Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

sexta-feira, 2 de março de 2018

SAMBAQUIS, CERRITOS E O TUBARÃO

Um artefato que chama muito a atenção pública é o zoólito de tubarão. Para os moradores da Planície Costeira, como é o caso de Rio Grande, Pelotas, Capão do Leão etc, o tubarão é uma das representações oceânicas mais fortes. A escultura em pedra também é um contundente recurso “didático” para falarmos de populações indígenas milenares que também tiveram suas vidas, assim como nós, inseridas na zona costeira e seus ambientes afins.
         Os tubarões freqüentavam o litoral do Rio Grande do Sul e faziam parte do cotidiano de populações que passaram a ocupar as praias do litoral Norte e Médio nos últimos 4 mil anos. O zoólito em foco é uma peça esculpida e polida em rocha que foi produzida por populações que edificaram os Sambaquis (acumulo de restos de alimentação e de enterramentos que se estenderam por milênios podendo apresentar entre 1 a 30 metros de altura). Porém, foi encontrado centenas de quilômetros de seu local de origem em sítio característico da Tradição Vieira. Como o zoólito viajou tanto?
O tubarão, além de sua beleza estética e simbólica, é um artefato motivador para conhecer as populações que estiveram relacionadas à sua elaboração e circulação. Para tanto, serão reproduzidos alguns trechos do artigo de Manuel Gonzalez e Rafael Guedes Milheira “Reinterpretando o zoomorfo de tubarão da coleção Carla Rosane Duarte Costa” (Cadernos do LEPAARQ – Textos de Antropologia, Arqueologia e Patrimônio. UFPEL, 2005).
O tema me faz lembrar de conversas mantidas na Furg com o saudoso prof. Pedro Mentz Ribeiro. Naquele período ele participava das tratativas de tornar o “tubarão” um bem cultural de acesso público e objeto de pesquisas o que se tornou uma realidade.
No artigo de Gonzalez e Milheira, os autores historiam o achado e buscam interpretações para a circulação desta peça e contatos mantidos por culturas indígenas muito tempo antes da descoberta do Brasil.

“O zoólito de tubarão do presente estudo faz parte da coleção lítica “Carla Rosane Duarte Costa” que recebeu número de catálogo 008. A coleção se encontra sob a salvaguarda do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas (LEPAARQ – UFPel), sendo constituída por dois zoólitos (um tubarão e uma ave), uma mó, dois bastonetes polidos, uma lâmina de machado polida e duas bolas de boleadeira mamilar. Esses artefatos foram encontrados pelo pai da Sra. Carla Rosane Duarte Costa há aproximadamente 25 anos (atualmente, 38 anos), no município do Capão do Leão - RS, quando da retirada de areia, por sua empresa de extração, com uma retro-escavadeira. Na ocasião, as peças da coleção foram retiradas de uma única vez, estando provavelmente depositadas em contexto. Essa coleção somente veio ao conhecimento público quando houve o processo de formação do LEPAARQ – UFPel. Nesse momento, os arqueólogos Pedro Augusto Mentz Ribeiro (FURG) e Fábio Vergara Cerqueira (UFPEL), entraram em contato com a Sra. Carla Costa no sentido de conhecer as peças e conseqüentemente solicitar a doação das mesmas, o que foi realizado imediatamente.
O zoólito tornou-se bastante conhecido dentro e fora do meio acadêmico em função de sua monumentalidade. Tem sido foco de estudo não só de arqueólogos em função de sua origem cultural, mas também de artistas plásticos interessados no estilo formal da peça, pois a mesma apresenta aspectos de simetria, volumetria e representação naturalista que impressionam pela sua perfeição técnica.
Essa peça também tem sido alvo de estudo de biólogos, já que incita a discussões não só com relação à questão homem/meio, mas também a questões sobre a ocorrência da espécie numa região específica. O artefato teve por matéria-prima o serpentinito que é uma rocha vulcânica, tem um comprimento de 57,2 cm, largura de 22,3 cm, altura de 13,5 cm e um peso de 11.950 g. A peça é tão detalhada que foi possível identificar a espécie do tubarão: família Lamnidae, gênero Carcharodon carcharias (tubarão branco).
O local onde foi encontrada fica no município de Capão do Leão o qual se situa numa área de fronteira geográfica, em que, por um lado, tem-se a borda oriental da Serra do Sudeste e, por outro lado, a porção meridional da Laguna dos Patos. O local onde foram coletadas as peças da coleção se localiza próximo à Lagoa do Fragata, a qual deságua no canal São Gonçalo. Esse recurso hídrico é considerado como de extrema importância no sistema lagunar, pois liga a referida Laguna à lagoa Mirim, no território uruguaio. A porção meridional da Laguna dos Patos é tratada pela literatura arqueológica como uma área de fronteiras culturais, em que se articulam e interagem populações portadoras de grupos ceramistas construtores de Cerritos (Tradição Vieira) com grupos referentes às culturas Guarani (Tradição Guarani). Além disso, os sítios arqueológicos das culturas sambaquieiras mais próximos se localizam na restinga da Laguna dos Patos (litoral sul do Estado), há aproximadamente 120 Km do município do Capão do Leão. Nesse sentido, a coleção de zoólitos e boleadeiras permite pensar, numa perspectiva empiricista, na possibilidade de contatos interculturais, pois se pensarmos em materiais diagnósticos, as esculturas são consideradas pela literatura arqueológica, como pertencente às sociedades sambaquieiras, enquanto que, as bolas de boleadeiras mamilares, por sua vez, são diagnósticos dos grupos construtores de Cerritos. Ademais, a matéria-prima do zoólito que representa o tubarão (serpentinito), segundo Pedro Ribeiro somente seria encontrada a aproximadamente 150 Km, em direção ao interior da área onde foi encontrada a coleção, sendo necessário um grande deslocamento para obtenção desse recurso.
As trocas de materiais indicam, num primeiro momento, a possibilidade de manutenção de relações interculturais numa perspectiva de interação social. As sociedades Sambaquieiras e os construtores de Cerritos devem ser pensados como grupos que se articulam em um espaço determinado mantido por um período de longa duração. Para pensar nessa manutenção territorial os autores destacam o conceito de ‘circunscrição territorial’ que se refere aos espaços habitáveis e de acesso e controle aos recursos naturais. Considerando que os grupos caçadores-coletores construtores dos Cerritos mantinham um espaço territorial bem delimitado, percebe-se que, para a obtenção dessa matéria prima, a sociedade sambaquieira teria que ter entrado em contato com os construtores de Cerritos. Se articularmos essas três questões: disponibilidade de matéria-prima, territorialidade e composição da coleção, podemos pensar em questões como trocas de materiais entre grupos construtores de Cerritos com grupos sambaquieiros que permeiam tanto a esfera das relações econômicas como simbólicas.

A interação entre grupos se adequa ao modelo de manutenção de fronteiras que define a laguna dos Patos como uma área de fronteira entre os grupos da Tradição Vieira e Tradição Guarani. Nesse caso, a ocorrência dessa coleção permite pensar nas populações sambaquieiras como um terceiro elemento a ser inserido nesses fenômenos de fronteiras. As interações de manutenção de fronteiras poderiam explicar a obtenção de matéria prima para a confecção do zoólito. Na medida em que relações sociais se estabelecem, pode-se esperar que não só ocorram relações na esfera imaterial, mas que haja circulação de materiais que contribuam para a concretização das relações e facilitem a subsistência dos grupos. Nesse sentido, a própria matéria prima pode ter sido utilizada como um elemento de troca e que deve ter fortalecido a interação e manutenção das relações, assim como outros elementos materiais e imateriais a que não temos acesso”. 

Cartão-postal. Prefeitura Municipal de Pelotas.

Três ângulos do zoólito. Universidade Federal de Pelotas. 

A SUÁSTICA E A BOMBA DE GASOLINA

        O cartão-postal do editor Pitombo Lima aqui reproduzido mostra uma cena urbana da cidade do Rio Grande por volta de 1930. É a esquina das ruas 24 de Maio com Senador Correa e a movimentação dos trabalhadores da Fábrica Nova é intensa. A bomba de gasolina com a “suástica nazista” salta aos olhos! É evidente que até a gasolina consumida na cidade vinha da Alemanha nazista! Será correto? Não, são duas afirmações erradas!
        A pesquisa histórica possibilita explicar esta imagem congelada no tempo e repleta de significados. A suástica se tornou um dos símbolos mais fortes e de reação imediata nas pessoas pela associação ao nazismo. Porém, o símbolo recua milênios no passado e foi usado por várias civilizações orientais e ocidentais, como povos indígenas norte-americanos, hindus, budistas, gregos, celtas, povos nórdicos, eslavos etc. Até a coca-cola usou o símbolo em chaveiros e “relógios da sorte” em 1925 assim como outras empresas que desde o século 19 já o utilizavam.    
     O Partido Nazista passou a utilizar a suástica (“hakenkreuz”, cruz em gancho) no verão de 1920, mas, Hitler somente chegou ao poder em 1933 e a suástica se tornou símbolo oficial em 1935, quando podemos falar em “Alemanha Nazista”, portanto, são eventos posteriores a este cartão-postal e a presença da bomba de gasolina na cidade! Na Alemanha da década de 1920 o Código Penal alemão proibia o uso da suástica por ser um símbolo do Partido Nazista.
       A bomba de gasolina com a suástica se fazia presente em várias cidades brasileiras e pertencia a empresa petroleira “Anglo-Mexican Petroleum Company Limited” que hoje conhecemos por “Shell” (a empresa deu seus primeiros passos em 1897, mas, passou a se chamar "Royal Dutch Shell Grupo" em 1907). A “Shell Brasil” chega ao país em 1913 ostentando o nome “Anglo-Mexican” (local de procedência dos produtos que era o petróleo “El Aguila” no México). As primeiras bombas de gasolina são instaladas, nas ruas e garagens, a partir de 1922. Propagandas no jornal O Estado de São Paulo da década de 1920 divulgam a gasolina “Energina” e a querosene “Aurora” da marca “svastica” (lançada em abril de 1920). O significado da palavra suástica é variado, mas, remete, na maioria das representações, a “cruz da boa sorte” e a proteção espiritual. Já os nazistas o utilizaram como “supremacia da raça ariana”. A inclinação da cruz também tem variações culturais com significados diversos. A suástica também denominada de “cruz gamada” indica um movimento de rotação em torno do centro, sendo um símbolo de ação, de ciclo e de eterna regeneração.
     Somente em 1933 é que, frente ao contexto internacional do avanço nazista, a Shell abandonou o uso da suástica em seus produtos da “Anglo-Mexican” distribuídos no Brasil e padronizou a marca com a famosa “concha” (mexilhão) que foi criada em 1897 e que em 1907 passou a ser a “concha vieira” que é utilizada até o presente.
         Portanto, a gasolina e a querosene consumida na cidade do Rio Grande neste período não era de origem alemã, mas, sim da “Shell” ou da concorrente americana “Standard Motor Oil”. A partir de 1937, com a inauguração da Refinaria Ipiranga, a cidade se tornaria um pólo nacional na produção de derivados do petróleo e sua marca passou a concorrer com as duas multinacionais.

Cartão-Postal editado por volta de 1930. Esquina das ruas 24 de Maio com Senador Corrêa. 

O Estado de São Paulo, abril de 1920.

 

O Estado de São Paulo, 10 de julho de 1930. 

O Estado de São Paulo, 10 de julho de 1930.


O Estado de São Paulo, 31 de dezembro de 1933.



terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O CASSINO EM 1944

         Fortunato Pimentel publicou em 1944 o livro “Aspectos do Município do Rio Grande”. Dedicou 548 páginas para fazer um balanço da geografia, história, economia, administração, arquitetura, cultura etc da cidade mais antiga do Rio Grande do Sul.
Um dos temas desenvolvidos foi o Balneário Cassino que foi contemplado com várias fotografias das edificações da Av. Rio Grande e dos veranistas à beira mar. Algumas destas imagens são reproduzidas evidenciando que o Cassino não ficou totalmente abandonado durante a Segunda Guerra Mundial. Entre a declaração de guerra ao Eixo em agosto de 1942 até o final da guerra em 1945, o litoral brasileiro ficou sob vigilância, em terra, pelo Exército Brasileiro. O antigo Hotel Cassino foi ocupado como alojamento das tropas.  

As fotografias evidenciam uma movimentação típica de veraneio em período de carnaval. Podemos observar o tipo de protetor para o sol/vento; as roupas de banho; os carros e ônibus estacionados na praia; o desfile de blocos carnavalescos; o trem trazendo os visitantes etc. 





FORTE DE SÃO MIGUEL

As fortificações militares marcaram a formação histórica do atual município do Rio Grande. A posição estratégica da Barra do Rio Grande levou Portugal a implementar o processo de ocupação militar em fevereiro de 1737. O contexto era de guerra contra os espanhóis no Rio da Prata pela posse da Colônia do Sacramento (no atual Uruguai). Tendo início com a construção do Forte Jesus-Maria-José - projeto do Brigadeiro José da Silva Paes -, Rio Grande foi o palco da construção de várias baterias e fortificações até o ano de 1777 quando ocorre a reconquista do Rio Grande do Sul pelos portugueses frente a ocupação espanhola. Estes testemunho de um tempo de guerra entre lusitanos e espanhóis, apesar de permanecer vivo em mapas e documentos do século XVIII, desapareceu do conjunto arquitetônico local: o material perecível (barro, madeira e vegetação) não permitiu que estes testemunhos do passado chegassem ao tempo presente.
Uma maneira indireta de se aproximar do formato e funcionalidade das fortificações como o Forte Jesus-Maria-José e do Forte da Barra (dois entre cerca de dez fortificações com formatos diferenciados), é visitar o Forte  de São Miguel no Chuy.  
Os conflitos militares foram devastadores para a fortificação localizada no Uruguai (a poucos quilômetros da linha de fronteira com o Brasil) que ficou abandonada desde o final da guerra de independência do Uruguai (1825-1828) até a restauração ocorrida a partir de 1928. A construção em pedra possibilitou que parte das estruturas se mantivessem visíveis o que não ocorreu com o barro que foi a matéria-prima de construção em Rio Grande (devido a ausência de rochas na região).
O Fuerte de San Miguel está localizado a 6 quilômetros ao sul da Lagoa Mirim no Cerro de San Miguel, Chuy, no Departamento de Rocha. Um sistema de defesa básico (terra e palha) de campanha foi construído pelos espanhóis em 1734 e durou pouco tempo. Com a ocupação da Barra do Rio Grande em fevereiro de 1737, o engenheiro militar e fundador do Rio Grande brigadeiro José da Silva Paes elaborou uma planta para construção de uma fortificação em forma de polígono retangular em alvenaria de pedra e com dois baluartes nos lados menores.  Em 1740 a estrutura já apresentava quatro baluartes pentagonais e edificações internas erguidas em alvenaria e pedra. O fosso ainda não fora construído. Com a ocupação espanhola de 1763, a fortificação recebe novas obras (engenheiro Bernardo Lecocq). A construção do fosso é prevista desde 1772 e a forte assume o formato hoje conhecido em 1797.
 A documentação registra o ataque/morte sofrido por soldados que faziam a vigilância noturna da área externa: pumas e jaguares eram os responsáveis. O temor por rondas noturnas deve ter feito parte do imaginário destes soldados lançados na solidão do pampa uruguaio-rio-grandense.
Abandonado desde a década de 1820, na década de 1920 é criada uma comissão composta por militares e pelo historiador Horacio Arredondo que defenderam a reconstrução do “Fuerte” com base nas plantas originais e com técnicas de cantaria e construção utilizadas no século XVIII. Foram reconstruídas/restauradas a Casa do Comando, a casa da Palamenta, a Capela, a Cozinha e os quartéis da tropa além de toda a estrutura dos baluartes, fosso, cemitério etc. O forte foi declarado Monumento Nacional em 1937 e é administrado pelo Estado Maior do Exército da República Oriental do Uruguay. Um Museu de História Militar permite uma visualização ao turista do que seria o cotidiano de uma fortificação militar no século XVIII.

Se o material disponível fossem rochas e “se” tivesse ocorrido a manutenção destas estruturas (além de especulação imobiliária etc etc), os cerca de dez fortes/baterias que foram edificados em Rio Grande (parte sul da Barra) poderiam ser um consistente fator de atração “turística ímpar” a emoldurar o cenário paisagístico do Estuário da Lagoa dos Patos em seu encontro com o Oceano Atlântico. 

: Forte de São José da Barra do Rio Grande (eng. Militar Alexandre Montanha-1777, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro).

Forte de São Miguel.

Forte de São Miguel. 


AS TRÊS MARIAS E ÓRION

Uma área da esfera celeste constituída por estrelas que compõem alguma imagem ou formação delimitável é uma constelação. Podemos também definir constelações como agrupamentos aparentes de estrelas os quais os astrônomos da antiguidade imaginaram formar figuras de pessoas, animais ou objetos. A União Astronômica Internacional reconhece 88 constelações entre as quais a de Órion onde estão localizadas as Três Marias. Órion, na mitologia grega, era um gigante filho de Poseidon que foi morto “inconscientemente” por sua amiga Artêmis (a deusa da caça) numa artimanha de Apolo (irmão de Artêmis). Para perpetuar a memória de seu companheiro de caçadas Artêmis colocou Órion entre as Três Marias e próximo ao seu fiel cão Sirius (na constelação de Cão Maior – Sirius é a estrela mais brilhante do céu).
A partir de meados de dezembro, a constelação de Órion surge no horizonte e é facilmente identificável devido a três estrelas formarem uma linha inclinada. Localizando as Três Marias fica fácil imaginar um trapézio e identificar as quatro estrelas principais que compõem o conjunto visível: Betelgeuse, Bellatrix, Saiph e Rigel. Rigel e Betelgeuse são as mais brilhantes da constelação.
A constelação de Órion é um dos sinais da mudança de estação: seu surgimento no horizonte é uma marca da chegada do verão no Hemisfério Sul. O poeta grego Hesíodo (c.753-c.680 a.C.) escreveu que quando Órion estivesse no meio do céu e a estrela Arcturus estivesse no horizonte ao amanhecer, havia chegado à hora da colheita.
Em épocas anteriores ao surgimento das grandes cidades, da luz elétrica e do relativo esquecimento do céu noturno, os povos do Oriente ou do Ocidente tinham outra perspectiva dos movimentos do Sol, da Lua, dos Planetas ou das estrelas: a observação das constelações era essencial para a previsão das estações do ano que estavam ligadas ao plantio e a colheita. O ciclo da natureza e o ciclo da natureza humana estavam muito mais interligados a ponto de se imaginar personagens e imagens criativas na disposição dos objetos celestes. Dragões chineses, personagens da mitologia greco-romana ou mitos dos índios amazônicos desfilavam na misteriosa abóboda celeste que estes povos diferenciados tentavam “humanizar mitologicamente” disciplinando o desconhecido e projetando personagens humanos.
O céu noturno era uma grande fonte de inspiração e de leituras de mundo. Hoje, apesar de ser uma imagem cativante de perpetuação da memória, é muito difícil imaginar o gigante Órion com seu cinturão, uma pele de leão e uma espada!
As Três Marias na Astronomia Ocidental, utiliza, para denominá-las, as palavras árabes Mintaka, Alnilam e Alnitak (que é uma estrela dupla).  A versão cristianizada das Três Marias é de que foram três mulheres (Maria de Cleofas, Maria Madalena e Salomé) que foram até o túmulo de Jesus junto com sua mãe Maria. Ficaram eternizadas na abóboda celeste!
A Constelação de Órion vai continuar a ser fator de reflexão e poderá contribuir para a ampliação do conhecimento sobre os fenômenos cósmicos estelares. Os olhares já se voltam para Betelgeuse que é uma estrela supergigante vermelha com diâmetro que varia entre 500 a 900 vezes o do Sol. Nos próximos mil anos esta estrela encontrará o seu ocaso!
Betelgeuse tem chamado a atenção dos astrônomos e astrofísicos e tem sido pesquisada pelo Observatório Austral Europeu (ESO) que tem obtido imagens de chamas emitidas pela estrela e da nebulosa que está se formando em seu entorno (mais de 60 bilhões de quilômetros de extensão). A estrela está na fase final de sua vida e expele suas camadas exteriores para o espaço. Parte do material que compõe o planeta Terra (silicato e alumina) é oriundo de uma estrela de grande massa que colapsou a mais de cinco bilhões de anos num cenário em que olhar Betelgeuse morrer será refletir sobre os novos mundos que surgirão com seu ocaso.
Betelgeuse está em média há 427 anos luz da Terra (cerca de quatro quatrilhões de quilômetros) quando ela se tornar uma Supernova (explosões quando seu brilho pode se intensificar em um bilhão de vezes até se tornar uma estrela de Nêutron) não deverá representar um perigo para a vida em nosso Planeta. Durante a noite, durante alguns meses, a estrela poderá apresentar um brilho de lua cheia ou lua crescente. Quando isto irá ocorrer é fator de debate e incertezas entre os astrônomos. O fato é que desde a Antiguidade a constelação de Órion está em pauta e um rico imaginário foi construído para explicar as Três Marias e outras estrelas que compõem esta constelação.


Três Marias pintadas por Frei Angélico em 1440. Museu de San Marco, Florença.

nebulosa em Órion (Ljubinko Jovanovic). 

Três Marias com seta apontando para Betelgeuse (Hubble European Space Agency).

Órion em obra de Johann Bayer (1661). 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A REVOLUÇÃO NA ÓTICA DE UM CRONISTA

A Revolução de 1930 assinalou o início de um processo de ruptura política e econômica que conduziu ao afastamento da ordem do mando a certas elites dominantes da República Velha, levando a falência da concepção de um Estado liberal e a edificação de posturas autoritárias que conduziram a instauração da ditadura do Estado Novo em 1937.
Alfredo Ferreira Rodrigues, um dos maiores intelectuais rio-grandinos, assistiu aos movimentos de mobilização dos efetivos que partiram para à frente de combate no Paraná e São Paulo. Pela ótica afetiva elaborou uma crônica onde captou cenas de um cotidiano que se difundiu pelas cidades do Rio Grande do Sul naquele mês de outubro de 1930: o recrutamento, quase sempre voluntário, de jovens que partiam para garantir a vitória do movimento revolucionário e efetivar a posse de Getúlio Vargas na presidência do Brasil.
O movimento militar perdurou entre 3 de outubro até a deposição do então presidente Washington Luis no dia 24 do mesmo mês. A crônica registra um momento de exaltação patriótica dos que partiam de apreensão dos que ficaram a espera de notícias, assinalando um momento de integração de um ideal revolucionário de militares, camadas médias da população urbana e dissidentes das oligarquias, poucas vezes repetido ao longo da história do Brasil.

“Na segunda-feira 6 de outubro, assisti na Estação de Santa Maria, a passagem das forças de Porto Alegre, São Leopoldo e Caxias sob o comando do coronel João Alberto. Quando chegou o trem, era um agitar incessante de lenços vermelhos, só se viam braços erguidos empunhando carabinas no meio de uma algazarra estonteante de cantos patrióticos, de brados de alegria, de vivas à revolução e ao Rio Grande. Entusiasmo indescritível, regozijo nunca visto. Ninguém diria que toda essa mocidade marchava para a luta armada e talvez para a morte. A morte, que importava ela a esses moços, quando estava em jogo o respeito as tradições guerreiras e a própria honra do Rio Grande?
Foi um delírio a passagem do trem. A gare estava apinhada e toda a imensa mole do povo, homens e mulheres, moços e velhos, todos vibravam de entusiasmo. O trem partiu enfim! Ao longo se viam relampejando lenços vermelhos e ecoavam vivas e cânticos guerreiros. Espetáculo comovente que nunca se me apagará da memória! Recordei estão cena semelhante a que tinha assistido há 16 anos. Em agosto de 1914, nos primeiros dias da grande guerra saí do Rio Grande no trem em que embarcavam para a pátria, via Montevidéu, os reservistas franceses, altos funcionários da companhia que estava executando as obras da Barra. Despedi-me em Cacequi de alguns deles, meus amigos. Vi afastar-se o trem, longe, muito longe, agitando lenços, vibrando o céu imenso do canto imortal da Marselhesa. Pobres amigos! Nenhum deles voltou.
No Rio Grande houve tiroteio cerrado perto de 10 horas, devido a demora com que se fez o levante, dando tempo a que os oficiais partidários do governo se entrincheirassem no quartel. A luta só começou na madrugada de 4 de outubro. De Pelotas vieram à noite reforços do batalhão e um contingente de populares. O quartel do 9º Regimento (atual 6º GAC) foi atacado pelas quatro faces e as paredes e janelas esburacadas de balas falam eloqüentemente do vigor da peleja. No telhado da fábrica Poock, há 12 metros do quartel, se deitaram alguns dos voluntários, vindos de Pelotas, fazendo fogo protegidos pelo fio da cumeeira. Um dos atiradores, o estudante Alarico Alves Valença, para cortar o fornecimento de água aos sitiados, tratou de crivar de balas o reservatório de ferro. Tendo acertado alguns tiros na parte baixa do depósito, começou a água a jorrar pelos furos em borbotões. Entusiasmado, o moço atirador se pôs de pé no telhado, levantou bem alto a carabina dando um viva a Revolução! Certeira bala, despejada de perto, o prostrou logo sem vida. Outros voluntários da mesma força, o jovem Carlos Dias, debaixo de intensa fuzilaria conseguiu atravessar a rua e, agachando-se de encontro à parede do quartel, chegou ao portão de entrada. Encontrando-o aberto, num impulso incontido de entusiasmo, empunhou a carabina e investiu sozinho contra a trincheira de paralelepípedo levantada durante a noite. Uma descarga varou-o de balas!”

Cheguei ao Rio Grande na tarde de 7 e já encontrei, alistado como voluntário no 9º Regimento, um dos meus filhos que não quis esperar por mim, com injustificado receio de que eu me opusesse. No dia seguinte, outro mais moço fugiu-me de casa e apresentou-se ao quartel. Recusado, por já estar completo o efetivo, tanto pediu, dizendo não querer que o irmão fosse sozinho, que afinal foi aceito.
   No dia 12, a tarde, o batalhão embarcou fazendo antes uma marcha de 4 quilômetros pela cidade. Não posso descrever o que foi essa marcha, no meio de vivas e de cantos patrióticos acompanhada por uma enorme multidão, em que sobressaiam as mães, as irmãs e as esposas dos que partiam. Foi um delírio, uma ovação sem igual, uma luminosa apoteose. Não houve uma lágrima, sorriam os soldados como se fossem para uma festa. E o trem começou a arrastar-se lentamente no meio de vivas e de brados de entusiasmo. A minha mulher, a pobre mãe que ficava sem dois filhos, voltou para casa consolada e contente, por lhe terem dito que o nosso filho mais moço era o soldado maior, mais forte  e mais lindo do batalhão. E eu, já no fim da vida, de uma vida de 50 anos de trabalhos, sem os filhos que eram os meus companheiros e amigos de todos os dias, que eram a minha esperança e o meu ponto de apoio e que seriam talvez o meu amparo na hora da invalidez, voltei cheio de apreensões, entristecido como pai, mas, com o coração batendo de entusiasmo, orgulho e feliz como rio-grandense, por ver que os filhos não desmereciam de sua terra e de sua gente. Na véspera, ao dar-lhes os últimos conselhos, disse ao mais velho: -‘Quando houver combate, não te atires na frente, meu filho...’.
-‘Sim! Mas também não hei de recuar’!
         Ao outro, ainda um menino, ofereceram um lugar no Corpo de Saúde ou na Cruz Vermelha, que ele recusou indignado, dizendo: -‘Não quero cuidar de doentes, nem carregar feridos. Quero uma carabina para brigar na linha de frente’! Do Rio Grande, dois dias antes, saíram um batalhão de civis formado numa semana e que, por falta de armamento, ficou retido até o fim do mês em Santa Maria. Desse batalhão começaram a desertar praças para se incorporarem furtivamente a outros corpos que, mais felizes, iam para à frente de combate.
        Contando isto a um oficial do Exército que voltava de Marcelino Ramos, disse-me ele que esses desertores para à frente se contavam por algumas dezenas, tendo sido a maior parte deles recambiados de Santa Catarina.
         Abençoada terra do Rio Grande, como me orgulho de ter nascido em teu seio e como me sinto feliz por ter podido, na velhice, assistir ao renascimento de todas as energias, de todas as grandes virtudes da raça! Rio Grande, novembro de 1930.” Alfredo Ferreira Rodrigues.

Getúlio Vargas e Junta Governativa no Catete em outubro de 1930. CPDOC.


Gaúchos no Obelisco da Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro em outubro de 1930. CPDOC

Alfredo Ferreira Rodrigues 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

À BEIRA-MAR

       A prática dos banhos de mar no Brasil recua a alguns milênios antes do presente com as populações indígenas que habitavam o litoral brasileiro. Diga-se: antes da existência da unidade político-administrativa “Brasil” e dos “brasileiros...”. Banhos assistemáticos realizados por europeus chegados ao nosso litoral certamente ocorreram mesmo que não fosse uma prática generalizada. Sabemos que banho de mar, rio, arroio etc, ou água em si, não era propriamente o “costume radicado em tempos idos” entre os europeus. A medicina social, ao longo do século XIX, buscou reduzir as causas de muitos problemas de saúde que eram causados pela insalubridade: inclusive a falta de higiene corporal.
Banhos sistemáticos no Rio Grande do Sul podem ter sido trazidos, pela historiografia que abordou o tema, por comunidades alemãs radicadas no litoral norte e que já tinham esse hábito do banho de mar enquanto prática corriqueira dos estados de que eram oriundos e que constituíram a partir de 1871 a “Alemanha”.  Porém, o deslocar de algumas famílias em suas carroças até à beira mar não significava ter sido difundida uma lógica discursiva dos benefícios do banho de mar para a saúde e concomitantemente uma razão empresarial capaz de construir uma infra-estrutura balnear que buscava se espelhar nos centros balneares europeus (Biarritz, Dieppe etc) e do Uruguai (Pocitos).
Este início de um processo racional de formação de gerações de veranistas fundados na prática de banhos do mar se deu, inicialmente, no Balneário Vila Sequeira (Cassino) no ano de 1890. Ressalte-se: não é a primeira planificação dos banhos de mar em termos de Rio Grande do Sul, mas, de todo o Brasil! O famoso cartão-postal brasileiro/tropical que é Copacabana começa a ser desenhado tremulamente a partir de 1892... O Cassino já existia em uma prancheta desde 1885 com o planejamento de ruas, do trem ligando com Rio Grande, hotel, casas de veraneio, casas para aluguel (quadro), coleta de esgoto, restaurante a beira-mar (Chalet dos Dois Bicos), venda de produtos de banho importados da Europa, disciplinarização do banho de mar, infra-estrutura à beira mar  etc. A estrutura básica nasceu antes do processo ter início o que é uma raridade num país como o Brasil em que primeiro os passos vão sendo dados e depois se busca amenizar ou disciplinar os resultados e desequilíbrios. O litoral brasileiro é, infelizmente, um exemplo vigoroso de ocupações irregulares, destruição de dunas e vegetação, aterramento de mangues ou alterações profundas no ecossistema praial (sem excluir o Cassino destas práticas antiecológicas, em especial, a partir do final da década de 1950...).
Entre erros e acertos, o Cassino “deveria” ocupar um lugar especial na historiografia dos balneários brasileiros pelo seu pioneirismo e a busca de aplicar toda a tecnologia disponível no final do século XIX para criar um “espírito de veraneio à beira mar”. Este cotidiano do contato com as águas do Oceano Atlântico foi ritualizado a cada nova geração e como num túnel do tempo, a sociedade humana e a tecnologia foram se modificando – e muito- nestes últimos 128 anos. Foram guerras mundiais, telefone e meios de comunicação que encurtaram e até tornaram as distâncias uma fração simultânea de segundo: a informação sobre o evento é imediato e o excesso de informações chega a sufocar a razão! Foram as modificações das relações sociais que produziu novas expressões culturais que passaram, inclusive, pelas modificações do vestiário à beira-mar (inclusive chegando ao quase desaparecimento do vestuário...).
        Precisamos não esquecer que foi no extremo sul do Brasil, num balneário de inspiração européia e uruguaia, no Balneário Cassino, que começaram a ser gestadas as “sociabilidades praiais” envoltas pela justificativa dos banhos de mar medicinal (justificar a redução das roupas e a exposição dos corpos...). A fronteira entre a areia, as águas e horizonte, ao longo das décadas, foi sendo preenchido por personagens e tecnologias de várias épocas: roupas pesadas ou leves para o banho; vestidos da “bellé époque” ou saídas de banho transparente contemporâneas; culinária francesa nos primórdios ou churrasco com cerveja à beira mar nas práticas do último meio século.

O balneário Cassino está repleto de histórias, de gerações que convivem e enxergam diferentes imagens na areia e na água. De olhares nativos críticos  e de turistas despojados, estes últimos, passageiros de uma viagem multifacetada que busca eternizar lugares para guardar lembranças vívidas e prazerosas frente à inexorável transitoriedade das experiências civilizatórias.       
Ilustrações: cartões-postais do Estúdio Fontana nos primórdios do século XX.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

OS TRAJES DE BANHO DE PRAIA


Desde o surgimento do balneário Cassino em 1890, os anúncios de trajes de banho se fazem presente em sintonia com a moda das mais famosas praias europeias. Inicialmente, os trajes buscavam garantir o banho de mar medicinal e “esconder ao máximo o corpo dos banhistas”. A estética do corpo deveria ser subordinada a utilização de roupas que apenas permitissem o exercício da imaginação dos olhares, mas sem a exposição da epiderme e da morfologia. O banho de mar era feito com uma calça até os tornozelos (calção bufante) e uma túnica comprida que cobria todo o corpo. A nadadora australiana Annette Kellerman foi presa nos Estados Unidos em 1907 por usar um maiô de uma peça que ficava colado ao corpo. 
Na década de 1920, o comportamento feminino passa a apresentar novas facetas com o movimento feminista, a busca pelo sufrágio universal e o questionamento do padrão de vestir do Belle Époque e do paradigma “rainha do lar”. O cabelo curto, a redução do tecido usado para os vestidos levou a diminuição do seu peso e volume, surgem influências de vestir do orientalismo árabe e se consagra o ícone da moda “Chanel”, com uma forte dose de elegância e às vezes de mascunilinização no vestuário. Na praia surgem os macaquinhos de malha e as sapatilhas e meias compridas para uso na beira-mar.
A partir da década de 1930 os trajes se encurtam mais um pouco, ficando mais colados e curtos nas pernas surgindo um saiote para cobrir os quadris. Já na década seguinte, durante a Segunda Guerra Mundial, o maiô se emancipa do saiote que restringia os olhares e expõe as curvas femininas.  Na década de 1950 preponderam as duas peças para o traje de banho, porém pouco cavadas como se observa em filmes desta década estrelados por Marylin Monroe. Porém, em 1946 surgiu o famoso biquíni, um apelido dado devido ao teste nuclear no Atol de Biquíni e numa analogia de que pouca roupa sobraria após uma explosão atômica. Este “monumento cultural brasileiro”, foi criado na França por Louis Réarde e como nenhuma atriz queria fazer a sua divulgação pública, Réarde contratou a stripper Micheline Bernardini para desfilar o novo modelo. Até para ela era uma exposição escandalosa demais (pois o umbigo ainda não poderia ser mostrado) e somente no início dos anos 1960 é que o biquíni se popularizou com atrizes como Ursula Andress (no filme 007 “O Satânico Dr. No”) e na extrovertida atriz Brigitte Bardot. As imagens de pin-ups que preenchiam o imaginário masculino desde a década de 1940, abandonam o maiô e passam a usar o biquíni!
É o biquíni que começa a comandar os anos 1960 (ainda tentando romper o pudor como no música americana “Biquíni de Bolinha Amerilinho” adaptado por Cely Campelo), década da contracultura e da libertação sexual com a difusão da pílula anticoncepcional e o “equilíbrio do terror entre procriação e desejo”. Mostrar o corpo vai se tornando obrigatório e não escandaloso! Dos trajes que ocupavam uma mala inteira em 1900 agora o traje de banho poderia se levado na palma da mão e isto se manteve nos anos 1970 quando surge o modelo tanga, com cintura baixa e amarrado dos lados.
Porém, se a França criou o biquíni, foi o Brasil que o saboreou culturalmente, pois americanas e européias até hoje são mais discretas na utilização das peças demasiadamente pequenas na cintura. Aceitam com naturalidade até o topless, mas os glúteos ainda são fator de pudor. No Brasil, no final dos anos 1970 formas de reduzir a peça continuam a ser pensadas diuturnamente e se enrola as laterais do biquíni para ficarem mais cavados, o famoso “enroladinho”. A imaginação das cariocas que desfilavam seus corpos ávidos de sol pelas praias do Rio de Janeiro e criavam a “matriz disciplinar de quanto mais bronzeado melhor” (com direito a bronzeadores como “raíto del sol” e produtos caseiros – óleo de amêndoas, urucum, margarina etc -, para produzir a cor tropical) difundiu a estética da torração epidérmica até nos confins do Brasil Meridional. Na década de 1980 surge o idolatrado traje do biquíni asa-delta, que buscava alongar a cintura e aumentar a dimensão dos glúteos, evidenciando a anatomia privilegiada tupiniquim. Ainda nos anos 80, a criatividade avançou para a criação do modelo fio dental que exige curvas arrojadas e pele firme. Esses modelos são basicamente banidos em praias da Europa.
No Brasil, o último passo previsto desta caminhada seria o abandono completo das roupas de banho e o nudismo. Porém, os anos 1990 fizeram, num caminho inverso, a peça ser ampliada e surge o sunquíni (sunga por baixo, top e camiseta por cima), num retorno as duas peças da década de 1950 e na ampliação da cobertura do corpo. As perspectivas da elegância e com a preocupação dos resultados de um excesso de miniaturização do biquíni passam a se ampliar e a praia passa a conviver com os mais diferentes estilos e tamanhos. A certeza é que ainda não chegou à hora da completa abolição dos trajes de banho, apesar da atual selvageria pós-moderna funk e a crise de valores ético e morais, que cobre da grande política até a beira-mar, seja ainda a moeda circulante na terra brasilis.
Atualmente, entre estéticas para todos os gostos a praia conta com tudo: morfologias diferenciadas sendo torradas pelo Astro Rei, cujos raios ultravioletas tem projetado Rio Grande como uma das capitais mundiais do câncer de pele. Na praia se encontra um espaço democrático num flash de olhos e avaliações subjetivas, num atrair e repulsar na informação dos neurônios. A nudez total ainda chamaria a atenção, mas os outros limites de tamanho das indumentárias já foram superados num universo em que a sedução dos trajes muitas vezes está voltada ao explícito excessivo e de gosto duvidoso. Numa comparação com os primórdios dos banhos de mar, as vestimentas atuais são incomunicáveis com os padrões da Belle Époque dos anos 1900, quando o Balneário Cassino completava apenas 10 anos de idade.



Acima, ilustração com trajes de banho no século XIX.



Annette Kellerman com o primeiro maio em 1907. Foi presa no ano seguinte pois a peça foi proibida. 



Praia dos Estados Unidos em 1922.

Primeiro biquini (1946).

AS PRAIAS DE PORTUGAL



         Quando no ano de 1890 surge em Rio Grande à publicação Guia dos Banhistas buscando divulgar e orientar os veranistas do Balneário Cassino, outra publicação em língua portuguesa tivera anteriormente êxito editorial na Península Ibérica e também no Brasil: o livro de Ramalho Ortigão As Praias de Portugal: guia do banhista e do viajante (Porto: Livraria Universal, 1876). O autor fez um levantamento das principais praias portuguesas colaborando para a difusão do hábito do banho de mar e a de valorização de uma cultura voltada ao Oceano. Ele alterna informações científicas da época com uma linguagem literária bastante despojada e irreverente, muitas vezes irônica e picante do cotidiano lusitano.
Para Ramalho Ortigão, o mar foi o primeiro guia da humanidade, sendo que foi na Grécia e na Fenícia que as primeiras expedições marítimas iniciaram os domínios sobre as forças da natureza. “Amorável e austero, foi ele que primeiro embalou o berço do homem e que em seguida o acordou para os nobres trabalhos, sugerindo-lhe as primeiras noções do universo. O desenvolvimento dos estudos naturais tem progressivamente modificado a opinião inculta supersticiosa e aterrada de que o mar é o insondável abismo tenebroso e deserto. Guia dos homens, promotor das civilizações, revelador do universo, progenitor das ideias que determinaram o abraço fraterno da humanidade em todo o mundo, o mar é ainda o mais poderoso foco, o mais abundante manancial da vida”.
         Ressaltando os aspectos terapêuticos do banho de mar tão difundidos pela medicina do século 19, o autor enfatiza: “Tudo aquilo de que precisa o teu abatido organismo, a tua imaginação, o teu caráter, a tua alma, o mar possui para te dar. Ele tem o fosfato de cal para os teus ossos, o iodo para os teus tecidos, o bromureto para os teus nervos, o grande calor vital para o teu sangue descorado e arrefecido. Para as curiosidades do teu espírito ele tem as mais interessantes histórias, os mais engenhosos romances, os mais comoventes dramas, as mais prodigiosas legendas”.
         Buscando a identidade lusitana nas viagens marítimas dos séculos 15 e 16, quando os portugueses pioneiramente desenvolvem as técnicas para viagens oceânicas as quais seriam referência para outras nações, o autor cita a frase de Camões ‘A minha alma é só de Deus, E o meu corpo é do mar!’ ressaltando que “tal é o grito valoroso e sublime da alma de um povo que a Providencia destinou a ter no mar a sua historia, a sua inspiração artística, a melhor, a mais bela, a mais gloriosa parte da sua existência, finalmente, a sua segunda pátria”.
São descritos com maior ou menor brevidade as praias da Foz do Douro, Leça da Palmeira e Matosinhos, Pedrouços, Povoa de Varzim, A Granja, Cascaes, Vila do Conde, Espinho, A Ericeira, A Nazaret, Figueira da Foz, Setubal e as Praias Obscuras (denominação para praias de menor frequência).
Para Ramalho Ortigão, a Praia de Setubal é bastante freqüentada pelos banhistas da província do Alentejo e da Extremadura Espanhola. A exposição de Setubal, na foz do Sado, cercada de magníficos pomares e dos celebres vinhedos de Moscatel, que se estendem ao longo de graciosas colinas, é extremamente risonha e pitoresca. A população, quase toda empregada no comércio do sal, na exportação da laranja, no fabrico dos vinhos, é ativa e trabalhadora.
A Praia de Espinho é de todas as praias a mais estimada por aqueles que a freqüentam. Os banhistas de Espinho tomam-se todos por este sítio de uma espécie de exaltação patriótica, exclusiva e intransigente. Não admitem o paralelo da sua praia com qualquer outra, e consideram os que tomam banho noutras regiões do globo como adversários, quase como inimigos...
Sobre Cascaes: “se queres dar, leitor, o mais belo dos passeios permitidos ao habitante de Lisboa, faz o que eu ontem fiz. Levanta-te às 5 horas da manhã, num domingo, veste-te a luz do candieiro, porque em setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binóculo e vai à ponte dos vapores ao cais do Sodré. Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascaes por dez tostões”.
Vila do Conde é talvez a menos freqüentada pelos banhistas, o que não obsta a que seja uma das mais pitorescas e mais belas povoações marítimas de Portugal.
         A praia da Granja a meia hora do Porto, atraíra sucessivamente os banhistas e a fizeram o que ela é hoje: a mais graciosa, a mais fresca, a mais aceiada das estações de recreio em Portugal.
Pedrouços é a mansão oficial da vilagiatura burocrática de Lisboa. Chefes de secretaria, oficiais, amanuenses, tabeliães, guarda-livros, caixeiros de escritório, escrivães, retemperam anualmente em Pedrouços a sua pálida e sedentária fibra plumitiva. Por isso, Pedrouços, a uma légua de Lisboa, tem um pouco o aspecto de uma secretaria do Estado—ao ar livre.
O grande defeito de Leça de Palmeira é que a sua vida objetiva é quase exclusivamente mineral e vegetal. Entre tantas casas, tantos quintais, tão belas arvores, o animal desaparece, o cão esconde-se, o homem sepulta-se, a mulher some-se.
Na Figueira da Foz a convivência era tão pouca, que toda a gente comia salada de alho, francamente, sem receio de vir a falar com outrem que não fosse à família. “Na minha casa, o teor era este: de manhã, depois do banho, às oito horas, almoçava-se café com leite, pão com manteiga fresca, que vinha das terras de minha avó. Ao meio-dia jantava-se. Às oito horas e meia, quando os tambores e as cornetas do Castelo tocavam a recolher, comia-se peixe cosido, bifes, enormes quantidades de melão; procedia-se á operação de ir cada um para o seu quarto queimar os mosquitos; e todos se deitavam em seguida. Alta noite acordava-se por via de regra uma vez. No grande silêncio da terra ouvia-se o mar bramir e rebentar na costa com um eco solene e triste. Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava à cidade”.
Para finalizar esta breve seleção de visões do autor, o olhar crítico também recaiu na influência francesa na alimentação: “Nos grandes restaurantes de Lisboa, a preocupação francesa desnorteia os cozinheiros e leva-os a envenenar-nos com burundangas asquerosas, cujos efeitos gástricos levam muitas vezes a vítima a lamentar que, em vez de terem vendido a sua alma ao estrangeiro, os cozinheiros a não tivessem vendido ao diabo, para não manipularem para mais ninguém as suas mixórdias execrandas e traidoras. Na tasca da feira de Belém, a caldeirada de mexelhão e de ruivo, os camarões, as saladas de alface ou de pimentos, o linguado frito, constituem a lista do que Portugal pôde oferecer de mais perfeito na ordem dos simples e honestos acepipes nacionais”.

Ilustrações: Praias portuguesas em desenhos do livro de Ramalho Ortigão (1876).




quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

VISTAS AÉREAS DO LITORAL BRASILEIRO

         Praias do litoral vistas de cima se tornou uma especialidade da editora Foto Postal Colombo! Alfredo e Aldo Colombo eram os proprietários da empresa que se inovou e se especializou em fotografias aéreas de cidades brasileiras. Sobrevoaram Rio Grande em meados dos anos 1950 e fizeram imagens “espetaculares” do centro urbano. Ao sobrevoar as cidades eles lançavam panfletos que era uma alegria das crianças em pegá-los. O bilhete dizia: “Neste momento sua cidade é sobrevoada pela nossa aeronave prefixo PT-ASQ e fotografada para cartões-postais. Procure dentro de alguns dias, nas melhores casas do ramo, papelarias, livrarias e souvenirs, as fotos mais lindas para enviar aos seus amigos e parentes, divulgando as belezas de sua terra. Equipe Aérea da Foto Postal Colombo”.
         Verão é o período para venerar o Sol (embaixo do guarda Sol e coberto por bloqueador solar...)  e aproveitar as delícias da beira-mar. A linguagem da cidade do Rio Grande no verão se traduz na praia do Cassino! Isto se repete pelo litoral do Brasil onde os veranistas acorreram repetindo uma rememoração de culto ao Oceano que se repete a mais de cem anos (para mais ou para menos, dependendo da localidade – no Cassino são 118 anos).
Estas imagens instigam um olhar para os anos 1950: as praias de Copacabana, Ipanema, Leblon e Gonzaga (Santos) eram um chamado ao lúdico que traduzia o país tropical e o projetava no imaginário da população do hinterland brasileiro. Ao mesmo tempo enunciava ao turismo internacional um país com belezas naturais e uma morfologia praial atraente e até exótica. 
    
Ilustrações: cartões-postais Foto Postal Colombo - anos 1950.