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| Roscio. Compêndio Noticioso do Continente do Rio Grande de São Pedro 1775. Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. |
Francisco Roscio era um
engenheiro militar, atingindo o posto de Brigadeiro e tendo governado o Rio
Grande do Sul entre 1801 e 1803. Elaborou uma relevante obra cartográfica e
deixou escrito um Compêndio Noticioso (1781)
elaborado com as observações retiradas de seu diário referente aos movimentos
militares de 1774 e 1775. Informações geográficas do Continente do Rio Grande,
sobre a exploração econômica e o povoamento, foram destacados pelo autor.
“A Barra do Rio Grande de S.
Pedro onde termina este terreno não é barra certa e fixa; mas tem seu movimento
com a correnteza de águas e ventos que a alteram no decurso do tempo. Os ventos
mais certos que costumam soprar nesta parte da terra são o NO. Na maior parte
do ano e o S. e SO. nas conjunções e movimentos da Lua. Também nas passagens
que faz o vento, algumas vezes, se demora 24 ou 48 horas ao Leste que é o vento
mais furioso, frio e desabrido, que castiga estas terras. No tempo do inverno,
algumas vezes chega a demorar-se 6 a 8 dias e são aqui os maiores tormentos. Os
ventos S. e SO. também é mais certo e demorado no tempo do inverno, em que as
águas mais impetuosas, têm mostrado a experiência que a Barra se encaminha mais
para o Sul com o movimento das areias que correm para a parte do Norte ou dos
domínios portugueses.
Tudo se vê na planta junta da
dita barra e seus arredores em que a lingueta de areia que cobre o Lagamar é
formada de muitos poucos anos e há bastante práticos que navegam a barra quando
era onde agora se abre a dita língua de terra e o Lagamar. A Lagoa que está no
pontal da barra também foi barra a 30 anos passados, como nos informaram os
antigos moradores e querem alguns que saco ou Riacho detrás ao forte de S.
Jorge também fosse barra em outro tempo e há tais que por conjeturas adiantam
até o saco da Gamboa e ainda mais. O fluxo e refluxo das marés é aqui pouco
conhecido com regularidade e suposto que tem seu movimento na forma ordinária
que não é contudo de grande consequência e alteração: o que faz as maiores
cheias são os ventos do Sul e Oeste com que se entumecem e alteram as águas
contra a corrente oposta, que é grande e forte: e com o Nordeste são as águas
baixas e sossegadas. (...) a Lagoa dos Patos em tempo de águas cresce e se
aumenta muito mais do ordinário em volume e altura de água pelo embaraço da
saída que lhe faz esta alteração. As águas no dito tempo são doces em toda ou
quase toda a lagoa. Além disto toda a costa do mar é um baixio espraiado e
vasto de tal sorte que nas maiores bonanças e marés sossegadas se encapelam e
quebram naquelas praias muitas ondas umas atrás das outras por causa deste
banco que borda toda a costa trazendo sua origem do grande parcel do Rio da Prata
o que defende a chegada de embarcações de qualquer qualidade a estas praias.
Com todas estas circunstâncias as águas da barra do Rio Grande são tão fortes
que cortam este banco; nem consta em tempo algum que esta barra deixe de estar
franca e aberta, o que não poderia suceder sem aquele volume imenso de águas
que para ela se encaminham. A barra pequena ou barra do sul que também vai
marcada na carta, suposto estar sempre aberta é um canalete pequeno estreito.
Não costumam por ele entrar embarcações que tem bastante perigo. O canal ou
barra grande costuma ter de ordinário 14 até 16 palmos de altura de água. No
tempo de cheias é mais fundo e costumam ter 18 palmos de altura. Algumas vezes
se lhe tem achado de 20 e 24. Todo dá a conhecer que estas águas não costumam
ter outra saída mais que esta barra. A navegação alta e tráfico deste rio vê-se
das circunstâncias, que só se pode fazer em pequenas embarcações. Estas não
sofrem as grandes tormentas que naqueles mares costumam suceder de inverno, nem
aquela costa oferece boa hospedagem, por isso só se costuma navegar de verão
com o tempo nordeste que então é mais constante. Chegam à barra e ali esperam
ancoradas um lugar próprio até que haja algum movimento de ventos do Sul com
que possam entrar. O rio navega-se com prático por causa desse canal em voltas
de cobra e o mesmo sucede à Lagoa dos Patos. Esta e também o rio são faltos de
portos ou desembarques francos porque tem muitos pântanos e as suas praias são
baixas e espraiadas em grande distância. Os ventos são fortes e furiosos e há
pouco agasalho por falta de alturas nos seus arredores. As correntes do rio são
muito fortes e obrigam à cautela na navegação”.

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