Porto do Rio Grande em 1908

Porto do Rio Grande em 1908

quinta-feira, 10 de abril de 2025

DO CONHECIMENTO HISTÓRICO


Clio, a Musa da História. Pintura de Pierre Mignard, 1689. 


Iniciemos com uma reflexão: como o conhecimento histórico é construído? As respostas serão as mais variadas e os tipos de conhecimento também são múltiplos. 

Pensemos no conhecimento ligado a História do Rio Grande do Sul. O objeto é o processo histórico construído pelos homens! Os vestígios materiais e imateriais que chegaram ao presente são a fonte a ser investiga. Chegar até o presente pode significar uma ponta de projétil de mais de cinco mil anos ou um livro escrito por um historiador, há cento e cinquenta anos. Poderá ser também os detalhes da fachada de um prédio ou um poema declamado por um payador que mora nas barrancas do Rio Uruguai. 

Aquilo que chega ao tempo presente parece infindável, mas de fato são fragmentos do que sobreviveu a passagem do tempo e aos esquecimentos da humanidade. Trabalhamos com fragmentos do passado os quais receberão leituras das necessidades das gerações no presente e de suas visões de mundo. Aí entra o papel dos procedimentos científicos de observação, organização, análise, interpretação, construção teórica e construção redacional (a escrita histórica formula um discurso sobre o passado!). 

Teremos construído uma verdade entre muitas, porém, esta verdade deve ser sustentada a partir da análise teórico/explicativa das fontes e de um relato escrito/verbal que remete o objeto investigado ao patamar de interpretação plausível e sustentável do tempo pretérito. O passado fragmentado se transforma em construção ficcional de uma verdade em construção em conflito com outras verdades. 

O “topo do Olimpo” estará sempre para além mas o conhecimento acumulado e criticamente revisitado permitirá vislumbrar com clareza a longa subida deste monte e dos seus perigos. O conhecimento de História do Rio Grande do Sul se faz com as fontes disponíveis (documentais, orais, materiais etc) e com os discursos construídos sobre o passado com o viés de construção de verdade (as fontes historiográficas, os escritos dos intelectuais e historiadores desde o século XIX). Ao pesquisador, olhar para estes dois lados, permite avançar com mais segurança na investigação do passado e evitar erros e preconceitos inerentes a estas caminhadas. 

 Ao escrever a história, é a humanidade que está sendo construída a partir do lugar social de um indivíduo ou grupo, com base em certas formas de interrogar o passado: formas mais reflexivas ou mais reprodutivas de uma ideologia já pronta que sempre levará as mesmas respostas. Esta última modalidade de selecionar os objetos está fundada na noção de dogma e de manipulação do passado para servir aos interesses contemporâneos de seus agentes. 

O conhecimento se produz com muita leitura das fontes histórico/historiográficas que nos abre um grande leque de possibilidades interpretativas e de percepções intelectuais. O mesmo cenário poderá sofrer leituras que transcendem um suposto senso comum. Peguemos um exemplo elucidativo. Temos dois estudantes universitários: um de História e um de Economia que são convidados a observar e descrever um cenário campestre, num local chamado de Estância Velha, na área rural do município de Santa Maria. Cada um recebe um papel e deverá desenhar e colocar observações sobre o que estão vendo neste cenário. Inclusive podem caminhar pelo local para buscar algum vestígio elucidativo do que observaram do ponto mais distante. 

O estudante de Economia buscará trazer o máximo de detalhes visuais que saltam aos olhos na descrição da paisagem: ele está num ponto mais alto do terreno e observa um campo com algumas árvores de pequeno porte, mas, insignificantes para sustentar uma exploração de madeira; parte do terreno está coberto por capim e a outra parte está arada para o plantio. Ele observa dois bois e um arado tosco que será puxado por estes animais sem o recurso a mecanização. A direita ele desenha um pequeno curso de água cercado por vegetação de mata-galeria. Ele não consegue constatar que tipo de plantio será feito ou observar benfeitorias que possibilitem apreender o padrão de renda obtido com a venda. Ele desenha e entrega a sua interpretação da paisagem a partir dos olhares desenvolvidos que modelam a sua percepção cerebral voltada aos conhecimentos de sua área de formação: a dinâmica econômica de ocupação e reprodução produtivo do espaço. Ele olha para a paisagem investigando a produção, circulação, mercantilização e lucro advindo das atividades. 

 O estudante de História que está desenvolvendo pesquisas num Núcleo de Arqueologia da Universidade Federal de Santa Maria entrega o seu desenho acompanhado de várias observações escritas. A primeira sensação ao olhar para o desenho -que este estudante de História elaborou- é de perplexidade, pois, estruturas e personagens “fantasmas” foram plantados na paisagem. O desenho ficcional mostra três grandes casas comunais e homens, mulheres e crianças, parcialmente nuas. Algumas mulheres estão sentadas fazendo cerâmica e outras esmagando milho. Alguns homens estão chegando à aldeia ostentando seus arcos e flechas e arrastando um animal que foi caçado. Algumas mulheres estão voltando do arroio com um grande pote cerâmico cheio de água fresca. A fumaça cobre parcialmente as casas comunais que é o local onde o fogo fica acesso dia e noite. Os alimentos são cozidos neste fogo, a carne é moqueada (assada numa espécie de churrasqueira) assim como a mandioca que foi previamente moída e deixada de “molho” no arroio próximo. O fogo ainda protege a aldeia dos animais durante a noite e garante o calor no frio do inverno. 

A bagagem de conhecimentos de estudante de História o fez enxergar aquilo que não está necessariamente explícito numa paisagem. De certa forma, o conhecimento científico trabalha com evidências indiretas e correlações que permitam “ampliar o cenário”, “projetar possibilidades explicativas” e “produzir saber”. O conhecimento de um tema possibilita ver, analisar, sistematizar e interpretar um cenário dando vida a possibilidades de existência concreta de um processo histórico no passado. Esclarecendo o desenho: o estudante de História, ao observar o terreno à distância, vislumbrou três formações na área arada que deixava visível três elipses escuras (a terra estava constituída por restos de material orgânico que restou da alimentação que a torna mais escura). Ou seja, três casas comunais em que índios da Tradição Tupiguarani (Guaranis) exercitavam o seu cotidiano de caçadores, coletores e horticultores. Para comprovar a observação inicial, ele caminhou até o local e coletou alguns “cacos de cerâmica” que um leigo poderia confundir com rochas. A técnica de confecção acordelada da cerâmica e o tipo de cobertura artística se enquadrava na Tradição Tupiguarani que migrou da Amazônia e se distribuiu pelo Brasil a partir de 2.500 antes do presente. Além de ceramistas eles eram horticultores de  coivara (queima do mato para posterior plantio). Haviam chegado a Santa Maria a cerca de 1.000 anos: é o que o estudante afirmou em suas notas!. 

Mas como um campo despovoado poderia trazer até a informação temporal? As inúmeras horas de leitura de bibliografia sobre o tema/afins e a experiência prática de já ter visitado sítios e até participado de escavação de poços teste (recorte quadricular que busca confirmar a existência de material arqueológico e seus estratos de ocupação) permitiu que com convicção ele pudesse afirmar até sobre a datação: para a Tradição Tupiguarani havia cinco datações absolutas de carbono 14 (a matéria-prima para análise são os restos de madeira queimada nas fogueiras) em sítios próximos aquele local. Variavam entre 900 e 1.100 anos antes do presente! Uma datação média de 1.000 anos!

 Este caso é apenas uma exemplificação com o objetivo de ressaltar que o conhecimento é fruto de muita leitura, investigação, senso crítico e transpiração intelectual. A bagagem de conhecimentos e sensibilidades fazem com que uma paisagem se transforme em múltiplas possibilidades de leitura em consonância com o campo de atuação do observador. Que o conhecimento amplia a nossa visão a respeito dos cenários, dando vida aquilo que não está explicito, mas, cujas evidências ainda estão latentes para receberem leituras que nos ajude a entender o passado da humanidade e até desenhar em papel uma “presentificação” do passado. 

A História é um campo do conhecimento extremamente amplo e complexo, com inúmeras interpretações historiográficas e com um grande potencial de utilização da “imaginação mediada cientificamente”. Pode ser um cenário revisitado e ampliado, uma leitura dos silêncios do passado, de dar voz aqueles esquecidos pela história e de repensar as interpretações em voga. 

É fundamental não esquecer que a História é um campo do conhecimento científico que “constrói ficções verossímeis e argumentáveis”, que exige um esforço de revisão teórica e historiográfica, e que deve ter como referência a ética da verdade crítica e não o dogmatismo reducionista.

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