Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

domingo, 6 de agosto de 2017

CARTAS CONSULARES: A OBSERVAÇÃO NORTE-AMERICANA

No final dos séculos 18 e primeira metade do 19, os movimentos liberais e republicanos difundem-se na América do Sul e promovem uma série de rebeliões em países governados por monarquias absolutistas baseadas no direito divino dos reis. A Revolução Farroupilha foi uma das rebeliões que questionaram o centralismo imposto após a independência do Brasil em 1822, independência que assegurou a continuidade da monarquia, na forma de um estado unitário e com os poderes recaindo no executivo.
         Esta revolução que eclodiu em 20 setembro de 1835, não surgiu do nada, mas é a culminância de um desgaste entre as aspirações de maior autonomia da elite pecuarista e demais segmentos sociais descontentes do Rio Grande do Sul, e o descaso do Governo Central com as reivindicações político-econômicas. Difunde-se na Província o ideário liberal radical de autonomia, federalismo, e, após a proclamação da República Rio-Grandense em setembro de 1836, de separatismo do Império Brasileiro. Abandonando as propostas de autonomia provincial e de reivindicações de alteração na política fiscal, setores das elites locais colocam em prática um projeto liberal  e republicano, que dividiu a província entre farroupilhas e legalistas.

OS INTERESSES NORTE-AMERICANOS

 As relações comerciais entre os Estados Unidos (país que se tornou republicano em 1776) e o Rio Grande do Sul, já são efetivas no ano de 1817. Rio Grande já mantinha intercâmbio com os portos norte-americanos de New York, Boston, Salem, Filadélfia e New Haven. O principal gênero importado era a farinha de trigo, além do sal, artigos industriais e de mobiliário. Ao retornar, os barcos americanos transportavam couros, chifres e demais derivados do gado. O crescimento do intercâmbio comercial acarretou na presença de agentes consulares atuantes desde 1829. Em correspondência dirigida no dia 1º de dezembro de 1829 ao Secretário de Estado dos Estados Unidos, Austin Hayes cônsul dos Estados Unidos no Rio Grande de São Pedro escreveu: “Tenho a honra de acusar o recebimento de seu comunicado de 8 de junho passado, juntamente com minha nomeação pelo Presidente para Cônsul para este porto e suas cercanias”. Rio Grande e Porto Alegre são as duas localidades em que a documentação é escrita, ocorrendo um deslocamento sistemático do cônsul neste trajeto.

 A REPRESSÃO AO CÔNSUL REPUBLICANO


O cônsul Austin Hayes, escreveu do consulado em Porto Alegre no dia 7 de dezembro de 1835, apreensivo com o movimento revolucionário em curso: “O presidente Antônio Rodrigues Fernandes Braga (juntamente com os oficiais ligados ao seu partido) fugiram para a cidade de São Pedro do Sul, deixando sua esposa, família e chaves do palácio, etc, aos meus cuidados, o temor na época era grande e minha casa permaneceu por semanas repleta de famílias desprotegidas procurando segurança sob a bandeira americana (...) Estamos esperando um novo presidente do Rio de Janeiro, que espero que seja aceito e restaure a ordem; se não o for, minha opinião é de esta Província separar-se-á do Governo Central no Rio de Janeiro, tornando-se uma república”. Em primeiro de janeiro de 1836, Hayes ao escrever ao Secretario de Estado em Washington afirmou que a Província continua em estado de desordem “e posso apenas insistir que alguns de nossos navios de guerra deveriam se fazer aqui presentes”.
O porto em Rio Grande esteve fechado por tropas imperiais desde abril de 1836, provocando protestos dos navios norte-americanos que ficam retidos nos portos de São José do Norte e Rio Grande. O cônsul apresenta uma posição atuante na defesa dos interesses de seu país, afirmando da necessidade da vinda de “um navio armado de nossa esquadra a Rio Grande”. Hayes acaba envolvido nos acontecimentos de retomada de Porto Alegre pelas tropas imperiais em junho de 1836 sendo acusado e preso de ter apoiado revolucionários republicanos. As agressões sofridas e a prisão, foram registradas num instrumento público de protesto em que é exigida uma indenização de duzentos mil dólares espanhóis devido às contra ele cometidas sob a bandeira do Imperador D. Pedro II. Considerando que uma grave questão diplomática ocorrera, o cônsul afirma que embarcará para os Estados Unidos a fim de apresentar “um relato ao nosso Governo, convencido como estou, de que meus compatriotas rapidamente procurarão reparação pelos insultos recebidos por sua bandeira através das medidas injustas, ilegais e primárias usadas pelo Governo Brasileiro”. A proposta de retaliação somada com a sugestão de que navios de guerra norte-americanos estivessem disponíveis para a ação, demonstra um possível interesse de uma intervenção militar que nunca chegou a efetivar-se. Consumando-se o separatismo dos republicanos farroupilhas, qual seria a postura do governo republicano norte-americano?

A GUERRA E OS ESTRANGEIROS

 Em correspondência de 30 de junho de 1836, Hayes refere-se a uma proclamação publicada em Porto Alegre em que norte-americanos são acusados de estarem envolvidos em distúrbios políticos. O cônsul solicita das autoridades imperiais “os nomes de quaisquer cidadãos dos Estados Unidos da América que tenham de qualquer maneira interferido nas questões políticas da Província”. É também renovada “minhas garantias de neutralidade”. O envolvimento de Hayes vai além da prática diplomática, pois ele está diretamente preocupado com os negócios ligados a firma em que é proprietário a Hayes, Engerer & Cia. As acusações dos monarquistas é que o diplomata apoiava financeiramente os republicanos e também contrabandeara armas e munições para os revolucionários.

Com a partida de Hayes para os EUA, Ralph Peacock assume em Rio Grande como Vice-cônsul. Em abril de 1837 os problemas persistem: “lamento dizer que este Governo continua a praticar abusos contra estrangeiros através do aprisionamento e expulsão à força do País”. A escuna de guerra Dolphin deslocou-se para Rio Grande para fazer frente à situação de perseguição política e dificuldades econômicas impostas aos norte-americanos. A documentação diplomática também assinala a perspectiva de que a guerra  deveria ser longa. Uma projeção correta para um conflito de difícil solução que perdurou por dez anos.

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