Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

sábado, 14 de dezembro de 2019

A FREGUESIA DO ESTREITO NO OLHAR EUROPEU - II


 
Raríssima imagem do Estreito. Jean Debret, 1824. 
Um relato mais detalhado foi feito onze anos após a passagem de John Luccock, desta vez por um francês, o naturalista Auguste Saint-Hilaire.
Paramos em uma aldeola chamada Freguesia do Estreito. O cura veio ao encontro do general e, quando nos aproximamos, soltaram foguetes. As primeiras casas que vimos acham-se situadas à beira da estrada e quase enterradas na areia. Assim que o general apeou do cavalo, o cura o conduziu a igreja, ainda por acabar e que nada apresentava de notável. Em seguida fomos a sua casa e, enquanto esperávamos o jantar, levou-nos a passear no jardim, onde havia um belíssimo parreiral e diferentes espécies de legumes, chicória, cebola, mostarda, nabos, aipo, couve, brócolos e até couve-flor que produzem bem na região. Os narcisos, as violetas e os pessegueiros florescem agora. O jantar foi excelente e compunha-se de carnes, peixes e legumes. A noite houve fogos de artifício.36
Saint-Hilaire indica que as primeiras casas ficavam a beira da estrada que ligava a Vila do Norte a Mostardas, e que o trabalho constante do vento deslocando a areia sobre as habitações era o grande problema dos moradores. A variedade de legumes, frutos e flores existentes no jardim da casa do padre, surpreendeu ao botânico, mostrando a viabilidade do plantio que vai da couve-flor aos pessegueiros. Observador atento, o naturalista considerou excelente o jantar pela presença de carne bovina cujos rebanhos espalhavam-se pela região; pelo peixe que poderia ser pescado na Lagoa dos Patos ou no Oceano, alternativa facilitada pela pequena distância entre ambos; e pela variedade de legumes.37

Nessa passagem, no dia 5 de agosto de 1820, Saint-Hilaire também relata que a aldeia do Estreito, "era outrora mais para leste" mas como as casas foram soterradas pelos "turbilhões de areia que o vento atira sem cessar das margens do mar" as casas foram transferidas "para o lugar onde se encontram atualmente e onde, sem dúvida, terão em breve a mesma sorte". Havia cerca de quarenta casas "afastadas umas das outras, pequenas e, geralmente, em mau estado, bastante altas, estas casas são cobertas de palha acham-se enfileiradas em torno de uma larga praça revestida de grama. Quase todas apenas são habitadas aos domingos e dias festivos". Saint-Hilaire observou que "dois terços da população compõe-se de escravos, o que não deve causar admiração, pois o Norte, pertencente à paróquia, do porto do Rio Grande do Sul". Este porto do Norte, pertencia à paróquia do Estreito "e sua igreja não é mais do que uma dependência da paróquia da sede".40
Entre 1809 e 1820, a situação do povoado decresceu em relação às últimas décadas do século XVIII, perdendo espaço econômico e sobrevivendo basicamente nas fazendas de criação de gado. Rio Grande é o ponto privilegiado de crescimento da região, atraindo comerciantes e tendo sua vida dinamizada pelo porto que vive da economia pecuário-charqueadora e das flutuações do porto de Montevidéu. O Estreito vai sobrevivendo como um ponto isolado entre a Lagoa e o Oceano, entre Rio Grande e Porto Alegre.

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