*Matéria publicada no Memória & História do Jornal Agora em fevereiro de 1998.
Manuel Jordão da Silva, há trezentos anos, redigiu uma súplica ao Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, pedindo apoio para promover a ocupação sistemática do Rio Grande do Sul. Este documento, existente no Arquivo Histórico Ultramarino (RJ), datado de 10 de junho de 1698, é uma das primeiras fontes que descrevem com alguma intimidade o canal do Rio Grande e sua vizinhança, destacando a importância da ocupação lusitana das terras ao sul da povoação de Laguna (Santa Catarina). O autor acreditava na existência de ouro no Rio Grande do Sul e realizou uma viagem de 14 meses identificando os locais propícios para o povoamento. Manuel Jordão da Silva, se ofereceu ao Rei para “povoar o Rio Grande, pois, se há terra de promissão no mundo, é aquela, e nele fazer a Cidade de São Pedro”.
Mesmo não sendo atendido pelo monarca, o aventureiro antecipou o que só viria a ocorrer cerca de 40 anos depois com a chegada de Silva Paes.
A cidade de São Pedro começou sua história oficial em 1737 e até hoje está em construção na dialética contraditória da promissão, entre o ouro e a areia.
A experiência histórica
Enquanto primeira experiência de povoamento luso-brasileiro no Sul do Brasil, Rio Grande é uma cidade que passou pelos períodos históricos do Brasil Colônia, Império e República. A trajetória de mais de dois séculos e meio propiciou múltiplas vivências frente ao processo histórico mundial. Rio Grande surgiu quando os laços de subjugação ditados pelo pacto colonial entre Portugal e Brasil ainda vigoravam. A política de expansão territorial e econômica conduziu os portugueses até o estuário platino, onde fundaram a Colônia do Sacramento (1680) e almejavam a definição de uma fronteira lusitana em terras reivindicadas pela Espanha. Rio Grande nasce enquanto desdobramento militar deste momento de confronto no Prata, inserindo-se imediatamente nas motivações ligadas à guerra. A Comandância Militar e o povoamento civil dinamizaram-se no ritmo do enfrentamento luso-espanhol e no crescimento das atividades portuárias ligadas à pecuária e à charqueada ainda no século XVIII.
Nas primeiras décadas do século XIX, a difusão do capitalismo comercial gerenciado pela ótica do liberalismo provocou um desenvolvimento econômico de circulação de mercadorias através do Porto do Rio Grande. O Rio Grande do Sul passou de Capitania para Província em 1823, e o crescimento econômico e populacional desencadeou um aumento na demanda interna e externa de produtos associados às inovações tecnológicas. Rio Grande insere-se, na segunda metade do século passado, nos quadros da modernidade urbana através da edificação de prédios administrativos, como o da Alfândega, e habitações residenciais, como o Sobrado dos Azulejos.
O desenvolvimento do capitalismo industrial apresentou na cidade um caráter pioneiro e de grande expansão entre 1873 e o final da Primeira Guerra Mundial em 1918. A cidade das chaminés esteve associada a experiências urbano-industrial de grande envergadura como o complexo da Fábrica Rheingantz, da tecnologia ligada à carne frigorificada da Swift, das indústrias pesqueiras, das muitas indústrias de bens de consumo não duráveis como é o caso da Leal Santos que era atuante no mercado nacional de alimentos. Em meio às transformações industriais do início do século, ocorreu a consolidação das práticas burguesas e também das organizações operárias - o confronto entre capital e trabalho -, cuja imprensa operária local deixou importantes fontes para compreender o período.
O imperialismo, enquanto expansão de capital e tecnologia, aqui expressou-se nas duas primeiras décadas, através de duas obras de engenharia de grande envergadura: a construção dos Molhes da Barra e do Porto Novo, trazendo a alta tecnologia expressa nos maquinários gigantescos, os Titans.
Crescimento, diversificação e as crises marcaram os últimos 50 anos da cidade que continua a viver na dinâmica entre o estatal e o privado. De um lado o papel histórico de defesa do universo bragantino e de dependência do capital associado ao serviço público estadual e federal. De outro, o capital privado, ligado às indústrias químicas e atividades nos terminais do Superporto. Entre o estatal e o privado, as expansões e retrações da economia brasileira, a decadência de muitas indústrias e o desemprego, o êxodo rural da porção sul e as difíceis condições de sobrevivência de grande parte da população na periferia da cidade.
Redescobrir
Redescobrir a trajetória dos antepassados expressos na historicidade dos prédios, ruas, praças, monumentos e imaginários disseminados na forma pessimista ou otimista de reproduzir o cotidiano.
Redescobrir a biodiversidade da Lagoa e do Oceano, no ecossistema habitado por peixes da água doce e salgada, por aves e mamíferos característicos da fauna da Restinga Costeira.
Redescobrir o que fascinou os primeiros viajantes: as dificuldades de acesso pela barra e o perigo dos naufrágios; a construção dos molhes e do porto e a dinamização econômica e cultural com esta porta para o mundo; o novo olhar ao ecossistema: a Ilha da Pólvora, a Ilha dos Marinheiros, a travessia para São José do Norte, os Molhes da Barra, o Taim e a Lagoa Mirim.
Redescobrir o corredor para experiências culturais inseridas na formação platina: Rio Grande enquanto contexto da história que envolveu os fortes de Santa Teresa e São Miguel, Montevidéu, Buenos Aires e Colônia do Sacramento; conviver com a preservação da história material como a Igreja Matriz de São Pedro e a Igreja de São Francisco; lançar novos olhares sobre o acervo que conta a história, como no Museu da Cidade do Rio Grande e no Museu Oceanográfico; conviver com os espaços de produção de pesquisa para produção do conhecimento como a Biblioteca Rio-Grandense e os jornais que acompanharam a história local.
Redescobrir uma cidade dinâmica que precisa ser visitada por seus habitantes, mostrando que as múltiplas experiências históricas constituem uma memória social que deve ser continuamente reposta enquanto enfrentamento da crise e da apatia.
Redescobrir a identidade local em meio à tamanha multiplicidade de vivências passadas é um desafio extremamente difícil. Porém, não devemos dar cada passo ignorando que gerações já partilharam este espaço e fizeram leituras do mundo, equivocadas ou acertadas, e que estas leituras ainda estão presentes na matéria inerte das ruas e no imaginário dos falares. Os fragmentos desta trajetória humana de 262 anos (*em 1998), possui significados que exigem grande sensibilidade para serem lidos, afinal, foram construídos na contradição das relações que os homens estabelecem entre si e com o meio ambiente. O presente deve desenvolver a consciência não apenas da preservação cultural mas de promover leituras de identidades, a serem resgatadas e repostas aos atores sociais, para que estes possam projetar um futuro conscientes na condição de possuidores de um referencial de existência que se processa além da temporalidade de viver e morrer, inata a cada indivíduo.
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