Porto do Rio Grande em 1908

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sábado, 7 de dezembro de 2019

A CARTA DO DESCOBRIMENTO



 “A Carta de Pero Vaz de Caminha, o auto-oficial do nascimento do Brasil e da própria crônica brasileira, inaugura a primeira fase e a corrente dos cronistas, apaixonados divulgadores das grandezas do Brasil. Pertence, como escreveu Jaime Cortesão, ao gênero das narrativas de viagens. A singularidade dos acontecimentos, a vivacidade da observação, o profundo sabor humanista tornam a Carta um clássico pela pureza de língua e de gosto.” José Honório Rodrigues. História da História do Brasil.

Este é o documento inaugural das fontes escritas in loco no Brasil. A sua espontaneidade narrativa expressa parte do seu conteúdo cultural e civilizatório.
 “Carta a D. Manuel datada de Sexta-feira , primeiro dia de maio de 1500.
Ainda que narre como o pior de todos, tome Vossa Alteza a minha ignorância por boa vontade.
Ao qual monte alto o Capitão o nome de Monte Pascoal e a terra de Terra de Vera Cruz
Andam nus, sem nenhuma cobertura. Não estimam nenhuma coisa cobrir ou mostrar suas vergonhas.
E  mandou com eles para ficar lá um mancebo degredado (...) para andar lá com eles e saber do seu viver e maneiras.
Ali era com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada, na parte do Evangelho.
E perguntou a todos se nos perecia bem mandar a nova do achamento dessa terra a Vossa Alteza pelo navio de mantimentos...
Eles davam desse arcos com suas setas por ombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que lhes davam.
Um gaiteiro nosso e sua gaita, e meteu-se com a eles a dançar  tomando-os pelas mãos e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita.
E em tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles onde muitos deles estavam com moças e mulheres
Foram bem uma légua e meia a uma povoação de casas em que havia nove ou dez casas, as quais dizia que eram tão compridas como esta nau capitânia
Os arcos são pretos e compridos e as setas compridas e os ferros delas de canas aparadas.
Parece-me gente de tal inocência que se nós os entendêssemos e eles a nós, que seriam logo cristãos.
Dançaram e bailaram com os nossos. Em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus...
Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem...
...é certo que assim neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida.
Assim Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria mais, quanto à vergonha...”.

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