A
miséria no campo, para Carlos Santos, estaria relacionada com a necessidade de
uma reforma agrária. Defendendo a orientação da Organização das Nações Unidas
no sentido de implementação da Reforma Agrária ou da concessão de terras ele
afirmou que este é “o único caminho para reduzir o desemprego e a ocorrência de
subempregos em minifúndios, melhorar a distribuição de renda e eliminar a
subnutrição crônica que ocorre em muitas regiões da América Latina”. Para o
Deputado a estrutura tradicional de controle da terra provocava “o contraste
chocante e insólito, despudorado e insultuoso de um lado e a visão do senhor
dos latifúndios, ultrapassada em seu alcance pela vastidão das terras
desservidas, sem uso, sem utilidade, sem função social, sem nada, peso morto
nas dimensões geofísicas do País”. Impelido pelas palavras do papa João Paulo
II “a terra é do homem”, ele proferiu um discurso associando o uso da terra
enquanto uma dimensão social imprescindível para solucionar parte dos problemas
brasileiros: “A terra não pode continuar a oferecer o contraste chocante: de um
lado a visão do SENHOR, dono de terras sem função social, do outro lado à
indigência clamorosa do proletário da terra, marginalizado, esquecido nas
barrancas da sua desdita, sem um palmo de terra para reunir e alojar a família
ou dar-lhe a tarefa sublime da fecundidade”. Um parlamentar negro ao questionar
a grande propriedade também traz a tona um inconsciente de muitas gerações de
escravos negros que desde o século XVI tiveram sua curta existência de trabalho
brutalizado, na dependência da economia agro-exportadora fundada no latifúndio
escravista e nas relações de mando senhorial.
Os
temas abordados por Carlos Santos são de impressionante atualidade mesmo
passados mais de vinte anos de certos posicionamentos. É o caso de um projeto
de lei por ele elaborado, instituindo o Programa Emergencial de Alimentos que
foi arquivado por ferir a Constituição de 1969, a qual delegava competência
exclusiva à presidência da república leis que tratassem de matérias de ordem
financeira ou de despesa pública. “Criou-se então uma situação altamente grave,
pois o Governo, não permitindo ao Poder Legislativo resolver os graves
problemas da população, deixa de lado suas obrigações sociais, em especial as
referentes à fome”. Ele considerava a fome o maior mal do Brasil, discussão que
ele já promovia desde a década de 1930 quando foi Deputado Classista.
Propôs
vários projetos de caráter social aos trabalhadores como é o caso do
Salário-Desemprego e esbravejou em diversas oportunidades com o descaso contra
os menores ou os idosos. Em seu último pronunciamento na Câmara dos Deputados
em 1981 ele expressou uma profunda decepção e frustração “pelo pouco, quase
nada, em verdade, feito em prol do excepcional, do carenciado físico, mental e
sensorial, no espaço de tempo ruidosamente denominado Ano Internacional do
Deficiente. O que resultou, de fato, deficiente nesse período, foram às
comissões marcadas pelo incrível ranço tecnocrata; a publicidade mais
dispendiosa do que eficiente (...) Assim foi no Ano Internacional da Mulher e o
mesmo ocorreu no Ano Internacional da Criança. Que se precavenham os velhos...
os mais vividos, aqueles que marcam na ancianidade sofrida as fronteiras de uma
outra vida. Não esperem melhor sorte: vem aí o Ano Internacional do Idoso”.
Uma
trajetória parlamentar invejável de enfrentamentos dos problemas brasileiros
buscando a construção de princípios de justiça social e de cidadania a todos
sem distinção de segmento social, formação cultural ou racial, chegava ao fim
com o término do mandato em 1982. Conforme Elmo Clemente e Eni Barbosa, “O
Congresso Nacional iria perder o deputado Carlos Santos, pois não se
candidatara à reeleição. Grande homem, grande figura, grande político! Uma
perda irreparável! Assim era Carlos Santos. No Congresso, matéria importante a
ser votada. Cirurgia recente o mantém no leito do Hospital. Precisa comparecer,
votar! Consulta o médico. Este o proíbe de deixar o leito. Horas depois,
sentado com a modéstia de sempre, no mesmo lugar, aquele homem negro de cabeça
branca, dizia: Presente!”.
Finalizando
o seu mandato do período 1979-82, em seu discurso de despedida ele agradece aos
elogios recebidos de outros parlamentares, acredita merecer a aposentadoria e
fez um balanço de sua trajetória de vida: “Fico contando nos dedos as infinitas
bondades com que o Supremo Regedor dos povos me acumulou: 78 anos de idade, 20
netos, 14 bisnetos, 54 anos de casado. Acho que realmente cumpri a minha
tarefa; dei meu recado e tenho o dever até de ceder meu lugar aos moços, porque
eles tem mais força, mais entusiasmo, não maior esperança, mais energia, para
construir este Brasil, que todos queremos, este Brasil grande, generoso, feliz,
livre e respeitado, Brasil dos nossos filhos, Brasil dos filhos dos nossos
filhos; Brasil que há de cumprir, mercê de Deus e da vontade extraordinária dos
seus filhos, a sua excepcional missão e atingir a glória sem par nos seus
alevantados destinos”.

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