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| Porto Velho do Rio Grande em 1860 na ilustração de Francis Richard publicada no The Illustrated London News. |
As
dificuldades de acesso à barra do Rio Grande fazem parte do cotidiano daquela
época, pois o autor imagina chegar, no ano 2000, de uma longa viagem oceânica a
bordo “destes monstros marinhos que a moderna arquitetura” naval criou para
encurtar as distâncias e com admiração constatou a facilidade com que “investia
a entrada da barra tão temível e formidável no meu tempo.” Ao aproximar-se da
terra “qual foi o meu espanto quando reconheci que no local onde outrora
rebentava em espumosas ondas o mar revolto, via-se levantada alta e espessa muralha
de pedra que zombava da fúria do vendaval e encaminhava a corrente das águas.
Já não havia receio de falta d’água na barra: os navios mais alterosos
transpunham-na sem esperar pelos sinais nem pela catraia que no meu tempo se
fazia esperar impacientemente”. A imaginação tornou-se realidade, pois
Vianna-Castellense está se referindo aos molhes da barra que somente foram
edificados na década de 1910.
A
visão urbana projetada causava admiração, pois ao “lado do sul a nova casaria
que ali se tinha edificado” destacava-se na paisagem: “os vastos armazéns e
cais que decoravam as suas margens. Muitos vapores ali ancorados, uns recebendo
carga outros descarregando, davam aquele local uma animação desusada o que
muito me maravilha, recordando-me do tempo em que ali ia tomar banhos”. Em
1872, foi edificado o novo cais do porto no atual Porto Velho. A área portuária
expandiu-se muito mais do que a imaginação do autor, pois atualmente forma o
complexo do Porto Novo, Super Porto, terminais etc.
“Chegávamos
enfim a ponta da Macega e em vez da modesta capitania do meu tempo, via-se um
arsenal da marinha” o imenso atoleiro que existia estava “agora aterrado e
cingido por uma grande muralha de pedra que bordava todo o litoral até além do
novo edifício da Misericórdia”. Portanto, os alagadiços situados entre o atual
Clube de Regatas e a Santa Casa, realmente desapareceram inclusive o arsenal
tornou-se área do V Comando Naval. Ressalte-se que a área da Macega era
utilizada para banhos e inexistia a atual Praia do Cassino que é da década de
1890.
O
passeio urbano pela rua Boa Vista (atual Riachuelo) tornara-se agradável, pois
“desaparecera aquela asquerosa vaza que no meu tempo se encostava a estacada e
o nauseabundo cheiro das imundícies da cidade não vinha mais precipitar os
passeantes”, ao contrário observavam-se grupos de “homens e senhoras à beira do
rio, gozando da amena sombra de frondoso arvoredo que em duas linhas paralelas
bordava a muralha”. No presente ainda esperamos que os armazéns do Porto Velho
tornem-se um espaço público de lazer não somente durante a Festa do Mar.
Enquanto
se aproximava a hora do jantar o “viajante do tempo” caminhou pelo centro da
cidade e o que mais o atraiu foi a iluminação pública. “Que diferença entre os
candeeiros de azeite, de petróleo e os de gás”. A claridade das ruas durante a
noite fizera com que aumentasse o número de transeuntes “mesmo em altas horas
da noite não se podiam dizer desertas as ruas”. Devido aos assaltos o transito
noturno em 1868 era complicado, porém no ano 2000 “os amigos do alheio não se
atreviam mais a arrombar portas nem a forçar cofres". Neste aspecto, os
amigos do alheio continuam a perpetuar-se no tempo...
Percebe-se
que a luz artificial é um fator de grande fascínio para os que viviam num
período de precários recursos, onde o entardecer limitava a ação humana.
Afinal, é a partir do domínio da eletricidade que o processo industrial
acelerou-se, surgiram inumeráveis aparelhos elétricos e inclusive
possibilitou-se a era da informática em que estamos inseridos, revolução
tecnológica que o autor não poderia imaginar.
Em
terra as mudanças teriam chegado à forma dos caminhos de ferro: “Vi ao longe
passar por detrás da trincheira a locomotiva veloz arrastando uma cauda imensa
de carros (...) Eu batia palmas de contente com tanto progresso”. A estrada de
ferro que já existia no Brasil, surge em Rio Grande em 1881.
Muitas outras projeções são feitas pelo
incógnito Vianna-Castellense na Revista Arcádia de 1868, que por num contexto
melancólico, mas, projetando o otimismo burguês, foi cauteloso nas mudanças que
foram jogadas para o ano 2000. As aspirações e limites de cada época nos fazem
projetar uma sociedade diferente, que está no futuro, mas, que se constrói a
partir do presente.

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