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| Regimento de Estremoz. Acervo:http://talabarte-marr.blogspot.com/2011/09/o-tenente-general-bohm-e-as-forcas.html |
O Tenente-General Johann Heinrich Bohn (1708-1783) comandou o Exército do Sul (1774-1776) responsável pela retomada da Vila do Rio Grande que estava ocupada por tropas espanholas (1763-1776). Ele escreveu Memórias relativas à expedição ao Rio Grande (1774-1779) um diário das atividades militares e observações cotidianas.
Alguns apontamentos feitos por Bohn, ao descrever o teatro onde desenrolou-se o conflito, constitui o olhar privilegiado de um ator social que destacou-se frente ao desdobrar de um Rio Grande do Sul forjado na atuação bélica luso-brasileira. Apesar de escrito a mais de dois séculos, pouco conhecido é o texto a seguir transcrito referente ao deslocamento até a margem norte da Barra do Rio Grande, atual São José do Norte.
Em 3 de janeiro de 1775, Bohn colocou-se em marcha de Garopaba com o Regimento de Estremoz (de Portugal). Ele descreve as paisagens físicas e humanas da região percorrida até a fronteira com o universo espanhol, ou seja, fazendo um recorte geográfico voltado aos nossos interesses, a restinga e a área da atual cidade de São José do Norte: “Toda a extensão do caminho que vai de Araranguá à margem do Rio Grande, mesmo depois que se deixou o terrível caminho da praia, é uma região plana onde se veem poucos bosques. É uma região quase deserta. Nela só se encontram pobres camponeses, cujas pequenas e tristes cabanas mostram sua miséria e algumas terras ou bens, fazendas de pessoas que vivem da pecuária. E esta região seria ainda menos deserta, se aí não se tivessem estabelecido uma parte dos infortunados que perderam terras e bens que possuíam do outro lado do Rio Grande, quando da invasão do General D. Pedro Ceballos, em 1763. Nada é mais triste do que viajar por estes sítios. Não apenas é preciso levar consigo as menores bagatelas, mas também tem-se dificuldade de se encontrar em algumas destas cabanas extremamente acanhadas, um lugar onde colocar uma cama. Não possuem nem cadeira, nem mesa. Não se vê nada de vidro; nem um pouco de sal ou de vinagre. Apenas uma vasilha d’água que se preferiria bebe-la em outro local.”
A chegada a Fronteira do Norte ocorreu a 19 de janeiro, local onde o “principal oficial, com o grosso das tropas, estabeleceu-se desde que os espanhóis se retiraram da margem norte deste rio. Cada destacamento que aí chegou, sem encontrar onde alojar-se, construiu seu quartel com materiais da região. A armação de madeira é de péssimo material. Ela só é boa para queimar. As várias peças se unem por correias cortadas dos couros dos bois. O telhado é feito de junco tirado do banhado que nunca perde seu mau cheiro. As paredes são feitas de esterco misturado ao barro. Ou melhor dizendo, com a lama dos banhados, que causa um fedor execrável que nunca desaparece. As portas são de couro ou de junco, igualmente ligadas por correias. Uma porta portilhada de madeira é até um luxo. Uma fechadura denota um palácio, sobretudo se aí se encontram quadros cobertos de tela (empanadas) em lugar de janelas”.
As dificuldades para empreender a reconquista são perceptíveis nos comentários, porém as estratégias encabeçadas por Bohn voltadas ao projeto da Restauração do Rio Grande, terão favoráveis desdobramentos aos portugueses.

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