Porto do Rio Grande em 1908

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quinta-feira, 30 de maio de 2019

O JOGO DA NEVE

Correio do Povo. 

Correio do Povo. 

Revista Placar. 

Jornal Zero Hora. 


Hoje, há quarenta anos no passado, o outono estava muito rigoroso e flertava com o inverno. O frio na serra gaúcha estava de, no dizer gauchesco, de “renguear cusco”.   Aquele foi o dia mais frio do mês de maio dos últimos 70 anos, ou seja, desde 1909.
Na cidade de Bento Gonçalves, na noite do dia 30 de maio de 1979, o Esportivo e o Grêmio se enfrentaram pelo gauchão que foi vencido pelo time tricolor naquele ano. Quatro mil intrépidos torcedores foram ao Estádio da Montanha naquela noite. Porém, o jogo não passou de 0 X 0. Os jogadores estavam mais preocupados em não congelar do que em jogar futebol...
O jornal Zero Hora, do dia 31 de maio de 1979, deixou o seguinte relato daquela noite gélida: “A temperatura em Bento Gonçalves era de zero grau quando a partida começou ontem no Estádio da Montanha. (…) Já nevava aos nove minutos quando Raquete recebeu cartão amarelo por jogada violenta contra Tarciso. (…) O primeiro tempo terminou com muita neve. Alguns jogadores tinham a cabeça branca e outros ainda sentiam frio, apesar dos 45 minutos de movimentação. A visibilidade piorava e Carlos Martins admitia até mesmo a hipótese de ter que suspender o jogo antes do final”.
      O jornal Correio do Povo do dia 30 de maio de 2009 rememorou esta história quando completava 30 anos e fez o seguinte relato do “jogo da neve”:
      Correspondente da Folha da Tarde no jogo, o jornalista do Correio do Povo Ilgo Wink ainda recorda do aspecto prateado do campo. ‘Inesquecível’, diz. Os flocos tinham caído antes, mas foi aos 30 minutos da etapa inicial que vieram com força. ‘A neve chegou a cobrir o bigode do alegre Jesum’, escreveu na saudosa Folha. Jogadores ficaram com as cabeças brancas. O técnico Orlando Fantoni lembrava da neve da Itália.
      A massa de ar polar era intensa e a carta sinótica publicada no jornal mostrava o clássico cenário para neve com uma alta pressão continental e um sistema de baixa pressão na costa. O primoroso relato de Ilgo Wink na Folha terminou noticiando uma batalha. ‘Ao final do jogo, os torcedores, tanto de Grêmio como Esportivo faziam uma divertida batalha de neve.’ Batalha essa que ninguém se incomodaria em ver repetida.
         Ilgo Wink:
      “Quando chegamos em Bento a temperatura estava próxima do zero grau. E caindo, caindo. Chegou a hora do jogo. Os jogadores entraram em campo. Fiquei com pena deles. O gramado úmido, a temperatura no zero grau e um vento cortante como uma navalha, parecia que atravessava a alma. Pouca gente no estádio. Noite boa para ficar em casa, tomar um caldo quente com vinho tinto. Meus pés estavam congelados, quase não os sentia. Os dedos da mão viraram picolé. O jogo começou morno na noite gelada. Ninguém queria nada com nada. Prenúncio de 0 a 0, que acabou sendo o resultado final.
     O vento estancou de repente. Parecia que o tempo havia parado. Em campo, os jogadores corriam muito mais para se aquecer do que para jogar bola. De repente, começaram a cair flocos de neve, que foram aumentando de intensidade rapidamente. O campo ganhou uma camada fina de neve. Pensei no pessoal na redação aquecida, na previsão do Hiltor. Pensei num café bem quente, num cobertor de lã, num garrafão de vinho, uma canja de capeletti.
      O Jesum, um ponta habilidoso e rápido, passou perto de mim. Seu enorme bigode estava branco. Mais adiante, o carioca Paulo César Caju com sua cabeleira coberta de neve. Na área, o Baltazar pedia a bola, braços erguidos. Parecia que haviam congelados no ar.
      No intervalo, eu e o Lupi Martins, grande parceiro e excelente repórter da Rádio Guaíba, paramos para tirar uma foto e registrar aquele momento mágico. Um colega de outra emissora, lá de Bento, entrou de gaiato. Eu estava congelado. Um boneco de neve. De barba, mas um boneco de neve.”


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