![]() |
| Getúlio Vargas durante a Revolução de 1930. Fotografia de Claro Jansson. |
Após duas
guerras civis, a Federalista (1893) e a Assisista (1923), o Rio Grande do Sul
encontrou no governo de Getúlio Vargas (1928), a canalização das diferenças
regionais para o campo de um inimigo em comum, além da fronteira rio-grandense.
A unificação destas elites oligárquicas, estava associada a uma crítica à
política em nível nacional que favorecia São Paulo e Minas Gerais no comando da
administração do país. A saída dos mineiros da dobradinha café com leite, promoveu a rearticulação política
através da Aliança Liberal.
No mês de
fevereiro de 1930, os preparativos das eleições agitam os rio-grandinos
(especialmente os homens pois a mulher não tem direito ao voto) e este debate
passa pelo jornal Rio Grande. A
importância de através do voto romper com o domínio dos paulistas, leva o
jornal a fazer um apelo aos eleitores para que votem em Getúlio Vargas e João
Pessoa: “Procura e examina o teu título. Se ainda não recebeste, trata
imediatamente de recebê-lo. Se o perdestes, pede sem qualquer demora uma
segunda via. Se o que tens é provisório, pede sua substituição pelo definitivo.
Procura informar-te imediatamente em que mesa deves votar e onde está
localizada esta mesa”. A chamada ainda pede que o eleitor compareça ao Centro
Republicano (praça Xavier Ferreira) ou ao Clube Gaspar Martins (rua General
Bacelar esquina Zaloni) “onde encontrarás durante o dia ou à noite, pessoas
habilitadas a dar-te todas as informações e os passos necessários para aqueles
fins”. E conclui: “Comparece ao Centro Republicano para receberes como
lembrança do prélio cívico de 1º de março uma caderneta para guarda do teu
título eleitoral. Não é admissível que qualquer eleitor deixe de correr às
urnas. Não fazê-lo é faltar a um dever de patriotismo”. (Rio Grande, 20/02/1930)
Como afirmou
Flores da Cunha na manchete do jornal neste mesmo dia, o primeiro passo seria a
via legal de empunhar o título eleitoral, porém “se todos os nossos direitos
forem fraudados troquemos o título pela carabina”. Alguns meses depois, Flores
da Cunha teve intensa participação militar na Revolução de 1930...
No Rio
Grande do Sul a chapa encabeçada por Getúlio Vargas foi amplamente vitoriosa
com 298.627 votos contra 982 votos de Júlio Prestes. Na cidade do Rio Grande, a
articulação teve sucesso, pois os candidatos da Aliança Liberal contabilizaram
7.919 votos contra somente 4 votos dos candidatos ligados ao governo federal.
Porém, estas eleições realizadas em 1º de março de 1930, em nível nacional,
indicaram a vitória do candidato da continuidade, o paulista Júlio Prestes que
deveria suceder o também paulista Washington Luís. Sob denúncias de fraude, em
outubro de 1930, um levante militar impediu a posse de Júlio Prestes e
destituiu do poder o presidente. O governo provisório que tomou posse, teve em
Getúlio Vargas o grande articulador que sistematicamente lançou as bases de um
país em sintonia com os valores da modernidade capitalista, a partir de uma
ótica autoritária e nacionalista. Para Vargas o regionalismo legitimou a
dominação de oligarquias locais fundadas na corrupção eleitoral e sem projetos
de construção nacional.
Atualmente,
as práticas eleitorais viciadas da República Velha parecem curiosidades do
passado, porém algumas expressões clientelistas ainda mantém-se presentes no
Brasil do final do século 20. As relações de mando local perpetuam-se através
da miséria e do analfabetismo de considerável parte da população. Os
componentes fraudadores também podem estar presentes, de modo mais sutil,
através de outros mecanismos: o poder econômico para fins eleitorais; a indução
dos votos através dos institutos de pesquisa e especialmente, na multifacetada
linguagem da mídia que constrói opiniões coletivas e seletivas sobre o voto a
ser dado pelo cidadão, a partir de seus interesses na perpetuação ou exclusão
de projetos de governo. Mecanismos e linguagens estranhos à realidade de 1930,
mas que no Brasil, um país fundado na continuidade e na conciliação, com frequência
demonstram que no novo sempre perpetua-se muito de antigas práticas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário