Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

FONTES PARA O ESTUDO DA HISTORIOGRAFIA DO RS - DOMINGOS JOSÉ MARQUES FERNANDES


Rio Grande do Sul na planta de Antonio Córdova (1780). Acervo: IHGRS. 

      Em 1804 foi publicado um estudo mostrando as possibilidades econômicas e o papel militar da Capitania do Rio Grande. O título do trabalho oferecido ao rei D. João é Descrição corográfica, política, civil e militar da Capitania do Rio Grande de São Pedro do Sul escrito por Domingos José Marques Fernandes. Os manuscritos foram copiados do original existente no Arquivo Histórico Militar de Lisboa e publicado pelo Instituto Anchietano de Pesquisas com o título de A primeira história gaúcha.
                   Domingos Fernandes propôs a criação dos municípios de Porto Alegre, Rio Pardo, Rio Grande e Santo Antônio da Patrulha, os quais foram oficializados em 1809.  O autor foi escrivão de sesmarias em Porto Alegre, deslocando-se para o Rio de Janeiro quando da vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808, tornando-se escrivão da Ouvidoria Geral do Crime. “O amor à Pátria, o zelo da felicidade desta Monarquia, e os louváveis desejos de fazer serviços e merecer a graça e benevolência de V. Alteza Real” foram os fatores alegados pelo autor na dedicatória a D. João (Rei de Portugal desde 1799 e passou a ser D. João VI em 1816) para a publicação. Destacava também que na Capitania existiam “vassalos verdadeiramente portugueses, amantes do seu Príncipe com preferência a todo respeito humano, experimentados e provados em despesas, em resolução e em ações memoráveis”.[1] 
           O autor realizou uma descrição física da Capitania, da criação do gado, da exportação de charque, fatores que levaram ao povoamento e aspectos da formação histórica. Ao referir-se ao Tratado de Madri, Domingos Fernandes acreditava no bom senso das Coroas de Portugal e Espanha, na disputa por territórios na Bacia do Prata. O confronto entre guaranis e demarcadores deveu-se aos “insolentes” índios que se atreveram a fazer oposição aos demarcadores que “supunham tudo humilde e pacífico”,[2] não fazendo relações entre a guerra guaranítica e a participação dos jesuítas. Os guaranis eram denominados de “homens bárbaros, ignorantes e inertes”, definindo serem eles os responsáveis pelas consequências em desrespeitar o Tratado de Madri. Sem assumir posturas anti-jesuíticas, o autor centrou sua preocupação em exaltar o patriotismo da população da Capitania, como é o caso de Borges do Canto, homem piedoso, humano, justo “exemplar do cristianismo nas ações de graças a Deus, e na veneração das imagens e no Sagrado Culto”, responsável pela conquista das sete povoações orientais do rio Uruguai. “O miserável estado em que viviam os índios em poder dos espanhóis era pior que o dos nossos escravos, porque eram mal tratados de sustento e de vestidos” sendo obrigados a realizar tarefas penosas “que mal podiam completar em cada dia, e as suas faltas eram castigadas publicamente com açoites, assim os homens como as mulheres e obrigados a dizer, por fim do castigo e como agradecimento desta boa esmola, Deus te pague“.[3] 
         Ressaltando episódios épicos, como o de Borges do Canto que, em 1801, conquistou o território missioneiro ao lado de algumas dezenas de aventureiros, e indicando que a divisão “natural, justa, racional, própria de homens de boa vontade e digna de fé”, buscando garantir a “paz e a amizade perpétua”, seria a fronteira da Capitania avançar até o Rio da Prata,[4] Domingos Fernandes na condição de funcionário bragantino, defendeu a expansão lusitana no Prata e o povoamento do Rio Grande do Sul por casais dos Açores para garantir a ocupação do território.
           A Descrição indica as perspectivas da Capitania para os investimentos e povoamento, especialmente pela posição estratégica frente aos interesses de Portugal para expansão ao Prata.  Não são feitas referências a documentos, livros ou fontes orais para elaboração da Descrição corográfica. É uma narração dos acontecimentos militares, administrativos, das ações no sentido de fixar os limites territoriais, da exploração econômica da terra e da necessidade de ocupação sistemática para garantir a posse e a prosperidade da Capitania.

 [1] FERNANDES, Domingos José Marques. A primeira história gaúcha. Pesquisas, São Leopoldo, Instituto Anchietano de Pesquisas, n. 15, 1961, p. 12. 
[2] Idem, p. 53.
[3] Ibidem, p. 67-68. 
[4] Ibidem, p. 58.

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