Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

CARLOS SANTOS: NEGRITUDE E CIDADANIA

Caros Santos. 


Carlos da Silva Santos nasceu na cidade do Rio Grande a 9 de dezembro de 1904. A casa, já demolida, ficava localizada na rua General Câmara nº 135, entre as ruas dos Andradas e a Duque de Caxias em frente à Escola Santa Joana d’Arc. Era filho de Manoel Ramão dos Santos e de Saturnina Bibiana da Silva Santos. O casal teve cinco filhos: Manoel Aristides dos Santos, falecido com quatro anos de idade; Maria José dos Santos John, dona Bêbe, que casou-se com um norte-americano e teve quatro filhos; Juvenal da Silva Santos; Romualdo da Silva Santos que faleceu no Rio de Janeiro com pouco mais de vinte anos e o caçula da família, Carlos da Silva Santos, que tinha o apelido familiar de Carlitos.
          O pai Manoel tinha a profissão de carpinteiro e morreu em 1905, quando Carlos Santos estava com poucos meses de vida. A mãe era professora de música e organista que executava partituras sacras nas festas e cerimônias católicas. Esta formação católica influenciou profundamente o pensamento e a prática de Carlos Santos. Devido às dificuldades financeiras aos 12 anos de idade ele largou os estudos e passou a trabalhar numa empresa de reparos navais, a Oficina Dias, eram momentos difíceis para a manutenção da família e o próprio personagem relata este período: “Nesta época eu houvera passado por quatro escolas; seis meses no tradicional Colégio das Pagonnes e outros seis meses no não menos tradicional “Colégio Carlotinhas”, aos quais, muito menos que a idéia do ABC, me levou a minha condição de ‘levado da breca’ (notando-se que eu não era dos piores). Tive depois um ano no Liceu Salesiano Leão XIII e outro ano como aluno externo na Escola de Aprendizes – Marinheiros. Conclusão, um ano de sujeição e dois anos de estudo das primeiras letras, o qual interrompi a fim de ir trabalhar no ofício de mecânico... Como que a esmerilhar a aspereza de uma vida começada e desenvolvida entre trabalhos e privações, os meus primeiros anos de Oficina se caracterizaram pela continuidade daquele ‘levado da breca’ que justificou o meu primeiro ano de Escola. E na Oficina Dias, entre os outros aprendizes, eu liderava os movimentos em prol da brinquedologia; sem alcançar o sentido das minhas palavras, sem um desenvolvimento completo da razão, sem mesmo saber o que dizia, eu improvisava discursos...(...) foi ali na saudosa Oficina Dias, nessa Catedral de Trabalho, de Honra e de Nobreza que eu falei, pela primeira vez, aos meus irmãos de luta, como se pudesse, na confusão do meu linguajar, dizer a eles da grandeza do seus valor, da magnitude da sua causa, do esplendor dos seus destinos, do horror da sua condição econômica e moral e da aurora esplendente de um novo e glorioso 13 de Maio...(...) E fui crescendo, e fui me exercitando. Transportei a tribuna para as ruas... como orador de movimentos carnavalesco que alguém chamou, na minha terra, ‘a alma das ruas: - o Cordão’”.
          Por dez anos Carlos Santos foi orador oficial do Braço é Braço “mas não era o Carnaval o motivo da minha atividade ali; um ideal superior e uma aspiração mais nobre eu deixava transparecer através das minhas palavras: o soerguimento moral e cultura da minha raça, da minha sociedade e, conseqüentemente, da minha família, para que o negro, engrandecido pela Instrução, glorificasse, ainda mais, o Brasil, imortalizando de forma concreta a obra soberba, humana e cristã de José do Patrocínio e de toda a plêiade ilustre de batalhadores leais, que antes haviam lutado pela extinção da escravatura no Brasil”. Posteriormente, ingressou numa sociedade cívico-religiosa Deus e Pátria onde era orador: “ali firmei melhor as minhas convicções de civismo, de fé e patriotismo (...) questão social para uns, questão trabalhista para outros, aqui questão de classe, ali questão econômica, porém, para mim, antes de tudo e acima de tudo – questão de amor e cristianismo.”

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