Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

RIO GRANDE NO ANO 2000 - A Civilização futura

Porto Velho do Rio Grande em 1860 na ilustração de Francis Richard publicada no The Illustrated London News. 

         As dificuldades de acesso à barra do Rio Grande fazem parte do cotidiano daquela época, pois o autor imagina chegar, no ano 2000, de uma longa viagem oceânica a bordo “destes monstros marinhos que a moderna arquitetura” naval criou para encurtar as distâncias e com admiração constatou a facilidade com que “investia a entrada da barra tão temível e formidável no meu tempo.” Ao aproximar-se da terra “qual foi o meu espanto quando reconheci que no local onde outrora rebentava em espumosas ondas o mar revolto, via-se levantada alta e espessa muralha de pedra que zombava da fúria do vendaval e encaminhava a corrente das águas. Já não havia receio de falta d’água na barra: os navios mais alterosos transpunham-na sem esperar pelos sinais nem pela catraia que no meu tempo se fazia esperar impacientemente”. A imaginação tornou-se realidade, pois Vianna-Castellense está se referindo aos molhes da barra que somente foram edificados na década de 1910.
         A visão urbana projetada causava admiração, pois ao “lado do sul a nova casaria que ali se tinha edificado” destacava-se na paisagem: “os vastos armazéns e cais que decoravam as suas margens. Muitos vapores ali ancorados, uns recebendo carga outros descarregando, davam aquele local uma animação desusada o que muito me maravilha, recordando-me do tempo em que ali ia tomar banhos”. Em 1872, foi edificado o novo cais do porto no atual Porto Velho. A área portuária expandiu-se muito mais do que a imaginação do autor, pois atualmente forma o complexo do Porto Novo, Super Porto, terminais etc.
         “Chegávamos enfim a ponta da Macega e em vez da modesta capitania do meu tempo, via-se um arsenal da marinha” o imenso atoleiro que existia estava “agora aterrado e cingido por uma grande muralha de pedra que bordava todo o litoral até além do novo edifício da Misericórdia”. Portanto, os alagadiços situados entre o atual Clube de Regatas e a Santa Casa, realmente desapareceram inclusive o arsenal tornou-se área do V Comando Naval. Ressalte-se que a área da Macega era utilizada para banhos e inexistia a atual Praia do Cassino que é da década de 1890.
         O passeio urbano pela rua Boa Vista (atual Riachuelo) tornara-se agradável, pois “desaparecera aquela asquerosa vaza que no meu tempo se encostava a estacada e o nauseabundo cheiro das imundícies da cidade não vinha mais precipitar os passeantes”, ao contrário observavam-se grupos de “homens e senhoras à beira do rio, gozando da amena sombra de frondoso arvoredo que em duas linhas paralelas bordava a muralha”. No presente ainda esperamos que os armazéns do Porto Velho tornem-se um espaço público de lazer não somente durante a Festa do Mar.
         Enquanto se aproximava a hora do jantar o “viajante do tempo” caminhou pelo centro da cidade e o que mais o atraiu foi a iluminação pública. “Que diferença entre os candeeiros de azeite, de petróleo e os de gás”. A claridade das ruas durante a noite fizera com que aumentasse o número de transeuntes “mesmo em altas horas da noite não se podiam dizer desertas as ruas”. Devido aos assaltos o transito noturno em 1868 era complicado, porém no ano 2000 “os amigos do alheio não se atreviam mais a arrombar portas nem a forçar cofres". Neste aspecto, os amigos do alheio continuam a perpetuar-se no tempo...
Percebe-se que a luz artificial é um fator de grande fascínio para os que viviam num período de precários recursos, onde o entardecer limitava a ação humana. Afinal, é a partir do domínio da eletricidade que o processo industrial acelerou-se, surgiram inumeráveis aparelhos elétricos e inclusive possibilitou-se a era da informática em que estamos inseridos, revolução tecnológica que o autor não poderia imaginar.
         Em terra as mudanças teriam chegado à forma dos caminhos de ferro: “Vi ao longe passar por detrás da trincheira a locomotiva veloz arrastando uma cauda imensa de carros (...) Eu batia palmas de contente com tanto progresso”. A estrada de ferro que já existia no Brasil, surge em Rio Grande em 1881.         
        Muitas outras projeções são feitas pelo incógnito Vianna-Castellense na Revista Arcádia de 1868, que por num contexto melancólico, mas, projetando o otimismo burguês, foi cauteloso nas mudanças que foram jogadas para o ano 2000. As aspirações e limites de cada época nos fazem projetar uma sociedade diferente, que está no futuro, mas, que se constrói a partir do presente.

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