Um relato mais detalhado foi feito onze anos
após a passagem de John Luccock, desta vez por um francês, o naturalista
Auguste Saint-Hilaire.
Paramos em uma aldeola chamada Freguesia do
Estreito. O cura veio ao encontro do general e, quando nos aproximamos,
soltaram foguetes. As primeiras casas que vimos acham-se situadas à beira da
estrada e quase enterradas na areia. Assim que o general apeou do cavalo, o
cura o conduziu a igreja, ainda por acabar e que nada apresentava de notável.
Em seguida fomos a sua casa e, enquanto esperávamos o jantar, levou-nos a
passear no jardim, onde havia um belíssimo parreiral e diferentes espécies de
legumes, chicória, cebola, mostarda, nabos, aipo, couve, brócolos e até
couve-flor que produzem bem na região. Os narcisos, as violetas e os
pessegueiros florescem agora. O jantar foi excelente e compunha-se de carnes,
peixes e legumes. A noite houve fogos de artifício.36
Saint-Hilaire indica que as primeiras casas
ficavam a beira da estrada que ligava a Vila do Norte a Mostardas, e que o
trabalho constante do vento deslocando a areia sobre as habitações era o grande
problema dos moradores. A variedade de legumes, frutos e flores existentes no
jardim da casa do padre, surpreendeu ao botânico, mostrando a viabilidade do
plantio que vai da couve-flor aos pessegueiros. Observador atento, o
naturalista considerou excelente o jantar pela presença de carne bovina cujos
rebanhos espalhavam-se pela região; pelo peixe que poderia ser pescado na Lagoa
dos Patos ou no Oceano, alternativa facilitada pela pequena distância entre
ambos; e pela variedade de legumes.37
Nessa passagem, no dia 5 de agosto de 1820,
Saint-Hilaire também relata que a aldeia do Estreito, "era outrora mais
para leste" mas como as casas foram soterradas pelos "turbilhões de
areia que o vento atira sem cessar das margens do mar" as casas foram
transferidas "para o lugar onde se encontram atualmente e onde, sem dúvida,
terão em breve a mesma sorte". Havia cerca de quarenta casas "afastadas
umas das outras, pequenas e, geralmente, em mau estado, bastante altas, estas
casas são cobertas de palha acham-se enfileiradas em torno de uma larga praça
revestida de grama. Quase todas apenas são habitadas aos domingos e dias
festivos". Saint-Hilaire observou que "dois terços da população compõe-se
de escravos, o que não deve causar admiração, pois o Norte, pertencente à paróquia,
do porto do Rio Grande do Sul". Este porto do Norte, pertencia à paróquia
do Estreito "e sua igreja não é mais do que uma dependência da paróquia da
sede".40
Entre 1809 e 1820, a situação do povoado
decresceu em relação às últimas décadas do século XVIII, perdendo espaço econômico
e sobrevivendo basicamente nas fazendas de criação de gado. Rio Grande é o
ponto privilegiado de crescimento da região, atraindo comerciantes e tendo sua
vida dinamizada pelo porto que vive da economia pecuário-charqueadora e das
flutuações do porto de Montevidéu. O Estreito vai sobrevivendo como um ponto
isolado entre a Lagoa e o Oceano, entre Rio Grande e Porto Alegre.

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