Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

sábado, 14 de dezembro de 2019

ELEIÇÕES E FRAUDES II

Getúlio Vargas durante a Revolução de 1930. Fotografia de Claro Jansson. 

Após duas guerras civis, a Federalista (1893) e a Assisista (1923), o Rio Grande do Sul encontrou no governo de Getúlio Vargas (1928), a canalização das diferenças regionais para o campo de um inimigo em comum, além da fronteira rio-grandense. A unificação destas elites oligárquicas, estava associada a uma crítica à política em nível nacional que favorecia São Paulo e Minas Gerais no comando da administração do país. A saída dos mineiros da dobradinha café com leite, promoveu a rearticulação política através da Aliança Liberal.
No mês de fevereiro de 1930, os preparativos das eleições agitam os rio-grandinos (especialmente os homens pois a mulher não tem direito ao voto) e este debate passa pelo jornal Rio Grande. A importância de através do voto romper com o domínio dos paulistas, leva o jornal a fazer um apelo aos eleitores para que votem em Getúlio Vargas e João Pessoa: “Procura e examina o teu título. Se ainda não recebeste, trata imediatamente de recebê-lo. Se o perdestes, pede sem qualquer demora uma segunda via. Se o que tens é provisório, pede sua substituição pelo definitivo. Procura informar-te imediatamente em que mesa deves votar e onde está localizada esta mesa”. A chamada ainda pede que o eleitor compareça ao Centro Republicano (praça Xavier Ferreira) ou ao Clube Gaspar Martins (rua General Bacelar esquina Zaloni) “onde encontrarás durante o dia ou à noite, pessoas habilitadas a dar-te todas as informações e os passos necessários para aqueles fins”. E conclui: “Comparece ao Centro Republicano para receberes como lembrança do prélio cívico de 1º de março uma caderneta para guarda do teu título eleitoral. Não é admissível que qualquer eleitor deixe de correr às urnas. Não fazê-lo é faltar a um dever de patriotismo”. (Rio Grande, 20/02/1930)
Como afirmou Flores da Cunha na manchete do jornal neste mesmo dia, o primeiro passo seria a via legal de empunhar o título eleitoral, porém “se todos os nossos direitos forem fraudados troquemos o título pela carabina”. Alguns meses depois, Flores da Cunha teve intensa participação militar na Revolução de 1930...
No Rio Grande do Sul a chapa encabeçada por Getúlio Vargas foi amplamente vitoriosa com 298.627 votos contra 982 votos de Júlio Prestes. Na cidade do Rio Grande, a articulação teve sucesso, pois os candidatos da Aliança Liberal contabilizaram 7.919 votos contra somente 4 votos dos candidatos ligados ao governo federal. Porém, estas eleições realizadas em 1º de março de 1930, em nível nacional, indicaram a vitória do candidato da continuidade, o paulista Júlio Prestes que deveria suceder o também paulista Washington Luís. Sob denúncias de fraude, em outubro de 1930, um levante militar impediu a posse de Júlio Prestes e destituiu do poder o presidente. O governo provisório que tomou posse, teve em Getúlio Vargas o grande articulador que sistematicamente lançou as bases de um país em sintonia com os valores da modernidade capitalista, a partir de uma ótica autoritária e nacionalista. Para Vargas o regionalismo legitimou a dominação de oligarquias locais fundadas na corrupção eleitoral e sem projetos de construção nacional.
Atualmente, as práticas eleitorais viciadas da República Velha parecem curiosidades do passado, porém algumas expressões clientelistas ainda mantém-se presentes no Brasil do final do século 20. As relações de mando local perpetuam-se através da miséria e do analfabetismo de considerável parte da população. Os componentes fraudadores também podem estar presentes, de modo mais sutil, através de outros mecanismos: o poder econômico para fins eleitorais; a indução dos votos através dos institutos de pesquisa e especialmente, na multifacetada linguagem da mídia que constrói opiniões coletivas e seletivas sobre o voto a ser dado pelo cidadão, a partir de seus interesses na perpetuação ou exclusão de projetos de governo. Mecanismos e linguagens estranhos à realidade de 1930, mas que no Brasil, um país fundado na continuidade e na conciliação, com frequência demonstram que no novo sempre perpetua-se muito de antigas práticas.

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