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Card de 1934 da chá Ty.phoo mostra a casa em que viveu o poeta John Keats (1795-1821), caracterizado pelo lirismo, sentimentalismo romântico, apelo sensual e busca das raízes da literatura clássica.
Keats foi um poeta da segunda geração romântica, assim como Lord Byron e Percy Shelley.
Ode ao Rouxinol foi escrito nesta residência localizada em Keats Grove, Hampstead, norte de Londres. Em 1925, se tornou Casa Memorial Keats.
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John Keats ouvindo o rouxinol. Autor: Joseph Severn, 1845.
Keats é muito popular na Inglaterra. A fluência e a beleza dos versos instiga a leitura. Vocês, leitores, conhecem este poema?
ODE A UM ROUXINOL
I
Meu peito dói; um sono insano sobre mim Pesa, como se eu me tivesse intoxicado De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim, Há um só minuto, e após no Letes me abismado: Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte, É do excesso de ser que aspiro em tua paz – Quando, Dríade leve-alada em meio à flora, Do harmonioso recorte Das verdes árvores e sombras estivais, Lanças ao ar a tua dádiva sonora.
II
Ah! um gole de vinho refrescado longamente Na solidão do solo muito além do chão, Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente, Dança e Provença e sol queimando na canção! Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar, Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura, Com bolhas de rubis à beira rebordada Nos lábios a brilhar, Para eu saciar a sede até chegar ao nada E contigo fugir para a floresta escura.
III
Fugir e dissolver-me, enfim, para esquecer O que das folhas não aprenderás jamais: A febre, o desengano e a pena de viver Aqui, onde os mortais lamentam os mortais; Onde o tremor move os cabelos já sem cor E o jovem pálido e espectral se vê finar, Onde pensar é já uma antevisão sombria Da olhipesada dor, Onde o Belo não pode erguer a luz do olhar E o Amor estremecer por ele mais que um dia.
IV
Adeus! Adeus! Eu sigo em breve a tua via, Não em carro de Baco e guarda de leopardos, Antes, nas asas invisíveis da Poesia, Vencendo a hesitação da mente e os seus retardos; Já estou contigo! suave é a noite linda, Logo a Rainha-Lua sobe ao trono e luz Com a legião de suas Fadas estelares, Mas aqui não há luz, Salvo a que o céu por entre as brisas brinda Em meio à sombra verde e ao musgo dos lugares.
V
Não posso ver as flores a meus pés se abrindo, Nem o suave olor que desce das ramagens, Mas no escuro odoroso eu sinto defluindo Cada aroma que incensa as árvores selvagens, A impregnar a grama e o bosque verde-gaio, O alvo espinheiro e a madressilva dos pastores, Violetas a viver sua breve estação; E a princesa de maio, A rosa-almíscar orvalhada de licores Ao múrmuro zumbir das moscas do verão.
VI
Às escuras escuto; em mais de um dia adverso Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma, Pedi-lhe docemente em meditado verso Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma. Agora, mais que nunca, é válido morrer, Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído, Enquanto exalas pelo ar tua alma plena No êxtase do ser! Teu som, enfim, se apagaria em meu ouvido Para o teu réquiem transmudado em relva amena.
VII
Tu não nasceste para a morte, ave imortal! Não te pisaram pés de ávidas gerações; A voz que ouço cantar neste momento é igual À que outrora encantou príncipes e aldeões: Talvez a mesma voz com que foi consolado O coração de Rute, quando, em meio ao pranto, Ela colhia em terra alheia o alheio trigo; Quem sabe o mesmo canto Que abriu janelas encantandas ao perigo Dos mares maus, em longes solos, desolado.
VIII
Desolado! a palavra soa como um dobre, Tangendo-me de ti de volta à solidão! Adeus! A fantasia é véu que não encobre Tanto como se diz, duende da ilusão. Adeus! Adeus! Teu salmo agora tristemente Vai-se perder no campo, e além, no rio silente, Nas faldas da montanha, até ser sepultado Sob o vale deserto: Foi só uma visão ou um sonho acordado? A música se foi – durmo ou estou desperto?
Reproduzido da página: https://www.elfikurten.com.br/2016/04/john-keats.html
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