Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

GAÚCHOS E BEDUÍNOS - IV

Tiaraju. Livraria do Globo, 1960.

Manoelito de Ornellas considera natural a participação dos padres na Guerra Guaranítica[1] pois estariam afirmando seu legítimo direito sobre o patrimônio erigido por seu esforço, amor e tenacidade,[2] destacando que as Missões, independente de serem lusas ou castelhanas, estavam somente interessadas na conversão espiritual sem assumir posicionamentos políticos. A idéia de conciliação está presente em relação a Portugal e à Espanha que podem buscar um entendimento em sua origem ibérica comum. A resistência dos guaranis durante a Guerra Guaranítica é compreendida e legitimada pelo “telurismo”, o amor à terra onde se vive. Dessa forma, descarta-se a dimensão política ou o fato de o índio missioneiro estar localizado historicamente e respondendo ativamente ao processo mais amplo que é o das frentes de expansão luso-espanhola, na fixação das fronteiras do extremo sul do Brasil.  
         Nesse quadro onde os personagens são retirados do contexto histórico, o autor acaba recaindo no romance histórico como no livro Tiaraju, que trata da vida do índio Sepé Tiaraju e dos acontecimentos que conduziram à decadência das Missões. No relato, os guaranis não se revoltam contra os portugueses ou contra os espanhóis, mas, e isso legitima suas ações, eles resistem pelo amor que nutrem pela terra dos antepassados e onde desenrolam sua existência.
Sepé não é uma criação da fantasia. É um herói de carne e osso  (...).  É o primeiro grito de amor à terra do Rio Grande. Uma figura que pede um monumento. O nome racial que deve ser proclamado e glorificado no espírito das novas gerações.[3]
         O autor não faz apologia do lado espanhol, lusitano ou guarani, ao descrever o confronto de Caiboaté: “Quando as cargas cessam e os poucos esquadrões indígenas abandonam a disparada o tablado da carnificina, quase mil e quinhentos missioneiros rolam sobre as terras de Caiboaté, mortos em defesa da gleba nativa”.[4] O telurismo dos guaranis[5] supera o fato de estarem numa Missão espanhola, e esse telurismo não nega que o Rio Grande do Sul é brasileiro - superando a concepção de que Sepé Tiaraju defendeu um território espanhol numa postura anti-lusitana. O que se busca nesse romance ao destacar a figura do indígena, é enaltecer o exemplo de amor à terra. O gaúcho, enquanto resultante do cruzamento do colonizador com a índia, representa a continuidade do telurismo indígena que Sepé encarna. Esse elemento mestiço, o gaúcho, é “fruto bastardo” do clima moral da mulher indígena, clima este que não é sadio[6], será a bandeira do telurismo nas coxilhas rio-grandenses onde o gaúcho é relacionado a um “solitário cavaleiro beduíno”. A abordagem não abandona os guaranis com a decadência missioneira, pois após a dissolução dos povos, essa população transfigura-se no gaúcho que do seu lado tem apenas o amor à terra envolvido por um “mundo que lhe cerceia os espaços”. Os guaranis tinham o direito de resistir “a imposição violenta dos países ibéricos” pois o sentimento de apego à terra onde vivem e viveram os ancestrais é sagrado. A personificação da resistência ao arbítrio está em Sepé Tiaraju, cuja figura encarna o gênio da guerra e cuja lança “coberta de vermelho, embebe-se nos corpos portugueses, nos corpos espanhóis, levanta-se nos ares como uma bandeira rubra (...) Só Tiaraju parece, ele só, conter o poderio esmagador da legião portuguesa-espanhola.”[7]
A civilização foi cruel com o gaúcho, como filho da terra, nunca lhe reconheceram os direitos, apesar da máscara das leis democráticas (...). A estância enriqueceu o patrão e depois o colono. Mas empobreceu o gaúcho cujo desprendimento foi explorado sem escrúpulos. No entanto, ninguém como ele amou  tão profundamente o pequeno trato em que nasceu - o pago de seu primeiro sonho e de suas primeiras cantigas[8].


[1] O posicionamento favorável à resistência guarani está presente em Capistrano de Abreu, num livro freqüentemente citado por autores rio-grandenses que  destacam o telurismo: “Ceder terras com habitantes é amputação dolorosa, ainda hoje praticada; entregar as terras, deixando os bens de raiz, levando os moradores apenas os móveis e semoventes reporta a crueza dos assírios. Entretanto as duas cortes julgaram consumar facilmente este ultraje à humanidade se os jesuítas as ajudassem, pesando sobre o espírito dos índios. Os jesuítas acreditaram-se poderosos para tanto e bem caro pagaram este acesso de fraqueza e de vaidade: quando os índios se levantaram, desmentindo ou antes engrandecendo seus padres, mostrando que a catequese não fora mera domesticação e a vida interior vibrava-lhes na consciência, aos jesuítas foi atribuída a responsabilidade exclusiva em um movimento natural, humano e por isso mesmo irresistível”. (...) Houve má fé por parte da Comissão Demarcadora pois após a derrota dos guaranis “podia-se esperar a permuta, Gomes Freire empossar-se das sete missões e entregar a Colônia do Sacramento. Não se fez isto, dir-se-ia que, como os primitivos, estes mamelucos póstumos tinham por móvel único a destruição”. (...) Além de seu posicionamento sobre a guerra guaranítica, Capistrano de Abreu não é bem recebido por autores como Moysés Vellinho, devido a enfatizar a relação do Rio Grande do Sul com o Prata e em seu posicionamento sobre a presença portuguesa na Colônia do Sacramento: “Esse ninho, antes de contrabandistas que de soldados, foi talvez o berço de uma prole sinistra, os gauchos ou gaudérios, originários da margem esquerda do Prata”.(...) ABREU, João Capistrano de. Capítulos de história colonial (1500-1800). 2.ed., Rio de Janeiro: Tipografia Leuzinger, 1928, p. 256, 257, 258 e 251. A primeira edição é de 1907.
[2] “Tivessem ou não os padres interferência maior no episódio da resistência armada, como tiveram na resistência pacífica, quem lhes poderá negar o direito de legítima defesa subjetiva, sobre um patrimônio que era obra secular de seu esforço, de seu amor e de sua tenacidade.  Defendiam o Império que haviam formado com as armas de Cristo, agora ameaçado pela vizinhança de quem, por tantas vezes, lhes havia arrebatado o fruto espiritual do trabalho e arrasado as cidades pacíficas que haviam construído após decênio de penosa penetração nas matas a ganhar a confiança dos gentios”. ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, ORNELLAS, Manoelito de. Gaúchos e Beduínos: a origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul. 2ª ed., Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956, p. 98. A primeira edição é de 1948. Essa  2ª edição foi revista e ampliada pelo autor.
[3] ORNELLAS, Manoelito de. Tiaraju. Porto Alegre: Globo, 1945. p. 18.
[4] ORNELLAS, Idem, p. 134.
[5] “Na alma rude daquela gente a terra tem uma atração singular. Amam-na com a mesma força com que amam os próprios filhos.  Aquela imposta separação, o abandono das cabanas, feitas por suas próprias mãos, das lavouras que agora abrem os frutos de algodão, brancos como farinha de trigo que moeram, é a mais bárbara e desumana das imposições”. ORNELLAS, Manoelito de. A morte de Tiaraju. Província de São Pedro. Porto Alegre, Globo, n. 1, jun. 1945, p. 101.
[6] ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, op. cit. p. 140.
[7] ORNELLAS, A morte de Tiaraju, op. cit., p. 145.
[8] ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, op. cit., p.147 e 379.

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