Em Rio
Grande o Clube Caixeral foi fundado em 3 de maio de 1895 em cerimônia realizada
no Paço Municipal tendo por primeiro presidente Antonio
Carlos da Fonseca e Silva. O periódico do Clube Caixeiral da cidade do Rio
Grande foi lançado em 1901, intitulado A
Lucta era distribuído gratuitamente aos sócios, divulgando as realizações
da administração e as bandeiras de luta, atividades culturais e notícias
envolvendo os sócios ou autoridades. Os primeiros anos de existência foram
tumultuados conforme constata-se nas discussões expressas através do jornal.
Na
comemoração do sétimo ano de existência o então Presidente Antonio Cintra
Junior fez o seguinte depoimento: “Há sete anos, no dia de hoje, nos salões da
antiga Intendência Municipal, fundava-se nesta cidade o nosso querido e
festejado Clube Caixeiral, que logo no começo, infelizmente, encontrou
companheiros pouco dedicados que o encostaram por espaço de dois anos e meio.
Pouco dedicados, sim, porque naquele tempo em que ainda não se sentia o efeito
da crise que nos atormenta, e possuindo eles o melhores elementos de nosso
comércio em número avultado, nunca o conseguiram elevá-lo à altura em que se
encontra presentemente. E se assim o acha-se, tenho orgulho em afirmar, que
devido ao diminuto concurso de companheiros na reorganização porque passou em 2
de dezembro de 1900, deve ele achar-se forte e sustentar erguido altivamente o
seu querido pavilhão. Na verdade foi funérea e desastrosa a primitiva fase de
nosso querido clube, devido unicamente à incompetência, à incúria das suas
administrações” (A Lucta, 3/5/1902).
O presidente
também afirma que a associação está voltada ao bem estar, ao benefício, a
instrução dos associados (em 1902 a biblioteca do Clube possuía um acervo de
mais de 900 volumes), bem como comprometida com o seu desenvolvimento físico e
moral. O jornal ressalta a busca de um bom relacionamento com os comerciantes da
cidade e está vinculado a outros clubes no esforço para o fechamento do
comércio em feriados e domingos. As dificuldades para garantir e incrementar
ganhos sociais e previdenciários aos trabalhadores do comércio no contexto da
República Velha de cunho liberal no Brasil e positivista no Rio Grande do Sul
estão explícitos nesta matéria publicada no número 30 de 13 de março de 1904:
“Quando houver a verdadeira emancipação da classe, ou por outra: quando o
caixeiro por um processo de coesão compreender que representa uma das forças em
jogo no equilíbrio moral e econômico da sociedade, e dilatar as suas pretensões
rudemente contrariadas por espíritos obtusos, então este órgão necessariamente,
acompanhado a conquista, terá que dilatar o campo da crítica e da doutrina; e
na arena da imprensa patrícia ocupará o lugar que lhe compete pela magnitude
das doutrinas que advoga. Até lá teremos que nos limitar ao restrito círculo
que o momento nos impões e aí faremos convergir todas as nossas energias para o
engrandecimento da classe que tão nobremente tem sabido manter as suas
tradições”.
Conforme
Paulo Cesar Duarte (“Clube Caixeiral: O movimento pelo fechamento
de portas e a construção de uma identidade coletiva)”, a aproximação dos caixeiros aos comerciantes foi
relevante para este distanciamento entre as suas lideranças e as lideranças
operárias. Isso se devia, principalmente, a que os caixeiros se entendiam como
pertencentes a um setor comercial. Tinham, no entanto, consciência de que eram
empregados e como tal deviam unir-se. Este é o sentido da frase por eles
utilizada “um por todos e todos por um”. Porém, como membros do corpo
comercial, dividiam interesses comuns com seus patrões. Ou seja, as ações das
lideranças caixeirais eram pautadas não pelo debate em torno de questões de
interesse do operariado, mas sim pela busca da ascensão socio-profissional
destes trabalhadores em atividades comerciais e mercantis.
Expressando-se
de forma mais clara, dentro deste corpo comercial, nem todos os comerciantes
eram considerados aliados. As realidades conjunturais locais serão decisivas no
arranjo político da ação dos caixeiros. Aliados eram aqueles que apoiavam o
movimento de fechamento de portas ao comércio e contribuíam de diferentes
formas com o Clube, muitas vezes ganhando em troca título de sócio benemérito.
Os objetivos da associação estavam voltados à beneficência e instrução
direcionada aos empregados do comércio, estendendo-se, por vezes, a outros
membros do corpo comercial ou mercantil, excluindo-se os trabalhadores manuais.
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