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| Gauchos, El Assado. Jean Pallière, meados do século XIX. |
Várias fontes trazem informações sobre os gaúchos no Prata e no Rio Grande do Sul. Porém, no Rio Grande, registros sobre gaúchos são extremamente raros. O comerciante inglês John Luccock no livro Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil descreveu a presença de forasteiros (gaúchos) nas proximidades da Vila do Rio Grande no ano de 1809. Segundo seu relato, “é provável que a classe social que passo agora a descrever fosse ainda mais desprovida de superfluidades e contente com essa situação, a saber, as pessoas que ocasionalmente surgiram no Rio Grande, provindo, de enormes distâncias no interior, à cata de comprar gêneros”.
Luccock era
muito observador, constatando que estes homens eram em geral baixos e robustos,
com certa mescla de sangue índio, a julgar pela barba rala, os cabelos
corredios e o olhar inquieto. “Os homens de descendência genuinamente portuguesa
ou espanhola possuem barbas espessas e abundantes, os cabelos ondulados e
membros mais longos que os da classe precedente. A tez de todos eles é
fortemente morena, cabelos e olhos de cor preta”.
O vestuário
destes forasteiros, era principalmente de algodão grosso e resistente, de
fabrico doméstico, “moldado feito uma camisa com as mangas abertas, calões que
iam até pouco abaixo do joelho, seguros aos quadris por uma cinta. Também a
cinta, como o mais, era de fabricação da terra, feita de algodão tinto de azul
ou vermelho, por vezes de ambas as cores, alternando-se com o branco, e
franjada nas extremidades; longa e estreita, davam-lhe várias voltas ao redor
do corpo, guardando dinheiro em suas dobras ou outra qualquer coisa a que
dessem maior valia. Pendia-lhes do ombro uma pequena bolsa de pele contendo uma
pedra de fogo, o fuzil, e uma substância esponjosa para servir de isca, e por
vezes, uma pequena quantidade de fumo”.
Luccock
acreditava que os hábitos destes homens provinham dos espanhóis, estando suas
habitações para além das fronteiras portuguesas. “Todos eles usavam de um
chapéu muito alto, de copa cônica, feito de feltro, de palha ou de folha de
palmeira; traziam à cintura uma faca bem aguçada e, embora não usassem nem
meias nem calçado, levavam uma espora fixada ao calcanhar por uma tira de couro
cru”. Os forasteiros demonstravam aversão aos brasileiros “retirando-se logo ao
cair da noite, para seus acampamentos na planície, a quatro ou cinco milhas de
distância da cidade”.
Como o
comerciante inglês buscava possíveis consumidores, atentamente observou o
comportamento destes fugazes compradores: “Quando estavam para fazer compras,
vinham em geral aos grupos, apeavam de fronte de uma loja, sem falar nem fazer
caso de ninguém e viravam as rédeas para baixo da cabeça dos cavalos
deixando-as arrastar ao chão, posição na qual os cavalos ficavam imóveis,
capazes até de ali dormirem. Entravam na loja, olhavam em volta, até que algum
deles avistando o artigo de que necessitava, apontava-o, comprava e pagava. Não
pareciam ter noção nenhuma de diferenças em qualidade ou em preços, nem ideias
de abatimento.”
Os
forasteiros, que não demonstravam conhecimento de escrita ou de cálculo,
ficavam acampados a algumas milhas da cidade, aproximando-se com brevidade para
comprar mantimentos, mantendo-se sempre preocupados em expor-se o mínimo
possível à civilidade urbana. O lugar social ocupado pelos forasteiros, induz à
exclusão frente a uma sociedade colonial repressora fundada no respeito à
autoridade do rei, ao catolicismo e ao reconhecimento da grande propriedade da
terra.

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