| Cometa de março de 1843, visto da Austrália. - http://stors.tas.gov.au/AUTAS001136168184.Biblioteca da Tasmânia. |
Esta passagem no jornal Diário do Rio Grande de 3 de maio de 1853 é intrigante: "Há 4 ou 5 dias que se divisa no firmamento um cometa. Não é tão luminoso, nem tão monstruoso como o que apareceu alguns anos passados, mas é bastante visível".
O trecho do jornal é uma narrativa documental do fenômeno que estava sendo observado na cidade do Rio Grande. Não fosse o periódico ter dedicado algumas linhas ao avistamento e não se teria conhecimento de que um cometa estava sendo visto naqueles dias de 1853. E o tema, ao não ser registrado documentalmente, poderia não ser esclarecido pela pesquisa histórica de eventos astronômicos. Nestes dois casos, a pesquisa foi plenamente esclarecedora. Vejamos de que forma...
Os moradores da cidade do Rio Grande estavam observando o Cometa C/1853 G1 (Schweizer) que foi descoberto em 5 de abril de 1853 pelo astrônomo suíço Kaspar Gottfried Schweizer que estava fazendo observações astronômicas em Moscou. A maior proximidade da Terra ocorreu em 29 de abril com 0,084 UA ou cerca de 12,5 milhões de quilômetros de distância. O cometa chegou a se apresentar como de primeira magnitude (comparado com a luminosidade das estrelas) e seu período orbital é de 781 anos, ou seja, deverá aparecer novamente no ano 2.634.
A chuva de meteoros y Aquilídeos cujo pico é, anualmente, em 4 de maio, está relacionada a passagem deste cometa que deixou estas partículas no espaço.
A breve matéria jornalística também fez referência a um grande cometa que foi visível alguns anos antes. E realmente, em março de 1843 o C/1843 D1 e 1843 I brilhou intensamente deixando registros nos anais astronômicos. Este corpo celeste era de uma família de cometas formada quando da desintegração de outro cometa em múltiplos pedaços no ano 1106. A característica desta família é passar rente ao Sol e produzirem um brilho intenso. Ele passou a apenas 827 mil quilômetros do Sol e foi observado até na luz do dia. A maior aproximação com a Terra foi em 6 de março quando chegou a cerca de 120 milhões de quilômetros de distância. Seu maior brilho foi em 7 de março quando estava visível no Hemisfério Sul. O cometa tinha a maior cauda até então observada. Seu período orbital é entre 600 e 800 anos. Portanto, levará muito tempo para retornar.
Matéria publicada em Leipzig em 1 de julho de 1843 no periódico IIlustrirte Zeitung destacava a grande raridade deste cometa ter uma causa que cobria quase um quarto da abóboda celeste. Foi reproduzida esta gravura de como foi observado em Londres em 17 de março de 1843 às 19h30. A estrela mais luminosa (à esquerda) é Sirius e, acima dela, às Três Marias na Constelação de Órion.
| Von Johann Jacob Weber (Hrsg.), 1803–1880 - Illustrirte Zeitung, Nr. 1 vom 1. Juli 1843, J. J. Weber, Leipzig 1843. MDZ München, Gemeinfrei, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=32507683 |
"Além da pesquisa científica aprofundada, é preciso mencionar também os preconceitos cegos da superstição. Em nenhum lugar da Europa eles podem ser maiores do que na Turquia. Em Constantinopla, esse sinal no céu, que pairava ameaçadoramente sobre o minarete e o crescente da Igreja de Santa Sofia, causou considerável alarme. Isso, juntamente com o inverno excepcionalmente sem neve e sem geadas, acredita-se que prenuncia eventos de grande importância: guerra, peste e a queda de grandes impérios. Recorde-se uma antiga profecia turca de que, entre os anos 40 e 50, os otomanos deixariam a Europa e retornariam à sua antiga pátria na Ásia Menor. Entre os gregos, que são ainda mais supersticiosos que os turcos, esse fenômeno despertou tantas esperanças quanto entre eles, e mesmo nas ilhas do Mar do Sul, onde brilhou em seu mais intenso esplendor, seu aparecimento foi associado à expectativa de algo incomum e especial".
A imagem abaixo, mostra uma representação artística obtida do cometa de 1843 em sua passagem pela Austrália:
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