O
historiador Simão Pereira de Sá (1701- ?) registrou no livro História Topográfica e Bélica da Nova
Colônia do Sacramento do Rio da Prata, os acontecimentos que acarretam no
surgimento de Rio Grande. A obra de Pereira de Sá apresenta um caráter oficioso
com base na defesa do colonialismo português do século XVIII e no contexto das
lutas entre Portugal e Espanha pelo controle do Rio da Prata. Os personagens
fundamentais do ideário historiográfico luso-brasileiro estão presentes nestes
parágrafos: o expansionismo em direção ao Prata como um curso natural da
história, o papel dos bandeirantes, tropeiros e militares na luta contra os
índios e os espanhóis. Em sua obra estão destacados os elementos da
lusitanidade traduzidos nas ações de reconhecimento do terreno pelo tropeiro
Cristóvão Pereira e na expedição de Silva Paes.
Conforme Guilhermino
Cesar, “atravessar o oceano, franquear a barra, fundar uma fortaleza, repelir
os índios e os castelhanos, explorar o território entre as lagoas e o mar -
essa trabalhosa empresa foi executada numa fase em que a sorte das armas
parecia repelir os portugueses no Prata. Apoiado na infraestrutura militar
preparada por Cristóvão Pereira, Silva Paes lança no areal da barra do Rio
Grande os fundamentos da futura colonização portuguesa. Na costa arenosa e
hostil, a tenacidade dos homens vence a inconstância e agressividade dos
elementos”.
Nesta
primeira obra historiográfica abordando Rio Grande, já está presente, como
destaca Guilhermino Cesar, a luta dos homens contra o meio hostil, um lugar
comum que será muitas vezes repetido no século XIX. Neste enfrentamento com o
meio, a fortaleza Jesus-Maria-José, surge associada à fortificação do porto e
apresentasse “com fossos, pontes levadiças, e quartéis para a gente paga da sua
guarnição: neles se aquartelou toda a soldadesca sem detrimentos nos comandos.
Levantou na mangueira um reduto, e outros mais nos sítios do arroio, e Taim
dando ao mesmo tempo princípio a importante Fortificação do Estreito meia légua
distante do Porto para residência das Tropas, e Governador do Presídio”. Com o
forte do porto e do Estreito, e as guardas do Taim e barra, delineava-se uma
linha de defesa militar contra ataques espanhóis.
As
dificuldades de navegação pelo canal de acesso são destacados, e Pereira de Sá,
faz referência a “perigosa e desconhecida Barra, que pelos grandes parcéis de
areia, tem três diferentes entradas, uma ao sul, e outras ao norte e sudeste”.
As preocupações com a sinalização e um guia para os navegantes, já estão
presentes nestas primeiras incursões, com a colocação de balizas para facilitar
“o perigoso, e quotidiano ingresso das embarcações ligeiras; evitando-se deste
modo o naufrágio”.
A vida do
presídio e da guarnição sediada na Comandância Militar, foi um processo
tumultuado onde este direito natural foi duramente questionado. Em 1763,
ocorreu a ocupação espanhola da Vila do Rio Grande e a fuga da população local
para o lado norte do canal. Somente em 1776, a Vila foi retomada pelos
portugueses.
As lutas
pelo controle da metade sul do Rio Grande do Sul perduraram até o século XIX. O
continuum fisiográfico entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai vivenciou
movimentos de avanço e retrocesso das frentes de expansão portuguesa e
brasileira, como é o caso da ocupação militar da Banda Oriental nas primeiras
décadas do século passado.
O Prata,
enquanto expansão do colonialismo luso-espanhol, produziu atores sociais e um
conteúdo político e cultural que está presente na obra de Simão Pereira de Sá.
A História Topográfica e Bélica
resgata parte destes capítulos do povoamento e enfrentamento que modelou
historicamente a dialética platina e, especialmente, projeta o nascimento
lusitano como um desdobramento de projetos ibéricos ligados ao Prata. Neste
sentido, Simão Pereira de Sá, desconhecendo futuros debates intelectuais,
ligados ao antagonismo inato dos gaúchos rio-grandenses com os gaúchos
platinos, realizou uma narração épica das ações e heroísmo lusitano na região
sem buscar a exclusão do universo que ele representava. Afinal, o Prata não era
um corpo estranho aos luso-brasileiros...

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