![]() |
| Manoelito de Ornellas. Acervo: www.pucrs.br |
Manoelito de Ornellas privilegia o papel dos jesuítas e os defende,
destacando que nas Missões, como um espaço fechado para a entrada do
bandeirante, do encomendeiro e da
sociedade colonial, o índio estava a salvo da promiscuidade. Fora do aldeamento
vigorava a escravidão moral e cívica:
A uma
recente afirmativa de que os índios aldeados viviam numa absoluta escravidão
moral em relação aos padres, perguntar-se-ia em que parte do território colonial
da América obtiveram eles trato mais afável, mais humano, mais paternal e
cristão? Não se poderá jamais admitir a
absoluta escravidão moral num povo que se dava perfeitamente bem na vida que
vivia, “porque nada lhe faltava”[1].
A
atividade dos padres jesuítas representou um épico que envolveu tanto
portugueses como espanhóis que estavam
“empolgados pela paixão mística da catequese”. Com destaque para o padre
Sepp: “Entre as muitas reivindicações históricas que o Rio Grande tem ainda a
fazer quando chegarmos ao conhecimento mais exato e mais profundo de nosso
passado, está à glorificação do padre Antônio Sepp”. Ele representa no Rio
Grande do Sul “missioneiro o que Anchieta significou para o centro do Brasil
português”. Deve-se ao “sacerdote tirolês as primeiras balizas da civilização” rio-grandense.[2]
Os
missionários necessitavam de grande renúncia e heroísmo para transpor a
natureza hostil e sobreviver à “sanha sangüinária do gentio”.[3]
Além disso, eles introduziram nas Missões elementos mais avançados da
civilização em relação aos meios precários da época[4].
A relação permanece entre atraso e inferioridade ou como prefere o autor, “bem
estar civilizado”. A condição tribal é insatisfatória para a realização humana
e a presença do padre é indispensável para garantir essa realização. Rebatendo críticas de que os
guaranis viviam numa “absoluta escravidão moral em relação aos padres”,
Ornellas acredita que o tratamento dispensado pelos jesuítas aos índios foi
essencialmente paternal e cristão[5]
Quando a obra civilizadora do jesuíta entrou na “mais deplorável decadência” e
com a posterior expulsão dos loyolanos, o guarani, como cidadão “passou a mais
negra condição de miséria”, a crise foi total em “tribos que chegaram a
conhecer a riqueza e o bem estar”[6]
Conclui-se que anterior à chegada do jesuíta, não havia bem-estar na sociedade
guarani.
O
Tratado de Madri é debatido em longas passagens do livro Gaúchos e beduínos. Ornellas, numa afirmação questionável,
considera que esse tratado é o precursor da doutrina do pan-americanismo[7]
destacando que apesar do Tratado ser impiedoso por forçar os índios aldeados “à
transmigração, ele representa uma solução conciliatória e definitiva às
divergências na América, pois, se por um lado, criava um comovente e grave
problema humano, por outro dirimiu contentas territoriais”.[8]
Porém, a solução adequada para o litígio de fronteiras entre Portugal e Espanha
não foi adotada:
O Tratado de Madri teria sido irrepreensível
se aberto o precedente da permanência dos lusitanos na Colônia do Sacramento,
houvesse permitido também a permanência dos índios nas reduções do Uruguai,
servindo-se, para a orientação diretiva das mesmas, dos jesuítas portugueses,
pois a absorção dos povos missioneiros não seria difícil, uma vez que a língua
espanhola era falada pelo gentio.[9]
[1] ORNELLAS, Manoelito de. Gaúchos e Beduínos: a origem étnica e a
formação social do Rio Grande do Sul. 2ª ed., Rio de Janeiro: J. Olympio, 1956.
A primeira edição é de 1948, P. 86-87. Essa
2ª edição foi revista e ampliada pelo autor.
[2] ORNELLAS, Manoelito de. Missionários
da Companhia de Jesus no Rio Grande do Sul. Província
de São Pedro. Porto Alegre, Globo, nº
8, março, 1947, p. 98-9.
[3] ORNELLAS, Gaúchos e Beduínos, op. cit. p. 96.
[4] ORNELLAS, idem, 1956, p.85.
[5] ORNELLAS, ibidem, 1956, p.
86.
[6] ORNELLAS, ibidem, 1956 p.
106.
[7] ORNELLAS, ibidem, 1956, p.
70.
[8] ORNELLAS, ibidem, 1956, p.74.
[9] ORNELLAS, ibidem, 1956,
p.105.

Nenhum comentário:
Postar um comentário