No
século XVIII, o Rio Grande do Sul apresentava um cenário muito diferenciado dos
dias de hoje. O surgimento das primeiras fortificações e as motivações para o
povoamento estão relacionadas ao interesse de Portugal em ocupar militarmente
esta porção do espaço platino. Tempos de guerra no Prata, nas contínuas lutas
entre portugueses e espanhóis pelo controle da Colônia do Sacramento. Rio
Grande e Rio Pardo surgem dinamizados por este confronto sendo bases de apoio
logístico à manutenção das pretensões lusitanas em colonizar e controlar o
comércio pelo Rio da Prata e garantir a posse do Continente do Rio Grande de
São Pedro.
A
colonização era uma decorrência da ocupação militar e não o contrário. A
prioridade era controlar uma fronteira móvel e indefinida que as duas Potências
Ibéricas argumentavam a posse. Os fortes surgem como fundamento da
militarização e eles fazem parte de um plano detalhadamente orquestrado.
O
sistema de defesa lusitano implementado por José da Silva Paes a partir de
1737, era composto pelo Forte de São Miguel (Chuy), as guardas do Taim, Chuí,
Albardão, Passo da Mangueira, do porto e do norte, e por dois fortes situados
na atual área urbana da atual cidade do Rio Grande: o presídio de
Jesus-Maria-José e Sant’Ana do Estreito. Estas duas fortificações deram origem
a dois núcleos populacionais, que consolidaram uma ocupação civil do então
Presídio do Rio Grande de São Pedro: a Povoação do Porto e a do Estreito.
Nas
proximidades da confluência entre o Rio Jacuí e o Rio Pardo, foi edificado a
partir de 1751 o forte Jesus-Maria-José. O deslocamento pelo Rio Jacuí era o
caminho mais cômodo para que as tropas portuguesas, deslocando-se pelo Jacuí,
alcançassem o objetivo de ocupação dos 7 Povos Missioneiros, como estava
previsto no Tratado de Madri assinado em 1750.
O Tratado de
Madri eliminou os limites territoriais impostos pelo Tratado de Tordesilhas
(1494) o qual delimitou a propriedade sobre as terras a serem descobertas na
América. Quando portugueses e espanhóis assinam o Tratado de Madri, o princípio
do uti possidetis foi respeitado
garantindo a cada país ibérico permanecer nas possessões já povoadas, com a
exceção da entrega da Colônia do Sacramento aos espanhóis e do repasse dos 7
Povos Missioneiros para os portugueses. Por força deste Tratado, ocorreu a
guerra guaranítica e surgiram povoações voltadas à garantia do controle
lusitano dos povoados missioneiros localizados no Rio Grande do Sul.
Rio Pardo
surge desta conjuntura de delimitação das fronteiras portuguesas em detrimento
da estruturação espacial missioneira, decorrendo num grave conflito conhecido
por guerra guaranítica.
Em fevereiro
de 1751, aproximadamente 600 índios missioneiros atacaram a incipiente
fortificação lusitana em Rio Pardo sendo rechaçados pelos defensores. O
Tenente-coronel do Regimento dos Dragões Thomas Luiz Osório foi designado para
guarnecer Rio Pardo. Os Dragões constituíram um corpo de cavalaria que deveria
possuir ágil mobilidade tática podendo atuar como corpo de infantaria num
período de intensas disputas entre portugueses e espanhóis, e também durante a
resistência missioneira. No mesmo ano, Gomes Freira de Andrade define Rio Pardo
como ponto de concentração das tropas luso-brasileiras que deveriam marchar
para a ocupação dos Sete Povos.
O forte
Jesus-Maria-José, pelo papel estratégico de defesa e expansão da fronteira
lusitana foi chamado de tranqueira
invicta, pois jamais foi ocupado por forças missioneiras ou espanholas. São
exemplos desta resistência as investidas de Sepé Tiaraju em 1754, quando índios
a cavalo e a pé cercaram a fortaleza, provocando incêndios e destruição, mas
sendo rechaçados pelos dragões. De Rio Pardo partiram tropas para demarcação do
Tratado de Madri e posterior confronto com índios missioneiros no massacre de
Caiboaté em 1756.
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| Forte Jesus-Maria-José do Rio Pardo. |
Para o historiador
Dante de Laytano, duas forças sociais imensamente movediças, a gente de tropas
militares, como os soldados e oficiais e os homens simples e rudes que
percorriam léguas e léguas para conduzir gado, os tropeiros, transformaram-se,
mais tarde, em agentes de fixação do domínio lusitano. Esses indivíduos
povoaram escassamente o território, mesmo eles eram poucos ou poucos estavam
dispostos a tão árdua empresa. O período de dominação espanhola ensinou muitas
coisas a esses povoadores e quando os milicianos entregaram a vila do Rio
Grande ou quando os portugueses eram terrivelmente hostilizados na colônia do
Sacramento, o caminho para São Paulo, às margens do Jacuí, a costa do mar foram
redutos de importância e para ali, então, eles afluíram.
E vieram levas
de colonos de Portugal e diversas partes do Brasil. Daí ao Rio Pardo nada
demorou porque o posto da fronteira foi logo transformado num baluarte não só
militar mas econômico. Do Rio Pardo a colonização se deslocou para as Missões,
margem do rio Uruguai, todo o oeste e em marcha para o sul, localizando-se nos
campos de Bagé, Alegrete, Dom Pedrito, São Gabriel etc.
Rio Pardo
teve um papel de destaque no cenário de conflito com os espanhóis, no tenso
período de 1763-1776, quando ocorreu a tomada e controle da Vila do Rio Grande
de São Pedro. Um momento épico da consolidação luso-brasileira ocorreu em 1774,
quando Rafael Pinto Bandeira, nas cercanias de Rio Pardo, derrotou a vanguarda
da numerosa força militar do Governador das Províncias do Prata Vertiz y
Salcedo que exigia a rendição das tropas da tranqueira
invicta. A perda desta posição representaria a consolidação espanhola no
espaço rio-grandense modificando o quadro de retomada lusitana da Vila do Rio
Grande.
Conforme o
historiador Dante de Laytano, “a fronteira de Rio Pardo estava fadada a
desempenhar” nesta conjuntura de tensão luso-espanhola-missioneira, “a função
sociológica de consolidadora das conquistas e domínios portugueses no Sul do
Brasil”.

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