Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

quinta-feira, 5 de julho de 2018

ANTIGAS CONFEITARIAS E PADARIAS


         A história do pão começou a cerca de 12.000 anos atrás, quando do cultivo do trigo na atual região do Iraque. O trigo triturado virava farinha e poderia ser usado para fazer sopas e mingaus. As farinhas de diversos cereais misturados com mel, azeite doce, suco de uva, ovos formava bolos que eram assados sobre pedras quentes ou cinzas. Estes bolos é que originaram o pão que era achatado, duro e seco. Os egípcios foram os primeiros a usar fornos de barro para assar pães por volta do ano 7.000 antes de Cristo. Atribui-se também a eles a descoberta do fermento, responsável por deixar a massa do pão leve e macia como conhecemos hoje. Na Roma antiga tornou-se um dos principais alimentos, o qual era vendido em padarias públicas. No Brasil o pão de trigo já era conhecido desde a chegada dos portugueses, porém, o consumo da farinha de mandioca era mais intenso.
A palavra Confeitaria vem do latim Confectum e significa aquilo é confeccionado com especialidade. Há indícios de que foram os romanos os pioneiros na arte de confeitar preparando bolos e tortas com farinha, aveia e creme de leite. Na Idade Média a produção de doces também ocorria em mosteiros e conventos usando mel e dando origem ao Pão de Mel. A França caracterizou-se por seus doces refinados e requintados, enquanto a Áustria produziu doces e tortas finas.
 No Brasil os doces caseiros deram origem a uma rica diversidade de doceria como os quindins, baba de moça, bolos de fubá e milho, roscas doces e queijadinhas. Em Portugal os famosos pastéis de Belém, na Itália o famoso Zabayone; na Alemanha o Strudel. As confeitarias tiveram a influência dos imigrantes portugueses, franceses, italianos, alemães e árabes.
Em Rio Grande, a presença portuguesa foi a mais marcante nesta atividade. Em anúncios do início do século XX vislumbramos a presença de padarias e confeitarias na cidade do Rio Grande.  

 Ilustrações: anúncios da Padaria Santos, Confeitaria Papagaio e Café América na primeira década do século XX. Acervo: http://armazemdoporto.blogspot.com







RIO GRANDE EM 1913


     Uma publicação de referência é o livro do inglês Reginald Lloyd “Impressões do Brasil no século vinte: sua história, seu povo, comércio, indústrias e recursos” - Londres: Lloyds Greater Britain Publishing Company Ltd, 1913.
         No capítulo sobre o Rio Grande do Sul um dos destaques é a cidade do Rio Grande. O comércio de exportação e importação e o crescimento industrial estão interligados com o espaço portuário (do Porto Velho) em meio às expectativas pelo desenrolar das obras de construção do Porto Novo e dos Molhes da Barra.
A década de 1910 foi um período paradigmático da história local pela atração de mão-de-obra devido às edificações portuárias da Companhia Francesa e a produção industrial: a população em Rio Grande era de 29 mil habitantes em 1900 e aumentou para aproximadamente 40-45 mil em 1913.
         O livro de Lloyd é de cunho comercial e busca divulgar as rotas comerciais já em vigor e explicitar o possível potencial de desenvolvimento econômico das localidades. A venda de anúncios junto aos “capitalistas” (termo usado na época para os comerciantes com maiores recursos) interessados em ter a sua atividade divulgada e que garantia a publicação do livro. Ou seja, não é uma obra de análise histórica e sim uma fonte para o estudo da história econômica, das sociabilidades/vínculos dos comerciantes/industriais. Esta leitura é relevante para a análise dos atores e das representações criadas para justificar os seus negócios e sua identidade na sociedade.
         Lloyd também contextualiza a organização política local, a disponibilidade tecnológica (bondes, energia elétrica, fornecimento de água etc) e as materialidades do pertencimento local: espaços públicos da memória.
         Vejamos quais a impressões da cidade do Rio Grande em 1913:

Cenários urbanos: Praça Tamandaré, Câmara do Comércio e Porto Velho. Acervo: Lloyd, 1913.
        

“A cidade do Rio Grande do Sul, situada na extremidade meridional da Lagoa dos Patos e o Oceano, é o principal porto marítimo do Estado e o porto de passagem obrigatório para os navios que se dirigem a Pelotas e Porto Alegre. O Llhoyd Brasileiro e a Companhia Costeira mantém um serviço semanal entre este porto e o Rio de Janeiro, sendo que os navios da primeira dessas companhias transbordam os passageiros, neste porto, para navios menores, que os levam a Porto Alegre. Além destes navios, muitos outros, costeiros, fazem escala no Rio Grande. Alguns dos navios da Hamburg Amerika fazem também escala neste porto, conquanto o enorme banco de areia a entrada da barra tenha sido empecilho ao desenvolvimento do comércio marítimo estrangeiro. Atualmente, porém, estão os poderes públicos empenhados na abertura duma passagem cômoda através do banco, com 33 pés de profundidade e permitindo assim a entrada de grandes navios em qualquer época do ano.
O Município tem uma população total de 45.000 habitantes, dos quais 25.000 residem na cidade e subúrbios, ligados por linhas de tramways (bondes). Falando de modo geral, as ruas da cidade são estreitas, a antiga maneira dos Portugueses; estão, entretanto, bem calçadas e muito bem considera a mais bela em todo o Estado, é margeada de ótimos edifícios. Entre os mais importantes prédios notam-se a Intendência e o Quartel, o Correio, a Alfândega, a Beneficência Portuguesa e a Biblioteca Pública. Esta última contém cerca de 40.000 volumes e é provavelmente a melhor coleção que no Brasil se encontra para o Sul de São Paulo. As igrejas, escolas e institutos de caridade ocupam edifícios espaçosos e de boa arquitetura.
O progresso industrial da cidade tem sido muito notável durante estes últimos anos, salientando-se principalmente as fábricas de lãs que são das mais importantes do Brasil. O desenvolvimento da lavoura tem também merecido a atenção do Governo, e a Municipalidade fundou um Posto Zootécnico, por intermédio do qual podem os fazendeiros melhorar o seu gado. A estatística rural feita em 1911 mostrou existirem dentro dos limites do município, 10.093 cabeças de gado bovino, 105.552 carneiros e 60.762 porcos. A produção agrícola do município em 1910 foi de 73.020 sacos de milho, 711 sacos de feijão, cerca de 2.000.000 de tomates e 2.591.146 quilos de cebolas. O matadouro municipal está otimamente instalado, sendo a matança de gado fiscalizada com rigor.
Intendência Municipal.  Acervo: Lloyd, 1913.

À medida que passam os anos vai à cidade do Rio Grande recebendo melhoramentos constantes. Atualmente estão em via de execução as obras do porto e a extensão das linhas de tramways. Naturalmente, para que se empreendam melhoramentos, torna-se necessária a presença de homens de boa vontade e energia à testa dos negócios públicos; e no atual Intendente Tenente Coronel Trajano Augusto Lopes, tem o município um dirigente ao qual se podem atribuir muitos dos melhoramentos executados e que continua a esforçar-se pelo progresso material da cidade.
Alguns destaques:
Banco da Província do Rio Grande do Sul. Este importante estabelecimento possui na cidade do Rio Grande uma sucursal instalada em edifico apropriado e faz avultado número de transações.
Banco da Província. Belíssimo prédio que ficava na esquina da Marechal Floriano com Benjamin Constant.
Acervo: Lloyd, 1913.

London & Brazilian Bank, Limited. Considerável número de transações bancárias são efetuadas por intermédio deste banco, cuja sucursal no Rio Grande fica situada a rua Marechal Floriano Peixoto, 43.
Banco do Comércio de Porto Alegre. A sucursal na cidade de Rio Grande foi fundada em 1899 e faz transações bastante avultadas.
Compagnie Française du Port de Rio Grande do Sul. O contrato para a construção do porto do Rio Grande do Sul foi primitivamente dado ao engenheiro americano E. Corthel, a 12 de setembro de 1906. A 9 de julho de 1908, foi pelo Governo Federal transferido este contrato a Compagnie Française du port de Rio Grande. O capital desta empresa é constituído por 20 milhões de francos em ações ordinárias e 10 milhões de francos em ações preferenciais. A Companhia, devido à importância dos trabalhos a realizar, emitiu também uma série de obrigações, sendo que, devido a condições especiais do contrato, o juro e amortização desse empréstimo está garantido pelo poderoso grupo financeiro Sociéte Générale de Construction que é, ao mesmo tempo a principal empreiteira das obras: esta última, por sua vez, sub-empreitou os trabalhos a firma Enterprise Daydé et Pillé, Fougerolles Fréres et J. Groselier. Os trabalhos cuja responsabilidade por contrato assumiu a Compagnie du Port de Rio Grande, consistem em trabalhos na barra e trabalhos no porto propriamente dito. Os trabalhos a executar na barra consistem na construção de dois quebra-mares, revestimento dos bordos do Canal do Norte, de modo a terem eles estabilidade, e retenção, por meio de plantações de árvores, das areias, na costa leste do Canal do Norte. Os trabalhos a executar no porto consistem na dragagem dum canal de acesso entre o Canal do Norte e o porto, e dragagem do último; terraplanagem a noroeste e a este do porto, com material proveniente das dragagens; construção em alvenaria duma muralha a oeste do porto, de modo a aí poderem atracar navios do calado de 10 metros; aparelhamento deste cais com armazéns, linhas férreas, guindastes, etc; construção duma muralha a leste do canal de acesso, para proteger o porto contra a invasão das areias; outros trabalhos anexos, tais como balizagens, iluminação, abastecimento de água, calçamento do cais e anexos, construção de depósito frigorífico, depósito para inflamáveis, edifício para correio e telégrafo, doca fixa ou flutuante, conservação do canal da barra, etc. As obras vão já bem adiantadas e para a sua rápida execução dispõe a Companhia de instalações completas. A pedra é fornecida por duas pedreiras, Monte Bonito e Capão do Leão. Os processos empregados para a extração da pedra são dos mais modernos. Possui a Companhia, em torno de cada pedreira, verdadeiras vilas operárias, com uma população de 3.000 almas.
Obras da Companhia Francesa do Porto do Rio Grande. Construção dos Molhes.  Acervo: Lloyd, 1913.

Companhia de Conservas Rio-grandense. A fábrica Tullio, fundada pelo sr. Major Tullio Martins de Freitas, no ano de 1906, foi a 10 de agosto de 1911, transferida a Companhia de Conservas Rio-grandense, constituída na mesma data, com o capital de Rs600:000$000, dividido em 3.000 ações do valor nominal de Rs.200$000. Ocupando atualmente 112 pessoas, inclusive o pessoal dos seus escritórios, eleva, por ocasião das safras, ao dobro o seu pessoal operário. A sua exportação no ano de 1910 atingiu a Rs 800:000$000, inclusive as vendas efetuadas para o interior deste Estado. Além de muitas e variadas conservas de doces, carnes, peixes, etc, das quais tem presentemente um stock de cerca de Rs300:000$000, refina também banha de porco. A Companhia, independente do fabrico de conservas, possui também secções especiais para a completa confecção de todas as latas e caixas necessárias ao acondicionamento com máquinas movidas a vapor. O seu horário de trabalho é o seguinte: das 7 as 11ª.m. e meio dia as cinco p.m. O seu corpo administrativo compõe-se dos srs. Major Túlio Martins de Freitas e Afonso H. Faveret, diretores; e o seu Conselho Fiscal, do Banco da Província do Rio Grande do Sul, Banco do Comércio de Porto Alegre e o sr. Romeu José Andreassi.
Albino Cunha. O Moinho Rio-grandense foi fundado em 1894, pela Companhia Sul Brasil, sendo o sr. Albino Cunha um dos fundadores. A empresa ocupa-se exclusivamente da fabricação de farinha, de que produz 45 toneladas diariamente, em três qualidades. O trigo é importado da Argentina e descarregado em ponte própria, sendo transportado em vagonetes para o moinho. Entre a ponte e o estabelecimento, há uma pequena linha de trilhos, que muito facilita os trabalhos de carga e descarga. A sua marca de farinha Primor é muito conhecida e apreciada em todo o Estado do Rio Grande do Sul, onde tem uma enorme procura. A usina é montada com maquinismos de E. R. e F. Furrer, Ipswich, Inglaterra e compreende o que há de mais moderno em Roller Miller, etc;  e está aparelhada para produzir artigos de primeira ordem no seu gênero de indústria. O capital da empresa é de Rs 600:000$000. O edifico tem 4 andares, com vários depósitos para trigo e farinha, e incluindo o terreno onde fica situada, tem cerca de 100 metros quadrados. O número dos empregados é de 68. O sr. A.J. da Cunha nasceu em Portugal em 1850, vindo para o Rio Grande em 1864. Aí praticou o comércio em casas exportadoras e importadoras, fundando mais tarde o seu próspero estabelecimento; tem visitado a Europa por várias vezes. O sr. Cunha é também sócio comanditário da firma Cunha, Freitas & Cia, importadora de secos e molhados da Bahia, Pernambuco e Europa, que negocia em vinhos, açúcar, etc, vendendo esses gêneros por todo o Estado.
Vistas do centro da cidade e do Porto Velho (Santa Casa em primeiro plano).   Acervo: Lloyd, 1913.




terça-feira, 3 de julho de 2018

O DIÁRIO DO CONDE D’EU


Viagem militar ao rio grande do sul (agosto a novembro de 1865) de conde d’eu foi publicado pela companhia editora nacional na série brasiliana (vol. 61) em 1936.
        este diário de viagem tem início no rio de janeiro (1 de agosto de 1865) e relata a participação do esposo da princesa isabel nas atividades militares da guerra do paraguai em território rio-grandense. conde d’eu fez a viagem para encontrar d. pedro ii que já estava na frente de combate em uruguaiana. um recorte deste diário diz respeito À cidade do rio grande e traz uma série de informações da urbanidade, COMERCIANTES, VINHO DA ILHA DOS MARINHEIROS e sociabilidade sobre a cidade no ano de 1865.
o material foi consultado e está sendo reproduzido do endereço http://www.brasiliana.com.br/obras/viagem-militar-ao-rio-grande-do-sul. Acesso em 01/07/2018.
Conde D'Eu em 31 de dezembro de 1864. Fotógrafo: Alberto Henschel (livro De Volta a Luz.)

“SAÍMOS DO PORTO DO DESTERRO POUCO DEPOIS DA MEIA NOITE. O DIA FOI ESPLÊNDIDO, COMO UM BELO DIA DE INVERNO NO SUL DA EUROPA. ATÉ CERCA DE UMA HORA DA TARDE FOI O HORIZONTE LIMITADO À DIREITA PELA LINHA UNIFORME DAS MONTANHAS DA PROVÍNCIA DE SANTA CATARINA; DEPOIS, COMO NA PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO SUL A COSTA É MUITO BAIXA, PASSAMOS A NÃO VER SENÃO O CÉU AZUL E O MAR IGUALMENTE AZUL E SERENO.
FOI A MONOTONIA DO DIA AGRADAVELMENTE CORTADA, CERCA DAS 2 HORAS, PELO ENCONTRO DO VAPOR BRASIL QUE VINHA DE PORTO ALEGRE. MANOBRAMOS PARA MUTUAMENTE NOS APROXIMARMOS; OS COMANDANTES PUDERAM FALAR PELO PORTA-VOZ, E DESSE MODO SOUBEMOS QUE O IMPERADOR TINHA SAÍDO DE PORTO ALEGRE PARA O INTERIOR NO DIA 28, E QUE DO TEATRO DA GUERRA CONTINUAVA A NÃO HAVER NOTÍCIAS.

PELA MANHÃ, AO ALMOÇO, O ASSUNTO DA CONVERSAÇÃO E MOTIVO DE DIVERTIMENTO FORA O INFORTÚNIO DE SEITZ: O SEU CRIADO ALEMÃO, TENDO IDO À TERRA NO DESTERRO, ONDE PARECE QUE TINHA PESSOAS DO SEU CONHECIMENTO, POR QUALQUER ENGANO, LÁ FICARA. "C'EST TÔMACHE", REPETE FLEUGMATICAMENTE O BOM SEITZ, "SAR ÉTAIT FORT APILE ET IL VAIT DES CONNAISSANCES DANS TOUT LE MONDE."

DE NOITE O NEVOEIRO OBRIGA-NOS A PARAR, E NÃO É POSSÍVEL RECOMEÇAR A MARCHA SENÃO DEPOIS DAS 8 HORAS DA MANHÃ. O "FOG" VAI-SE AFINAL DISSIPANDO E NÓS PODEMOS VER A TERRA, PRIMEIRO SOB A FORMA DE UMA LINHA ESCURA QUASE IMPERCEPTÍVEL ENTRE O MAR E O CÉU, DEPOIS COMO UMA FAIXA MAIS LARGA DE AREIA BRANCA. FOMO-NOS APROXIMANDO POUCO A POUCO; DEPOIS CONTINUAMOS A NAVEGAR AO LONGO DELA. UMAS VEZES ERA UMA PRAIA PLANA, OUTRAS VEZES ERAM CÔMOROS ONDULADOS; MAS SEMPRE AREIA, NADA MAIS QUE AREIA, SEM UM ÁTOMO DE VERDURA PERCEPTÍVEL; ASPECTO QUE A SAUDADE DA PROVÍNCIA DO RIO DE JANEIRO TORNAVA DUPLAMENTE TRISTE. O CÉU PARECIA QUERER PÔR-SE EM HARMONIA COM A TERRA, TOMANDO UMA COR CINZENTA E BAÇA; O VENTO ERA DE PROA E GLACIAL. ERA "UNA MAÑANA MUY CRUDA", COMO DIRIAM OS ESPANHÓIS.

PELA UMA HORA DA TARDE (dia 5 de agosto) ENCONTRAMO-NOS EM FRENTE DA BARRA DO RIO GRANDE. O COMANDANTE DA BARRA, QUE VEIO VISITAR-NOS NO PEQUENO VAPOR JAGUARÃO, DISSE-NOS QUE, SEGUNDO AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS, O IMPERADOR TINHA CHEGADO A 29 A RIO PARDO E PARTIDO NO MESMO DIA PARA CACHOEIRA, E QUE DO TEATRO DAS HOSTILIDADES CONTINUAVA A NÃO SE SABER NADA.

POSTO QUE A ENTRADA DO PORTO DO RIO GRANDE SEJA APARENTEMENTE MUITO LARGA, OS CANAIS NAVEGÁVEIS SÃO MUITO ESTREITOS, APERTADOS ENTRE BANCOS DE AREIA QUE SE ESTENDEM, TANTO AO MEIO DA ENTRADA COMO AO NORTE E AO SUL E SOBRE OS QUAIS AS VAGAS CONSTANTEMENTE REBENTAM. POR ISSO QUANDO, TENDO ENTRADO PELO CANAL DO NORTE, PASSAMOS O SEMICÍRCULO BRANCO FORMADO PELA ESPUMA DAS VAGAS, O COMANDANTE VEIO ANUNCIAR-ME COM MUITA SATISFAÇÃO QUE JÁ TINHAMOS SALVADO A BARRA. DEIXANDO À DIREITA A PEQUENA POVOAÇÃO CHAMADA ESTAÇÃO DA BARRA, CONTINUAMOS A NAVEGAR ENTRE DUAS MARGENS IGUALMENTE CHATAS, IGUALMENTE ARENOSAS E, PELO MENOS, TÃO DISTANTES UMA DA OUTRA COMO AS DO MERSEY EM LIVERPOOL. PARECEU-ME QUE DO LADO DO SUL ALGUMA ERVA CRESCIA NA AREIA; PELO MENOS, VIAM-SE BOIS QUE PARECIAM ESTAR A PASTAR NA PRAIA. NÃO TARDAMOS A AVISTAR E A DEIXAR TAMBÉM PARA A DIREITA A TORRE DA IGREJA E AS POUCAS E HUMILDES CASAS DE SÃO JOSÉ DO NORTE, VILA QUE TEM O TÍTULO DE "HEROICA" MAS QUE DEVE SER BASTANTE TRISTE. ESTÃO ALI ANCORADOS ALGUNS NAVIOS QUE NA OUTRA MARGEM NÃO ENCONTRAM A ALTURA DE ÁGUA QUE DEMANDAM. ENFIM, POR DETRÁS DE UMA SALIÊNCIA DA MARGEM DO SUL DEPARA-SE-NOS A CIDADE DO RIO GRANDE DO SUL, PRECEDIDA DE UMA FLORESTA DE MASTROS. PARA NOS APROXIMARMOS DELA É TAMBÉM PRECISO SEGUIR UM CANAL SINUOSO E ESTREITO, MAS BEM BALIZADO COM UMA SÉRIE DE BOIAS. SÃO QUASE 9 HORAS, E COMO O VAPOR, POR CAUSA DOS BANCOS, SÓ DE DIA PODE FAZER A MAIOR PARTE DO TRAJETO DAQUI A PORTO ALEGRE, TENHO DE DORMIR AQUI. ACEITO A HOSPITALIDADE QUE ME OFERECE O SR. LOPES DE ARAÚJO (A QUEM VULGARMENTE CHAMAM EUFRÁSIO), QUE JÁ HOSPEDOU O IMPERADOR QUANDO POR AQUI PASSOU.

NO MOLHE DE DESEMBARQUE ESTÁ A CÂMARA MUNICIPAL, CUJO PRESIDENTE FAZ UM PEQUENO DISCURSO, OUTRAS AUTORIDADES E GRANDE MULTIDÃO, QUE SOLTA OS VIVAS DO ESTILO E DEITA FOGUETES EM TODAS AS DIREÇÕES. O COMANDANTE MILITAR EM EXERCÍCIO É UM CORONEL DE APELIDO CAMPOS; O VERDADEIRO COMANDANTE É UM TENENTE-GENERAL REFORMADO, QUE SE ENCONTRA ENFERMO. NA RUA PRINCIPAL ESTÃO FORMADAS DUAS COMPANHIAS DA GUARDA NACIONAL LOCAL. PARECE QUE ESTA GUARDA NACIONAL SÓ FOI CHAMADA AO SERVIÇO DEPOIS DA PASSAGEM DO IMPERADOR, POR TER SIDO MANDADA PARA O INTERIOR A GUARNIÇÃO DE LINHA QUE ATÉ ENTÃO OCUPAVA A CIDADE. COMPÕE-SE A GUARDA NACIONAL UNICAMENTE DE HABITANTES DA CIDADE, NA MAIOR PARTE EMPREGADOS DO COMÉRCIO. POR ISSO NÃO SE VÊ NELA UM SÓ HOMEM DE COR, E O TIPO GERAL INDICA UM GRAU DE EDUCAÇÃO SUPERIOR AO DOS GUARDAS NACIONAIS DO NORTE. EM COMPENSAÇÃO OS OFICIAIS MOSTRAM BEM NO ASPECTO QUE SAÍRAM AGORA MESMO DOS SEUS ESCRITÓRIOS E DOS SEUS ESTABELECIMENTOS DE VENDA, E QUE VÃO JÁ VOLTAR PARA LÁ. ESTA GUARDA NACIONAL DO RIO GRANDE TEM POUCO MAIS DE 400 HOMENS; USAM QUEPE DE COURO, FARDA AZUL E CALÇA BRANCA.

DEPOIS DE TER TOMADO POSSE DO MEU APOSENTO, SOUBE QUE SE ESTAVA A CONSTRUIR UMA OBRA DE FORTIFICAÇÃO NO EXTREMO DA CIDADE, E, COMO O SR. EUFRÁSIO ME ANUNCIAVA O JANTAR SÓ PARA AS QUATRO E MEIA, FUI PASSEAR PARA AQUELE LADO.

A CIDADE DO RIO GRANDE DO SUL, QUE FOI A PRIMEIRA QUE SE FUNDOU NESTA PROVÍNCIA, DATA DE 1787 (*1737); CONTA HOJE, AO QUE ME DIZEM, 14.000 HABITANTES E TEM MUITAS CASAS DE COMÉRCIO EUROPEIAS, NA MAIOR PARTE ALEMÃS. OS PRINCIPAIS OBJETOS DE COMÉRCIO SÃO OS COUROS E A CARNE-SECA. AS RUAS PRINCIPAIS, EM QUE SE VEEM LOJAS ELEGANTES, SÃO TRÊS, TODAS PARALELAS À PRAIA. HÁ MUITAS CASAS DE AZULEJOS, O QUE DÁ IMPRESSÃO DE ASSEIO E ELEGÂNCIA. A RUA MAIS IMPORTANTE APRESENTA HOJE MUITAS BANDEIRAS DE CONSULADOS; TAMBÉM HÁ UMA NESSE FAMOSO CONSULADO INGLÊS, DONDE SAÍRAM AS DIATRIBES TÃO INJUSTAS DO SR. PRENDERGAST VEREKER, ORIGEM DO CONFLITO A QUE A MEDIAÇÃO PORTUGUESA AINDA, INFELIZMENTE, NÃO CONSEGUIU PÔR TERMO. AS RUAS SÃO CALÇADAS; MAS ANTES DE SE PASSAREM AS ÚLTIMAS CASAS DA CIDADE, JÁ SE ESTÁ NUM MAR DE AREIA, EM QUE SE TORNA MUITO CUSTOSO ANDAR. VI, CONTUDO, UMA SEBE VIVA, NÃO SEI DIZER DE QUE ESPÉCIE DE PLANTA, PORQUE NÃO TINHA UMA SÓ FOLHA; MAS TANTO BASTOU PARA ME RECORDAR A EUROPA. NO CAMINHO DA FORTIFICAÇÃO PASSAMOS POR UM HOSPITAL, QUE UMA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA ESTÁ CONSTRUINDO, COM O AUXÍLIO DO GOVERNO. POR ORA SÓ HÁ UMA DAS QUATRO FACHADAS; MAS HÁ DE FICAR UM EDIFÍCIO MUITO BONITO; PELO MENOS MUITO GRANDE. HÁ DE TER CÚPULA DE AZULEJOS.


Regata em homenagem a D. Pedro II ocorrida em julho de 1865 (tendo a Rua Riachuelo ao fundo). Acervo: Biblioteca Rio-Grandense.   

A FORTIFICAÇÃO A QUE ME REFERI, À QUAL DÃO O NOME DE TRINCHEIRA, É UMA SIMPLES LINHA DE REDENTES QUE DEVE FECHAR, DE UMA A OUTRA PRAIA, A PONTA DE TERRA EM QUE ESTÁ EDIFICADA A CIDADE. FEZ-SE EM TODA ESTA EXTENSÃO UM MURO VERTICAL DE ALVENARIA, INDISPENSÁVEL PARA SUSTENTAR AS TERRAS OU, PARA MELHOR DIZER, AS AREIAS QUE DEVEM FORMAR A OBRA. A FALTA DE COERÊNCIA DESTAS AREIAS DIFICULTA MUITO OS TRABALHOS, POIS QUE AO MAIS PEQUENO VENTO LOGO SE ACUMULA AREIA DO LADO EXTERIOR DO MURO. PARECE QUE JÁ DE HÁ MUITO SE PENSAVA EM CONSTRUIR ESTA DEFESA; PORÉM SÓ ULTIMAMENTE SE ATIVARAM AS OBRAS. RESULTOU EVIDENTEMENTE ESTA RESOLUÇÃO DA IDEIA QUE NO MOMENTO ATUAL, E NÃO SEM FUNDAMENTO, ME PARECE DOMINAR AS AUTORIDADES E OS HABITANTES DA CIDADE. TEMEM QUE, SE OS PARAGUAIOS ENTRAREM, COMO É MUITO PARA RECEAR, NA PARTE OESTE DO ESTADO ORIENTAL, SE DÊ UMA SUBLEVAÇÃO GERAL DOS "BLANCOS", E QUE NESSE CASO OS ORIENTAIS, TRANSPONDO A FRONTEIRA DO CHUÍ, VENHAM ATACAR ESTA CIDADE. FOI COM A MESMA IDEIA QUE SE ARMOU A GUARDA NACIONAL A CAVALO DE TODAS AS POVOAÇÕES QUE SE ESTENDEM DAQUI ATÉ AO CHUÍ E DAS QUE FICAM PRÓXIMAS AO JAGUARÃO.

TRABALHAM ATUALMENTE NESTA TRINCHEIRA 120 OPERÁRIOS SOB AS ORDENS DE UM MAJOR DE ENGENHARIA. LOGO AO PÉ FICA O QUARTEL DA GUARDA NACIONAL, NO QUAL TAMBÉM ESTÁ INSTALADO O HOSPITAL MILITAR. TEM UMAS POUCAS DE SALAS, ESPAÇOSAS E BEM VENTILADAS, E PARECE, EM SUMA, ESTAR FUNCIONANDO PERFEITAMENTE. QUE PENA NÃO SE PODER TRAZER PARA AQUI METADE DOS INFELIZES QUE ESTÃO ACUMULADOS NO DESTERRO! HÁ AGORA NESTE HOSPITAL 49 DOENTES, PERTENCENTES A CORPOS QUE MARCHARAM PARA O INTERIOR; NOVE ESTÃO ATACADOS DE VARÍOLA. HÁ TRÊS MÉDICOS NO ESTABELECIMENTO.

DE VOLTA, VI NUM LARGO UM MAGOTE DE HOMENS EM TRAJO CIVIL, QUASE TODOS DE MAIS DE CINQUENTA ANOS, QUE PARECIAM TER VINDO SUBMETER-SE A UMA INSPEÇÃO. DIZEM-ME QUE SÃO OS INDIVÍDUOS DA GUARDA NACIONAL ISENTOS DO SERVIÇO POR MOTIVO DE SAÚDE, QUE COMEÇAM VOLUNTARIAMENTE A ORGANIZAR-SE PARA FAZER O SERVIÇO DA CIDADE NO CASO DE DEVER A GUARDA NACIONAL ATIVA MARCHAR PARA OUTRA PARTE.

O JANTAR DO SR. EUFRÁSIO FEZ-SE ESPERAR, MAS RESGATOU A DEMORA COM O ESPLENDOR: GRANDE MESA LUXUOSAMENTE POSTA; COZINHA FRANCESA DELICADA E ABUNDANTE. SOMENTE TOMARAM PARTE NO JANTAR, ALÉM DO GENERAL BEAUREPAIRE ROHAN E DE MIM, O DONO DA CASA, SUA ESPOSA, SUAS DUAS FILHAS E TRÊS SENHORAS QUE ME APRESENTARAM COMO CONHECIDAS DA CASA. O FILHO DO DONO DA CASA (QUE, ALIÁS, ACABAVA DE FAZER UMA GUARDA COMO SARGENTO DA GUARDA NACIONAL) E UM AMIGO SEU SERVIAM À MESA COM UM CRIADO PRETO.

NÃO TARDEI A DESCOBRIR QUE AS PESSOAS DA ESTIMÁVEL FAMÍLIA EUFRÁSIO ERAM GRANDES VIAJANTES! JÁ ANTES DE JANTAR TINHA O PAI ENCONTRADO OCASIÃO DE ME DIZER QUE SEU FILHO HAVIA SIDO EDUCADO NA EUROPA; MAS, AVERIGUANDO, APUREI QUE NÃO PASSARA DO PORTO. AOS MEUS PRIMEIROS CUMPRIMENTOS A PROPÓSITO DA SUA CASA, ETC., A SENHORA EUFRÁSIA RESPONDEU-ME COM MODÉSTIA: — MAS PARA QUEM TEM ANDADO PELA EUROPA TUDO ISTO É MUITO FEIO.

NÃO ENTENDI QUE NISTO HOUVESSE SEGUNDA INTENÇÃO; PORÉM AO VER QUE ESTA PALAVRA EUROPA LHE VOLTAVA FREQUENTEMENTE AOS LÁBIOS, OUSEI PERGUNTAR-LHE: — A SENHORA ESTEVE NA EUROPA?
   — POIS NÃO! DOUS MESES EM PARIS, E MÊS E MEIO EM LONDRES. ESTAVA DADO O PRIMEIRO PASSO: NUNCA MAIS SE ESGOTOU A CONVERSAÇÃO. DEPOIS DO JANTAR, A FILHA MAIS NOVA, QUE ESTUDAVA COM UM MESTRE ALEMÃO CUJO NOME ME PASSOU, TOCOU AO PIANO TRECHOS DA FAVORITA.

ESTE DIVERTIMENTO FOI INTERROMPIDO PELA VISITA DO COMANDANTE MILITAR, QUE VEIO TRAZER UMA MÁ NOTÍCIA, CHEGADA NAQUELA MESMA NOITE E VINDA POR BAGÉ E PELOTAS SEM PASSAR POR PORTO ALEGRE. OS PARAGUAIOS TINHAM PASSADO O IBICUÍ A 24 DE JULHO EM FORÇA DE ALGUNS MILHARES DE HOMENS. VOU DAR ALGUNS ESCLARECIMENTOS, PARA OS LEITORES QUE NÃO ESTIVEREM MUITO FAMILIARIZADOS COM A GEOGRAFIA DESTAS REGIÕES.

Dom Pedro II com os genros Duque de Saxe e Conde D'Eu em Alegrete durante a Guerra do Paraguai. L'illustration journal universel, Vol. XLVL, nº 1.186 (1865).


       A FRONTEIRA OCIDENTAL DA PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO SUL É TODA FORMADA PELO URUGUAI, GRANDE RIO QUE A SEPARA DA PROVÍNCIA DE CORRIENTES, PERTENCENTE À REPÚBLICA ARGENTINA, E QUE NESTA PARTE CORRE NA DIREÇÃO GERAL DO NORDESTE PARA SUDOESTE. DA MARGEM ESQUERDA, QUE É A MARGEM BRASILEIRA, RECEBE O URUGUAI VÁRIOS AFLUENTES: O PRINCIPAL É O IBICUÍ, QUE CORRE A LESTE-OESTE. MAIS AO SUL, E PARALELAMENTE A ESTE, CORRE O QUARAHIM QUE NESTA PARTE FORMA A FRONTEIRA ENTRE O BRASIL E O ESTADO ORIENTAL. OS PARAGUAIOS, SAINDO DO SEU PAÍS, ATRAVESSARAM, SEM DISPARAR UM TIRO, A PROVÍNCIA ARGENTINA DE CORRIENTES; EM SEGUIDA PASSARAM URUGUAI NA PARTE SUPERIOR DO SEU CURSO E PENETRARAM NA PROVÍNCIA BRASILEIRA DO RIO GRANDE DO SUL, APODERANDO-SE DAS VILAS DE SÃO BORJA E ITAQUI, SITUADAS NA MARGEM ESQUERDA DO URUGUAI, E, DESCENDO AO LONGO DESTA MARGEM, MOSTRARAM INTENÇÃO EVIDENTE DE SE DIRIGIR PARA O ESTADO ORIENTAL, ONDE CONTAM AMIGOS. A PASSAGEM DE IBICUÍ OS APROXIMA DAQUELE ESTADO. NO TRAPÉZIO QUE O IBICUÍ E O QUARAHIM FORMAM COM O URUGUAI ENCONTRAM-SE AS DUAS CIDADES DE URUGUAIANA E ALEGRETE, QUE AGORA FICAM MUITO EXPOSTAS. MAS NESTE TRAPÉZIO OPERAM OS DOUS CORPOS DO EXÉRCITO BRASILEIRO DOS GENERAIS CALDWELL E CANABARRO. ALÉM DISSO, NA MARGEM DIREITA DO URUGUAI E EM FRENTE À URUGUAIANA, ESTÁ FLORES COM O SEU CORPO DE EXÉRCITO. CONSEGUIRÁ ELE PASSAR O RIO E COOPERAR COM OS OUTROS DOUS CORPOS DO EXÉRCITO? SE O FIZER A TEMPO HÁ FUNDADOS MOTIVOS PARA ESPERAR QUE OS PARAGUAIOS SEJAM ESMAGADOS ANTES DE ATINGIR O QUARAHIM. NÃO DOU NÚMEROS QUE INDIQUEM A FORÇA DOS DIFERENTES EXÉRCITOS, PORQUE SE NÃO CONHECEM POR ORA.

NA MESMA NOITE RECEBI TAMBÉM A VISITA DE UM MAJOR HONORÁRIO, DE APELIDO MATTOS, QUE ACABA DE PERDER UM FILHO EM MONTEVIDÉU E ME TRAZIA O SEGUNDO, QUE TEM DEZESSEIS ANOS, PEDINDO-ME QUE O LEVASSE COMIGO PARA PORTO ALEGRE E O FIZESSE INCORPORAR EM QUALQUER BATALHÃO DE VOLUNTÁRIOS. RECUSEI, PORQUE ERA APENAS UMA CRIANÇA, QUE MAL ME CHEGAVA A MEIO DO PEITO. EM SEGUIDA VEIO UMA COMISSÃO DE SEIS NEGOCIANTES FRANCESES, QUE ME FEZ UM PEQUENO DISCURSO DE FELICITAÇÃO EM NOME DOS FRANCESES RESIDENTES NO RIO GRANDE, QUE SÃO, AO QUE ME DISSERAM, QUARENTA. MUITO ME PENHOROU A SUA ATENÇÃO.

JÁ ME TINHA RECOLHIDO E ESTAVA-ME PREPARANDO PARA ME DEITAR, QUANDO MAIS UMA VEZ SE OUVIU DEBAIXO DAS JANELAS O HINO NACIONAL E A RUA APARECEU TODA ILUMINADA COM ARCHOTES. JULGUEI, A PRINCÍPIO, QUE OS ALEMÃES NÃO TINHAM QUERIDO FICAR ATRÁS DOS FRANCESES, DADO O GOSTO DAQUELA NAÇÃO PELOS "FACKELZUEGE" (PASSEIOS COM ARCHOTES).

ERA UMA SOCIEDADE MUSICAL QUE VINHA DAR UMA SERENATA, PRECEDIDA DE ARCHOTES E BANDEIRAS. TIVE DE OUVIR A MÚSICA E POR FIM PUDE RECOLHER-ME AO LEITO. SE BEM QUE A ELEGÂNCIA DO QUARTO DE DORMIR ESTIVESSE EM HARMONIA COM A DA SALA DO JANTAR, O LEITO DEIXAVA A DESEJAR. PARA AGASALHO SÓ HAVIA UM LENÇOL QUASE TRANSPARENTE E UMA COBERTA DE SEDA, TUDO CORTADO À ALEMÃ, ISTO É, DE MENOR DIMENSÃO QUE O LEITO. TIVE MUITO FRIO.

6. — CHUVA TORRENCIAL TODA A MANHÃ. FOMOS À MISSA DE CARRUAGEM, ALMOÇAMOS E EM SEGUIDA VOLTAMOS PARA BORDO, DIRIGINDO-NOS A PÉ PARA O MOLHE DE EMBARQUE, VISTO NÃO HAVER MEIO DE TRANSPORTE, O QUE DETERMINOU UMA LAVAGEM POUCO OPORTUNA DAS CASACAS PRETAS DA CÂMARA MUNICIPAL E DAS OUTRAS AUTORIDADES.

AO ALMOÇO A SENHORA EUFRÁSIA DEU-ME A PROVAR "VINHO DA TERRA", VINHO BRASILEIRO, QUE EU AINDA NÃO VIRA, POIS A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO SUL É A ÚNICA QUE POR ENQUANTO O PRODUZ. ESTE É FEITO NA PRÓPRIA CIDADE DO RIO GRANDE COM UVAS QUE SE COLHEM NUMA ILHA PRÓXIMA. É DE COR VERMELHO-CLARA E TEM UM SABOR QUE NÃO É PROPRIAMENTE DESAGRADÁVEL, MAS QUE É ACRE E SE NÃO PARECE COM O DE NENHUM VINHO EUROPEU. A RAZÃO DISTO É QUE O VINHO PROCEDE DE CEPAS DOS ESTADOS UNIDOS, CUJAS UVAS TÊM IGUALMENTE ESTE SABOR ESPECIAL. AS CEPAS EUROPEIAS CRESCEM E DÃO MESMO UVAS NESTA PROVÍNCIA E EM OUTRAS; MAS PARECE QUE SE NÃO TENTOU TIRAR DELAS VINHO. QUANTO A MIM, SEM QUERER DIZER MAL DA VINHA AMERICANA, PREFIRO FRANCAMENTE O VINHO E AS UVAS DA EUROPA. OUTRA COUSA QUE AO ALMOÇO ME SURPREENDEU, E MAIS AGRADAVELMENTE, FOI VER MANTEIGA FRESCA. MAS LÁ ESTÁ AO PÉ MANTEIGA DA EUROPA, COMO A QUE SE COME NO RIO DE JANEIRO. AINDA AGORA ME RIO, QUANDO ME LEMBRO DA GRAVIDADE COM QUE O SR. EUFRÁSIO ME PERGUNTOU SE QUERIA MANTEIGA FRESCA OU MANTEIGA DA EUROPA. QUANTO À MANTEIGA, NÃO É A DA EUROPA QUE EU PREFIRO NO RIO GRANDE.

AO CABO DE MIL HESITAÇÕES DO COMANDANTE, MOTIVADAS PELO DETESTÁVEL ASPECTO DO TEMPO, PÔS-SE O SANTA MARIA EM MOVIMENTO PARA PORTO ALEGRE PELO MEIO-DIA. EM TODO O DIA NÃO CESSOU A CHUVA SENÃO DURANTE CURTOS INTERVALOS. E QUE CHUVA! GROSSAS BÁTEGAS DE ÁGUA ATIRADAS QUASE HORIZONTALMENTE POR UM VENTO IMPETUOSO DO NORTE, PORTANTO DE PROA, POR ISSO QUE O RIO GRANDE É, ATÉ O PRESENTE, O PONTO MAIS AUSTRAL DA NOSSA PEREGRINAÇÃO. A PARTIR DESTA CIDADE VOLTAMOS PARA O NOR-NORDESTE, ENQUANTO ATRAVESSAMOS EM TODO O COMPRIMENTO A IMENSA LAGOA DOS PATOS, EM CUJA EXTREMIDADE FICA SITUADA PORTO ALEGRE, E QUE NÃO TEM MENOS DE 200 QUILÔMETROS EM SUA MAIOR DIMENSÃO. A LARGURA VARIA: EM ALGUNS PONTOS NÃO SE AVISTAVA DO MEIO NENHUMA DAS MARGENS. ESTAS MARGENS NÃO SÃO MAIS BELAS QUE AS DO PORTO DO RIO GRANDE, EMBORA AQUI E ALÉM APAREÇAM À BEIRA D'ÁGUA ALGUNS GRUPOS DE ÁRVORES. NA PARTE SUPERIOR DA LAGOA FORAM CONSTRUÍDOS NOS ÚLTIMOS ANOS UNS POUCOS DE FARÓIS, EM ILHOTAS ARTIFICIAIS. FOI NA LAGOA DOS PATOS QUE, POR OCASIÃO DA GUERRA CIVIL DA PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO SUL, GARIBALDI ORGANIZOU UMA FLOTILHA. CONTA-SE QUE, ESTANDO OCUPADA PELOS IMPERIALISTAS A SAÍDA DA LAGOA, ELE TRANSPORTARA A SUA FLOTILHA POR TERRA EM CARROS DE BOIS ATÉ O PORTO DE LAGUNA, NA PROVÍNCIA DE SANTA CATARINA, O QUAL DISTA 250 QUILÔMETROS DA PARTE SUPERIOR DA LAGOA”.


Conde D'Eu em 1882. Fotógrafo: Alberto Henschel 


domingo, 1 de julho de 2018

A NATUREZA DA TEMPORALIDADE NA EXPERIÊNCIA CIVILIZATÓRIA MISSIONEIRA


         O acontecer histórico processa-se no espaço-tempo. No caso das Missões jesuítico-guarani, o espaço refere-se a um território que hoje faz parte do Paraguai, Argentina e Brasil. Como o espaço não é meramente físico, mas está relacionado ao processo humano de construção de fronteiras, este espaço histórico é indissociável do tempo pois a temporalidade é um fazer-se histórico no espaço. Se o homem constrói o espaço deixando suas marcas materiais (habitações, cemitérios etc) o tempo é o universo psicossocial cuja linguagem se traduz em sonhos, fantasias e idéias. A temporalidade converte-se em signos, em expressões múltiplas que demarcam a vida e a morte.
Falar do tempo é expressar o cotidiano, os atos lógicos e ilógicos que figuram ao longo do dia. Estes atos são expressos num meio concreto, que consiste em limites fixados por regras sociais e necessidade de sobrevivência material, circundados por signos normatizadores do comportamento. Estes signos normatizadores estavam presentes nas Missões através da disciplina e ritualização do cotidiano dentro de princípios cristãos.

A Temporalidade Missioneira

Uma primeira aproximação do problema exige pensar o universo psicossocial  europeu na transição Idade Média - Idade Moderna. O homem ibérico do século XVI, refletindo a presença marcante da Igreja, que simbolizava a própria identidade após as lutas de reconquista da Península frente à ocupação árabe, permanecia ligado ao universo medieval: superstições, espiritualismo arraigado, devoção a santos e relíquias, peregrinações e sobrenaturalismo.
         No contexto do Renascimento, da Reforma Protestante e da debilidade ético-moral católica, foi criada a Companhia de Jesus, ordem religiosa de caráter reformista e militantes (soldados de Cristo), cuja ética loyolana baseava-se no “salvar a alma” através da militância religiosa e da obrigação de “viver no mundo”.
         O surgimento dos povoados missioneiros na primeira metade do século XVII, em terras pertences à monarquia espanhola, desencadeou um processo civilizatório junto aos indígenas guaranis, promovendo à formação de uma organização social de caráter comunitário e católico, político-administrativamente vinculado aos órgãos metropolitanos (Casa de Contratación e Conselho das Índias), coloniais (Audiências, Vice-Reis, governadores, autoridades), clericais (superiores da Companhia de Jesus e Igreja de Roma) e locais (Cabildo); prestando serviços militares, pois os guaranis são súditos do Rei (pagando impostos sobre a produção agropecuária e a exportação); promovendo a produção artística, artesanal e técnica, segundo o imaginário da sociedade européia católica (diabo x conversão).
         Os ofícios artesanais, o trabalho agrícola e as atividades nas Missões possuíam horários fixos que somente eram alterados nas mudanças de estação. O despertar, a missa, as refeições, o repouso noturno são seqüências de um ritmo disciplinador e repetitivo. “El sol está ido y los indios descansam, esperando un nuevo día tan igual al día anterior y tan igual en un pueblo como en otro, que sólo las personas diversas y algún detalle pueden orientar la diferencia”. As festividades religiosas eram momentos de ritualização de um cotidiano voltado à dinâmica espiritual da moral cristã através das procissões, da música e canto, da dança, de representações teatrais e devoções.
         A uniformidade e repetição das atividades e movimentos nos pueblos, promoviam um ritmo que almejava o “uso perfeito do tempo”, um ritmo de trabalho e cristianização, conduzido na atenção constante dos jesuítas. Este modelo de uniformidade certamente deve ser relativizado (os apelos dos discursos jesuíticos buscam uma certa prática social normatizadora), e a formação missioneira, na dinâmica global e particularidades de cada povoado, edificou seu ritmo a partir de arritmias frente ao modelo de uniformidade proposto no século XVIII no livro sobre a disciplinarização da temporalidade. Estas arritmias estão relacionadas à presença dos caraís-feiticeiros no século XVII e pela persistente presença cultural dos guaranis nas Missões.
         As determinações do processo histórico europeu e platino, dinâmica em que as Missões estão inseridas, propiciou um tempo para a conquista espiritual, para o florescente desenvolvimento urbano e para a derrocada do projeto com decorrente expulsão dos jesuítas e marginalização dos guaranis.

O Sentido do Tempo
        
O ritmo temporal missioneiro cadenciava-se pelo ritualismo cristão com todo o seu universo de representações e repressões. A sistemática do trabalho, das atividades espirituais e artísticas impunha-se enquanto disciplina ordenadora do espaço social.
         A Companhia de Jesus construiu ritualmente a temporalidade nas Missões recorrendo às alegorias, representações, sobrenaturalismo, atividades cênicas, musicais, festas religiosas, criando o pecado e propiciando o perdão ao guarani, estando em sintonia com os princípios religiosos católicos ordenados pela Igreja e em consonância com as Monarquias Ibéricas no contexto do Padroado na Idade Moderna.
         A transição medieval-moderno foi um processo lento de sobrevivência de uma mentalidade sensível às forças sobrenaturais. A repetição-imposição de um certo comportamento cristão no cotidiano das Missões visava à doutrinação e ao enquadramento do guarani às necessidades advindas da modernidade.
         Uma delimitação mais clara da temporalidade missioneira precisa levar em consideração essa transição onde o recurso medieval através do pensamento cruzadista, sobrenatural (intervenção divina na sociedade e na natureza; ação de Deus, que guia e legitima a ação do Clero), a forte ritualização (símbolos, relíquias) se fundiu com as necessidades advindas do moderno (trabalho e produção sistematizada, geração de excedentes para comercialização, divisão social do trabalho, incorporação de tecnologia). Ou seja, o imaginário conservador, repressor e conversor do período medieval foi mantido - aquele universo alegórico e discursivo no qual a Igreja erigiu o seu poder -, enquanto outra faceta do medieval foi superada - a letargia produtiva. O moderno está presente com sua sistemática e disciplina, com seu tempo matemático e mecânico. O discurso recorre ao medieval, mas as motivações são da modernidade.

Livro em guarani "Do Bom Uso do Tempo", 1759. 

São Miguel das Missões. Demersay, 1846. 


quinta-feira, 28 de junho de 2018

O ITALIANO ENRICO AMBAUER



         O italiano Enrico Ambauer (1840-1899) nasceu em Milão e morou na cidade do Rio Grande entre as décadas de 1860 e 1880 atuando como professor de música, empresário e proponente de um projeto de colonização. Chegando ao Rio Grande do Sul com cerca de 18 anos de idade, abrasileirou seu nome para Henrique Schutel Ambauer. Em 1858 empreendeu uma viagem de reconhecimento de municípios do Rio Grande do Sul quando percorreu várias localidades e produziu observações que foram publicadas posteriormente. Na Biblioteca Rio-Grandense se encontra uma cópia microfílmica dos originais datados de 1873. Um riquíssimo material bibliográfico foi obtido em acervos europeus pelo historiador Abeillard Barreto e depositado na Biblioteca Rio-Grandense – certamente, esta obra é fruto deste esforço incansável de Barreto.

             Estes apontamentos foram publicados em 1888 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro com o título A Província do Rio Grande do Sul: descrição e viagens. Porém, o interessante é que mais de cem páginas do manuscrito não foram publicados e relatam em maiores detalhes as experiências vividas nesta jornada entre o Porto do Rio Grande e localidades do centro e norte do Rio Grande do Sul. Este material inédito foi pesquisado por Valter Noal Filho e José Marchior (A Viagem de Henrique Schutel Ambauer pela Província do RS, Revista Balduinia, UFSM, n. 42, p. 03-16, 2013).

           Em relação à cidade do Rio Grande, Francisco das Neves Alves (Visões do Rio Grande: a vila/cidade na ótica européia. Rio Grande: Pós-Graduação em História do RS, FURG, 2008), elaborou uma síntese das impressões de Ambauer sobre a localidade em que foi morador por quase duas décadas.

     O escritor italiano fez uma descrição geográfica da localidade, com destaque para o acesso, a hidrografia, o relevo e o conjunto de ilhas no entorno da urbe. Os riscos da costa gaúcha estão presentes em sua narrativa que descrevia que, entre o 29º e o 33º austral e 49º e 53º ocidental estava uma costa baixa, árida, monótona e triste, a qual o cauteloso navegante evitava se não se dirigia ao único Porto acessível da região. Sobre esta faixa litorânea, relatava que as correntezas, os ventos, os descuidos e as espertezas tinham dado a essa costa e ao seu Porto uma reputação pouco lisonjeira, num quadro em que, todas essas circunstâncias promoviam a demora do desenvolvimento da navegação de alto bordo para a Província, impedindo assim a ela tomar rapidamente o grau de adiantamento que poderia atingir.

A respeito do acesso à comunidade portuária, Ambauer destacava que o Rio Grande era o único que permitia a entrada de navios que não demandassem mais de 18 palmos, e isso nem sempre, sendo mais regular de 14 a 15. Explicava que, dificultavam a passagem pela da Barra dois bancos que lhe obstruíam a entrada, formando-se entre eles um canal mutável segundo a direção mais longa dos ventos e correntezas. Narrava ainda que a massa das águas que escoava pela Barra do Rio Grande seria mais que suficiente para ter um canal de franca navegação, se ela não tivesse perdido o declive nos dois lagos internos e na bacia que os recebia, de maneira que o nivelamento, que formava esse espraiamento das águas fluviais, paralisava um tanto o seu curso e apenas o escoamento com diminuta força permitia a conservação desse pequeno Canal da Barra. Refletindo uma das maiores aspirações rio-grandinas, o escritor explicava que era de desejar que, para o futuro, se encontrasse meio de aumentar a profundidade do canal, para que a Província do Rio Grande pudesse conseguir a afluência de uma navegação mais desenvolvida, enriquecendo-se na grande permuta internacional. O serviço de praticagem, a sinalização náutica, as embarcações de apoio e os pontos de desembarque também se faziam presentes na narrativa do italiano.

Com referência à organização econômica e urbana, o autor destacava que, comercialmente a cidade do Rio Grande era considerada o interposto geral, sendo o ponto no qual convergem tanto o comércio exterior como o interior. Nesse quadro, relatava que a parte mais importante da cidade era o seu litoral, em linha quase reta, de leste a oeste, no qual duas linhas de embarcações corriam na mesma direção, deixando entre si um canal de poucas braças de largura, por onde transitavam as embarcações que demandavam o ancoradouro. Fazia referência ainda ao fato de que as casas que margeavam o litoral, como eram quase todas de sobrado de um e dois andares, algumas elegantes com graciosos mirantes, davam agradável aspecto ao panorama visto do mar, seguindo-se, porém, algumas ruas paralelas e outras transversais, que não valeriam à primeira, havendo apenas algumas praças e casas particulares de aparência regular. Descrevia também que a cidade possuía uma alfândega e um excelente cais para o serviço da mesma, tendo uma praça de comércio, onde funcionava igualmente o correio, casa da câmara, mercado, um enorme edifício – hospital de caridade – que, segundo sua concepção, poderia ser menor e ter mais acomodações. As praças, as chácaras, o incômodo com as areias e o abastecimento de água são outros temas abordados por Ambauer, para quem era fora de dúvida que a cidade do Rio Grande viria a ser uma das mais importantes das do Sul da América, quando um caminho de ferro a ligasse com a fronteira da Província.

A obra de Ambauer, mesclando conhecimentos históricos e geográficos, bem como narrativas fruto de seu próprio testemunho ou da utilização da literatura disponível, abrangia um amplo conjunto de localidades gaúchas, vislumbrando praticamente todas as regiões da Província naquele final de século XIX. O autor encaminhou seus escritos ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o texto acabaria por ser publicado na Revista do Instituto, servindo à época para divulgação de algumas facetas da vida rio-grandense. As apreciações de Enrico (ou Henrique Schutel) Ambauer sobre a cidade do Rio Grande refletiam a perspectiva de um morador que permaneceu largo tempo junto à comuna, prestando um testemunho in loco que traz em si o significado do registro histórico da urbe portuária numa época de amplas transformações como o foi à virada do século XIX para a seguinte centúria, conclui Alves.

Porto Velho do Rio Grande em julho de 1865. Acervo: Biblioteca Rio-Grandense.

terça-feira, 26 de junho de 2018

PRAÇA TAMANDARÉ: A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DE UM ESPAÇO PÚBLICO II


A área ocupada pela Praça Tamandaré era parcialmente alagada deixando registro de mortes como foi relatado no jornal Diário do Rio Grande de 23 de julho de 1859, quando um soldado foi encontrado morto em seu interior. Em 1874, outro homem, embriagado, foi encontrado sem vida numa das lagoas num período de fortes chuvas. 
          Um dos poços e o tanque para bebedouro dos animais foi construído em 1848. A Câmara, no ano de 1862, mandou cercar a praça “por marcos e duas ordens de correntes, para que os animais não embaracem os melhoramentos, que seriam: arborizar e fazer um tapete de relva em vez de areias”. Em 13 de janeiro de 1890 foi ordenada a retirada e venda do aramado da praça por estar em mau estado de conservação. No início da década de 1870 haviam cinco poços construídos com tijolos e cantaria e um bebedouro para animais para consumo dos populares. Em 1876 a Companhia Hidráulica comprou na Inglaterra o chafariz situado na proximidade da rua Gen. Neto com Silva Paes. Em 1878 foram fechados os poços por exigência do contrato feito com a Companhia Hidráulica.
Em abril de 1870 a presidência da Província ordenou a Diretoria da Fazenda para liberasse recursos para o aterramento da praça. O projeto de melhoramentos de 1876 propunha fazer uma canalização que concentrasse toda a água acumulada na praça num grande lago central cercado por árvores. Porém, as dificuldades de percorrer a praça no período de chuva, o que a tornava intransitável, mantinha a situação sem solução ainda no ano de 1878 apesar dos debates buscando soluções prosseguirem. Porém, conforme Antenor Monteiro em outubro de 1887 a Câmara “por intermédio da comissão que para isso fora nomeada, contratou o Dr. Duprat, diretor da Companhia Estrada de Ferro, para o transporte diário de 135 wagons (vagões) de areia para aterro da praça a razão de 112$500. Nesse mesmo ano, sob projeto de engenheiro da Câmara, foi iniciado o plano geral do embelezamento da praça. Em 1890 foram despejados 175 wagons de areia”.
Um escritor rio-grandino do século XIX, Carlos Fontana, afirmou que no ano de 1868, a cidade do Rio Grande estava constituída pelas seguintes praças: Sete de Setembro (antiga Praça do Poço), São Pedro (atual Júlio de Castilhos), Caridade Nova (atual Barão de São José do Norte), Municipal (antes General Telles e atual Xavier Ferreira) e Tamandaré (antiga Praça dos Quartéis e Geribanda). A praça Municipal era destacada por Fontana como uma “vasta praça e único passeio recreativo da cidade, é comumente denominada de Boulevard Rio-Grandense”, porém, “lamenta-se que não mereça mais atenção da edilidade”. Já na praça Tamandaré, existiam seis fontes públicas para coleta de água e lavagem de roupa, erguendo-se no centro desta, “uma modesta cruz ali colocada em 1842 pela missão jesuítica a estas plagas”. A praça já ostentava a denominação atual de Tamandaré, mas mantinha a sua função ligada às fontes públicas ali existentes sem a perspectiva imediata de tornar-se uma praça voltada ao “passeio recreativo da população”.
Área almejada e que se valorizou com o desenvolvimento da cidade, a praça Tamandaré começou a receber uma atenção mais destacada a partir de 1895, através de projetos de melhoramento que se estendem até o ano seguinte. O projeto previu a construção de chalé, plantação de mudas de árvores, ajardinamento, construção de lagos e ilhotas. Em 1896, nestes lagos faltava somente a colocação do revestimento de fundo composto por barro oriundo de Pelotas. Portanto os lagos construídos remontam a pelo menos 1896.
Na virada para o século XX a praça já tem um destaque estadual pelo espaço de lazer que passa a proporcionar à população e pela apresentação de bandas musicais como é o caso da Rossini. Na primeira década do século XX, foi instalado o chafariz atualmente situado em frente ao prédio do Hospital Beneficência Portuguesa, tendo sido retirado da praça Xavier Ferreira. Ainda no início do século passado o papel de fornecer água potável foi mantido e a figura dos cata-ventos eram presentes na praça talvez com o objetivo de remoção do excesso de água dos lagos em períodos chuvosos. Os primórdios desta instalação pode ser o final do século XIX, mas talvez remonte até meados do século XVIII, numa prática açoriana, pois um mapa de aproximadamente 1750 apresenta o desenho de um cata-vento em local próximo à atual praça Tamandaré.
Devido à grande dimensão de 44.124 metros quadrados, 316 metros de comprimento por 140 metros de largura, as melhorias e manutenção da praça exigiam recursos razoáveis da municipalidade. Os gastos com aterramento, calçamento, contenção dos alagamentos com as chuvas, edificações, construção do coreto etc, exigiram esforço, mas deixaram um legado a ser mantido. A manutenção deste antigo espaço de cômoros e alagadiços, conquistado à natureza pela atuação humana voltada a edificação de um espaço de sociabilidade pública, precisa ser mantido e melhorado continuamente pela Prefeitura Municipal, pois ele foi um espaço utilizado e mantido com livre trânsito pela população a partir dos primórdios do povoamento. Desde a lavagem de roupa por escravas até os passeios de famílias nos finais de semana, aqui se consolidou um espaço público da população rio-grandina.
Dada a sua importância a praça precisa ser conhecida em sua dimensão histórica e ecológica pela comunidade que circula diariamente por este espaço de preservação natural. E esta é uma contribuição que pode ser dada individual e coletivamente por atores sociais que hoje atuam em diferentes campos do conhecimento: sejam literatos, poetas, historiadores, geógrafos, oceanólogos, ecólogos, botânicos... A praça pode ser um espaço para a educação e o conhecimento ambiental a ser socializado com a população: explicando a formação vegetal, os animais, aves e peixes que se desenvolveram neste “ecossistema”; a formação geológica da Restinga do Rio Grande onde a cidade está assentada e o lençol freático; historiar, como se fez neste breve ensaio, a historicidade deste espaço construído pela ação humana; buscar uma leitura estética a partir das crônicas e poesias; entre outras contribuições que certamente surgiriam.
Outra dimensão a ser enfatizada é o da arte pública com a estatuária e a arte em ferro que está assentada na praça. Da escultura portuguesa do monumento a Bento Gonçalves até arte em ferro francesa dos anjinhos, a presença artística também possibilita desvelar historicidades e representações associadas às motivações de  sua colocação neste espaço público.

Cartão-postal da Praça Tamandaré datado de 1905. 

Cartão-postal da Praça Tamandaré (cata-vento na esquina da Rua Luiz Loréa) datado de 1907. Acervo: Museu da Cidade do Rio Grande.