica do Rio Grande, pois, apesar de bastante resumido, seu valor é aumentado pela fraca produção historiográfica[8]. Abeillard Barreto considera que o livro de Nicolau Dreys é um dos melhores que legou o segundo quartel do século XIX, uma vez que, sendo confeccionada mais com um sentido didático, sua obra é hoje a mais citada por quanto têm escrito sobre o Rio Grande do Sul, constituindo prova do crescente apreço em que é tida e de haver superado o espírito com que foi elaborada[9].


[1] Apesar dessa preferência da “classe abastada”, Dreys destacava a qualidade da água com a qual Rio Grande era abastecida: A água potável que se acha no território da cidade de S. Pedro é a água de cacimba; chamam cacimba a um posso praticado nas areias cujas paredes são amparadas pro duas ou três pipas, sem fundos, superpostas umas às outras, onde a água aparece sempre a tão pouca profundidade que os aguadeiros costumam extraí-la por meio de um coco embutido na ponta de um pau. A água da cacimba é talvez uma das mais puras que se pode beber no globo, e sua qualidade incorruptível é bem conhecida dos marinheiros, que a procuram com preferência. É certo que nos primeiros dias a água de cacimba deixa alguma coisa que desejar ao hidrópota, mas também preciso é dizer, conforme a nossa própria experiência, que não há nada mais fácil do que o acostumar-se com ela, e, depois, de acostumado, é então a água mais doce das fontes correntes que obriga o órgão do gosto a uma educação. DREYS. p. 79-80.
[2] DREYS. p. 47-48.
[3] DREYS. p. 79.
[4] DREYS. p. 78.
[5] DREYS. p. 80-81.
[6] DREYS. p. 78-79.
[7] DREYS. p. 106.
[8] NEVES, Hugo Alberto Pereira. Estudos do Porto e da Barra do Rio Grande. In: ALVES, Francisco das Neves & TORRES, Luiz Henrique (orgs.). A cidade do Rio Grande: estudos históricos. Rio Grande: FURG\SMEC, 1995. p. 103.
[9] BARRETO, Abeillard. Viajantes estrangeiros no Ri Grande do Sul até 1900. In: Fundamentos da cultura rio-grandense. Porto Alegre: Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio Grande do Sul, 1962. 5ª série. p. 43-44.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

CONJUNÇÃO VÊNUS E JÚPITER

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            Há alguns dias, me chamou a atenção dois pontos luminosos no final do dia próximo ao por do sol. Pensei em Vênus e Marte. Modifiquei para Vênus e Júpiter e estava certo. 

        Ocorreu entre 22 e 24 de novembro uma conjunção entre estes dois planetas, que são os mais brilhantes do céu. 

    Para lembrar, conforme a mitologia grega: Vênus (Afrodite, a deusa do Amor, o princípio feminino, para os antigos gregos), o planeta mais brilhante como visto no céu da Terra e Júpiter (Zeus, o pai dos deuses no panteão grego, o princípio masculino).

        Em 2021 ocorrerá a próxima conjunção entre estes dois planetas. 
À esquerda o planeta Vênus e à direita o planeta Júpiter visto do céu da cidade do Rio Grande. Fotografia do Autor.

ARQUEOLOGIA EM AÇÃO - PEDRO IGNÁCIO SCHMITZ

Arqueologia em Ação. Pedro Ignácio Schmitz. 

         Tive uma passageira mas fascinante experiência com o campo da Arqueologia. Na Universidade Federal de Santa Maria, a partir do segundo ano de Graduação em História, participei da criação do Laboratório de Estudos e Pesquisas Arqueológicas (LEPA) e das pesquisas realizadas em Santa Maria e outros municípios do seu entorno.

        Bons tempos de aprendizagem que ampliou a visão dos estudos históricos e que foram decisivos para romper com a restrição a sala de aula e de que o conhecimento ja era um dado pronto e não construído, inclusive, no tempo presente. Os estudos de campo foram fundamentais para ampliar a noção de conhecimento.

        Hoje, assisti a um vídeo do "Arqueologia em Ação". O episódio foi um Especial com o arqueólogo Pedro Ignácio Schmitz (entrevistado pelo professor e arqueólogo Marlon Pestana da Universidade Federal do Rio Grande) e percebi como a ciência e no caso a Arqueologia propicia o desenvolvimento do saber e de sua transcendência: a sabedoria. A trajetória de vida e de pesquisa relatada pelo professor Pedro Ignácio fez referência ao nascimento dos estudos arqueológicos organizados e sistemáticos e os paradigmas que remetem aos últimos 60 anos no Brasil. Muitos temas e personagens por ele tratado me fizeram lembrar de leituras e conversar.

       Personagens fundadores da Arqueologia Brasileira e suas influências francesa e norte-americana, o PRONAPA, a transição da Antropologia Cultural para a Antropologia Social etc.

      Incutido na narrativa está o sentido da vida e das escolhas pessoais que levam a construção da produção acadêmica e das trajetórias de vida.

     Vale a pena conferir o vídeo que se converte em documento para refletir a trajetória intelectual no Brasil. Endereço para acesso: https://youtu.be/Gr-i0qfDGew

VISÕES DO RIO GRANDE - VEREKER I


*Capítulo do livro de Francisco das Neves Alves e Luiz Henrique Torres, "Visões do Rio Grande: a cidade sob o prisma europeu no século XIX". Rio Grande: FURG, 1995. 

Vereker
Edição de Francisco das Neves Alves e João Reguffe editado pela Editora da Furg. 

         O britânico Henry Prendergast Vereker (1824-1904) era de ascendência nobre e bacharelou-se pelo Trinity College, em Dublin. Atuou na cidade do Rio Grande como cônsul e agente postal a serviço de seu governo. Ficou mais conhecido a partir da Questão Christie, que levou à ruptura diplomática entre Brasil e Inglaterra, tendo ele participação decisiva numa das facetas que marcou o episódio, quer seja, o naufrágio do navio Prince of Wales, vindo a ser este, inclusive, um dos motivos de seu afastamento do Rio Grande, em 1864. Antes, porém, de seu envolvimento naquele incidente, o representante britânico realizou diversos estudos sobre a costa a rio-grandense (como também o fez em relação ao litoral paranaense). Obteve o grau LL.D. (doutor em leis), vindo a ser eleito Fellow da Royal Geographical Society de Londres. Na década de cinqüenta realizou os estudos e elaborou os escritos que resultariam, em 1860, na publicação de um roteiro sobre a costa[1].Na obra, Vereker fez um aprofundado estudo sobre o litoral gaúcho, a partir das próprias observações e das fontes então existentes, preocupando-se em destacar, entre outros assuntos, rotas de navegação, ventos, faróis, sondagens, bancos de areia, ancoradouros, portos, sinalizações, comunicações e providências em caso de acidente, bem como as praxes comerciais[2].

  O contexto histórico da presença de Vereker no Rio Grande: a Questão Christie
O contexto internacional que envolveu a formação e evolução do Império Brasileiro caracterizou-se essencialmente por um predomínio britânico. Essa hegemonia da Inglaterra, a grande potência imperialista de então, não se limitava à existência do Estado Nacional, sendo anterior, pois remontava às origens do Brasil, ainda no período colonial, podendo ser considerada como uma herança da metrópole lusitana. A colocação de Portugal sob a zona de influência britânica teve sua gênese a partir do processo da Restauração Lusa, quando, com a Dinastia de Bragança, terminava a União Ibérica, voltando o país a ter um soberano português. Nesse momento, Portugal teve de barganhar o reconhecimento de sua autonomia no cenário internacional, função dificultada pela pressão hispânica, e só conseguiu atingir sua meta a partir da prática de uma política de concessões. A Inglaterra, que começava a dar os primeiros passos em direção a tornar-se uma potência hegemônica, ocupou o espaço diplomático, estratégico e econômico aberto junto à nação lusa, formando-se os primeiros laços de aliança, os quais, transformar-se-iam em predomínio econômico-político que teria por marco a assinatura do Tratado de Methuen, em 1703.
Os interesses britânicos acabariam por também voltar-se para a colônia portuguesa na América e, progressivamente, a Inglaterra tentaria eliminar aquele incômodo sócio na exploração do formidável mercado que representava o Brasil. A ruptura do pacto colonial acelero-se com o deslocamento da Corte Portuguesa para o Brasil, sob a “proteção”/pressão inglesa, a qual viria a ser retribuída com uma nova leva de concessões, através da Abertura dos Portos às Nações Amigas (1808) e os Tratados de Aliança, Comércio e Navegação (1810), atitudes que abriram em grande parte o mercado brasileiro à Inglaterra.
O predomínio britânico no Brasil viria a completar-se com o processo emancipatório, uma vez que a necessidade de respaldo internacional tendo em vista o reconhecimento da independência brasileira, mais uma vez se daria a partir da busca do apoio inglês, nascendo o Estado Nacional já sob a égide do predomínio dessa potência, a qual intermediou as negociações com Portugal e foi decisiva para aquele reconhecimento, ocorrendo, inclusive, a renovação dos acordos anteriormente assinados e que davam amplas vantagens para a Grã-Bretanha. Essa hegemonia dos ingleses, mormente no campo econômico, permaneceria incontestável durante o período imperial, porém, no que tange às relações diplomáticas, esse fenômeno não se repetiria de forma absolutamente completa.
Os embates acontecidos entre os dois países teriam normalmente por pano de fundo o interesse britânico em coibir o tráfico e as práticas escravistas, elementos fundamentais às estruturas econômicas brasileiras de então. A tradição inglesa de fazer prevalecer seus intentos utilizando-se de todos os meios possíveis já era histórica. Para isso, não poupava esforços e, além de seu potencial econômico, marítimo e bélico, contou com representantes que sempre buscaram fazer valer seus interesses, utilizando-se dos princípios diplomáticos ou de artifícios menos nobres, como o suborno ou a pressão/retaliação político-militar, configurando-se aquilo que passou a ser reconhecido com a diplomacia da canhoneira. Nesse quadro, destacaram-se nomes como John Methuen, Percy Clinton Smith (Visconde de Strangford), Charles Stuart e William Dougall Christie, levando este último ao desencadear de um dos mais críticos momentos nas relações entre Brasil e Inglaterra, culminando com a ruptura diplomática.
O interesse britânico em coibir a escravatura em busca da ampliação de mercados constituiu uma manifestação histórica nas inter-relações para com o Brasil. Já nos Tratados Strangford (1810), encontrava-se uma cláusula que previa que Portugal extinguiria, gradualmente, o tráfico de escravos. Na renovação daqueles acordos (1826-1827), ficava novamente prevista a abolição do comércio negreiro. A situação agravar-se-ia a partir de 1845, quando, com o Bill Aberdeen, a Inglaterra, unilateralmente, auto-concedia-se o direito de fiscalização de embarcações, em qualquer lugar, para averiguar se ocorria ou não o transporte de escravos. Essa lei levou a atitudes arbitrárias que variavam das “visitas” até o afundamento de navios, não respeitando nem mesmo as águas territoriais de outros países, como no caso brasileiro, promovendo uma série de desentendimentos.
Diante das pressões inglesas pela extinção do tráfico negreiro, a postura brasileira foi variável, ocorrendo duas grande fases no que tange às relações entre os governos brasileiro e inglês, envolvendo o tema do comércio de escravos. A primeira vai da independência a 1845, a qual constituiu uma etapa de cooperação difícil, de pressões e decisões entre 1826 e 1831 e de fracasso posterior. Já a segunda, a partir de 1845, representou uma fase de ruptura e conflito, marcado pela ação inglesa unilateral e eficiente em 1850, e pelas seqüelas do conflito bilateral nos anos seguintes[3].
À medida que recrudescia a pressão britânica, o Brasil buscava tomar atitudes conciliadoras, que agradassem os ingleses, mas não prejudicassem as estruturas escravocratas, negociante com medidas paliativas, ou, quando mais decisivas, protelava-as na sua ação prática ou criava mecanismos de continuidade, ainda que parcial. Assim, o Império conduziu suas relações diplomáticas com uma grande potência que, de modo contínuo, fazia exigências exorbitantes, sendo que, em geral, sua resposta consistia em concordar verbalmente e satisfazer publicamente. Desse modo, o Brasil, na aparência e para uso externo, fazia concessões com prazenteira boa vontade, porém, por outro lado, adiava, procrastinava e tornava insignificante grande parte da substância objetivada pelos britânicos[4].
As atitudes coercitivas britânicas intensificaram-se, culminando com a medida unilateral do Bill Aberdeen, diante da qual o Governo Brasileiro elaborou veementes protestos, chegando os dois países a aproximar-se de um enfrentamento mais contundente, porém, pelas próprias relações de dependência econômica, o Brasil acabou por recuar, decretando, em 1850, a Lei Eusébio de Queirós, que extinguia o tráfico negreiro no país. Apesar disso, a Inglaterra continuou exercendo sua ação “fiscalizadora” com relação ao comércio de escravos, além de manter as pressões para a extinção da escravatura como um todo.
Nesse contexto, desenvolveu-se a chamada Questão Christie, momento no qual a Inglaterra utilizou-se de acontecimentos não muito significantes, transformando-os em verdadeira querela diplomática. Esses elementos serviram como pretextos, pois, ao que parece, a Grã-Bretanha procurava uma ocasião para exibir o predomínio do seu poder[5] e fazer valer seus propósitos anti-escravocratas no Brasil. Tanto as atitudes, quanto os pronunciamentos de William Christie, quando representante britânico no Império, revelavam a identidade de objetivos entre a situação diplomática por ele criada e as intenções inglesas no que tange à escravidão brasileira.
Neste quadro, durante a permanência de Christie a serviço no Brasil (1861-1863), houve diversos pedidos de sua parte para o fornecimento de informações sobre os emancipados no país, com seus endereços, mas nenhuma resposta lhe foi repassada. Segundo o representante britânico, estas informações tinham por meta a promoção da completa emancipação de todos os escravos libertos. Na concepção inglesa, a legitimação de suas reivindicações estaria no fato de que a libertação dos cativos havia sido promovida através da intervenção britânica. Entretanto, o real objetivo era o fim da escravidão do negro de uma só vez, de modo que foi Christie quem novamente atacou as instituições vitais do país, afirmando que sugerira em várias ocasiões a importância de tentar persuadir o governo brasileiro a adotar medidas que conduzissem à extinção da escravidão e, enquanto se processasse esta medida, mitigar ao máximo os males que causava. O diplomata inglês, mais tarde, chegaria a proclamar-se como credor especial pelas medidas tomadas para a libertação definitiva dos emancipados[6].
Dessa maneira, William Dougal Christie era francamente favorável às medidas de força para resolver as questões com o Brasil. Ele chegou a afirmar que o governo brasileiro faria justiça apenas pelo medo, e que todos os pedidos “razoáveis”, na realidade as exigências inglesas, encontravam desculpas e delongas evasivas, subterfúgios e afirmações sem base. Na concepção do representante inglês, enquanto a Corte do Rio fosse justa e convenientemente modesta e respeitosa, não precisaria temer violência e falta de moderação dos britânicos, para com uma nação “mais fraca”, entretanto, qualquer desvio do campo da justiça, modéstia e respeito faria o Brasil sentir o poder da marinha inglesa[7]. Essas afirmações bem caracterizam o estilo diplomático de Christie que converteria dois incidentes em uma grave crise diplomática[8].
No quadro regional, um dos episódios que deu origem à Questão Christie foi o naufrágio da embarcação Prince of Wales, e foi nesse contexto que esteve inserido Henry Prendergast Vereker. Como cônsul britânico, ele envolveu-se diretamente com os acontecimentos em torno do sinistro. Seria mais um episódio de um desastre marítimo na costa gaúcha, não fosse a relevância dada pelos representantes ingleses, visando aumentar a pressão sobre o governo brasileiro. Vereker seria incansável em suas acusações, buscando demonstrar que houvera roubo das peças salvadas do naufrágio, apontando para a negligência e até conivência das autoridades locais e chegando a sugerir a possibilidade do assassinato de sobreviventes da embarcação afundada. As manifestações do cônsul britânico estavam totalmente a contento com a diplomacia da canhoneira empregada pela Inglaterra, uma vez que, ficava evidenciado em suas construções discursivas o desprezo para com a palavra e as ações dos brasileiros, considerados como indivíduos de segunda categoria em relação aos súditos britânicos. Comungava, assim, com as idéias de Christie que, só à força, a Inglaterra conseguiria “convencer” o Brasil da “justeza” de suas reivindicações[9].



[1] VEREKER, Henry Prendergast. The British shipmaster’s hand book to Rio Grande do Sul. London: Effingham Wilson, Royal Exchange, 1860.
[2] BARRETO, Abeillard. Bibliografia sul-rio-grandense: a contribuição portuguesa e estrangeira para o conhecimento e a integração do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1976. v. 2, p. 1388-1389.
[3] CERVO, Amado Luiz & BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. São Paulo: Ática, 1992. p. 72.
[4] GRAHAM, Richard. Brasil – Inglaterra. In: HOLANDA, S. B. de (org.). História geral da civilização brasileira – Brasil Monárquico. 2.ed. São Paulo: DIFEL, 1974. v. 4. t. 2. p. 145.
[5] GRAHAM, Richard. Escravidão, reforma e imperialismo. São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 80.
[6] GRAHAM, Richard. Grã-Bretanha e o início da modernização no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1973. p. 176-177.
[7] MANCHESTER, Alan K. Preeminência inglesa no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1973. p. 236.
[8] Contexto elaborado a partir de: ALVES, Francisco das Neves. A Questão Christie: o caso do Prince of Wales no Rio Grande. In: ALVES, F. N. & TORRES, L. H. (orgs.). A cidade do Rio Grande: estudos históricos. Rio Grande: FURG/SMEC, 1995. p. 107-109.
[9] A esse respeito, ver: ALVES, Francisco das Neves. A diplomacia da canhoneira: a construção discursiva de um representante britânico no Rio Grande do século XIX. In: Anais da Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. Curitiba: SBPH, 2001. p. 257-263.