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Card belga da Liebig editado em 1888. O tema é América. A série é "Soldados, Bandeiras Nacionais, Armas e Costumes".
Se o Brasil é representado de forma "estranha" e com muitos erros de informação, os Estados Unidos são também um caso a ser analisado no campo da análise do discurso visual.
Nos cards europeus, a América é vista, quase sempre, como uma colonização espanhola. O Brasil é representado com roupas e traços faciais espanhóis (brancos), indígenas e africanos. É como se não tivesse ocorrido miscigenação.
Já os americanos são quase sempre associados as tribos indígenas ou as atividades ligadas a criação do gado ou exploração do meio rural como a mineração. As cidades ocupam lugar inferior e a industrialização é secundária ou inexistente.
Será um problema britânico mal resolvido em relação a derrocada da colonização inglesa e do rompimento do estatuto colonial quando da Independência Americana em 1776?
No lado direito da imagem está um espanhol (representando o México) montado num cavalo (honra e superioridade) em postura aristocrática. É a raíz ibérica que modelou parte da paisagem da Europa Ocidental.
A civilização anglo-saxão ficou na Europa e nos Estados Unidos ficaram os povos selvagens! É o que busca expressar este card de 1888 (acima).
Nesta coleção de cards foram contemplados países como a Inglaterra e a ênfase foi num cidadão inglês e num militar escocês rigorosamente vestido. Como se observa abaixo:
Já neste card está um indígena segurando a machadinha e a lança. No lado oposto um cavaleiro com trajes espanhóis no padrão Dom Diego de La Vega na Califórnia. Em todos os cards desta série de seis estampas diferentes, no lado direito fica um militar e no esquerdo um civil. Aqui se misturou dois civis como se não existisse uma identidade militar nos Estados Unidos.
O que as imagens passam é que a história americana se reduz a um faroeste, uma terra virgem a ser integrada ao capitalismo. Ignora-se o desenvolvimento industrial e o poder naval que está em desenvolvimento e o papel dos imigrantes ainda é um objeto estranho.
Nos milhares de cards que já analisei do final do século XIX e início do século XX, os Estados Unidos são menos abordados do que países do norte da África onde a dominação europeia ainda era exercida. Há uma dimensão clara em retratar espaços do colonialismo inglês (britânico), francês, belga, alemão, italiano etc. São retratos muitas vezes exóticos e de pobreza técnica que contrapõem com o avanço civilizatório das urbes europeias.
Volto a afirmar que os Estados Unidos, naquela período, são um problema mal resolvido e cujo interesse é secundário nas representações europeias. A imagem que se busca fixar é a da falta de técnica e da brutalidade de uma contínua conquista territorial sobre a resistência dos povos originários. Parece positivo o destaque da presença de populações indígenas, porém, neste período, havia as gravuras que exploravam a diferença antropológica e o exótico de povos do mundo para comparar com os civilizados europeus. Elementos ligados a selvageria, barbárie e civilização ainda seduziam as narrativas.
Será também uma variável explicativa reduzir o espaço para a República frente a maioria dos países que ainda eram Monarquias como a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Bélgica, a Rússia, a Itália etc?
Entre a década de 1880 até 1918, os europeus conseguiam aceitar equilibradamente o convívio com povos que se emanciparam da colonização como os Estados Unidos?
Em 1900, a economia americana era apenas agrária e pecuarista? Não! A produção manufatureira/industrial já superava em valor a produção agrícola e a população urbana tinha intenso crescimento. Nova Iorque já tinha quase 3,5 milhões de habitantes no início do século XX.
Acredito que estes deleites visuais (cards) estão para além de meras imagens deletérias. Elas constituem representações imagéticas de padrões civilizatórios e de selvageria e de construções geopolíticas ligadas ao progresso e ao imperialismo europeu.


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