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| Rio Grande do Sul na planta de Antonio Córdova (1780). Acervo: IHGRS. |
Em 1804 foi publicado um estudo mostrando as possibilidades econômicas e o papel militar da Capitania do Rio Grande. O título do trabalho oferecido ao rei D. João é Descrição corográfica, política, civil e militar da Capitania do Rio Grande de São Pedro do Sul escrito por Domingos José Marques Fernandes. Os manuscritos foram copiados do original existente no Arquivo Histórico Militar de Lisboa e publicado pelo Instituto Anchietano de Pesquisas com o título de A primeira história gaúcha.
Domingos
Fernandes propôs a criação dos municípios de Porto Alegre, Rio Pardo, Rio
Grande e Santo Antônio da Patrulha, os quais foram oficializados em 1809. O autor foi escrivão de sesmarias em Porto
Alegre, deslocando-se para o Rio de Janeiro quando da vinda da família real
portuguesa para o Brasil em 1808, tornando-se escrivão da Ouvidoria Geral do
Crime. “O amor à Pátria, o zelo da felicidade desta Monarquia, e os louváveis
desejos de fazer serviços e merecer a graça e benevolência de V. Alteza Real”
foram os fatores alegados pelo autor na dedicatória a D. João (Rei de Portugal
desde 1799 e passou a ser D. João VI em 1816) para a publicação. Destacava
também que na Capitania existiam “vassalos verdadeiramente portugueses, amantes
do seu Príncipe com preferência a todo respeito humano, experimentados e
provados em despesas, em resolução e em ações memoráveis”.[1]
O
autor realizou uma descrição física da Capitania, da criação do gado, da
exportação de charque, fatores que levaram ao povoamento e aspectos da formação
histórica. Ao referir-se ao Tratado de Madri, Domingos Fernandes acreditava no
bom senso das Coroas de Portugal e Espanha, na disputa por territórios na Bacia
do Prata. O confronto entre guaranis e demarcadores deveu-se aos “insolentes” índios
que se atreveram a fazer oposição aos demarcadores que “supunham tudo humilde e
pacífico”,[2]
não fazendo relações entre a guerra guaranítica e a participação dos jesuítas.
Os guaranis eram denominados de “homens bárbaros, ignorantes e inertes”,
definindo serem eles os responsáveis pelas consequências em desrespeitar o
Tratado de Madri. Sem assumir posturas anti-jesuíticas, o autor centrou sua
preocupação em exaltar o patriotismo da população da Capitania, como é o caso
de Borges do Canto, homem piedoso, humano, justo “exemplar do cristianismo nas
ações de graças a Deus, e na veneração das imagens e no Sagrado Culto”,
responsável pela conquista das sete povoações orientais do rio Uruguai. “O
miserável estado em que viviam os índios em poder dos espanhóis era pior que o
dos nossos escravos, porque eram mal tratados de sustento e de vestidos” sendo
obrigados a realizar tarefas penosas “que mal podiam completar em cada dia, e
as suas faltas eram castigadas publicamente com açoites, assim os homens como
as mulheres e obrigados a dizer, por fim do castigo e como agradecimento desta
boa esmola, Deus te pague“.[3]
Ressaltando episódios épicos, como o de Borges do Canto que, em 1801,
conquistou o território missioneiro ao lado de algumas dezenas de aventureiros,
e indicando que a divisão “natural, justa, racional, própria de homens de boa
vontade e digna de fé”, buscando garantir a “paz e a amizade perpétua”, seria a
fronteira da Capitania avançar até o Rio da Prata,[4]
Domingos Fernandes na condição de funcionário bragantino, defendeu a expansão
lusitana no Prata e o povoamento do Rio Grande do Sul por casais dos Açores
para garantir a ocupação do território.
A
Descrição indica as perspectivas da
Capitania para os investimentos e povoamento, especialmente pela posição
estratégica frente aos interesses de Portugal para expansão ao Prata. Não são feitas referências a documentos,
livros ou fontes orais para elaboração da Descrição
corográfica. É uma narração dos acontecimentos militares,
administrativos, das ações no sentido de fixar os limites territoriais, da
exploração econômica da terra e da necessidade de ocupação sistemática para
garantir a posse e a prosperidade da Capitania.
[2] Idem, p. 53.
[4] Ibidem, p. 58.

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