Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

sábado, 14 de dezembro de 2019

RIO GRANDE E O PRATA - II


O historiador Simão Pereira de Sá (1701- ?) registrou no livro História Topográfica e Bélica da Nova Colônia do Sacramento do Rio da Prata, os acontecimentos que acarretam no surgimento de Rio Grande. A obra de Pereira de Sá apresenta um caráter oficioso com base na defesa do colonialismo português do século XVIII e no contexto das lutas entre Portugal e Espanha pelo controle do Rio da Prata. Os personagens fundamentais do ideário historiográfico luso-brasileiro estão presentes nestes parágrafos: o expansionismo em direção ao Prata como um curso natural da história, o papel dos bandeirantes, tropeiros e militares na luta contra os índios e os espanhóis. Em sua obra estão destacados os elementos da lusitanidade traduzidos nas ações de reconhecimento do terreno pelo tropeiro Cristóvão Pereira e na expedição de Silva Paes.
Conforme Guilhermino Cesar, “atravessar o oceano, franquear a barra, fundar uma fortaleza, repelir os índios e os castelhanos, explorar o território entre as lagoas e o mar - essa trabalhosa empresa foi executada numa fase em que a sorte das armas parecia repelir os portugueses no Prata. Apoiado na infraestrutura militar preparada por Cristóvão Pereira, Silva Paes lança no areal da barra do Rio Grande os fundamentos da futura colonização portuguesa. Na costa arenosa e hostil, a tenacidade dos homens vence a inconstância e agressividade dos elementos”.
Nesta primeira obra historiográfica abordando Rio Grande, já está presente, como destaca Guilhermino Cesar, a luta dos homens contra o meio hostil, um lugar comum que será muitas vezes repetido no século XIX. Neste enfrentamento com o meio, a fortaleza Jesus-Maria-José, surge associada à fortificação do porto e apresentasse “com fossos, pontes levadiças, e quartéis para a gente paga da sua guarnição: neles se aquartelou toda a soldadesca sem detrimentos nos comandos. Levantou na mangueira um reduto, e outros mais nos sítios do arroio, e Taim dando ao mesmo tempo princípio a importante Fortificação do Estreito meia légua distante do Porto para residência das Tropas, e Governador do Presídio”. Com o forte do porto e do Estreito, e as guardas do Taim e barra, delineava-se uma linha de defesa militar contra ataques espanhóis.
As dificuldades de navegação pelo canal de acesso são destacados, e Pereira de Sá, faz referência a “perigosa e desconhecida Barra, que pelos grandes parcéis de areia, tem três diferentes entradas, uma ao sul, e outras ao norte e sudeste”. As preocupações com a sinalização e um guia para os navegantes, já estão presentes nestas primeiras incursões, com a colocação de balizas para facilitar “o perigoso, e quotidiano ingresso das embarcações ligeiras; evitando-se deste modo o naufrágio”.
A vida do presídio e da guarnição sediada na Comandância Militar, foi um processo tumultuado onde este direito natural foi duramente questionado. Em 1763, ocorreu a ocupação espanhola da Vila do Rio Grande e a fuga da população local para o lado norte do canal. Somente em 1776, a Vila foi retomada pelos portugueses.
As lutas pelo controle da metade sul do Rio Grande do Sul perduraram até o século XIX. O continuum fisiográfico entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai vivenciou movimentos de avanço e retrocesso das frentes de expansão portuguesa e brasileira, como é o caso da ocupação militar da Banda Oriental nas primeiras décadas do século passado.
O Prata, enquanto expansão do colonialismo luso-espanhol, produziu atores sociais e um conteúdo político e cultural que está presente na obra de Simão Pereira de Sá. A História Topográfica e Bélica resgata parte destes capítulos do povoamento e enfrentamento que modelou historicamente a dialética platina e, especialmente, projeta o nascimento lusitano como um desdobramento de projetos ibéricos ligados ao Prata. Neste sentido, Simão Pereira de Sá, desconhecendo futuros debates intelectuais, ligados ao antagonismo inato dos gaúchos rio-grandenses com os gaúchos platinos, realizou uma narração épica das ações e heroísmo lusitano na região sem buscar a exclusão do universo que ele representava. Afinal, o Prata não era um corpo estranho aos luso-brasileiros...

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