A ocupação
humana do entorno do Saco da Mangueira é muito anterior ao século XVIII. O artigo escrito pelo Arqueólogo Pedro
Augusto Mentz Ribeiro “Sítios Arqueológicos do Saco da Mangueira, Rio Grande” (Escritos
sobre Arqueologia. Rio Grande: Furg, 2001), analisou as tradições arqueológicas
que deixaram vestígios de ocupação em suas margens. Uma síntese destas
informações, a partir do escrito do autor, será reproduzida a seguir.
Conforme Pedro Ribeiro, o Saco da Mangueira faz parte do sistema lagunar da Laguna
dos Patos. Está localizado próximo da desembocadura da Laguna com o mar. As
coordenadas do local encontram-se entre os 52º 05’ a 52º 10’ de longitude oeste
e os 32º 03’ aos 32 º 07’ de latitude sul. Sob o ponto de vista
geológico-geomorfológico, os terrenos circundantes da área em estudo pertencem
ao sistema deposicional
Laguna-Barreira IV, de idade holocênica,
portanto, relativamente recente ou inferior a 5.100 anos A.P. Os solos
predominantes são os areno-argilosos e banhados.
No lado oeste do Saco da Mangueira, setor de ocorrência dos sítios
arqueológicos, observa-se uma faixa de dunas paralela a praia, com altura
girando em torno dos 10m de altura. O clima é subtropical com temperatura média
anual em torno dos 18º C. O oceano funciona como elemento estabilizador da
temperatura, não havendo extremos na máxima e na mínima. A média anual de
precipitação pluviométrica gira ao redor dos 1250mm, sendo as chuvas bem
distribuídas. Relativamente alta é a média da umidade relativa do ar: 81%. A
direção predominante dos ventos é do nordeste. A vegetação característica é a
rasteira e a arbustiva ou as “matas de dunas litorâneas”.
Dezoito sítios arqueológicos foram registrados para o Saco da
Mangueira, trecho entre o depósito central dos supermercados Guanabara, ao
norte, e o Clube de Tiro, Caça e Pesca, ao sul, perfazendo aproximadamente 3,5km. Encontram-se
eqüidistantes das águas do Saco, mais ou menos 50m, na linha de dunas. São
denominados de “sítios erodidos sobre dunas”. Uma camada escura de ocupação,
resultado das fogueiras que seus ocupantes faziam no interior de suas
habitações, denuncia a existência dos sítios arqueológicos. Ao ser erodido,
pelo processo de deflação eólica, as areias são carregadas pelo vento,
permanecendo somente o material arqueológico, mais pesado (fragmentos de
cerâmica de vasilhas, ossos, conchas). Em outras palavras, o que ocorreu foi o
seguinte: quando o homem surgiu na região, havia dunas, de aproximadamente 1,5m
de altura e uns 4,0m acima do nível das águas. Por serem locais mais secos
juntos d’água e, portanto, com melhores condições de habitação, os membros do
bando os escolheram para construírem suas moradias. Estas poderiam ser de
troncos e galhos de árvores com cobertura de gramíneas ou, ainda, de couro.
Desconhecemos seu formato. Como se tratava de grupos nômades ou seminômades
existe a possibilidade destas casas terem sido simples pára-ventos. Passam,
então, a sustentarem-se dos recursos do local, principalmente da pesca de
peixes, crustáceos e coleta de moluscos, secundado pela coleta de frutos e
sementes e, ainda, da caça de mamíferos. Aí faziam suas fogueiras para cozinhar
alimentos, afastar os insetos, iluminar e aquecer as noites de primavera,
outono e mesmo algumas de verão. Nestes locais de habitação também enterravam
seus mortos diretamente no solo, flectidos. Esta ocupação provavelmente ocorria
nos meses de temperatura mais elevada. Nos outros meses deveriam habitar locais
mais afastados d’água e com maior altitude. Neste caso modificariam seus
hábitos alimentares. Com a conquista européia, estes sítios foram abandonados,
definitivamente deixando, porém, vestígios das ocupações. Trata-se de camadas
escuras que variam de 10 a 50cm de espessura.
Conforme Pedro Ribeiro, o setor
oeste do Saco da Mangueira foi ocupado, no período pré-colonial do Rio Grande
do Sul, inicialmente por portadores de cultura material denominada de Umbu,
pré-ceramista, após por sua sucessora a ceramista Vieira e, finalmente, pela
Tupiguarani, subtradição Guarani. A exemplo de outras regiões do sul do estado
e norte do Uruguai, os portadores da cultura material classificada como
Tupiguarani, chegaram posteriormente à Tradição Vieira. Tentativamente
poderíamos colocá-los em torno dos 800 anos A. P. As duas últimas tradições,
Vieira e Tupiguarani, entraram em contato uma com a outra. É ignorado quando e
a forma em que este se processou. A Tradição ceramista Tupiguarani, em outras
regiões do centro e norte-noroeste do estado sobrepõem-se a Taquara e sabemos,
através da Etnohistória, que o guarani era um grupo conquistador. Talvez tenha
sido esta a forma de ocupação do terreno. Mas não resta dúvida que, num certo
momento, ambas as culturas foram contemporâneas na região. Os responsáveis
pelos vestígios materiais destas tradições tinham, na busca de alimentos, ou
seja, na pesca, na caça e na coleta de moluscos e sementes, a base da sua
alimentação, particularmente a primeira atividade. Através de dados
etnohistóricos sabemos que a Guarani praticava a horticultura (milho, feijão,
mandioca, abóboras, algodão, etc.). Não temos certeza se a Vieira também
produziu algum tipo de alimento.
A
relativa quantidade de sítios arqueológicos pré-coloniais, ou seja, dezoito em
três quilômetros e meio de extensão ou um sítio a cada 200 metros,
aproximadamente (os localizados), mostra ter sido o Saco da Mangueira uma área
rica em recursos alimentares, especialmente marinhos. Estes propiciaram fonte
de alimentos não somente para os primeiros povoadores mas, da mesma forma, aos
posteriores colonizadores europeus e brasileiros até os nossos dias. A cidade do Rio Grande, por encontrar-se numa península, tem como
forma única de expansão sua porção meridional, justamente onde se encontra o
Saco da Mangueira. Inclusive foi proposto por um vereador, há alguns anos
passados, que se entulhasse suas águas com lixo sendo assim possível a ocupação
imobiliária. A destruição de sítios arqueológicos, na área em estudo, deve-se
justamente às construções (residências, clubes esportivos, silo, depósito,
etc.) ou retirada de areia, para o mesmo fim, em outras áreas da cidade. Os
sítios arqueológicos, por estarem localizados nas dunas, criam a esperança da
preservação de ambos, protegidos por lei de patrimônio e ambiental,
respectivamente. No entanto, consideramos mais importante a conscientização da
população, especialmente a camada mais jovem. O aprofundamento do conhecimento
da história mais antiga da cidade do Rio Grande só será possível na medida em
que forem preservadas as dunas com seus sítios arqueológicos, conclui Ribeiro.
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