Porto do Rio Grande em 1908

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

HISTORIOGRAFIA: CARLOS REVERBEL

Alegoria de Rafael Pinto Bandeira na luta contra os espanhóis. Acervo: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. 

Em sintonia com a posição de autores ligados a tendência historiográfica luso-brasileira, Carlos Reverbel desenvolveu uma narração centralizada na diretriz portuguesa e brasileira na formação histórica do Rio Grande do Sul. Em sua pesquisa sobre Rafael Pinto Bandeira, Reverbel enfatizou o discurso do antagonismo entre as experiências históricas luso-brasileira e platino-missioneira nas décadas de 1940-50, período caracterizado pelo enfrentamento intelectual destas tendências historiográficas. A interpretação desenvolvida pelo autor, é a de que o Rio Grande do Sul foi uma terra de ninguém incorporada à civilização pelas emanações da organização político-administrativa luso-brasileira.
No ensaio Rafael Pinto Bandeira – história popular de um fronteiro, Carlos Reverbel assume posições historiográficas típicas de um período de debates intelectuais que acarretou em alguns enfrentamentos intelectuais em defesa de projetos para explicar a formação histórica Rio-grandense.
         Conforme o autor, Rafael Pinto Bandeira foi a figura mais representativa do drama de fixação da fronteira luso-brasileira, “ele bem representa o marco zero da formação brasileira no continente de São Pedro”.[1] Este símbolo da expansão lusitana merece, conforme o autor, o título de o primeiro caudilho Rio-grandense, subtraindo de Sepé Tiaraju esta titulação. Para Reverbel, que critica a posição de Manoelito de Ornellas e Mansueto Bernardi favoráveis a Sepé Tiaraju, o índio missioneiro é um fenômeno isolado que sempre esteve “a serviço de interesses limitadíssimos e estranhos ao processus luso-brasileiro”. Sepé é identificado a uma figura solta na paisagem Rio-grandense, pois não “atuava em função do processo tipicamente gaúcho, ou seja, do Rio Grande do Sul. Foi uma carga de lança frustrada, foi uma bandeira que se perdeu na retirada castelhana”. Já Rafael Pinto Bandeira “representa o nosso lado nessa questão”.[2]
         O antagonismo está expresso na polêmica do chefe missioneiro Sepé Tiaraju, na forma excludente do nosso lado e o lado deles. Reverbel ao heroicizar as atuações militares de Rafael Pinto Bandeira, refere-se aos “gaúchos do campo” que são os soldados que seguem o caudilho, “é a eles que mais se deve a nossa reintegração no sistema colonial lusitano. Já era o Rio Grande exercitando os seus primeiros passos no sentido da unidade brasileira, vocação a que jamais traiu”.[3] O personagem é associado ao esforço de integração ao Brasil, representando a concretização desta aspiração inerente aos Rio-grandenses. Segundo Reverbel, quando Rafael Pinto Bandeira morreu “foi-se o herói, mas ganhamos a unidade para sempre”.
         Desta forma, a identidade Rio-grandense está ligada a formação histórica luso-brasileira e os elementos espanhóis e missioneiros são corpos estranhos:
“O Rio Grande não se formou do sul para o norte, ao sopro de influências platinas. Qualquer afirmativa neste sentido seria um desvio insustentável, seria rematado erro de apreciação. Os fatos são por demais evidentes, falam por si mesmos. E nos indicam justamente o contrário. O processo de nossa fixação apresenta um desenvolvimento de certa maneira equivalentes ao das bandeiras. Sua marcha foi regulada pelo mesmo espírito de penetração lusitana. Não há como armar os fatos de outra forma. Armá-los de outra maneira seria estabelecer a política do recuo em face das afirmações castelhanas, seria a negação da própria verdade histórica e de tudo quanto hoje representamos, nos limites de um processo cultural e étnico característico e marcante”.[4]

[1] REVERBEL, Carlos. Rafael Pinto Bandeira – história popular de um fronteiro. In: Revista Província de São Pedro. Porto Alegre: Globo, nº 4, 1946, p. 141.
[2] Idem. p. 144.
[3] Ibidem. p. 148.
[4] Ibidem. p. 141.

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