Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

ANTECEDENTES DA ALFÂNDEGA - IV


O estabelecimento da Alfândega gerou protestos, conforme se constata da carta que Silva Gama escreveu a D. Luiz de Vasconcelos e Souza em 30 de maio de 1805: “Além da sensação de estranheza ordinária que sempre causam os novos estabelecimentos, consta-me que alguns negociantes, sacrificando aos seus próprios interesses os da Pátria e do soberano tem requerido, em nome destes povos, com razões frívolas e contraditórias, a extinção do dito estabelecimento; porém, felizmente, não escapa as penetrantes vistas de V. Excia. que as Alfândegas são o meio mais suave e menos sensível por que se exigem dos povos os impostos, impostos indispensáveis para acabarem de suprir as despesas desta Capitania, na qual a instituição da Alfândega só verdadeiramente lhe pode ser nociva por verem que fica estragada e proibida a ruinosa introdução das fazendas de contrabando”. Esta correspondência demonstra a resistência de segmentos do comércio frente aos impostos estabelecidos e o controle fiscal com a criação de uma Alfândega. É uma reação oficial a um documento que suplica pela redução de impostos e contrário a instalação de uma Alfândega datado de 1804 foi assinado por 61 comerciantes e fazendeiros:
“Os habitantes do Rio Grande, moradores do Povo Novo e Costa de Pelotas, se apresentam, diante do muito Nobre e Ilustre senado a formar as suas queixas, originadas pelas mais tristes circunstâncias em que se pode ver qualquer colônia das mais abatidas e flageladas. O Continente do Rio Grande povoado em 36 do século passado tem sido sempre atormentado com despesas, e com impostos exorbitantes, e de nenhum modo proporcionais as suas riquezas. Logo no seu princípio teve de contribuir com cavalos, bois, peões e tudo mais necessário para a expedição de limites de que foi encarregado o general Gomes Freire de Andrada. Em 1763, Pedro Cevallos se apoderou do Rio Grande, mandou os habitantes que não puderam fugir, carregados de grilhões e algemas a povoar Maldonado e as outras colônias espanholas. O resto, uns embarcaram para o Rio de Janeiro aonde chegaram mortos de fome e de nudez, e outros, finalmente se meteram aos sertões de São Paulo e Laguna, e pelo caminho pereceram todos de fome e de cansaço. Em 1777, reconquistou o general João Henrique Böhm, esta colônia sobre os espanhóis, e os nossos maiores, vieram de povoar este continente: mas o flagelo da guerra cessou de atormentar o Continente, não faltou o dos impostos que caíram em grande número sobre uma colônia, que apenas nascida estava, precisando dos mais prontos e decididos socorros para que algum dia se pudessem colher abundantes frutos. Vimo-nos obrigados a pagar os dízimos e não obstante isto, estamos sustentando os Ministros do Culto Religioso: somos obrigados a pagar imensos direitos pelas mulas enviadas a S. Paulo e Minas. Segue-se o sempre fatal, pernicioso contrato dos couros, fomos pois obrigados a pagar a razão de vinte e cinco por cento deste tributo de couros (...). Para remediar, e obviar os grandes, e repetidos naufrágios que havia na barra, visto que o governo não dava providência alguma, nós damos vinte mil réis por cada embarcação que sai deste porto, a fim de que se possa sustentar um prático, e mais marinheiros necessários a este fim. Da mesma sorte cada embarcação é obrigada a dar seis mil réis para a conservação do porto, e não obstante, está caindo em pedaços”.[1]

[1] Documento dos comerciantes da Vila do Rio Grande. Revista do Instituto Histórico e Geográfico da Província de São Pedro.Porto Alegre: IHGPSP, 1861.

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