Em sua estadia em Porto Alegre no mês de maio de 1918, a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida conheceu o vento Minuano. Este foi o ano mais frio já registrado na história do Rio Grande do Sul. A sua primeira experiência com o Minuano foi descrita nos parágrafos a seguir:
"O vento.
Eu ouvi esta noite a voz do Minuano!
Ela vinha grossa, cheia de segredos e de clamores. Abri os ouvidos, nesta minha ânsia absurda e indomável de querer compreender o sentimento de todas as cousas da criação, mas dessa assombrosa orquestra de sopros, uivos e silvos, nada ficou revelado a insignificância da minha humana compreensão.
Sobre o telhado que me abriga as ondas de ar se sucediam em fuga louca, e a casa situada em rua árida, parecia-me envolvida por uma floresta toda a ramalhar nas sacudidelas de uma crise de histeria fantástica e furiosa.
Que bela voz a do vento! Apraz-me estar às escuras e ignorar as horas. O tempo perdeu para mim a sua significação mortal. Suponho-me na eternidade misteriosa, entre camadas do limbo vertiginoso. Que fui? que serei? não sei, nem isso me importa, basta-me a impressão do que ouço, do que sinto e de que sou um átomo neste concerto universal.
O Minuano é um vento purificador. Por onde passa varre com sopro virginal todas impurezas que encontra espalhadas no solo ou na atmosfera. Não leva só consigo as folhas ressequidas das árvores cansadas nem as nuvens ásperas de pó, mas legiões de inimigos invisíveis do homem, criados pelo desleixo de uns ou pela transformação das próprias cousas impalpáveis. É o melhor higienista do Sul. Vem das altas regiões dos Andes nevados, cujos topes despluma, para espalhar por sobre terras baixas um pouco da sua pureza inatingível. E, quando não tem violências impetuosas e sopra de manso, o seu hálito fino e glacial dá aos míseros mortais a deliciosa impressão de lhes espalhar no rosto carícias de anjos" (Jornadas no Meu País, 1920).
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