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| Ilustração com temática do pampa e que faz parte do livro de Mawe "Viagens...". |
Fontes sobre Rio Grande na primeira década do século XIX são escassas e quase sempre, pouco acrescentam para a compreensão da história local. Uma exceção é o trabalho de John Luccock, que deixou relatos extremamente interessantes de sua passagem em 1809. Luccock refugiou-se no porto do Rio Grande para comercializar produtos ingleses junto a população da Capitania, rumando posteriormente para o Rio da Prata. Relatos da vida social e da corrupção local, tornam os escritos de Luccock, uma fonte preciosa de consulta. A busca de mercado para a comercialização de produtos, numa expansão do capitalismo liberal, trouxe ao Brasil e ao Prata, outro inglês, este chamado de John Mawe.
Mawe nasceu em Derbyshire em 1764 e faleceu em Londres em 1829, percorrendo no Brasil entre 1804 e 1811, regressando a Londres na condição, de renomado perito em minerais e pedras preciosas. Em 1812 publicou o seu livro “Viagens ao interior do Brasil, principalmente aos distritos do ouro e dos diamantes”, o qual teve várias edições em diversos idiomas dado o interesse na Europa pelos metais preciosos do Brasil.
O mineralogista inglês dedica um capítulo de seu livro a Capitania do Rio Grande, porém, conforme Abeillard Barreto, ele não esteve na Capitania mas obteve as informações com um personagem não identificado. Nesta descrição, Rio Grande apresenta um lugar de destaque pelo porto ser um centro irradiador do comércio. Conforme Mawe, o porto da Capitania está localizado “a cerca de 32º ao sul, possui uma entrada perigosa, primeiro, devido a pouca profundidade da água, e depois, em virtude do mar, sempre violento, e ao deslocamento da areia. Não obstante estes inconvenientes, mantém grande intercâmbio com todos os outros portos do Brasil, por meio de brigues e pequenos navios que não deslocam mais de dez pés de água. Depois de transpor a barra, que é longa, eles penetram num mar interior ou laguna, de água profunda, e navegam para o norte e para o oeste, na sua cabaceira, onde desemboca o rio principal. Ao sul, está a Lagoa Mirim e pouco mais além, na mesma direção, um terreno neutro, onde se encontra a Fortaleza espanhola de Santa Teresa, ultimamente restaurada”. Nota-se uma dificuldade em definir os limites da barra e da Lagoa dos Patos, porém estão indicados o trânsito de embarcações, a dificuldade com o reduzido calado e os perigos para a navegação.
Rio Grande é considerada como a principal cidade, a qual é defendida por muitos fortes e guarnição: “os portugueses fortificaram-na muito e agora nela existe uma força de cavalaria, bastante considerável, artilharia montada e infantaria. Assim, de um modo geral, computando-se a milícia, pode-se calcular uma guarnição de cinco ou sete mil homens”. Possivelmente, há um exagero nestes números, pois a população de Rio Grande, conforme censo de 1814, não superava 3.600 habitantes e a da Capitania era de 70.000. Mesmo que consideremos a população militar flutuante, as informações de Luccock, que realmente esteve na cidade num período semelhante, não destaca tanta exuberância na edificação militar, pelo contrário...
John Mawe destaca o clima e o solo fértil para a agricultura, especialmente para plantação de trigo, chamando a Capitania de Celeiro do Brasil, talvez uma das primeiras referências a este conceito que seria amplamente utilizado no final do século XIX. Refere-se ainda, ao principal produto econômico, o charque, explicando seu preparo e embarque através do porto para outras capitanias do Brasil: “é artigo em geral consumido pelas classes baixas e os negros, não sendo pouco comum vê-la em mesas respeitáveis, possuindo um gosto aproximado ao da carne defumada. Constitui o alimento corrente dos marinheiros e faz parte de quase toda a carga exportada deste porto. Abriu mesmo caminho para as Índias Orientais, onde é muito procurada e tem sido vendida, frequentemente, durante a guerra, a nove pence ou um shilling a libra”. A predominância dos derivados da pecuária na produção da Capitania, como o couro, o sebo, a crina e o chifre, delegam ao porto do Rio Grande a importância dada pelo comerciante inglês. Segundo ele, chega ao porto, vindo de outras capitanias, aguardente, açúcar, tabaco, algodão, arroz, mandioca e doces; importado da Europa aparece o vinho, óleo, azeitonas, vidro, ferro, tecidos de lã, chapéus, armas e munição, etc.
A atividade comercial, em grande parte, é executada por caixeiros-viajantes que no lombo de animais percorrem o interior com suas mercadorias. Mawe considera que o comércio lucrativo na região de Rio Grande e seus arredores “locais invejáveis, onde se fizeram fortunas consideráveis em curto espaço de tempo” entrara em decadência devido “a avidez dos nossos especuladores em abarrotar os mercados e vender por dois o que teria sido ansiosamente comprado por seis”. A queixa do comerciante, refere-se a livre concorrência, motivada pelo excesso de oferta de mercadorias e de um restrito meio circulante entre a população para a aquisição de produtos. A palavra especulação ficaria melhor aplicada ao aumento dos preços e não a diminuição, mas...
Mawe faz referência a população escrava e relaciona a Capitania com a disciplina e com o purgatório dos negros: “quase todos os navios trazem maior ou menor número de negros, sendo costume, no Rio de Janeiro, despachar os mal intencionados e rebeldes para o Rio Grande, onde se continuam insubordinados, os vendem comumente para a colônia vizinha”. Essas afirmações presentes na historiografia são polêmicas e de difícil comprovação documental, como se em outras capitanias a condição dos escravos fosse melhor. Um determinado número de mazuelas (prostitutas), foram, no século XVIII, recrutadas no Rio de Janeiro, e encaminhadas para constituírem famílias no Rio Grande do Sul. Porém, a história não deve ser escrita apenas pela exceção...
A DIALÉTICA
O lugar comum, a dialética do vento e da areia, está presente em Mawe: “Os arredores da capital são desagradáveis, cercados de areia e dunas de tamanho respeitável, formadas pelo vento, que precipita a areia, em montes, em várias direções, tornando-as semi-endurecidas, a ponto de parecerem estratificadas. Os ventos, excessivamente fortes, quase constantes, levantam a areia, o que é bem desagradável, pois penetra em todos os cantos das casas”. Se John Mawe, sem ter estado em Rio Grande fez esta descrição, é que o seu informante com certeza aqui esteve.

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