Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

terça-feira, 22 de agosto de 2023

A CASA FEIA NA ILHA DO LADINO

 

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O cartão-postal fotográfico em tom sépia (sem editor) mostra a Praça Tamandaré em seu acesso vindo da Rua General Netto e cruzando as duas pontes de concreto para chegar na centralidade deste espaço público: o monumento-túmulo a Bento Gonçalves da Silva inaugurado em 20 de setembro de 1909. 

O entorno do monumento é um dos cenários mais repetidos nos cartões-postais. Mas neste caso, o interessante é o verso do cartão. Inicialmente, foi decisivo para esclarecer sobre a datação. O manuscrito é de 2 de fevereiro de 1933. 

O conteúdo é muito interessante e foi escrito por uma "amiga velha" para um casal de amigos e seu filhinho. 

Esta senhora diz que está na cidade do Rio Grande à cerca de um mês e assina como emitente da Capitania do Porto da Cidade do Rio Grande (RS). E afirma: "a nossa nova residência é muito feia, fica situada no meio de um campo, que pertence a Capitania, onde moramos foi a extinta Escola de Aprendizes Marinheiros, a casa é velha bem perto do mar; de casa vê-se passar os vapores tão perto, se estivermos no cais pudesse até falar com os passageiros; as noites sem luar é medonho, só se vê o lampejo dos faróis e a luz dos vagalumes; a nossa distração é as vezes apanhar siris". 

Este é um registro histórico, pois na área que fazia parte da Ilha do Ladino que ficava isolada da área central da cidade. A Rua Marechal Floriano, no tempo em que era denominada de Rua da Praia, encerrava na altura da Almirante Barroso, pois ali passava um riacho - foi necessário fazer uma ponte de madeira para cruzar na década de 1850. 

Nesta Ilha do Ladino foi construído o Porto Novo a partir de 1908. E, posteriormente, surgiu o BGV. Antes disso era uma área alagadiça com dificuldade de acesso. A umidade deixava o espaço muito insalubre e ali foi construída a Escola de Aprendizes Marinheiros a partir de 1861. Para localizar: é o espaço entre a atual Rua Marechal Andréa desde a Pescal, passando pela Capitania dos Portos, Comando Naval e finalizando na altura do Clube Regatas. 

A partir de 1884-88 obras de acesso são feitas para estabelecer a Estação Marítima no limite com a "cidade velha". Por volta de 1900, o padre jesuíta Ambrósio Schupp relatou que caminhava nesta região alagadiça e de marisma e "chamava a atenção o grande número de siris". 

A autora da carta morou numa área de difícil conquista para integração à urbanidade da "cidade velha" que começava a partir do final da Rua Riachuelo e do final da Rua Marechal Floriano. 

A casa em que morou deveria estar bastante danificada, mas, ela já pegou a fase em que o Porto Novo estava edificado nas proximidades e o bonde passava com frequência na rua em frente. Trabalhadores do porto e especialmente, os dois mil operários da Swift, movimentavam o trânsito. Outro aspecto é que ela tinha uma das vistas mais bonitas da cidade que é a Lagoa dos Patos, a Ilha da Pólvora, alguns detalhes da Ilha dos Marinheiros e a parte urbana de São José do Norte. 

Não sei se estes argumentos conseguiriam consolá-la...   

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Esta fotografia mostra a Escola de Aprendizes Marinheiros. Terá sido aqui que esta senhora residiu?


Escola de Aprendizes Marinheiros. Fotografia de Amílcar Fontana, 1912. 

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