Porto do Rio Grande em 1908

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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

PRIMAVERA EM TCHERNÓBIL - HQ

LEPAGE, Emmanuel (roteiro e arte). Primavera em Tchernóbil. Barueri: Novo Século Editora, 33 x 23cm, capa dura, couchet, p. 168, julho de 2020. 


Resenha da Novo Século Editora:

 "O mundo seguiu seu curso, mas muitas pessoas ficaram para trás. Descubra o que aconteceu com elas neste documentário em quadrinhos sobre tragédia e morte, pessoas e terra. E sobre o que resta depois de um desastre.

26 de abril de 1986.


O núcleo do reator da usina nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia, começa a derreter, desencadeando o maior desastre nuclear da História. Enquanto o mundo dormia, uma nuvem carregada de radiação viajou por milhares de quilômetros em todas as direções, contaminando cinco milhões de inocentes. À época, Emmanuel Lepage tinha apenas 19 anos.


Mais de 20 anos depois, em abril de 2008, um grupo de ativistas e artistas visita Tchernóbil a fim de documentar a vida dos sobreviventes da tragédia, que vivem nas terras contaminadas. Enviado para representar paisagens brutais de desastre e a loucura do homem, Emmanuel Lepage se surpreende com a inesperada beleza que encontra naquele inóspito lugar. “Primavera em Tchernóbil” é o resultado do que ele testemunhou.
“Tive a oportunidade, pela primeira vez, de fazer uma reportagem em desenhos. Eu não vou ser apenas uma testemunha neste mundo, vou me envolver! Vou ser ativo! Um militante!


Nesta profissão, trabalhando sozinho nas minhas pranchas, muitas vezes eu tenho a impressão de estar observando o mundo através de um vidro. De estar ‘à parte’. Desta vez, eu vou sentir o mundo na pele! É um risco, eu sei... Mas tão empolgante! Eu ia descobrir as terras proibidas por onde rondava a morte.” Emmanuel Lepage



 Os quadrinhos franceses continuam me surpreendendo! 

Tive a satisfação de conhecer Emmanuel Lepage na HQ Primavera em Tchernóbil. Apresentação gráfica e formato que são só elogios. Desenho e roteiro espetaculares! 



Os tons sépias vão se colorizando ao longo da história e se faz a inversão: do fantasmagórico e chuvoso do início ocorre uma explosão de cores das naturezas em seu final. 

O texto é um relato em primeira pessoa e pontuado por reflexões existenciais: o megaevento de Tchernóbil caminha junto com a busca de sentidos da trajetória humana, de desconstruções e construções. 



Lepage trabalha com a ambiguidade dos rostos da morte e da vida frente a um mal não visível a olho nu e que a natureza reciclou mas não anulou a letalidade. Mas onde está este mal se a paisagem se recria constantemente?

A máscara utilizada para o defesa contra o "mal invisível da radiação" faz lembrar da nossa situação atual em que o "mal invisível do vírus" nos envolve e traz a apreensão frente ao potencial de perigo.  

Numa passagem o roteirista reflete: "A beleza radiante do lugar? A expressão não seria inapropriada, inconveniente, indecente até, para falar de Tchernóbil? Beleza radiante? Mas... eu fui encarregado por uma associação de testemunhar a catástrofe... Beleza radiante? Achei que vinha roçar o perigo, a morte... e a vida se impõe sobre mim!

Publicado na França em 2012 e no Brasil em 2020, considero que estamos diante de um clássico das HQs.   

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