“Ao cortar uma fruta, dei por acaso um corte bastante profundo no dedo. O sangue imediatamente jorrou em filetes purpúreos e algumas gotas respingaram em Clarimonde. Seus olhos se iluminaram, sua fisionomia assumiu uma expressão de alegria feroz e selvagem que eu nunca havia visto nela. Pulou da cama com uma agilidade animal (...) e precipitou-se sobre meu ferimento, que começou a chupar com um ar de indescritível volúpia” (GAUTIER).
O conto fantástico de Théophile Gautier “A Morte Amorosa” é considerado por Ítalo Calvino como o mais famoso e perfeito do escritor francês. Neste conto está presente de forma magistral a contraposição entre realidade e extraordinário - dualidade cara a literatura fantástica.
O conto aborda os mortos-vivos e o narrador é o sacerdote Romuald que é tentado desde criança por uma mulher extremamente bela e elegante que o hipnotizou. Seu nome era Clarimonde que ressurgiu e passou a atormentar e enlouquecer Romuald. Na verdade, a linda mulher era uma vampira que colocou em cheque os votos religiosos do narrador. O conto foi apreciado por muitos literatos se tornando uma referência de conto gótico vampírico.
Uma breve passagem é reproduzida a seguir:
"É aqui mesmo!", disse Sérapion e, pondo a sua lanterna no chão, introduziu a alavanca no interstício da pedra, começando a erguê-la. A pedra cedeu e ele continuou o trabalho com a picareta. Eu o via trabalhar, mais sombrio e silencioso do que a própria noite; ele, curvado, continuava a sua obra fúnebre encharcado de suor, ofegante como se agonizasse. Era um espetáculo estranho, e quem nos tivesse visto, certamente teria nos tomado por profanadores ou ladrões de túmulos, nunca por padres.
O zelo de Sérapion tinha algo de duro e selvagem, aproximando-o mais de um demônio do que de um apóstolo ou anjo; seu rosto de traços austeros e profundamente marcados pela luz da lanterna não era nada tranquilizador. Eu sentia escorrer sobre os membros um suor glacial e meus cabelos levantavam-se dolorosamente na cabeça. Intimamente, considerava a ação do severo Sérapion um abominável sacrilégio, e gostaria que, do lado das nuvens sombrias que passavam sobre nossas cabeças, saísse um triângulo de fogo que o reduzisse a pó.
Os mochos, empoleirados nos ciprestes, assustados pela luz da lanterna, vinham chicotear o vidro com toda a força com suas asas empoeiradas, soltando gemidos queixosos; as raposas uivavam ao longe e mil ruídos sinistros emanavam do silêncio.
Finalmente, a picareta de Sérapion encontrou o caixão e a madeira estalou com um ruído surdo e sonoro, com esse ruído terrível que emite o nada quando tocamos nele; ele levantou a tampa e vi Clarimonde pálida como um mármore, com as mãos juntas; o seu sudário branco não tinha uma única ruga da cabeça aos pés. Uma pequena gota vermelha brilhava como uma rosa no canto da sua boca descolorida.
Sérapion, ao vê-la, enfureceu-se: "Ah! Ei-la, demônio, cortesã impudica, devoradora de sangue e de Ouro!" E aspergiu então, com água benta, o corpo e o caixão sobre o qual traçou a forma de uma cruz com o seu hissope. A pobre Clarimonde mal tinha sido tocada pelo santo orvalho e o seu belo corpo já se desfazia em pó; dele só restou uma mistura horrivelmente informe de cinzas e ossos semi-calcinados.
"Eis a sua amante, senhor Romuald", disse o inexorável padre, mostrando-me os tristes restos mortais; "sente-se ainda tentado a ir passear no Lido ou na Fusine com a sua beldade?"
Baixei a cabeça; acabava de se fazer uma grande destruição dentro de mim. Regressei ao meu presbitério, e o senhor Romuald, amante de Clarimonde, separou-se do pobre padre ao qual fizera, durante tanto tempo, uma companhia tão estranha.
Na noite seguinte, no entanto, vi Clarimonde; ela me disse, como na primeira vez sob o portal da igreja: "Infeliz! Infeliz! O que você fez? Por que escutou esse padre imbecil? Não era feliz? O que eu lhe fiz para que violasse a minha sepultura e expusesse a miséria do meu nada? A comunicação entre nossas almas e nossos corpos rompeu-se para sempre. Adeus, você sentirá saudades minhas."
Dissipou-se no ar como fumaça e não a vi mais. ........Ai de mim! Ela falara a verdade! Senti saudades e ainda sinto. A paz da minha alma foi comprada por um preço muito alto; o amor de Deus não foi suficiente para substituir o de Clarimonde. Eis, irmão, a história da minha juventude. Nunca levante os olhos para uma mulher, caminhe sempre com eles fixos na terra porque, por mais casto e calmo que você seja, basta um minuto para perder a eternidade”.


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