Porto do Rio Grande em 1908

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sábado, 16 de junho de 2018

VAMPIROS


     O escritor francês barão Étienne Léon de Lamothe-Langon, publicou em 1825 um romance chamado A Vampira, ou a Virgem da Hungria. No prólogo ao romance, ele utiliza fontes documentais e tratados sobre vampirismo que proliferaram a partir do século XVIII. Interessante é a reflexão feita pelo autor que direciona a existência de vampiros não como seres sobrenaturais e sim como pessoas concretas. Análise elaborada há quase dois séculos e direcionada ao difícil convívio na sociedade francesa que estava sendo reconstruída após a queda de Napoleão Bonaparte, o texto abaixo apresenta uma relativa contemporaneidade com o tempo presente.

“E porque não acreditaremos nós também na existência dos vampiros? Porventura não foram eles acreditados por tantos personagens distintos? D. Calmet, por exemplo, não se comprazia em comprovar a sua existência?... É verdade que Voltaire o escarneceu; e nós, costumados a imitar as macaquices dos estrangeiros, adotamos cegamente a opinião deste famoso escritor! Rimo-nos dos vampiros; e o mesmo lord Byron não pôde mudar a nossa opinião a este respeito!... Pois bem, caro leitor, não receamos dizê-lo, o autor de Mérope não tinha razão; o frade beneditino havia aprofundado mais esta matéria; nós nos lisonjeamos de assim o provar, chamando unicamente a vossa atenção para o que na época atual se passa entre nós.
Não são porventura vampiros puritanos, insaciáveis do nosso sangue, esses famosos conquistadores, ruína das nações, flagelo da humanidade? Não deparamos a cada passo com homens ávidos de nossas fadigas e suor, que ainda acham muito ligeiro o peso enorme com que nos esmagam?
Julgais vós, que esses miseráveis, que correm pelas vilas e aldeias, vexando os desgraçados habitantes, com suas injustiças e maus tratos, não sejam verdadeiros vampiros? E aquele que se acha colocado em lugar eminente, e que deparando no meio da sua carreira com a virtude oprimida, com a inocência abandonada, as esmaga debaixo de seus corcéis, as sufoca com o peso do ouro que o adorna, não será também um vampiro... um infame?...
Julgais acaso, que o banqueiro, que alimenta uma casa de jogo, onde se absorvem tantas fortunas, onde se perdem tão meritórias reputações, não figura na lista dos principais vampiros?
No centro das mais opulentas capitais, nos lugares mais obscuros, quer de noite, quer de dia, não encontramos nós muitos vampiros que, cobertos com a máscara sedutora da hipocrisia, ocultam um coração perverso, palpitante dos vícios e das inclinações mais abjetas?... Serão estes outra coisa mais do que vampiros, verdadeira escória da sociedade?
Finalmente por toda a parte não vemos mais do que vampiros.  O seu maior número avulta entre os fornecedores, e os grandes empresários; entre os agentes da justiça, entre os agiotas, e até mesmo entre os facultativos!...”. 
Fazendo uma atualização, podemos ampliar o leque e dizer que os vampiros podem estar extremamente difundidos numa sociedade: no coitadismo; no cinismo e na mentira sistemática; nos exploradores de amplo matiz; e, não poderia faltar, na ação percuciente dos psicopatas e sociopatas que se enraízam no meio social e sugam a sua energia vital. O vampirismo histórico está muito mais vivo do que podemos imaginar.
Acervo: Biblioteca Nacional da França. 

  





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