| Alegoria de Rafael Pinto Bandeira na luta contra os espanhóis. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. |
Em sintonia com a
posição de autores ligados a tendência historiográfica luso-brasileira, Carlos
Reverbel desenvolveu uma narração centralizada na diretriz portuguesa e
brasileira na formação histórica do Rio Grande do Sul. Em sua pesquisa sobre Rafael Pinto Bandeira, Reverbel
enfatizou o discurso do antagonismo entre as experiências históricas
luso-brasileira e platino-missioneira nas décadas de 1940-50, período
caracterizado pelo enfrentamento intelectual destas tendências
historiográficas. A interpretação desenvolvida pelo autor, é a de que o Rio
Grande do Sul foi uma terra de ninguém
incorporada à civilização pelas emanações da organização político-administrativa
luso-brasileira.
No ensaio Rafael Pinto Bandeira – história popular de
um fronteiro, Carlos Reverbel assume posições historiográficas típicas de
um período de debates intelectuais que acarretou em alguns enfrentamentos
intelectuais em defesa de projetos para explicar a formação histórica
Rio-grandense.
Conforme
o autor, Rafael Pinto Bandeira foi a figura mais representativa do drama de
fixação da fronteira luso-brasileira, “ele bem representa o marco zero da
formação brasileira no continente de São Pedro”.[1] Este
símbolo da expansão lusitana merece, conforme o autor, o título de o primeiro caudilho Rio-grandense,
subtraindo de Sepé Tiaraju esta titulação. Para Reverbel, que critica a posição
de Manoelito de Ornellas e Mansueto Bernardi favoráveis a Sepé Tiaraju, o índio
missioneiro é um fenômeno isolado que sempre esteve “a serviço de interesses
limitadíssimos e estranhos ao processus
luso-brasileiro”. Sepé é identificado a uma figura solta na paisagem
Rio-grandense, pois não “atuava em função do processo tipicamente gaúcho, ou
seja, do Rio Grande do Sul. Foi uma carga de lança frustrada, foi uma bandeira
que se perdeu na retirada castelhana”. Já Rafael Pinto Bandeira “representa o
nosso lado nessa questão”.[2]
O
antagonismo está expresso na polêmica do chefe missioneiro Sepé Tiaraju, na
forma excludente do nosso lado e o lado deles. Reverbel ao heroicizar as
atuações militares de Rafael Pinto Bandeira, refere-se aos “gaúchos do campo”
que são os soldados que seguem o caudilho, “é a eles que mais se deve a nossa
reintegração no sistema colonial lusitano. Já era o Rio Grande exercitando os
seus primeiros passos no sentido da unidade brasileira, vocação a que jamais
traiu”.[3]
O personagem é associado ao esforço de integração ao Brasil, representando a
concretização desta aspiração inerente aos Rio-grandenses. Segundo Reverbel,
quando Rafael Pinto Bandeira morreu “foi-se o herói, mas ganhamos a unidade
para sempre”.
Desta
forma, a identidade Rio-grandense está ligada a formação histórica
luso-brasileira e os elementos espanhóis e missioneiros são corpos estranhos:
“O
Rio Grande não se formou do sul para o norte, ao sopro de influências platinas.
Qualquer afirmativa neste sentido seria um desvio insustentável, seria rematado
erro de apreciação. Os fatos são por demais evidentes, falam por si mesmos. E
nos indicam justamente o contrário. O processo de nossa fixação apresenta um
desenvolvimento de certa maneira equivalentes ao das bandeiras. Sua marcha foi
regulada pelo mesmo espírito de penetração lusitana. Não há como armar os fatos
de outra forma. Armá-los de outra maneira seria estabelecer a política do recuo
em face das afirmações castelhanas, seria a negação da própria verdade
histórica e de tudo quanto hoje representamos, nos limites de um processo
cultural e étnico característico e marcante”.[4]
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