Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

sábado, 14 de dezembro de 2019

TEMPOS DE GUERRA: AS FORTIFICAÇÕES

Detalhe do Forte Jesus-Maria-José. 


        No século XVIII, Rio Grande apresentava um cenário muito diferenciado dos dias de hoje. O surgimento da localidade e as motivações de ocupação da barra do Rio Grande de São Pedro estão relacionadas ao interesse de Portugal em ocupar militarmente este ponto estratégico. Tempos de guerra no Prata, nas contínuas lutas entre portugueses e espanhóis pelo controle da Colônia do Sacramento. Rio Grande surge dinamizada por este confronto sendo uma base de apoio logístico à manutenção das pretensões lusitanas em colonizar e controlar o comércio pelo Rio da Prata.
         A colonização é uma decorrência da ocupação militar e não o contrário. A prioridade é controlar uma fronteira móvel e indefinida que as duas potências ibéricas argumentam a posse. Os fortes surgem como fundamento da militarização e eles fazem parte de um plano detalhadamente orquestrado.
Dois fortes num horizonte de areia e água
         O sistema de defesa lusitano, implementado por Silva Paes a partir de 1737, era composto pelo Forte de São Miguel (Chuy), as guardas do Taim, Chuí, Albardão, Passo da Mangueira, do porto e do norte, e por dois fortes situados na atual área urbana do Rio Grande: o Forte de Jesus-Maria-José e Sant’Ana do Estreito.
         Estas duas fortificações deram origem a dois núcleos populacionais, que consolidaram uma ocupação civil do então Presídio do Rio Grande de São Pedro: a Povoação do Porto e a do Estreito.
         Junto ao forte Jesus-Maria-José surgiu entre 1737 e 1750, a denominada povoação do Porto, formada por pequeno número de habitações e cujo papel militar era restrito. Conforme o Mestre-de-campo André Ribeiro Coutinho, o Forte de Jesus-Maria-José era formado por “uma igreja de 92 palmos de comprido, incluindo cruzeiro e capela-mor e 40 palmos de largo; um corpo de guarda de 34 palmos; 4 quartéis pequenos para os soldados; um armazém para a courama de 105 palmos; uma ferraria, uma casa para o armeiro”.
         Na Povoação do Porto, segundo Maria Luiza Bertulini Queiróz, localizava-se a fiscalização da atividade comercial do Presídio, envolvendo o controle de entrada e saída de mercadorias e embarcações, a passagem de gado pelo canal e a arrecadação de impostos.
         A sede da Comandância Militar localizava-se na povoação do Estreito (concluída em janeiro de 1738) que concentrava 65% do efetivo militar – 31 oficiais e 414 soldados. Um maior número de habitações concentrou-se nas proximidades do Forte e da Igreja de Sant’Ana do Estreito. A fortificação localizava-se em ponto estratégico, estendendo-se entre a Lagoa dos Patos e o Saco da Mangueira, utilizando 44 peças de artilharia para assegurar o controle sobre o deslocamento pela península.
         A povoação do Estreito foi abandonada até o final da década de 1750, devido à deposição de areia que acabou encobrindo as construções. Gomes Freire de Andrade, em 1752, transfere oficialmente a Povoação do Estreito para o Porto que passou a concentrar o crescimento urbano. Escreveu Andrade que “a povoação do Estreito se desfez toda, e de novo se passou tudo para a do Porto, e causou grande admiração ver donde vivia maior parte deste povo todos cobertos de areia, que muitas vezes lhes tapa as portas das casas em que moram”. A área ocupada pelo Estreito, ficou relativamente desocupada até a metade do século XX. 

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