Porto do Rio Grande em 1908

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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA INFÂNCIA

Caling (1896). Autor William-Adolphe_Bouguereau.

           Conforme o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998), as crianças possuem uma natureza singular, que as caracterizam como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. Na construção do conhecimento, as crianças se utilizam das mais diferentes linguagens e exercem a capacidade que possuem de terem idéias e hipóteses originais sobre aquilo que procuram desvendar. Este conhecimento é fruto de um intenso trabalho de criação, significação e ressignificação.
         As crianças ao longo da História da sociedade ocidental sempre foram vistas dotadas de uma natureza singular e criadora? No texto a seguir vamos constatar que esta visão da infância é relativamente recente.
         Um dos primeiros olhares da trajetória histórica desta questão foi feita por Philippe Áries História social da criança e da família. (Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973), que fez um estudo da iconografia da era medieval até a moderna, observando as representações da infância na Europa Ocidental, com ênfase na França. Ele constatou do “não lugar” da criança nas representações artísticas. Na Idade Média, não ocorria uma separação clara entre ser criança e ser adulto. As crianças recebiam tratamento diferenciado apenas nos primeiros anos de vida, por dependeram do cuidado das mães ou amas para a sobrevivência. A transição do desmame era tardio e o ingresso no mundo dos adultos era abrupto, com o contato com os mais velhos para a aprendizagem de ofícios que serviriam para a sobrevivência. Até o século XII, as crianças raramente eram retratadas nos quadros e quando ocorria, era com trajes de adultos. A alta mortalidade infantil poderia explicar a pouca atenção dada às crianças. A chance de morrerem nos dois primeiros anos de vida era alta, o que reduzia a noção de apego, em especial, pela morte abrandada pelo imaginário religioso ligado aos anjinhos que tinham o seu lugar garantido no céu. O sociólogo Gilberto Freire destacou a banalização da morte infantil no Brasil em seu livro Casa Grande e Senzala: “A verdade é que perder um filho pequeno nunca foi, para a família patriarcal a mesma dor profunda que para uma família de hoje. O anjo ia para o céu. Para junto de Nosso Senhor, insaciável em cercar-se de anjos”.
Para o historiador Philipe Áries, as crianças eram tratadas como adultos em tamanho menor. Não havia vestimentas específicas e os assuntos e brincadeiras sexuais envolviam crianças e adultos. A noção de privacidade era frágil ou inexistente: “Na sociedade medieval o sentimento de infância, não existia – o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não existia”. Antes do século XVI, a consciência social não admite a existência autônoma da infância como uma categoria diferenciada do gênero humano. Passado o estrito período de dependência física da mãe, as crianças se incorporavam ao mundo dos adultos. No Brasil colonial e imperial, o mundo do trabalho começava muito cedo para a maioria das crianças, àquelas que não faziam parte dos setores mais privilegiados. O trabalho começava aos seis anos de idade para as crianças brancas pobres e para as crianças escravas.
O conceito de infância irá se desenvolver a partir dos séculos XVI a XVIII, através da lenta e gradual escolarização. Este processo é que evidenciará a necessidade da compreensão das especificidades desta fase do desenvolvimento. O intuito mais amplo era o de ensinar, moralizar e disciplinar as crianças. O processo de separação entre crianças e adultos tem início junto com as bases da privacidade. Assuntos de adultos deveriam ser mantidos em segredo frente à imaturidade infantil para compreendê-los. A construção do conceito de infância terá como conseqüência uma à incapacidade plena (social e, posteriormente jurídica) e, os mecanismos de proteção-repressão das crianças. As ideias de proteção, amparo e dependência fazem surgir à infância, buscando-se formas educacionais para formar adultos socialmente aceitos. Disciplina e difusão da cultura passam a ser essenciais e a dimensão infantil do lúdico fica para segundo plano. Um ditado da época afirmava; “Quem não usa a vara, odeia seu filho. Com mais amor e temor castiga o pai ao filho mais querido. Assim como uma espora aguçada faz o cavalo correr, também uma vara faz a criança aprender”.
Observamos que na maior parte da história ocidental, as crianças não foram consideradas como uma categoria a parte do mundo dos adultos. Mantinham contato precoce com todo o imaginário e práticas cotidianas ligadas a miséria e a opulência dos diferentes segmentos sociais. Em nível de trabalho ou sexualidade, a precocidade era evidente. Em nível de intensa fertilidade, a alta mortalidade era vista de forma banal e justificada pelo imaginário religioso. A separação do mundo da infância do mundo dos adultos pautou-se pela imposição da autoridade e a imposição da censura, tendo como veículo fundamental o processo educativo rígido. Escolas pedagógicas avançaram muito a discussão e as práticas educativas, esfacelando grande parte destes referencias nascidos no século XVII ligadas ao rigor no acompanhamento educativo, ao mesmo tempo buscando preservar o mundo da infância e exigindo olhares diferenciados aos educandos.
Nas últimas décadas do século XX acelerou o processo em que o aparato jurídico e pedagógico da um estatuto privilegiado para o mundo infantil que deveria preservar suas especificidades de faixa etária. Mas o processo da informação e consumo de ideias e produtos chegou a situações incontroláveis através das multimídias disponíveis como a televisão e a internet. Entre a participação direta das crianças na vida familiar até o cerceamento desta participação, hoje se assiste o acesso ilimitado a informação pelas crianças no contexto da globalização, sem a tutoria de um adulto. O mercado de trabalho e do consumo levou às mulheres a incorporação neste projeto, rompendo a barreira do espaço da casa, da “rainha do lar”, que vive, teoricamente, para zelar pelos filhos. Por questões de mentalidade e não de realidade do processo histórico, a mulher é a referência social da tutela dos filhos, mas sendo a guardiã da separação entre a infância e a idade adulta, este papel fica comprometido. Ou seja, a dinâmica da construção da infância é histórica, constituída por bases materiais e imateriais que definem diferenciados papéis sociais dependendo de cada sociedade. Assunto de extrema relevância pois para falar do óbvio, a sociedade do futuro é aquela que se constrói a partir do tempo presente.

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