Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

sábado, 14 de dezembro de 2019

TRAJETÓRIAS DE VIDA - Sr. J.M.P.S. da cidade do Porto


       Em 1816, foi lançado em Lisboa um folheto de 32 páginas chamado de As Regras Gerais do Sr. J.M.P.S. da cidade do Porto. O autor resolveu expressar suas indignações e angústias desenvolvidas ao longo de turbulenta trajetória de vida. A mensagem pessimista está expressa no frontispício da obra: Definição da amizade. Seu aumento no tempo da felicidade e diminuição total no da desgraça. Obra muito útil para a mocidade, que principia a entrar na ordem do mundo, onde lhe parece que tudo o que luz é ouro, quando é tudo falso, e só lisonjeiros mostrando-se amigos para lhe comerem o que tem; e depois de os verem pobres voltaram-lhe as costas; à maneira dos pardais, que se ajuntam em bandos a fazer muita festa ao Lavrador quando este traz o milho na eira; e logo que o recolhe na tulha desaparecem, e só vem um por um chamar-lhe vilão, esquecidos do bem recebido, que pagam com tal ingratidão insultante. 

        Não há uma precisão cronológica nos dados relatados pelo negociante português que buscou fazer fortuna no Brasil, na época colônia de Portugal, porém a passagem por Rio Grande deve situar-se entre 1790 e 1800. Na busca de relações comerciais rendosas, percorreu o Rio de Janeiro, Goiás e o sul do Brasil. No Rio de Janeiro o seu olhar não poupa crítica aos nativos cariocas, os quais “são inimigos do trabalho” e quando recebem alguma herança a perdem rapidamente ficando “como São Sebastião de calções”. J.M.P.S. montou um atacado no Rio de Janeiro, vendendo produtos manufaturados e comprando matéria-prima no Rio Grande do Sul, obtendo um razoável ganho nestas transações. Porém, a experiência de falsa amizade e os interesses interpessoais determinados pelo dinheiro, tornam amarga a narração e o enfoque etnocêntrico é constante nas observações sobre os brasileiros. 

O naufrágio 

       O navio em que J.M.P.S viajava, vindo do Rio de Janeiro, naufragou na barra do Rio Grande. Várias passageiros da sumaca morreram e somente sete foram resgatados com vida. Segundo sua narração, “eu tive o acordo de amarrar debaixo dos braços uma capoeira de galinha e quando a sumaca se fez em pedaços, fiquei sobre o mar, o qual me foi levando de banco em banco de areia; ora muito fundo ora ganhando pé, sustentei bastante tempo o meu juízo, até que o perdi quando já avistava a praia, em que andavam os bons moradores dali, homens e mulheres, com grandes bicheiros a salvar os que abordavam a mesma.” Os naufrágios eram frequentes na barra e a presença de moradores no salvamento fica registrada nesta ocorrência que deve recuar a duzentos anos atrás. A existência de bancos de areia também é comprovada pela documentação da época. 

        Continuando o relato do salvamento, “eu nada soube de mim, senão quando vim a meus sentidos, e me achei em uma boa cama e tratado com tal modo e amor como se faz em Portugal a um próprio filho. Desta boa e santa família soube que me viraram as pernas para cima, e que tinha botado pela boca muita água salgada e que me tinham despregado os dentes com uma colher, para me botarem por ela água de galinha e que para vir a meus sentidos levara algumas oito horas. Também soube dela que só morreram quatro dos meus companheiros”. O resmungão lusitano deixou de ter a sua vida abreviada nas águas revoltosas da barra graças ao socorro de uma família rio-grandina e a ação fulminante de uma reanimadora canja de galinha. Porém, a travessura da perigosa barra foi mais forte que a prestativa acolhida, e a descrição da Vila do Rio Grande não é nada enaltecedora. O autor remete a um poema as suas impressões.

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