Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

sábado, 7 de dezembro de 2019

A BARRA DO RIO GRANDE NA VISÃO DE ROSCIO (1781)

Roscio. Compêndio Noticioso do Continente do Rio Grande de São Pedro 1775. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.


Francisco Roscio era um engenheiro militar, atingindo o posto de Brigadeiro e tendo governado o Rio Grande do Sul entre 1801 e 1803. Elaborou uma relevante obra cartográfica e deixou escrito um Compêndio Noticioso (1781) elaborado com as observações retiradas de seu diário referente aos movimentos militares de 1774 e 1775. Informações geográficas do Continente do Rio Grande, sobre a exploração econômica e o povoamento, foram destacados pelo autor.
“A Barra do Rio Grande de S. Pedro onde termina este terreno não é barra certa e fixa; mas tem seu movimento com a correnteza de águas e ventos que a alteram no decurso do tempo. Os ventos mais certos que costumam soprar nesta parte da terra são o NO. Na maior parte do ano e o S. e SO. nas conjunções e movimentos da Lua. Também nas passagens que faz o vento, algumas vezes, se demora 24 ou 48 horas ao Leste que é o vento mais furioso, frio e desabrido, que castiga estas terras. No tempo do inverno, algumas vezes chega a demorar-se 6 a 8 dias e são aqui os maiores tormentos. Os ventos S. e SO. também é mais certo e demorado no tempo do inverno, em que as águas mais impetuosas, têm mostrado a experiência que a Barra se encaminha mais para o Sul com o movimento das areias que correm para a parte do Norte ou dos domínios portugueses.
Tudo se vê na planta junta da dita barra e seus arredores em que a lingueta de areia que cobre o Lagamar é formada de muitos poucos anos e há bastante práticos que navegam a barra quando era onde agora se abre a dita língua de terra e o Lagamar. A Lagoa que está no pontal da barra também foi barra a 30 anos passados, como nos informaram os antigos moradores e querem alguns que saco ou Riacho detrás ao forte de S. Jorge também fosse barra em outro tempo e há tais que por conjeturas adiantam até o saco da Gamboa e ainda mais. O fluxo e refluxo das marés é aqui pouco conhecido com regularidade e suposto que tem seu movimento na forma ordinária que não é contudo de grande consequência e alteração: o que faz as maiores cheias são os ventos do Sul e Oeste com que se entumecem e alteram as águas contra a corrente oposta, que é grande e forte: e com o Nordeste são as águas baixas e sossegadas. (...) a Lagoa dos Patos em tempo de águas cresce e se aumenta muito mais do ordinário em volume e altura de água pelo embaraço da saída que lhe faz esta alteração. As águas no dito tempo são doces em toda ou quase toda a lagoa. Além disto toda a costa do mar é um baixio espraiado e vasto de tal sorte que nas maiores bonanças e marés sossegadas se encapelam e quebram naquelas praias muitas ondas umas atrás das outras por causa deste banco que borda toda a costa trazendo sua origem do grande parcel do Rio da Prata o que defende a chegada de embarcações de qualquer qualidade a estas praias. Com todas estas circunstâncias as águas da barra do Rio Grande são tão fortes que cortam este banco; nem consta em tempo algum que esta barra deixe de estar franca e aberta, o que não poderia suceder sem aquele volume imenso de águas que para ela se encaminham. A barra pequena ou barra do sul que também vai marcada na carta, suposto estar sempre aberta é um canalete pequeno estreito. Não costumam por ele entrar embarcações que tem bastante perigo. O canal ou barra grande costuma ter de ordinário 14 até 16 palmos de altura de água. No tempo de cheias é mais fundo e costumam ter 18 palmos de altura. Algumas vezes se lhe tem achado de 20 e 24. Todo dá a conhecer que estas águas não costumam ter outra saída mais que esta barra. A navegação alta e tráfico deste rio vê-se das circunstâncias, que só se pode fazer em pequenas embarcações. Estas não sofrem as grandes tormentas que naqueles mares costumam suceder de inverno, nem aquela costa oferece boa hospedagem, por isso só se costuma navegar de verão com o tempo nordeste que então é mais constante. Chegam à barra e ali esperam ancoradas um lugar próprio até que haja algum movimento de ventos do Sul com que possam entrar. O rio navega-se com prático por causa desse canal em voltas de cobra e o mesmo sucede à Lagoa dos Patos. Esta e também o rio são faltos de portos ou desembarques francos porque tem muitos pântanos e as suas praias são baixas e espraiadas em grande distância. Os ventos são fortes e furiosos e há pouco agasalho por falta de alturas nos seus arredores. As correntes do rio são muito fortes e obrigam à cautela na navegação”.

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