Porto do Rio Grande em 1908

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

GAÚCHOS E BEDUÍNOS - III

Manoelito de Ornellas. Acervo: www.pucrs.br 

Manoelito de Ornellas privilegia o papel dos jesuítas e os defende, destacando que nas Missões, como um espaço fechado para a entrada do bandeirante, do encomendeiro e da sociedade colonial, o índio estava a salvo da promiscuidade. Fora do aldeamento vigorava a escravidão moral e cívica:
A uma recente afirmativa de que os índios aldeados viviam numa absoluta escravidão moral em relação aos padres, perguntar-se-ia em que parte do território colonial da América obtiveram eles trato mais afável, mais humano, mais paternal e cristão?  Não se poderá jamais admitir a absoluta escravidão moral num povo que se dava perfeitamente bem na vida que vivia, “porque nada lhe faltava”[1].
         A atividade dos padres jesuítas representou um épico que envolveu tanto portugueses como espanhóis que estavam  “empolgados pela paixão mística da catequese”. Com destaque para o padre Sepp: “Entre as muitas reivindicações históricas que o Rio Grande tem ainda a fazer quando chegarmos ao conhecimento mais exato e mais profundo de nosso passado, está à glorificação do padre Antônio Sepp”. Ele representa no Rio Grande do Sul “missioneiro o que Anchieta significou para o centro do Brasil português”. Deve-se ao “sacerdote tirolês as primeiras balizas da civilização” rio-grandense.[2]
         Os missionários necessitavam de grande renúncia e heroísmo para transpor a natureza hostil e sobreviver à “sanha sangüinária do gentio”.[3] Além disso, eles introduziram nas Missões elementos mais avançados da civilização em relação aos meios precários da época[4]. A relação permanece entre atraso e inferioridade ou como prefere o autor, “bem estar civilizado”. A condição tribal é insatisfatória para a realização humana e a presença do padre é indispensável para garantir essa  realização. Rebatendo críticas de que os guaranis viviam numa “absoluta escravidão moral em relação aos padres”, Ornellas acredita que o tratamento dispensado pelos jesuítas aos índios foi essencialmente paternal e cristão[5] Quando a obra civilizadora do jesuíta entrou na “mais deplorável decadência” e com a posterior expulsão dos loyolanos, o guarani, como cidadão “passou a mais negra condição de miséria”, a crise foi total em “tribos que chegaram a conhecer a riqueza e o bem estar”[6] Conclui-se que anterior à chegada do jesuíta, não havia bem-estar na sociedade guarani.
         O Tratado de Madri é debatido em longas passagens do livro Gaúchos e beduínos. Ornellas, numa afirmação questionável, considera que esse tratado é o precursor da doutrina do pan-americanismo[7] destacando que apesar do Tratado ser impiedoso por forçar os índios aldeados “à transmigração, ele representa uma solução conciliatória e definitiva às divergências na América, pois, se por um lado, criava um comovente e grave problema humano, por outro dirimiu contentas territoriais”.[8] Porém, a solução adequada para o litígio de fronteiras entre Portugal e Espanha não foi adotada:
O Tratado de Madri teria sido irrepreensível se aberto o precedente da permanência dos lusitanos na Colônia do Sacramento, houvesse permitido também a permanência dos índios nas reduções do Uruguai, servindo-se, para a orientação diretiva das mesmas, dos jesuítas portugueses, pois a absorção dos povos missioneiros não seria difícil, uma vez que a língua espanhola era falada pelo gentio.[9]


[1] ORNELLAS, Manoelito de. Gaúchos e Beduínos: a origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul. 2ª ed., Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956. A primeira edição é de 1948, P. 86-87. Essa  2ª edição foi revista e ampliada pelo autor.
[2] ORNELLAS, Manoelito de. Missionários da Companhia de Jesus no Rio Grande do Sul. Província de São Pedro. Porto Alegre,  Globo, nº 8, março, 1947, p. 98-9.
[3] ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, op. cit. p. 96.
[4] ORNELLAS, idem, 1956, p.85.
[5] ORNELLAS, ibidem, 1956, p. 86.
[6] ORNELLAS, ibidem, 1956 p. 106.
[7] ORNELLAS, ibidem, 1956, p. 70.
[8] ORNELLAS, ibidem, 1956, p.74.
[9] ORNELLAS, ibidem, 1956, p.105.

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