Este
é o documento inaugural das fontes escritas in loco no Brasil. A sua espontaneidade
narrativa expressa parte do seu conteúdo cultural e civilizatório.
“Carta a D. Manuel
datada de Sexta-feira , primeiro dia de maio de 1500.
Ainda que narre como o
pior de todos, tome Vossa Alteza a minha ignorância por boa vontade.
Ao qual monte alto o
Capitão o nome de Monte Pascoal e a terra de Terra de Vera Cruz
Andam nus, sem
nenhuma cobertura. Não estimam nenhuma coisa cobrir ou mostrar suas vergonhas.
E mandou com eles para ficar lá um mancebo
degredado (...) para andar lá com eles e saber do seu viver e maneiras.
Ali era com o Capitão
a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, na
parte do Evangelho.
E perguntou a todos
se nos perecia bem mandar a nova do achamento dessa terra a Vossa Alteza pelo
navio de mantimentos...
Eles davam desse
arcos com suas setas por ombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa
que lhes davam.
Um gaiteiro nosso e
sua gaita, e meteu-se com a eles a dançar
tomando-os pelas mãos e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem
ao som da gaita.
E em tal maneira se
passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles
onde muitos deles estavam com moças e mulheres
Foram bem uma légua e
meia a uma povoação de casas em que havia nove ou dez casas, as quais dizia que
eram tão compridas como esta nau capitânia
Os arcos são pretos e
compridos e as setas compridas e os ferros delas de canas aparadas.
Parece-me gente de
tal inocência que se nós os entendêssemos e eles a nós, que seriam logo
cristãos.
Dançaram e bailaram
com os nossos. Em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus...
Águas são muitas,
infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo a aproveitar, dar-se-á nela
tudo, por bem das águas que tem...
...é certo que assim
neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for,
Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida.
Assim Senhor, a
inocência desta gente é tal que a de Adão não seria mais, quanto à vergonha...”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário