Porto do Rio Grande em 1908

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

HISTORIOGRAFIA – CARLOS REVERBEL II




         No livro O Gaúcho publicado quarenta anos após, Carlos Reverbel retoma a discussão referente à formação histórica do Rio Grande do Sul. Reverbel remete a Othelo Rosa e o conceito de “drama de fronteira”[1] como viés explicativo para caracterizar a disputa entre Portugal e Espanha pelo território Rio-Grandense. A tardia integração ao Brasil está ligada aos interesses coloniais das duas potências ibéricas onde o limite é um fato jurídico e a fronteira é um fato político. “No final das contas, os nossos limites, traçados no papel, tiveram de ceder lugar às nossas fronteiras, estabelecidas pelos primeiros povoadores com respaldo das armas luso-brasileiras, a cujos interesses políticos elas serviam”.[2]
O surgimento da vida político-administrativa orientada a consolidação de um processo civilizatório estável está associado as ações do Conselho Ultramarino português e a expansão luso-brasileira do século XVIII.
“(...) nosso primeiro sinal de vida administrativa, o início da nossa organização política, o começo da nossa atividade econômica, a nossa entrada efetiva no cenário colonial tiveram lugar em 1737, quando foi fundado o Presídio de Jesus Maria José, no local onde se encontra hoje a velha cidade de Rio Grande, nossa primeira Capital e sede da Comandância (...) E sendo uma Comandância, caso singular no sistema administrativo do Brasil Colônia, o Rio Grande nascia sob um regime armado e passaria a viver numa atmosfera militar. A partir desse momento histórico (...) nosso destino ficou condicionado à sorte das armas, numa fronteira em movimento, sujeita a avanços e recuos, até sua configuração definitiva”.[3]
          O povoamento a partir do Presídio do Rio Grande, uma terra de ninguém situada entre Laguna e a Colônia do Sacramento, configuram o tripé da expansão luso-brasileira em direção ao Rio da Prata. Este espaço geográfico “além de despovoado, seria disputado mais tarde a ferro e fogo, por dois imperialismos igualmente agressivos, montando-se assim o drama de fronteira de que surgiria o Rio Grande de São Pedro para o mundo luso-brasileiro”.[4]
A linha interpretativa está ligada a tendência historiográfica luso-brasileira, com referências a Othelo Rosa e também a Moysés Vellinho e seu enfoque sobre a terra de ninguém que legitima a intervenção luso-brasileira. Esta presença também é perceptível na necessidade em diferenciar o gaúcho Rio-grandense do gaúcho platino. Este tema foi fundamental em publicações de Jorge Sallis Goulart, Othelo Rosa e Moysés Vellinho, sempre ressaltando que o acontecer histórico no Prata diferenciou-se do Rio Grande do Sul. Nesta interpretação, a influência cultural entre os dois tipos sociais de gaúcho é restrita ou nula e a construção civilizatória lusitana ruma para a ordem e não para os distúrbios e ao caudilhismo uruguaio ou argentino. A dicotomia campo/cidade não faz parte da realidade Rio-grandense assim como a aproximação entre os dois gaúchos fica restrita as atividades de pastoreio. Desta forma o Rio Grande do Sul está desvinculado do espaço platino convergindo para a formação histórica brasileira com nuances de construção regionalista que lhe dotam de identidade e diferença sem distanciar-se da brasilidade.

[1] ROSA, Othelo. Formação do Rio Grande do Sul. In: Fundamentos da Cultura Rio-Grandense. Porto Alegre: Faculdade de Filosofia/Universidade do Rio Grande do Sul, 1957, vol. II, p. 16.
[2] REVERBEL, Carlos. O Gaúcho: aspectos de sua formação no Rio Grande e no Prata. Porto Alegre: LPM, 1986, p. 52.
[3] Idem. p. 53.
[4] Ibidem. p. 54.

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