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| Cartão-postal da Swift por volta de 1920. Livraria Americana. Acervo: ebay.com |
A tecnologia de ponta e a divisão do trabalho presente num estabelecimento frigorífico constituiu um referencial prático do anseio da sociedade burguesa no controle da natureza a partir do domínio científico e tecnológico. No início do século XX, Rio Grande assistiu a esta demanda de capitais excedentes, como o frigorífico Swift e no estabelecimento da modernidade capitalista através de obras de engenharia como os molhes da barra e o Porto Novo.
A
Companhia Swift do Brasil S.A. foi fundada nos Estados Unidos, implantando seu
parque industrial em Rio Grande, junto ao Porto Novo, em 1917. O frigorífico
ocupava uma área de cerca de 27 hectares, constituída de vários prédios numa
especialização das atividades e dos diversos setores.
Podendo
abater até 1000 reses por dia e empregando 1500 funcionários, o frigorífico
tinha por meta congelar ou resfriar, assim como aproveitar os subprodutos do gado,
voltando-se ao mercado europeu e norte-americano. Entre os produtos exportados
estavam quartos de rês, miúdos de carne, carne enlatada, extrato de carne, óleo
e línguas enlatadas, couros salgados, sebo, azeite de mocotó, chifres, ossos
para cola, nervos, cascos, crina, adubos etc.
Num dos
amplos prédios construídos existiam salões de vestir para homens e mulheres com
lavatórios e banheiros com água fria e quente. Havia restaurante interno para
os empregados. Posto de atendimento médico e sala cirúrgica estavam disponíveis
para vítimas de acidentes de trabalho. A rigorosa higiene no estabelecimento e
o controle de qualidade sobre os produtos era garantida com um laboratório
dirigido por um químico, no qual se analisava diariamente amostras do gado.
No parque
industrial estavam disponíveis residências para os principais funcionários e
técnicos norte-americanos. A Companhia de Bondes da cidade manteve uma linha
que transportava os empregados até o frigorífico. Para escoamento da produção,
foi construído um cais próprio que agilizava o carregamento dos navios. Era uma
pequena cidade em funcionamento, com hospital, laboratório, restaurante e porto
particular, onde dezenas de milhares de pessoas dependiam, no interior ou fora
dos muros de sua urbanidade, da manutenção de suas atividades.
A lógica do capital
A facilidade
de escoamento via marítimo era o atrativo principal para a Swift estabelecer-se
em Rio Grande. A cidade afirma-se, neste período, como referência na parte sul
do Estado para a busca de empregos e perspectiva de sobrevivência frente ao
descompasso entre o crescimento populacional e a restrita geração de emprego
nos latifúndios pecuaristas. No conflito entre capital e trabalho, a lógica da
empresa e a racionalização assumida no gerenciamento administrativo estava
voltado ao lucro e à dinâmica do mercado externo.
Já no mês de
maio de 1919, mostrando que a classe operária estava longe do paraíso, durante
a grande greve dos trabalhadores que eclodiu no Brasil, funcionários da Swift paralisaram as atividades defendendo melhores
condições de trabalho. No equilíbrio entre a sobrevivência e o emprego,
entre a mão-de-obra e o lucro, estruturavam-se as lógicas burguesas e as
resistências dos trabalhadores num cenário social que insere Rio Grande nos
ideários revolucionários anarco-sindicalistas e socialistas e nas práticas
burguesas europeias do início deste século. Bem-vindos à modernidade!

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