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| Tiaraju. Livraria do Globo, 1960. |
Manoelito de
Ornellas considera natural a participação dos padres na Guerra Guaranítica[1]
pois estariam afirmando seu legítimo direito sobre o patrimônio erigido por seu
esforço, amor e tenacidade,[2]
destacando que as Missões, independente de serem lusas ou castelhanas, estavam
somente interessadas na conversão espiritual sem assumir posicionamentos
políticos. A idéia de conciliação está presente em relação a Portugal e à
Espanha que podem buscar um entendimento em sua origem ibérica comum. A
resistência dos guaranis durante a Guerra Guaranítica é compreendida e
legitimada pelo “telurismo”, o amor à terra onde se vive. Dessa forma,
descarta-se a dimensão política ou o fato de o índio missioneiro estar
localizado historicamente e respondendo ativamente ao processo mais amplo que é
o das frentes de expansão luso-espanhola, na fixação das fronteiras do extremo
sul do Brasil.
Nesse
quadro onde os personagens são retirados do contexto histórico, o autor acaba
recaindo no romance histórico como no livro Tiaraju,
que trata da vida do índio Sepé Tiaraju e dos acontecimentos que conduziram à
decadência das Missões. No relato, os guaranis não se revoltam contra os
portugueses ou contra os espanhóis, mas, e isso legitima suas ações, eles
resistem pelo amor que nutrem pela terra dos antepassados e onde desenrolam sua
existência.
Sepé não é uma criação da fantasia. É um
herói de carne e osso (...). É o primeiro grito de amor à terra do Rio
Grande. Uma figura que pede um monumento. O nome racial que deve ser proclamado
e glorificado no espírito das novas gerações.[3]
O
autor não faz apologia do lado espanhol, lusitano ou guarani, ao descrever o confronto
de Caiboaté: “Quando as cargas cessam e os poucos esquadrões indígenas
abandonam a disparada o tablado da carnificina, quase mil e quinhentos
missioneiros rolam sobre as terras de Caiboaté, mortos em defesa da gleba
nativa”.[4]
O telurismo dos guaranis[5]
supera o fato de estarem numa Missão espanhola, e esse telurismo não nega que o
Rio Grande do Sul é brasileiro - superando a concepção de que Sepé Tiaraju
defendeu um território espanhol numa postura anti-lusitana. O que se busca
nesse romance ao destacar a figura do indígena, é enaltecer o exemplo de amor à
terra. O gaúcho, enquanto resultante do cruzamento do colonizador com a índia,
representa a continuidade do telurismo indígena que Sepé encarna. Esse elemento
mestiço, o gaúcho, é “fruto bastardo” do clima moral da mulher indígena, clima
este que não é sadio[6],
será a bandeira do telurismo nas coxilhas rio-grandenses onde o gaúcho é
relacionado a um “solitário cavaleiro beduíno”. A abordagem não abandona os
guaranis com a decadência missioneira, pois após a dissolução dos povos, essa
população transfigura-se no gaúcho que do seu lado tem apenas o amor à terra
envolvido por um “mundo que lhe cerceia os espaços”. Os guaranis tinham o
direito de resistir “a imposição violenta dos países ibéricos” pois o
sentimento de apego à terra onde vivem e viveram os ancestrais é sagrado. A
personificação da resistência ao arbítrio está em Sepé Tiaraju, cuja figura
encarna o gênio da guerra e cuja lança “coberta de vermelho, embebe-se nos
corpos portugueses, nos corpos espanhóis, levanta-se nos ares como uma bandeira
rubra (...) Só Tiaraju parece, ele só, conter o poderio esmagador da legião portuguesa-espanhola.”[7]
A civilização foi cruel com o gaúcho, como
filho da terra, nunca lhe reconheceram os direitos, apesar da máscara das leis
democráticas (...). A estância enriqueceu o patrão e depois o colono. Mas
empobreceu o gaúcho cujo desprendimento foi explorado sem escrúpulos. No entanto,
ninguém como ele amou tão profundamente
o pequeno trato em que nasceu - o pago de seu primeiro sonho e de suas
primeiras cantigas[8].
[1] O posicionamento favorável à
resistência guarani está presente em Capistrano de Abreu, num livro
freqüentemente citado por autores rio-grandenses que destacam o telurismo: “Ceder terras com habitantes
é amputação dolorosa, ainda hoje praticada; entregar as terras, deixando os
bens de raiz, levando os moradores apenas os móveis e semoventes reporta a
crueza dos assírios. Entretanto as duas cortes julgaram consumar facilmente
este ultraje à humanidade se os jesuítas as ajudassem, pesando sobre o espírito
dos índios. Os jesuítas acreditaram-se poderosos para tanto e bem caro pagaram
este acesso de fraqueza e de vaidade: quando os índios se levantaram,
desmentindo ou antes engrandecendo seus padres, mostrando que a catequese não
fora mera domesticação e a vida interior vibrava-lhes na consciência, aos
jesuítas foi atribuída a responsabilidade exclusiva em um movimento natural,
humano e por isso mesmo irresistível”. (...) Houve má fé por parte da Comissão
Demarcadora pois após a derrota dos guaranis “podia-se esperar a permuta, Gomes
Freire empossar-se das sete missões e entregar a Colônia do Sacramento. Não se
fez isto, dir-se-ia que, como os primitivos, estes mamelucos póstumos tinham
por móvel único a destruição”. (...) Além de seu posicionamento sobre a guerra
guaranítica, Capistrano de Abreu não é bem recebido por autores como Moysés
Vellinho, devido a enfatizar a relação do Rio Grande do Sul com o Prata e em
seu posicionamento sobre a presença portuguesa na Colônia do Sacramento: “Esse
ninho, antes de contrabandistas que de soldados, foi talvez o berço de uma prole
sinistra, os gauchos ou gaudérios, originários da margem esquerda do
Prata”.(...) ABREU, João Capistrano de. Capítulos
de história colonial (1500-1800). 2.ed., Rio de Janeiro: Tipografia Leuzinger,
1928, p. 256, 257, 258 e 251. A primeira edição é de 1907.
[2] “Tivessem ou não os padres
interferência maior no episódio da resistência armada, como tiveram na
resistência pacífica, quem lhes poderá negar o direito de legítima defesa
subjetiva, sobre um patrimônio que era obra secular de seu esforço, de seu amor
e de sua tenacidade. Defendiam o Império
que haviam formado com as armas de Cristo, agora ameaçado pela vizinhança de
quem, por tantas vezes, lhes havia arrebatado o fruto espiritual do trabalho e
arrasado as cidades pacíficas que haviam construído após decênio de penosa
penetração nas matas a ganhar a confiança dos gentios”. ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, ORNELLAS, Manoelito
de. Gaúchos e Beduínos: a origem
étnica e a formação social do Rio Grande do Sul. 2ª ed., Rio de Janeiro: J. Olympio,
1956, p. 98. A primeira edição é de 1948. Essa
2ª edição foi revista e ampliada pelo autor.
[3] ORNELLAS, Manoelito de. Tiaraju. Porto Alegre: Globo, 1945. p.
18.
[4] ORNELLAS, Idem, p. 134.
[5] “Na alma rude daquela gente
a terra tem uma atração singular. Amam-na com a mesma força com que amam os
próprios filhos. Aquela imposta
separação, o abandono das cabanas, feitas por suas próprias mãos, das lavouras
que agora abrem os frutos de algodão, brancos como farinha de trigo que moeram,
é a mais bárbara e desumana das imposições”. ORNELLAS, Manoelito de. A morte de
Tiaraju. Província de São Pedro.
Porto Alegre, Globo, n. 1, jun. 1945, p. 101.
[6] ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, op. cit. p. 140.
[7] ORNELLAS, A morte de
Tiaraju, op. cit., p. 145.
[8] ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, op. cit., p.147 e
379.

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